sábado, 28 de setembro de 2019

Cruz Louro, pintor e ilustrador

Nas minhas horas vagas e, apenas para alimentar o meu espírito, satisfazendo assim a necessidade com que procurava completar-me, pintava ou desenhava. Sem saber porquê, a pouco e pouco fui abandonando os pinceis e as tintas, ficando apenas com o lápis e a tinta da China.

Costa da Caparica, Praia do Sol.
Bairro dos Pescadores, Cruz Louro, 1934.
BestNet Leilões

Sem qualquer preocupação de seguir uma escola ou imitar A, B ou C, seguia indiferentemente ao que no Mundo se desenrolava nos variadíssimos campos das Artes Plásticas, o meu caminho ou destino, sem qualquer ambição ou preocupação que não fosse aquela de conseguir realizar aquilo que os meus olhos viam e os meus sentidos apreciavam.

José Raimundo Gonçalves por Cruz Louro em 1934
João Raimundo Gonçalves

A Beleza estava em todos os lados para onde me voltasse e, a minha maior ambição, era a de transmitir ao papel, tudo quanto via e sentia, sem a transfigurar, sem mentir, sem fugir à Verdade. Queria ser descritivo, queria ser mais do que um escritor ou um poeta; queria, enfim, que os meus desenhos falassem e contassem aos vindouros, à História, pela imagem, por onde passei e pelo que desenhei. [Te-lo-ei conseguido?] (1)

Costa da Caparica, interior de uma barraca de pescadores, Cruz Louro, 1930.
Delcampe

Sem qualquer apoio económico, trabalhou sempre para se sustentar. Aos 26 anos, com a profissão de "empregado no comércio", conclui o curso da Escola Comercial de Ferreira Borges (Carta de Curso de 14 de Julho de 1930).

Costa da Caparica, Convento dos Capuchos, Cruz Louro, 1933.
Delcampe

Em 1933 termina o curso de "Habilitação às Escolas de Belas Artes" na Escola Industrial de Fonseca Benevides (Diploma de 21 de Agosto de 1933). Por esta altura já deixara o trabalho no comércio, tendo passado a desempenhar funções de "servente-jornaleiro", primeiro na Escola Industrial de Fonseca Benevides, Arte Aplicada (de 7 de Março de 1933 a 31 de Janeiro de 1935) e depois na Escola Industrial de António Arroio (de 1 de Fevereiro de 1935 a 8 de Junho de 1936).

Fonte da Telha, Dois barcos, História pela imagem dos barcos na Costa de Caparica, Cruz Louro, 1971.
Cruz Louro

Ainda nesta escola desempenhou funções de "auxiliar de secretaria" entre 9 de Junho de 1936 e 5 de Fevereiro de 1942.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
  Cruz Louro

Durante o período de vida em Lisboa, morou no Bairro dos Pescadores, na Costa da Caparica, realizando várias exposições em Lisboa e Almada. (2)

O pintor Francisco da Cruz Louro
(retratado a guache por Manuel Lima em 1932 na Costa da Caparica).
Vida e Obra do Pintor Cruz Louro

Uma nota apenas. Concluído o Curso Superior de Pintura, de 1.° Classe, em 17/3/1951, com a classificação de 15 valores, na Escola Superior de BeIas Artes, do Porto, dedíquei-me de alma e coração ao ensino de Desenho. Fui professor nas seguintes Escolas e Liceus: Escola de Arte Aplicada de António Arroio, de Lísboa; Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, do Porto; Escola lndustrial e Comercial de Guimarães; Escola Industrial e Comercial de Marinha Grande; Professor e Director na Escola Técnica Elementar de Margão (Estado Português da índia); Escola Industrial e Comercial de Pangim (E. P. I.); Escola Técnica Elementar de Mapuçá (E. P. I.); Professor e Professor-Secretárío no Liceu Nacional de Quelímane (Estado Português de Moçambique); no Liceu António Enes, de Lourenço Marques (E. P. M.); Escola Técnica Elementar Joaquim Araújo, Lourenço Marques (E. P. M); Escola Técnica de Serpa e na Escola lndustrial e Comercial de Moura (Secção Liceal). (3)


(1) Francisco da Cruz Louro, Autobiografia em Álbum Ilustrado - Terras de Portugal, Edição do autor, 1973
(1) Ana Catarina Louro Parente, Vida e Obra do Pintor Cruz Louro, 2014
(3) Francisco da Cruz Louro, op. cit.

Mais informação:
Cruz Louro
As Nossas Raízes (fb)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Companha do Anjo da Guarda (na faina da arribação)

Embora existissem outras artes de pesca, a Arte Xávega que pescava desde o S. João (24 de Junho) até finais de Outubro sempre que o mar o permitia, era responsável por trazer na faina muitos homens e mulheres divididos em companhas, termo que na Arte Xávega designa as pessoas, as redes e o próprio barco.

Costa da Caparica, colecção Passaporte-Loty n° 64, Pescadores enrolando as cordas da rede, c. 1960.
Delcampre

Em cada companha imperavam os laços de parentesco e de origem, sendo cada uma conhecida pelo nome do barco com que pescavam. Estavam subordinados a uma hierarquia rigorosa em que cada um dos membros ocupava um lugar específico em função das tarefas que desempenhava na faina da pesca. 

Costa da Caparica, colecção Passaporte-Loty n° 65, Pescadores varando um barco, c. 1960.
Delcampre

A companha era uma espécie de família alargada, formando um grupo coeso em permanente competição com as outras companhas, rivalizando no sucesso dos lanços, através da quantidade e qualidade do peixe trazido à praia em cada lanço.

Costa da Caparica, colecção Passaporte-Loty n° 66, Pescadores arrastando o seu barco, c. 1960.
Delcampre

Não é possível descrever aqui a dureza do trabalho quando a pesca se realizava sem recurso a quaisquer meios mecânicos e todo o esforço no mar e em terra era realizado por músculos humanos. (1) 

Costa da Caparica, colecção Passaporte-Loty n° 67, Pescadores arrastando o seu barco, c. 1960.
Delcampre

Contudo, enquanto tentativa de aproximação faremos uma descrição resumida e necessariamente incompleta da composição da companha e dos principais momentos que pontuavam cada lanço da Arte Xávega. (1)



(1) Francisco Silva, Costa Fronteira, Fronteiras Urbanas Ensaios sobre a humanização do espaço, 2014

Informação relacionada:
O Património Marítimo-Fluvial. Um Valioso Bem Cultural a Preservar.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Ao largo! Os mesteirais do mar

O seu esforço, o seu heroísmo e a sua tragédia

Rumoreja doce, a onda, em embalo e acalento. Dedos de espuma afloram a epiderme da terra, em caricias longas de namorado. O sol mordisca ao de leve a tona glauca das aguas, irisando a crista franjada das vagas pequeninas. Gaivotas, aos bandos, abatem as azas pandas sobre a campina movediça e mergulham os colos alvos na babujem do engodo, gualdindo solregas grandes tassalhos de peixe. Ao largo, o mar, percorrida toda a gama dos verdes, vai acabar azul, confundindo-se com o ceu. Passam revoadas de alciones. É a alegria da manhã.

Na Costa da Caparica - Alguns aspectos da vida do pescador (cliché de A. Santos)
A Batalha, n.° 21, 21 de Abril de 1924

Na praia, sobre a areia loira, garotos tisnados, como santolas loucas, retouçam ao sol. Os barcos varados, brilhantes de côres, trescalam a maresia. Dos casebres negros, encolhidos contra-o-vento, vem a falacia cantada do mulherio e um fartum acre de peixe e alcatrão. Velhos em farrapos, faces rugosas, cobertas de liquens do, mar, ou glabras polidas como rocha batida da vaga — compõem serenamente as redes trigueiras.

Surge agora um grupo de homens falando alto, barbaramente. Molda-lhes o tronco solido uma sueira grossa e a cabeça chamorra ocultam-na no longo barrete, herdado dos seus avós do Oriente remoto. É a companha. O mestre, um alto, ruivo, tem um sueste que brilha e todos levam á vela as pernas vermelhas, velosas.

— P'ró mar?! perguntam os que ficam, na quietitude marasmada do sonho.

— P'ró mar ! — respondem os que seguem para a labuta moirejada, para a aventura, quiçá para a morte. E lá vão gingando, nodoa de sombra na claridade da praia.

Acomodam-se os utensilios a bordo.

— Arreia ! — E o barco desliza suavemente por sobre os paus encebados. Feita a manobra, a postos a companha, ao sinal da largada, todos dizem:

— Voga!

O mar tem afagos de extranha volupia ao beijar rochas hirtas, torturadas. Singram ao largo velas de purpura, fulgindo ao sol, e outras cinzentas plumbeas, como ceu de tempestade. É assim auspicioso e agoirento o espectaculo do mar.

*
*     *

Ferrado o pano, o barco apoitou, que o fundo fofo de algas era proximo. Á proa, o-do-remo-da-roga vinha espalhando mancheias de engodo, num gesto largo de semeador. E começou a faina da pesca.

*
*     *

O mar é a grande oficina da liberdade. Onde quere que deitem as suas redes ou mergulhem as suas linhas, os que dele vivem e nele morrem, nunca ouvem: — "Alto! Isto pertence-me !" O — "é meu" — não se diz no mar. O mar é de todos. Não tem leis, nem balizas.

O pesqueiro que hontem foi farto, hoje está deserto. Vamos que o mar é largo e lá em baixo reina a abundancia!

Emigram as especies marinhas, veem outras novas; a tempestade afugenta e mata os pescadores, logo a bonança os alicia e favorece. É assim o mar, onde tudo é mudavel e transitorio e só constantes a sua infinita vastidão e deslumbrante riqueza. E mais — o seu augusto misterio...

Que o mar tem indefinidas, espirituais influencias nos seres e nas almas, sobretudo — nas ideias. É um eterno gerador de beleza e pira onde arde constante o foge da liberdade. Até onde chegam as suas emanaçães sadias, a vida tem uma agitação promissora. Os continentes que o mar penetra e recorta são os mais progressivos, aqueles onde as ideias dc liberdade florescem com mais pujança. Exemplos? Olhemos para, o mapa do mundo.

O mar é o simbolo da Revolta e da Pureza. Não ha dejecto que o manche, nem obstaculo que não derrube.

*
*      *

Acabara a pescaria. No fundo do barco a farta colheita — triunfo daquela tarde — fulgia nas escamas brilhantes do pescado, que manchas baças de epidermes viscosas cortavam. Viam-se peixes de todos os tamanhos e das côres mais bizarras, desde o safio, longo, sombrio, coleante, ennovelando-se em contrações agónicas ao peixe-rei, pequenino, vermelho-tenso, saltitante e brincalhão como um menino folgado. O mestre, agarrado ao remo da espadela, mão em pala sobre os olhos claros, murmurou para companha:

— Cia!

Havia que virar de bordo rápido. Uma aragem fria arrepiava a flor das aguas, cortando; e uma mancha de tinta alastrava no horizonte, para o Sul.

*
*     *

Foi assim: O vento cresceu; tiveram que ferrar a vela e apear o mastro. Começou a cavar vaga, abrindo beiçanas de chaga com pús e gangrena nos bordos A abobada do ceu desceu mais e, de negra que era fficou amarela esgazeada. Ouviu-se, a principio ao longe, a restolhada dos trovões. Depois, mais perto, cada vez mais perto, o estalido seco dos coriscos, abrindo clareiras nos ares, logo seguidas do ribombo soturno.

O vento cresceu ainda. Chuva, em cordas grossas, vivas, caia. Alijada a carga, o barco era um ponto negro, longo tempo oculto agora nos desfiladeiros lugubres, presagos das ondas, logo projectado para o alto no dorso sombrio da vaga.

Deveria ser noite já. A tragedia da noite, em que se é mais só e desapercebido, para lutar com a dôr. O barco derivava á tôa. Ele só e a imensidade em combate singular. Dentes cerrados de anciedade, olhos pávidos de terror, dorsos abroquelados ao peso da desgraça, suando, resfolegando, praguejando e rezando — a companha ora esgotava o barco, ora se atirava para um bordo para o equilibrar, ora caia de bruços quando um golpe da vaga empinava ao alto o esquife. E assim esteve horas, na agonia.

Depois, o mar, enraivecido, torvelinhou, comprimiu mais, num abraço de desespero, a fragil presa. Rangeram as taboas, rugiram os homens e, num ultimo arranco, o ponto negro desapareceu na vastidão imensa do mar em furia.

Na praia, encharcada, mulheres de negro, com os filhos ao colo, gritavam:

— Misericordia!

O heroismo ignorado da brava gente do mar é temperado em beleza; mais — em sacrificio. Mal enxutas as lagrimas de dó pelos que se foram, voltam os pescadores á labuta, ao ganha pão dos seus, á paixão do mar. Face á Dôr e á Morte, são altivos, porque, mais do que quaisquer outros seres humanos — são livres. O mar que lhes dá pão e ensino, gozo para os sentidos e jazida na morte, dá-lhes tambem — nobreza. (1)


(1) A Batalha, Suplemento Literário e Ilustrado, n.° 21, 21 de abril de 1924

Artigos relacionados:
Os pescadores de Raúl Brandão
Mário Domingues (1899-1977), escritor
etc.

Leitura relacionada:
Casa Comum, A Batalha, Suplemento Literário e Ilustrado. Propriedade da C.G.T.
A Batalha, Suplemento Literário e Ilustrado, dados editoriais
Artigos de Mário Domingues em "A Batalha, Suplemento Literário e Ilustrado"

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Os pescadores de Raúl Brandão

Atravez dos Livros

As suas ideias, os seus sentimentos e a sua beleza

Já está publicado o anunciado livro "Os pescadores" de Raúl Brandão cujas primícias de um excerto já foi dado aos leitores deste semanário literário gozar, devido à gentileza muito especial do autor. 

Tratando-se de um escritor que já conquistou de há muito a sua consagração definitiva, embaraçados nos seriamos para apreciar o seu estilo conciso e brilhante, Limitamo-nos, portanto, a dizer que Raúl Brandão afirma mais uma vez neste seu trabalho as eminentes qualidades de escritor inconfundivel, de castiça correcção e que sabe levar a extremos de perfeição a magia da palavra literária.

No prólogo deste seu ultimo trabalho diz-nos Raúl Brandão que quando regressa do mar vem sempre estonteado e cheio de luz que o trespassa. Foi assim tambem que nos sentimos ao concluir a impressionante leitura do seu livro que é uma verdadeira epopeia, um esplêndido cântico ao mar infinito e misterioso. 

"Os pescadores" são o primeiro volume da serie "A vida humilde do povo português" que aquele poderoso escritor se propõe escrever. Nas suas páginas palpita a existência da dôr e sacrificio que é a vida do pescador, agitam-se as suas cóleras, e os seus desesperos, seja êle da Foz do Douro ou da costa de Caminha à Póvoa, da ria de Aveiro ou de Mira, das Berlengas ou da Nazaré, de Lisboa, Setúbal, Cezimbra e Caparica, de Olhão, Tavira ou Sagres.

Cliché António dos Santos
[Pescadores na Costa da Caparica]
A Batalha n.° 5 (suplemento literário), 31 de dezembro de 1923

Os pescadores são a narrativa, ora suavemente enternecedora, ora ligeiramente graciosa, ora intensamente dramática, de vida, carácter, costumes e da faina rude e das condições de trabalho do pescador de Portugal; e neste largo campo de sensações o autor, sob uma forma interessante, atraente e impressionista, faz-nos conhecer minuciosamente as diferenças etnicas caracteristicas das nossas colónias pescatórias, alguns tipos magnificamente desenhados de pescadores, termos familiares das regiões, a paisagem e riqueza das nossas costas, as várias espécies de peixe que mais abundam nas nossas águas, embarcações, aparelhos e processos de pesca, dando-nos, em episódios de acção profundamente dramática em que se movimentam figuras cheias de sentimento e de caracteres magistralmente acentuados, a impressão da angustia indefinida em que vive essa gente, da tortura inquisitorial, do constante sobresalto dos mães e das mulheres que veem partir os seus homens para o mar, e das doloridas almas das vitimas que caminham resignadas, fatalistas, para o sacriticio. 

A morte do arrais — encontrado morto no cabedelo, no dia seguinte ao da tempestade, com as mãos crispadas agarradas ainda ao leme do barco que o mar, na sua fúria indomável, partiu pela quilha, não é o único quadro trágico que o livro contem, se bem que seja um dos mais pungentes lances, mordido de cores singulares, em que o clamor do mar que mete mêdo se confunde com os gritos de aflição e de desespêro das mulheres e os choros das crianças no cais, em que a cólera do mar porfia com o esfôrço hercoler de salvação dos homens. De não menos emocionante intensidade aquela outra scena da morte de dois irmãos encontrados unidos um ao outro, o mais velho erguendo nos braços o mais pequeno procurando salvá-lo. Razão tinha a mãe, a Maria da Sé, em não querer deixar o mais pequeno ir ao mar! Quando o surpreendia com os outros brincando nas poças com barquinhos de cortiça ela bem lhe batia para que ele perdesse o sestro. Mas o mar atraia-o  irresistivelmente. E na ansia de ir ao mar, como o pai, como os irmãos, como os homens, lá foi, até que lá ficou como já tinha ficado o pai... 

Depois vem a descrição de como vive toda essa gente.

A de Mira vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou pra um velho filósofo como eu. É construida sobre espeques na areia, com táboas de pinho e um fôrro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida; cheiram que consolam, quando novas, a resina, a arvore descascada e a monte; ressoam como um velho buzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo, e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinaria, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito. No chão dois tijolos para o lume, em esteiras alguns peixes a secar. Do Natal até maio não há pesca: Vão cavar para o Alentejo ou para mais longe, e as mulheres ficam em casa com os filhos. Alem da jorna, que regula de quatro mil reis a dois mil e quinhentos por dia, todos teem o seu quinhão nos dias de fartura — alguns punhados de sardinha ou de chicharros. Felizes ou infelizes? Não sei bem. Apesar de abandonacios pelo Estado, que os rouba, cobrando-lhes de fisco uma exorbitancia, quatrocentos contos o ano passado e quasi o dobro este ano, não lhes dando em troca uma maternidade, uma pequena biblioteca que os instrua um médico, uma botica, uma estrada; apesar de abandonados pelos homens, sem organização nem instrução, sem um padre que lhes fale em Deus ou nos coisas eternas (a capelinha de madeira está fechada) — esta gente é tão fundamentalmente boa que ha cinquenta anos para cá, não consta de um roubo, de um crime ou de um delito. Pode-se dormir com a porta aberta, Eu nunca fechei a minha.

Quando chegam a velhos e não podem trabalhar, como não ha um simulacro de cooperativa, e a lei do seguro os não abrange, lá se socorrem uns aos outros como podem. A miséria e quasi desconhecida neste pequeno povo de mais de duzentos fogos e de cérca de mil habitantes. Mira, punhado de casebres a apodrecer — é um mundo. A vida aqui não é uma mentira. E todos os dias a arriscam, porque quási todos os dias ouço as mulheres implorando Deus, quando o barco vai ao mar e se enche de agua.

Até aos ultimos anos ninguém enriqueceu em Mira com a pesca.

Mas agora, com os preços excessivos do peixe, tudo mudou de figura. já o ano passado se ganhou muito dinheiro, quando o cabaz de sardinha dava vinte mil reis. Que fará este ano, que regula entre cinquenta e sessenta? ha lanços de cinco contos, e já e diz que alguns se sentam em libras sôbre os buracos que abrem na areia para as esconder. As casas de salga fazem tombem im grande negocio. Enriquece o almocreve, o patrão e o negociante; só o pescador continua pobre e despreocupado. O mar nunca acaba e o mar é deles...

Os pescadores da Nazaré são ingénuos e supersticiosos. Um crime é raro. Não ha policia. Teem um medo ás bruxas que se pelam.

E o pescador de Cezirnbra? Este homem é de instinto comunista. Se um adoece, Os outras ganham-lhe o pão: recebe o seu quinhão inteiro. Se morre, sustentam ate a viuva e os filhos entregando-lhe o ganho que ele tinta em vida. Dão ao hospital e ao asilo uma parte do pescado. Toda a gente tem direito a ir ao mar — toda a gente tem direito á vida. Vai quem aparece, desde que seja maritimo. Acontece que o barco leva hoje quarenta h 'meus e leva vinte amanhã... O produto das artes é dividido em quinhões iguais pela campanha. A pesca do anzol é uma espécie de cooperativa, e a barca quasi sempre dos pescadores. 

Mas este sentimento comunista é vulgar entre a gente do mar.


O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste. 

No mar não ha marcos... diz o autor ao estabelecer o contraste entre Tavira, terra de montanheiros e Olhão, terra de pescadores. 

E continuando:

O maritimo de Olhão tem, como nenhum outro, um grande sentimento de igualdade: estende a mão a toda a gente. É que no mar os homens correm os mesmos perigos. São tambem profundamente religiosos, porque estão a toda a hora na presença de Deus. Duas tábuas, a fragilidade e a incerteza, forçam-nos a contar consigo e com e companha. Arriscam a vida para salvar a dos outros: hoje por ti, amanhã por mim. Homens simples porque a profissão é simples e o meio, grande e eterno, não os corrompe. E como o mar abundante e prodigo não tem cancelas, são generosos, imprevidentes e comunistas. Detestam os tribunais, que não coompreendem, e ignoram a vida da terra. Se a mulher lhes morre, não entram em licitações com os filhos: deixarn-lhe a eles o barco e as redes, e tomem conta do resto. Reparei que em toda as casas havia uma gaiola com um pintassilgo. Os homens do mar tiveram sempre uma grande ternura pelas aves. 

E as mulheres? Não as esqueceu tambem Raul Brandão que no-las retrata com fidelidade e que se curva perante o seu esforço fisico e a sua energia moral, vendo-as calcar todo o dia as estradas vendendo o peixe, trazendo os pequenos ao colo, não se deixando dominar pela desgraça, ou fabricando a graxa, fazendo, lavando e concertando as redes, metendo hombro aos barcos para os deitar ao mar, trabalhando tanto ou mais que o homem, infatigaveis sempre e ainda lhes sobra o tempo para tratar da casa e dos filhos!

E ainda o pior para todas estas mulheres não é serem bestas de carga, dias atraz de dias encharcadas e escorrendo salmoura... A mocidade dura-lhes o que duram as rosas. Quasi sempre de uma belesa delicada, a mulher da beira-mar, com excepção da do Algarve, que é a "prenda da casas", logo que casa carrega com quasi todo o peso do lar, cresta-se e envelhece. Acusam-na de imprevideucia. Imprevidente é o homem, que gasta na taberna tudo o que ganha. O lavrador é avaro, tira o pão da arca a medo, como quem sabe o que ele lhe custa de esforços persistentes — o pescador, num dia de fartura, enche a casa de pão. E o mar inexgotavel não lhe foge... Mas ela não. Ela, remenda, poupa e vai arrancá-lo à taberna. Conheço-lhes desde pequeno os estremos de dedicação e de força diante da desgraça. Esta pobre mulher — terra virgem de ternura — merecia um lugar à parte na nossa terra, pela sua abnegação, pela sua energia, e até pela distinção de sentimentos. Em Mira o lar é sagrado. É-o em to-dos as povoações da costa portutuesa que ficam longe dos centro, corruptores. 

Mas o trabalho pesado não é ainda o pior — o pior é o sobressalto constante da sua vida. A da lavoura tem o lar seguro. Vem o inverno temeroso e a noite que não tem fim. Fechada no casebre, á roda do lar, ela, o homem e a moça, com o filho no berço (ao lado na corte os bois fartos esmoém) — sente-se tranquila; sabe que na arca puida ha meio carro de pão, o suor do seu rosto, e algumas moedas juntas. Pode o temporal abalar o teto de colmo e o nevão cair lá fora. Ardem os raizeiros no lume e as traves de castanho são eternas. O buraco tem alicerces de granito até ao fundo do globo. Quanto ao pescador, esse há-de ir ao mar, unico campo que lavra, ainda que arrisque a vida. Os pequenos pedem-lhe pão e ele não tem outro ofico. O tempo está mau e dias atraz de dias passam. — Sempre vou... — Ela sente o coração oprimido, mas cala-se. Sabe perfeitamente pelos outras o futuro que a espera. Quantas conheci sempre de luto, sem ir muito longe da minha casa!... Por fim diz: — Pois Vai... — As redes, a cesta e ele embarca. Fica com ela um bando de pequenos, e com o coração aos saltos põe o ouvido ã escuta... A onda brame no cabedelo com um eco prolongado. — Não tem duvida, é o mar que chama o leste. — Mas agora, a voz é outra, mais funda, o vento mudou para o sul e a barra cerra-se. — Irão arribar e Leixões?... — Que tempo no mar alto, na noite tragica, e só negrume em roda! Nas mãos de Deus! nas mãos de Deus!

Cabe-lhes sempre o pior quinhão da negra vida, Trabalham o dobro dos homens e vivem mais do que eles, porque sofrem muito mais. 

Retrato de Raul Brandão e de sua esposa, D. Angelina Brandão, Columbano, 1928.
MNAC

E é assim todo o livro de Raul Brandão. Por todas as suas paginas perpassam um suavissimo espirito de humanidade, um proposito de reabilitação e de justiça e um sentimento de respeito pelo Trabalho. 

"Os pescadores" é um livro que comove e... nos faz pensar... (1)


(1) A Batalha n.° 5 (suplemento literário), 31 de dezembro de 1923

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Costa da Caparica por Raul Brandão em 1923

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Bulhão Pato, a consagração da scena

LIVROS NOVOS

Ruy Blas — Traducção em verso de Bulhão Pato. — 

Sem ser um Shakespeare, Victor Hugo ha de viver largos seculos no theatro. Nos seus dramas não se reflecte o homem, mas reflecte-se a humanidade. Ruge nos seus dramas a paixão impessoal, pelas mascaras de bronze desses personagens titanicos. 

Retrato de Bulhão Pato (detalhe), Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

Nas peças de Shakespeare sente-se a carne que se contorce, os nervos que vibram, o sangue que corre por baixo da epiderme dos personagens; nas de Victor Hugo não se veem senão as grandes mascaras de bronze, de cujas bocas sae o grande sopro lyrico das paixões impetuosas. 

Ruy Blas é de todos os dramas aquelle em que mais se sente sua impersonalisação. Tudo está fora do real, desde a mascara demoniaca de D. Sallustio até á mascara silenica de D. Cezar de Bazan, mas as grandes paixões, que podem agitar a humanidade, trovejam, riem, ou soluçam em todos aquelles labios que teem, em vez da carnação rosada da vida, a rigidez metallica dos labios das estatuas.

Entre Sallustio e Iago ha um abysmo; lago é um infame, Sallustio é a infamia. Romeu é um apaixonado, Ruy Blas é a paixão. Fallstaff e um typo immortal de bebado jovial, fanfarrão, vadio. D. Cezar é a propria symbolisação de todos esses vicios alegres.

Por isso Victor Hugo ha de viver no theatro como Shakespeare, este para convulsionar eternamente as platéas pela verdade humana dos seus personagens, aquelle para as inflammar nos arrebatamentos lyricos e infaustos da sua linguagem apaixonada e candente.

Por isso o que se cita de Shakespeare? as scenas: a do jardim de Julieta, a de Othello e lago, a de Shylock e Antonio, a de Ricardo III e rainha Anna, a de Macbeth e de lady Macheth, do rei Lear e o bobo, a de Hamlet e a mãe ou de Hamlet e Ophelia.

O que se cita de Victor Hugo? monologos, o de Carlos V no "Hernani", o do marquez de Nansis na "Marion Delorme" e o de Barba Roxa nos "Burgraves", o de Ruy Blas aos grandes de Hespanha no drama de que nos occupanios agora.

Quem falla em Shakespeare são os personagens pela boca do poeta, e em Victor logo o poeta pela boca dos personagens. O genio de Sbakespeare faz vibrar com o seu magico sopro os nervos das suas creaturas, Victor Hugo dá ás suas os nervos de bronze da sua propria lyra.

Bulhão Pato, que já enriquecera a litteratura portugueza com duas magnificas traducçães de Shakespeare, quis tambem traduzir Victor Hugo e pôz em verso portuguez esse magnifico Ruy Blas, a que alludimos ha pouco.

Pôl-o em verso portuguez de lei, n'esse magnifico verso solto hoje trocado pelo alexandrino magestoso e massudo, que arrasta o dialogo ao passo cadenciado das suas rimas alternadas. Foi extraordinariamente feliz n'esta audaciosa tentativa. No verso solto parece que vibra mais livre o latego de Ruy Blas, que dança mais descuidosa a jovialidade de D. Cezar, que suspira mais melodiosamente o lyrismo amoroso da rainha.

Ruy Blas por Bulhão Pato, O António Maria, 13 novembro de 1884 (detalhe).
Hemeroteca Digital

Oiçam o final da objurgatoria de Ruy Blas aos ministros:

Teu auxilio, o teu braço, ó Carlos quinto; 
Porque surcumbe a flespanha, a Hespanha extingue-se!

Aquelle globo em tuas mãos robustas,
O sol deslumbrador, que n'outro tempo
Fazia acreditar ao mundo inteiro
Que era em Madrid que despontava o dia, 

Agora, astro sem vida, a pouco e pouco 
Vai-se sumindo, lua em seu minguante, 
Que de outro povo ha de apagar a aurora!

Nas mãos de vendilhões a tua herança! 
Fundiram em moeda a tua c'rôa! 
Conspurcam o. esplendor das tuas glorias! 
Ó gigante, é possível que tal durmas?

Vendem teu sceptro a pezo; anões disformes, 
Do teu manto de rei talham as vestes. 
Tua águia imperial, que doutros tempos 
De raios e fulgor enchia o mundo, 
Pobre ave já sem penas, os famelicos 
Vão devoral-a na marmita infame.

Ah! como o nosso bom verso endecasyllabo, manejojado por mãos vigorosas, serve ainda para tudo! como elle zurze! como silva nos ares! como substitue pela amplitude do rhytmuo a amplitude syllabica do alexandrino:

De raios e fulgor enchia o mundo!

Afinal Victor Hugo com todo o seu genio para ter um alexandrino com esta idéa não poude fazer mais de que metter um adjectivo perfeitamente dispensavel:

Couvrait le monde entier de tonnere et de flammes.

Para isso, bem o sabemos, é indispensavel que o traductor se chame Bocage, ou Castilho, ou Bulhão Pato, é necessario que se tenha no ouvido, para segurança melodica, o segredo do rhythmo, que dispensa o diapasão da rima, de que sempre carecem as cantores mediocres, é indispensavel que se tenham boas pernas nervosas, como Bulhão Pato tem em caçadas e em poesia, para acompanhar as passadas de gigante de Victor Hugo sem se empoleirar uma pessoa nas andas dodecasylabicas do alexandrino portuguez.

Six personnages de Victor Hugo Louis Boulanger, 1853 (musée des beaux-arts de Dijon).
Sont représentés, de gauche à droite en commençant par le haut Don Ruy Gomez, Don César de Bazan, Don Salluste, Hernani, Esméralda, De Saverny.
Wikipédia

Pois no celebre monologo de que demos um trecho, e que é enorme, Bulhão Pato, vertendo escrupulosamente, só precisou de mais uns dez ou onze versos do que os que tem Victor Hugo no original, e n'esse longo trecho apenas teremos de notar uma phrase em que a traducção não é rigorosamente a que nos parece verdadeira. "Depuis Philippe quatre" deveria traduzir-ie "Desde Philippe IV" e não "Após de Philippe IV, como o sentido historico indica, porque Victor Hugo diz, peta boca de Ruy Blas, primeiro ministro do rei de Hespenha: 

"Nous avons, depuis Philippe Quatre, 
Perdu le Portugal, le Brésil..."

Ora como foi exactamente no tempo de Philippe IV que a Hespanha perdeu Portugal e Brazil, vê-se que "depuis" não pôde ter outra significação senão a que tem realmente e lexicologicamente "desde".

Fizemos esta pequeníssima observação, para pôr em relevo a fidelidade maravilhosa com que Bulhão Pato acompanha o texto do grande poeta, chegando até a não o emendar, quando Victor Hugo perpetra a respeito de coisas portuguezas um d'aquelles disparates, que elle atira com uma serenidade olympica do alto de um alexandrino recheiado de erudição: 

"Perdu Ie Portugal, le Brésil, sans combatre?"

Para dizer isto nas bochechas dos vencidas de Montes-Claros, de que ainda se havia de lembrar amargamente algum dos velhotes do conselho, era necessario que Ruy Blas tivesse urgentimima necessidade de encontrar uma rima para "Philippe Quatre". Bulhão Pato, com urna fidelidade a toda a prova escreve: 

Portugal e Brazil "sem um combate"
Deixámos ir por mão. 

A proposito da sem cerimonia com que Victor Hugo trata a historia portugueza, sempre nos ha-de lembrar aquelle disparate que Hernani atira magestosamentc a Carlos V na crypta d'Aix-la-Chapelle:

"Je suis Jean d'Aragon, grand-mailre d'Avis né..."

Voltemos ao Ruy Blas, e á magnifica tradução de Bulhão Pato. Para acabarmos do provar como o nosso eminente poeta é fidelissinio na traducção, basta dizermos que, só porque se afastou ligeirissimamen-te do original, na esplendida versão do canto das lavadeiras, chamou-lhe logo imitação. 

Comparem e vejam como se espelham no crystal sonoro dos versos de Bulhão Pato as graciosas e frescas imagens dos versos de Victor Hugo:

À quoi bon entendre
Les oiseaux des bois?
L'oiscau le plus tendre
Chante dans ta voix. 


Que Dieu montra ou voile 
Les astres des cieux! 
La plus pure étoile 
Brille dans tes yeux.

Qu'Avril renouvelle 
Le jardin en fleur! 
La fleur la plus belle 
Fleurit dans tom coeur. 

Cet oiscau de flamme, 
Cet astro du jour, 
Cette fleur de l'âme 
S'appelle l'Amour 

Vejamos agora na versão portugueza:

Ruy Blas por Bulhão Pato, O António Maria, 13 novembro de 1884 (detalhe).
Hemeroteca Digital

Para que — ouvir das aves 
A voz na selva copada, 
tem notas mais suaves 
A tua voz encantada! 

Para que — ver a mais bella 
D'essas estrellas dc Deus, 
Se mais peregrina estrella 
Refulge nos olhos teus!

Para que — abril em rosa 
Vai transformar um botão, 
Se outra flor, e mais formosa, 
Sorri no teu coração. 

Ave, flor, astro do dia, 
Canto, perfume, esplendor, 
Formam a mesma harmonia 
E tem um só nome: Amor! 

Pois que ha n'estes versos mais do que a refracção que tem a luz ao passar de um para outro meio, da transparencia do ar para a limpidez da agua, e a imagem ao passar do sonoro francez de Victor Hugo para o harmonioso portuguez dc Bulhão Pato?

Lisboa, Teatro D. Maria II, c. 1890.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em resumo, a traducção de Ruy Blas por Bulhão Pato é uma verdadeira obra prima. que deve ter, que esperamos que tenha, a consagração da scena. 

Obras assim devem engastar-se no reportorio dramatico nacional.

P. C. [Manuel Pinheiro Chagas] (1)


*
*     *

No final da ultima scena, Bulhão Pato foi chamado ao proscenio pelo publico que queria victorial-o, mas o illustre poeta não appareceu porque andava, segundo ouvimos, lá pela Outra Banda, de espingarda ao hombro, a caçar nos seus homonymos bravos.

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Biblioteca Nacional de Portugal

O publico, desesperado por não lhe apparecer o Pato que pedia em D. Maria, foi para a cervejaria da rua do Principe, onde se vingou pedindo pato com macarrão! (2)


(1) Jornal do Domingo, Revista Universal, Anno I n° 42, 4 de dezembro de 1881
(2) O António Maria, 13 novembro 1884

Informação relacionada:
Bulhão Pato (1829-1912): no Centenário da sua Morte

Leitura relacionada:
Victor Hugo, Ruy Blas, traducção em verso por Bulhão Pato, Lisboa, David Corazzi, 1881

domingo, 21 de julho de 2019

A janela de José Cardoso Pires

A 4 de novembro de 1998, o Jornal de Letras dedicava um número especial à figura e obra de José Cardoso Pires, de quem nos tínhamos despedido poucos dias antes, na Biblioteca das Galveias. Para esse número, José Carlos de Vasconcelos convidou amigos e admiradores para escreverem sobre aquele que partia mas deixava uma obra única para a posteridade.

José Cardoso Pires no apartamento da Costa da Caparica.
Jornal de Letras, 4 de novembro de 1998.
Hemeroteca Digital

Sentei-me então à mesa e escrevi um texto com a memória recente, e a paixão viva, pela sua pessoa de perfil inconfundível como nunca mais encontraria na vida [...] (1)

*
*     *

A conversa [com Filipa Melo] fez-se a seguir ao almoço. Tom um de dois interlocutores que se conhecem ao ponto de não aceitarem o disfarce. Tema, dentro do possível: José Cardoso Pires troca Lisboa pela Costa de Caparica: o seu dia-a-dia; se o trabalho rende ou não; por exemplo, e para começar, que lugar preenchem os amigos na vida do romancista [...]

— Neste semi-exílio da Caparica passas boa parte da semana sozinho é?

— Sozinho, sim. Sempre. A maior parte do tempo [...]

— Este teu apartamento, compraste-o com os direitos autorais?

— Não, não. Eu tinha dinheiro de várias coisas, e algum também dos direitos autorais, mas que não foi a base [...]

— Antes de vires para a Caparica escrevias em Lisboa?

— Na minha casa de Lisboa? Não. Escerevi de um modo geral noutros sítios, em casas de amigos. Em Lisboa não, porque tinha problemas, havia as miúdas, havia sempre umas lutas bestiais. Eu gosto muito do silêncio, gosto da solidão, não sou capaz de escrever diante de ninguém [...]

Costa da Caparica, José Cardoso Pires.
Jornal Público, 27 de outubro de 1998.
Hemeroteca Digital

Escrevo em longos períodos, por vezes sou capaz de estar oito a dez horas sentado a escrever. Sou muito anarca. Quase sempre anda por volta dos três anos o tempo que demoro a escrever um romance. E quase todos os livros que faço têm mais que uma versão. (2)


(1) Lídia Jorge
(2) Jornal de Letras, 4 de novembro de 1998

Artigo relacionado:
Costa da Caparica de José Cardoso Pires

Leitura relacionada:
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998)
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998): entrevistas
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998): fotogaleria

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A tragédia do Pensativo por Norberto de Araújo

Aqui há uns trinta e tal anos deu-se na Caparica o naufrágio de um barco de pesca em que morreram (pois) dez ou doze homens à vista da praia, à vista daquela gente toda, das familias... foi uma coisa tremenda. Alberto de Araújo fora designado para fazer a reportagem da Caparica, e escolheu-me para o acompanhar e para o ajudar. Eu que nesse tempo sabia pouco ajudar e muito menos um mestre. Ficou lá uns vinte minutos, ele, viveu o ambiente de tragédia, aquelas pobres familias, alanceadas, mulheres que já eram viúvas, crianças que já eram órfãs... encarregou-me de tomar nome dos mortos, o nome do barco etc. E viemos para o jornal.

O jornalista Maurício de Oliveira fala de Norberto de Araújo e da sua reportagem aos 15"45' em
Sabe quem foi Norberto de Araújo? 1971, RTP Arquivos

Ele, em vinte minutos, escreveu uma página, das dimensões de um vespertino nosso, aqui da cidade. Ele perguntou-me duas ou três coisas, mas apenas o nome do barco, o nome dos homens, e quando terminou disse: — Pronto, está feito!

Umgrupo de náufragos posando para o nosso jornal.
Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Olhou para mim e verifiquei que os seus olhos estavam vermelhos, não de fadiga, mas de umas lágrimas, que começavam, que começavam a saltar: a saltar das pálpebras. Percebeu, ele percebeu que eu entendia a sua emoção, e então disse-me (aquilo foi terrível... foi uma coisa terrível), o homem que era Norberto Araújo, profundamente humano, sentimental, coração generoso, tinha sido tomado de assalto pela própria emanação do seu talento, e estava a chorar a desgraça que ele acabava de descrever com verdadeiro génio. (1)

*
*     *

No Oceano, defronte da Costa de Caparica, que acabamos de contemplar envolta de azul e de luminosidade transparente, com um mar de crianças inocente das suas traiçõezinhas, a praia quietíssima e as figuras tisnadas das gentes sucumbidas ao peso da desgraça — desenrolou-se esta manhã, em rápidos minutos, ainda era lusco-fusco, urna tragedia, que põe de luto muitos lares e arrebatou á vida onze homens, alguns quasi crianças, a maioria na força da vida — entre os 16 e os 30 anos. 

Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

A população local e dos arredores encontra-se consternadíssima. Uma vaga de tristeza. que se não traduz em palavras, mas no silencio que quasi toda a gente mantém, paira sobre a ridente povoação da Costa, primitiva praia de pescadores, onde ha ainda um ou outro traço selvagem, e onde a civilização ha anos para cá vem entrando, pé ante pé, já com os seus ares e as suas aspirações, que, contudo não afastam da linda praia o seu caracter original e o seu encanto de grande praia piscatória, de rudimentares artes e atrevidas fainas do mar. 

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

Na casa da companha está estendido um cadáver; o mar guarda por enquanto, para demorar. a posse, mais dez, e nove sobreviventes, alguns como tontos. andam por ali... a ver o mar — que parece que não foi nada com ele. 

As companhas do "Mestre Chico"

Na Costa da Caparica a actividade piscatória, de processos primitivos como dizemos, tal qual em outras praias do litoral português do Norte ao Sul do país banhado pelo Atlântico, exerce-se entre o começo da primavera e o principio do inverno. 

Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Ás vezes, audaciosamente, os pescadores entram pelo inverno. Por enquanto o mar não "puxa" ainda muito.

As campanhas que ali trabalham não são agora muitas. Três ou quatro, cada uma com seu barco, cada barco com a sua gente, um arrais, um espadilheiro, e aí vinte homens que remam, lançam as redes, trazem o barco para terra e puxam as duas cordas, uma, a "panda", que fica presa em terra logo quando o barco sai, e a outra que o barco trás consigo, quando, largadas as redes ao largo, ai a cerca de uma milha, volta á praia, nos braços das ondas.

"Mestre Chico", figura simpática e prestigiosa da terra, ali nado e criado, que foi pescador e chegou a proprietário de varias "artes", tem hoje três barcos com suas companhas, que todas as manhãs e todas as tardes, quando o mar permite, vão ao mar, fazer os seus lances, alguns dos quais repetem, quando no primeiro matam muito peixe. 

"Mestre Chico", o sr. Francisco José da Silva, casado, ali proprietário tambem de um estabelecimento de mercearia, tem ao seu trabalho assim uns setenta homens, entregues aos três arrais, que escolhem a hora oportuna e o sitio apropriado para lançar as redes, que ás vezes, após duras canseiras, quasi de condenados, trazem apenas caranguejo reles, para estrume. 

Esta temporada não tem sido má de todo. Têm "matado" bem, e lances tem havido que se aproximam de uma dezena de contos. Contudo, estes lances felizes mal chegam para compensar as companhas da centena de vezes que inutilmente vão ao mar, ou das semanas em que o rigor do tempo os obriga á imobilidade, estendidos debaixo das redes ou acolhidos ás palhotas ou ás casitas já de pedra e madeira. 

Vida de heroísmo e de sacrifício ignorados...

Três barcos no mar

Esta manhã os arrais de "Mestre Chico" resolveram que fossem para o mar o "Pensativo" e o "S. Francisco". Tambem iria o "S. José", de outro proprietário, o "Júlio da Filipa". Em terra ficou encalhado o "Portugal", tambem do dono do "Pensativo". Era escuro, e os homens andaram pela terra a gritar: "pró mar!" Foram-se chegando para a praia as companhas, vultos escuros deslizando pela areia, ainda no negrume da noite.

Naufrágio na Costa da Caparica, ao centro o arrais do barco naufragado.
Torre do Tombo
E aí cérca das cinco horas, mal dealbava, saíram os três barcos, de altas proas, cada um com seu espadilheiro à popa, guiando "aquilo", e trinta e seis e braços puxando pelos remos ciclópicos.

Dos três, o "Pensativo" foi o ultimo a sair. Ferrou a "panda" na areia, os homens empurraram-no á agua (já lá andavam os outros dois) saltaram para dentro, tomaram a seu lugar, vá de puxar com força, e foram-se afastando, afastando. 

O mar não estava alvoroçado; não havia neblina, e piscavam ainda o seu olho vermelho e branco os faróis da Espichel e do Bugio. As familias dormiam descansadas: uma faina como tantas... 

Levanta-se nevoeiro

Menos de urna hora andou o "Pensativo" ao largo, já o "S. Francisco?" seu irmão, e o "S. José" vinham para terra. Começava a cair uma neblina leve.

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

O arrais Vitorino escolheu o sitio que lhe pareceu — ás vezes por palpite — mais sujeito a peixe, e mandou largar as pesadas e grandes redes, cujo saco há de recolher o peixe que por ali anda, aos cardumes, as "brancas" de sardinha ou de carapau que vão de longada para o Sul.

Começava a clarear, vagamente. Os faróis mal brilhavam. Fazia frio; o mar não dava de si "para mal", mas a neblina fez-se nevoeiro, e fechava-se, em "treva branca". 

Lançada a rede, já no isolamento dos outros barcos dos camaradas, o "Pensativo" deu ainda umas dúzias de remadas duras, entre o balanço das ondas, que mais cresce quanto mais o barco se aproxima da terra. E aproava á praia. 

Já tinham "abicado" o "S. José" e "S. Francisco", este do arrais Cavalinho, e pertença tambem de "Mestre Chico".

E na praia os grupos indistintos dos peixeiros vendedores, que vão para ali com seus cabazes e cêstas de carga, andavam de um lado para o outro "a ver o que vinha", á espera da lota. Os guardas-fiscais e os cabos do mar misturavam-se na mancha sempre escura, do gentio comprador: E tudo envolto num nevoeiro densíssimo.

Uma traição do mar

— Ouvia-se apenas as pancadas secas dos remos pesados na agua do mar, que começava "puxando". Havia já débil claridade. Nada que fizesse prever traição. Os homens puxavam, puxavam, e alguns pensariam se a rede traria esta manhã ou não traria peixe.

Naufrágio na Costa da Caparica, o rimeiro cadáver que deu à costa.
Torre do Tombo

Aí a vinte "cordas" de terra, e cada corda tem 18 praças — ou seja á distancia de multo menos de um quilometro — o barco é sacudido por um vagalhão, destes que andam "perdidos". Sacode o "Pensativo" pela popa, e fé-lo estremecer todo, como uma casca de noz. Que ondas!

Mas é costume... O espadilheiro aguentou. O barco preso pela espia segura-se e a onda há de passar. Novo vagalhão, já os remos custam a segurar. A meia lua, que o barco com suas pontas reviradas desenha ao lume de agua, no fundo de um nevoeiro que parece ocultá-lo do resto do mundo, afunda-se e logo ressurge, intacto. 

Mas a espia quebra!

A tripulação percebeu o golpe; entendeu o perigo. Estavam perdidos! E não houve mais pensar e o leme tornou-se inútil. O barco, tornado frágil, eleva-se das ondas uns metros e cai ao peso de si proprio, volta-se, como um barquinho de crianças.

— Acudam-nos! Acudam-nos! — gritam para terra. E enrodilha-se tudo. O barco fica de fundo para o ar, e sob ele lutam desesperadamente, aqueles vinte homens. 

A tragedia não tem descrição possivel. Uns nadam, vigorosamente, não sabendo para que lado está a terra. Outros saltam ao barco, pretendendo ultimo apoio. Outros, enrodilhados nos remos, não se teriam, por ventura, podido mover. 

E os gritos, dos que conseguem gritar confundem-se com gemidos dos teriam sido atingidos pelas madeiras, pelos apetrechos pesados bordo. Agarram-se alguns a outros numa ansia de salvação. O desespero da salvação! A ansia de viver! 

A maioria daqueles homens não tem 30 anos [...]


Um balanço sinistro

Reúnem-se os homens. Um grito de um que manda calar. Uma voz de outro que interrompe o silencio.

Naufrágio na Costa da Caparica, Francisco Pinto de 14 anos que se salvou a custo.
Torre do Tombo

Um pranto uma mulher que vem fazer a ultima pergunta: 

O meu filho? Mas só o meu filho que não volta?! 

Ninguem responde. E levam-na.

"Mestre Chico" — parece uma sombra. Ele não diz nada. São os seus homens. Foi a sua "arte". Foi o seu barco. E um mais valoroso aventa: 

— Vamos a contar... Vamos a contar...

E contam. Um vai escrevendo, numa garatuja de alfabeto primitivo. Nós recompomos.

Desaparecidos, sem esperança de qualquer salvação, e mortos, portanto:

—  Agostinho Coelho, o "Bexiga" — ali estendido numa esteira da Casa da. Companha — 29 anos, solteiro, de familia. em Lisboa. 

— João dos Santos Quintino, de 39 anos, de Belém. Casado e com dois filhos. 

— Francisco Saloio, de 14 anos, do Bombarral, mas criado e vivido na Costa da Caparica. A criança da companha. 

— Manuel Agostinho, de 30 anos, de fóra da Costa, onde não tinha familia. Era o mais moderno da companha, e fôra para o mar contra vontade da familia. 

— Joaquim Monarte, o "Cabinho", de 28 anos, casado e com um filho, natural da Costa, onde tem tambem pai e irmãos. 

— Manuel da Grama Santos, de 18 anos, da Costa da Caparica. Muito simpático e alegre. Vivia com sua mãe, de quem era o amparo. Ontem á noite andou a cantar na fonte da povoação, e foi a cantar para o mar. 

— João Nozes Júnior, tambem da Costa, 30 anos, vivia com seu pai, que tambem foi pescador. 

— Merceano da Silva, natural da Costa, de 22 anos. Casado há pouco tempo, deixa sua mulher gravida. Tinha tambem sua mãe em casa. 

— Delfim, um rapazinho que fazia hoje 16 anos, e que foi ajudante do banheiro Ivandro. Natural do Cruzeiro da Ajuda. 

— António Davina, de 25 anos, casou há 15 dias na Costa, onde tinha tambem mãe e irmãs. 

— José Martins, de 24 anos, solteiro, o amparo de sua casa, pois tem o pai e a mãe tuberculosos, e era ele o sustentáculo da casa. 

Eis a lista sinistra.

Os sobreviventes

São, como dissemos, nove. Não atribuem o facto de se salvarem á circunstancia de saberem nadar. "Ficaram lá alguns que sabiam mais do que nós". São eles:

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

Vitorino José Galinho, o arrais, de 24 anos; José Raimundo, filho, que era o espadilheiro; Eduardo Ribeiro; Pedro Manarte, Pina Setubalão, Francisco Capote, sobrinho; Raimundo Gonçalves, Antonio Isidoro e Alberto Martins, que foi o primeiro a chegar a terra.

As causas da catástrofe

As descrições dos sobreviventes, que têm animo para falar, é que nos permitem reconstituir a tragedia como acima a damos. 

Mestre Francisco da Silva limita-se a dizer-nos, em resumo:

— Esta desgraça só a podemos atribuir a uma traição do destino. Quantas vezes, com temporal, e mar "a puxar" as minhas companhas iam ao mar. Porque não sou eu, mas os arrais que mandam. E o mar hoje estava bom. Não era um mar de senhoras. Era um mar de pescadores. Veio aquele puxão de agua, e o barco não nos dava [...] os homens sabe do seu oficio. Mas a espia quebrou, e esta é que foi a desgraça. Com o mar que súbito embravecera e sem aquele apoio, voltou-se. Não sabemos como aquilo foi. A corda era nova. Talvez tivesse "desabuçado", quer dizer, talvez um dos nós se tivesse desatado com o puxão. Nunca sucedeu. Foi a desgraça. 

E numa grande e sincera lastima: 

— Pobres rapazes! Tudo gente nova! Alguns eram crianças! E todos bons homens, coitados. E Mestre Chico custa-lhe a suster as lagrimas.

O "Pensativo na praia"

Poucas horas depois da tragedia, o "Pensativo", que continuava boiando, indiferente, vitima tambem do mar, foi arrastado para terra. Estava quasi esfrangalhado. Os remos, que são pesados braços de madeira, alguns dos quais têm de ser manejados por dois homens, estavam quasi todos quebrados. 

O barco que naufragou, depois de recolhido e varado em terra.
Torre do Tombo

A proa e a popa desfeitas. Os bancos partidos. É um farrapo de si proprio, o pobre barco, T122F, que largos invernos resistiu aos temporais e sempre muito cuidado, estava como novo, com suas pinturas frescas e a sua elegância esbelta de cortador das ondas. 

Dentro dele ainda está roupa, barretes e calçado dos náufragos, que trabalham descalços. Tem sete metros de comprimento e apesar de ser agora uma ruina, ainda avulta ao lado do "S. Francisco" e do "S. José". 

A rede ficou no fundo do mar, e está-se tentando conseguir um barco que a levante, visto a vida dos pescadores não poder parar. O "Pensativo" é que ficará na praia muito tempo, encalhado, a ver os outros partirem, os outros chegarem [...] (1)


(1) Sabe quem foi Norberto de Araújo?, 1971, RTP Arquivos
(2) Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Artigo relacionado:
O naufrágio do Pensativo

Mais informação:
Sabe quem foi Norberto de Araújo?, 1971, RTP Arquivos (aos 15"45' o jornalista Maurício de Oliveira fala de Norberto de Araújo e da sua reportagem)