sexta-feira, 23 de junho de 2017

Bulhão Pato, o Juncal da Costa, por Zacharias d'Aça (V)

Aquella charneca do Juncal, descoberta, erma e agreste, onde, no verão, dardeja o sol implacável, e no inverno sopra o sudoeste, ouvindo-se ao longe o rolar das ondas, é uma paizagem profundamente triste, mas que não deixa de ter encantos. A solidão do deserto está alli, fronteira e contraposta ao bulicio da cidade!

Portuguese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Um areal enorme, cortado de pequenos médãos, coberto duma alta, espessa, e hirta vegetação de juncos verde-negros, entresachados de raras moitas de joina. Arvores ... apenas algumas figueiras na horta do Miranda, á beira do rio! Isto e uns canteiros de morangos, eram os únicos signaes da vida vegetativa, naquelle chão árido e inhospito! A vinha, que elle alli plantara, agonisava, rasteira, enfesada e rachitica.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A gente pouca, pallida, anémica, dizimada de continuo pelas febres. As aguas do inverno, estagnadas em charcos, tornados paúes, fermentando-as o sol ardente da canicula, evolavam de si miasmas mortaes, que o vento não varria, e que não poupavam nem as creanças, nem os adultos.

Bellas Artes, 16, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva
(cf. original de 1897 ref. em Branco e Negro, 17 de maio de 1897).
Imagem: Delcampe

Em dias de sol, com o ar parado, aquelle ermo descampado é uma amostra da paizagem africana  ! Ao fundo, para o lado do Oceano, as cabanas de colmo dos pescadores, baixas e negras, e perto d'ellas a capellinha branca; defronte o cemitério, com os cyprestes esguios, balouçando — como nós — entre a vida e a morte ; á esquerda o Monte — árida rocha a pique, com o seu aspecto de fortaleza; á direita a praia e o mar ...

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva
(cf. original de 1897 ref. em Branco e Negro, 17 de maio de 1897).
Imagem: Delcampe

Nada mais triste! Um dia, em que lá fiquei, ouvindo, ao sol posto, o toque das Ave-Marias, deu em mim tal melancolia, que desatei a chorar!

*
*   *

Não era ameno o sitio, tampouco o foi, em tempos, a fama dos seus moradores. 

— Anda fugido na Costa — era uma phrase corrente na boca do povo, quando se falava de algum criminoso façanhudo, que desapparecera de Lisboa.

Transposto o Tejo, ladrões e assassinos alli se acoitavam e escondiam nas companhas dos barcos de pesca. Assim escapavam no mar aos quadrilheiros de Lisboa, quando lá iam perseguil-os. Uma visita da justiça á Costa — quando a policia estava longe de ser o que é hoje — era uma expedição arriscada, e quasi sempre inútil.

A civilização já lá chegou, e, se não mudou a natureza, mudaram os costumes. Ainda assim não podemos dizer que reina alli sempre uma paz octaviana. Um dia, logo depois de saírem de lá os nossos amigos, um homem, chamado Damião, foi esfaqueado.

A casa da sr.a Maria do Adrião — o nosso hotel — era respeitada, e nós, saindo de lá, não faziamos detença na povoação.



Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, C. 1880
Imagem: ComJeitoeArte


Os pescadores, pobre gente, quando ha peixe andam na sua faina; quando elle falta vêem-se á porta das choças, ou na praia, olhando, tristes e sombrios, para o mar alto. E d'alli que lhes vem a ventura e a desgraça. Aquella vida, que para nós tem uma grande poesia, traz-lhes sempre deante dos olhos duas sombras negras — a fome em terra, quando escasseia o peixe, e a morte, quando os surprehende o vendaval !


Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Sérios e concentrados, mantinham um discreto silencio, quando appareciam onde nós estávamos. Com os rostos semi-occultos, os gabões caídos em largas pregas, tinham um quer que de sombras, movendo-se lentamente naquelle fúnebre scenario.

A nota alegre, única, mas esta vivíssima, eram as creanças. Essas, sim, que vinham sempre visitar-nos. Nós, para elles, éramos a novidade — com os nossos trajos, armas, e perdigueiros. Elles — o bando buliçoso, saltão e gárrulo — corriam para nós, cheios de pittoresco e de vida. Uns de gabõesitos pardos outros de camisolas riscadas, brancas, azues, vermelhas; alguns semi-nús, mostrando pelos rasgões da fato a pelle trigueira, com os seus tons fulvos ; todos descalços; os cabellos, pretos, loiros, arruivados, crespos e revoltos; queimados os rostinhos pelo sol, e crestados pelo nordeste.

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Algum, mais atrevido, colleava, lenta e sorrateiramente, até á casa do jantar; os outros miravamnos de longe por entre as portas, com os olhos vivos, esperando a saída. Poderia a vista satisfazer-lhes a curiosidade, mas nós, a este prazer, puramente óptico, ajuntávamos alguma coisa mais tangível.

Os primeiros a receber os nossos dons eram os mais velhos, os que nos tinham prestado algum serviço, que elles, no acto, não se esqueciam de allegar. A esta distribuição seguia-se outra, que era geral. Atirávamos para o monte.

Aspecto do bairro piscatório da Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Tinha que ver então ! O bando precipitava-se, ávido e furioso, sobre as mealhas esparsas na arêa. Era uma confusão vivíssima de corpos ás rebatinhas, de cabecitas resfolegantes e afogueadas, de mãos aduncas, luctando, qual de baixo, qual de cima, pela posse do metal. Aqui e alli, d'entre a revolta mole, erguiam-se alguns, cheios de alegria e de poeira, mostrando orgulhosos o premio da lucta. E ella repetia-se, se um olho mais agudo descobria no chão algum cobre, que aos outros escapara.

Depois os vencedores dispersavam. Alguns, raros, paravam nos limites da povoação, levando as mãos aos barretes ; outros iam-se logo, retouçando, aos pulos, pelo areal. Mas alguns ainda nos acompanhavam. Não era o amor, nem a gratidão ...

Costa da Caparica, crianças filhas de pescadores, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Não tinham apanhado nada, e vinham lastimando-se, até que alguma alma, impaciente ou apiedada repartia com elles os últimos miúdos. Um vintém para cinco, dez réis para três ... Contas difficeis de fazer, mas que elles lá resolviam com a sua arithmetica de pequeninos.

Eram os prémios de consolação.

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*   *


Com titulos bastantes para ser procurado pelos mestres da venatoria, não os tinha eguaes este sitio para ser frequentado por senhoras. Quem alli as levava, não era a fama das amenidades do logar, éramos nós, os caçadores, auxiliados por um certo estimulo artístico, o da curiosidade do contraste — ver a povoação dos pescadores, com as suas casas de colmo, armadas sobre os barcos!

Um trecho da Africa, á vista, e a dois passos de Lisboa !

Das classes populares também alguns alli iam fazer as suas ágapes campestres. Mas essas, não raro, tinham um epilogo cómico, quando não trágico. Vinho quasi sempre, e, ás vezes, sangue. 

Casas de cal e arêa havia lá então duas ou três. Na parede exterior d'uma d'ellas lia-se uma inscripção, em grossas lettras d'almagre, commemorando que a modesta vivenda fora honrada, tal dia, por um rei nosso. Se bem me recordo, foi D. João VI. E também me mostraram o tinteiro de faiança nacional, pintalgado de amarello, vermelho e verde — tons crus — de que elle se serviu para escrever ou assignar não me lembro o que.

Casa da Coroa, da qual se dizia que hospedou D. João VI.
Imagem: Carlos Caria

Este sertão, inhospito para gente civilisada, foi, durante muitos annos, talvez pelo seu estado de natureza primitiva, um paraiso para os caçadores! Um completo mattagal, alto, denso, e espinhoso. Invernos havia, porém, abençoados, em que parecia ter-se alli aberto a arca de Noé! A caça de arribação em bandos!

Eram abibes, tarambolas, narcejas, patos, maçaricos reaes, gallinhas d'agua, borrelhos, toirões, codornizes, e depois lebres, e até gallinholas e perdizes, que desciam do monte — tudo com o seu acompanhamento de aves carniceiras, corvos, grifos e milhafres !


Quando Bulhão Pato começou a frequental-o com os seus amigos, ainda o Juncal era isto. Hoje lembra o "locus ubi Troja fuit"... Aqui foi o Juncal! ... Catado de norte a sul, de leste a oeste, dizem-me que não deita de si quatro codornizes!

Não vou lá, ha, talvez quinze annos, e no ultimo dia as minhas perdigueiras levantaram-me apenas duas!


Trafaria, Vista dos Moinhos, ed. Manuel Henriques, 08, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ephemeros todos os paraisos! Até os dos caçadores! (1)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 138, domingo 15 de maio de 1898

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Bulhão Pato, Zacharias d'Aça, O Occidente n.° 717, 30 de novembro de 1898
O Occidente n.° 434, 11 de janeiro de 1891
Bulhão Pato, Paquita, Typographia Franco-Portugueza, 1866Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896
Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo,
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bulhão Pato, Madrugadas de caça, por Zacharias d'Aça (IV)

O nascer do sol no Tejo, o nosso formoso e grande rio, em dias de outono, é um dos mais encantadores espectáculos que os olhos podem gosar, e esta digressão, rio abaixo, até Belém, e d'ahi para o sul, era um delicioso "lever de rideau" das nossas caçadas, a que nem sempre correspondia o resto do divertimento. Nisto como em tudo.

Lisboa, Sol Nascente, Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Preferiam os barqueiros ir á vela, nós a remos. Não tínhamos a distracção da manobra — o cambiar do panno, o procurar o vento, o regular o leme e a escota — mas por isso iamos mais quietos, vendo tudo melhor e conversando.

Vue de la tour de Belem à Lisbonne, Jean-Baptiste van Moer, 1868.
Imagem: Sotheby's

Em matéria de conversar ha os que gostam de falar e os que preferem ouvir. Bulhão Pato é dos primeiros, eu dos segundos. O que eu sei não é novo para mim: o que os outros me dizem pode sel-o. E d'aqui não se segue que eu seja modesto, antes talvez se deva concluir que sou curioso.

Talento e palavra espontâneos, e sempre em acção, o poeta de todos os assumptos tira partido; e elle, que não é um naturalista, um sábio, é um fino observador da natureza, e na sua conversação o mundo real reforça e concretisa o imaginativo.

Assim como os companheiros, variavam os assumptos. Se eram artistas, músicos, predominava o lyrismo — S. Carlos, os tenores, as "primas-donas", os "maestros"; se nos acompanhava algum politico — caso raro, que os políticos atiram a outra caça — era a oratória tribunicia — José Estevam, Passos Manuel, Rodrigo, Rebello da Silva, Garrett; se iam mundanos, então bailes, amores e aventuras. Não faltavam assumptos para os quadros, nem ao artista as cores para os pintar.

Uma coisa havia prohibida na nossa sociedade — o silencio. Quando nós, ao largar da Rocha, nos conservávamos cinco minutos calados, Bulhão Pato protestava: — Leva de rumor! — dizia elle, apostrophando comicamente o nosso mutismo. Parece que morreu aqui alguém! Ó' Diogo, tu passaste mal a noite?

D. Diogo, d'uma antiga e nobre familia do Alemtejo, era um dos mais íntimos amigos do poeta. Era-o desde a infância: tinham frequentado juntos o collegio inglez da rua do Quelhas. Nascera na Índia. Os olhos e os cabellos pretos, os dentes alvíssimos, e a côr bronzeada do rosto, denunciavam nelle o exotismo da procedência, a influencia do sangue oriental. Excellente rapaz e intelligente, era um magnifico companheiro — d'estes que não se sentem, que não pesam.

Como todos os caçadores que são um pouco artistas, Diogo não desgostava do pittoresco, e tinha, de tempos a tempos, os seus caprichos de "toilette". Um dia, depois de ostentar aos nossos olhos de amadores uns lindos ceifões amarellos de pelle de cabra, preparada á cordoveza, debruados de encarnado, e orlados de phantasiosos florões, abertos sobre panno da mesma côr — obra-prima dalgum artista andaluz — para completar o effeito tirou da sacca um barrete vermelho, um barrete, com uma longa e fornida borla preta, e pol-o na cabeça, ageitando-o artisticamente. Diogo não era bonito, mas aqui a côr salvava o desenho.

Um esplendido modelo para um Fortuny! A paleta completa — uma orgia de cores! Vermelho, preto, encarnado, amarello, estrellantes, illuminados pelos raios do sol nascente, e destacando sobre o fundo glauco do mar! O que faltou foi o pintor.

Chegou a vez do cigarro, e a bolsa do tabaco e o fuzil de Diogo também eram elegantemente historiados.

Depois de o accender, elle relanceou os olhos alegres sobre nós, acabando pelos pôr em Bulhão Pato.

No olhar de Diogo havia uma provocação á galhofa, na sua boca brincava um sorriso gaiato.

Então Pato, que estivera a olhar para elle, desde a imprevista apparição do barrete vermelho, disse-lhe, com uma grande seriedade:

— Estás bonito, estás. Pareces o bey de Tunis!

Bey Sadok (detalhe) por Ahmed Osman c. 1865.
Imagem: TheHuffingtonPost International

O effeito foi fulminante, e a gargalhada geral. O próprio Diogo ria como um perdido.

O ataque não ficou, porém, sem réplica. Cruzados os ferros, houve alguns "coups de bonton" bem executados, bons ataques e boas respostas, próprias de dois jogadores que se conheciam, que se estimavam e que se respeitavam. Um assalto de chistes para a risota.

Travado sobre a superfície das aguas, participou da natureza dellas — os golpes não eram sanguinolentos, mas eram salgados... E por isso lá ficaram no "salso argento".

E nós ainda a rir, um barco a passar perto, e um dos filhos do Lourenço a gritar-lhe:

— Ai, minha perna, sr. doutor!

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os varinos acudiram á resposta, na linguagem que lhes é peculiar, e que, se é própria, não é correcta. Elles usam de bragas — mas não é na lingua.

As nossas baterias voltaram-se então para elles, e quando, já longe, não os podíamos ouvir, ainda os viamos gesticular... Era uma diversão aquella quasi obrigada, entre os frequentadores do rio.

As gaivotas vinham, ás vezes, reconheccr-nos de tão perto, que, apesar de não cultivarmos este gé- nero de "sport", se ellas se contassem á ida, haviam de achar alguma de menos.

Isto, porém, era raro. Patos também, se passavam ao alcance, eram saudados, mas de ordinário alteavam, ao ver-nos, e apesar do que se costuma dizer, não lhes chegava o chumbo — não caíam.

Um dia foi que o "lever de rideau" — o prologo — esteve quasi a ser a tragedia. A espingarda de Bulhão Pato — era a de Eybar — deixara-a elle ficar em Allemquer, onde fora caçar, e Cabral, que de lá a trouxera, mandou-lh'a na véspera. Cabral —um grande e experimentado caçador — era tudo quanto ha de mais cuidadoso; podia-se-lhe chamar sem "calembour" [trocadilho], o rei das cautelas. Mas uma vez, todos erram, e quando Bulhão Pato, que tinha o costume de dar um fogacho á espingarda, antes de principiar a atirar, o fez sem a menor desconfiança, porque nenhum dos pistons trazia fulminanie, d'um dos canos saiu incendiada a polvora solta, mas o outro disparou um tiro a valer! Encaramo-nos Todos... Estavamos [felizmente] illesos.

O que nos valeu loi o ter elle, também prudente, disparado, como usava sempre, por cima da borda.

— Hein! disse o poeta — de que nós escapámos! Mestre Cabral d'esta vez esqueceu-se!

E foi este, em tantos annos, o único accidente. que teve assomos de gravidade.


Trafaria, c. 1900.
Imagem: Delcampe

— E o mar, nessas travessias? perguntará o leitor, curioso destes pormenores.

Como ao outono se segue o inverno, algumas fizemos em que o catraio do patrão Lourenço dançava um tanto sobre as aguas...

Um dia, que nós linhamos escolhido para dar uma saltada ao Juncal, amanheceu-nos carregado o céu, asperrinio o sudoeste, promettendo agua... de inundar um Sahara!... A resolução estava tomada, e nós fomos por terra a Belém. Lourenço, que não nos viera buscar, por ver a feia catadura do tempo, levou-nos ao caes, e ahi, com os braços abertos e as mãos espalmadas, mostrando-nos as ondas verde-escuras, crespas, picadas pelo vento, franjadas de espuma, e o mar deserto, disse-nos:

— Os senhores bem vêem... Nem um pau ao cimo d'agua! E accrescentou, para reforçar — Os outros senhores que aqui também costumam vir, foram-se para casa...

— Então você, Lourenço, não nos quer levar... Tem medo? perguntou Bulhão Pato, olhando depois para mim.

— Eu não, senhor. Medo não tenho, mas é que os senhores ficam enxovalhados. Leval-os, levo-os eu. Agora enxutos ... Por isso é que eu não respondo.

E o intrépido algarvio — elle era de Ferragudo — chamou, com o mesmo rosto sereno, os filhos, e saltámos todos para o barco. Armada a vela, que o vento logo enfunou, partimos. Atravessámos, com a borda quasi sempre rente da agua, e, uma ou duas vezes, eu senti fugir o banco debaixo de mim...

Já está morto um dos nossos companheiros d'então, que em taes casos se sentava logo em baixo, nos paneiros.

Práticos do rio, habituados a viver nelle, os nossos homens conheciam-n-o como os seus dedos; as correntes da agua e do vento viam-nas tam bem que, nesta manobra de virar de bordo, debaixo do vento, o catraio obedecia como um fino corcel, quasi sem parar na carreira, com tal certeza era feita, tão ajustados se concertavam os movimentos do que ia ao leme com o que cambiava o panno!

Iamos fazer o ultimo bordo, mais perto da terra, e que era o mais serio...

— Agora! disse o velho Lourenço, com os olhos na vela, ao filho, que ia em pé junto do mastro. O catraio, que estava a tocar no vento, parou um instante, atravessando; a vela cambiou e elle seguiu. Mas, nesses momentos, quem vae no barco e não é do mar, é que lhe sente o balanço...

Conforme elle dissera, chegámos a salvo, se não enxutos. Ainda assim a aspersão foi levissima, se attendermos ao que promettiam o céu, e o mar!...

Bulhão Pato teve muitas mais occasiões de affrontar a torva catadura do Padre Tejo, e depois, ao largo, as temerosas iras do Oceano. 

Die Mündung des Tajo bei Lissabon, Hubert Sattler, 1868.
Imagem: Salsburg Museum

Mas, como tanto se pode morrer afogado aqui como lá, sente-se um grande prazer, quando, roçando pelo perigo, lhe escapamos... pela tangente. (1)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 137, domingo 1 de maio de 1898

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Bulhão Pato, Paquita, Typographia Franco-Portugueza, 1866Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896
Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo,
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898
 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bulhão Pato, Madrugadas de caça, por Zacharias d'Aça (III)

O dia oito de setembro era o escolhido por Bulhão Pato para a abertura das suas caçadas do inverno no sul do Tejo, e o sitio preferido o Juncal da Trafaria.

Vista da Trafaria — Saída da barca Martinho de Mello, João Pedroso, gravura
Imagem: Archivo Pittoresco, vol. X, 1867

A meia hora de caminho de Lisboa, e com uma travessia encantadora nesses formosos dias do outono, tínhamos alli, por assim dizer, a nossa coutada — nossa e de poucos mais, felizmente. Os outros frequentadores eram os ranchos de José Maria Villar, e de João Lourenço, ambos creados da Casa Real, e os srs. Gourlades, da Junqueira.

Os caçadores de Lisboa, a uns desviava-os de lá o terem de ir em barco de vela, e a outros levava-os para os pinhaes de Corroios a falta de bons cães ou a ambição das gallinholas. Assim divertidos de concorrerem com- nosco, era raro encontrarmos competidores.

Corroios, Manuel Henrique Pinto, finais do século XIX.

Quando, pelas cinco da manhã, eu chegava, equipado e armado, á casa do poeta, que morava então — 1867 — na rua das Praças, á Lapa, já lá estavam, sentados á porta, dois vultos, que de longe e pelo escuro eu apenas distinguia: — eram o Lourenço da Pinha, o nosso barqueiro de Belém, e um dos filhos.

O bairro jazia, as ruas eram ermas, mas lá dentro tudo estava a pé. A morada do poeta, que ainda hoje conserva o mesmo aspecto, é sobre si e tem a apparencia d'um cottagee — rez-do-chão, primeiro andar, e, sobre este, outro pavimento mais baixo, com quatro janellas, d'onde se desfructa, por cima dos telhados fronteiros, o Tejo — vista que tanto realça e alegra a casaria destes bairros da Lapa e de Buenos Ayres.

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica, George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Government Art Collection

O Faliéro e a Medóra, já despertos, latiam no canil, ruidosos e contentes; na cozinha o José, robusto e sympathico rapaz, honra da raça d'além Minho, com as suas botas d'agua, a camisola de flanella de listas, a sua cara sempre alegre, e a Maria, a creada, davam a ultima demão nos aprestos do almoço e no arranjo das bagagens, porque, ás vezes, estas excursões duravam dias. O poeta, installado no seu quartel general venatorio, em casa da sr.a Maria do Adrião, na Costa, havendo caça e dias amenos, deixava-se lá ficar, até que algum sudoeste bravio, dos que costumam açoitar aquella planície d'areia, o forçava a levantar vôo e recolher aos abrigos da cidade.

A primeira pessoa que eu via áquella hora matinal, e que, no alto da escada, me dava os bons dias, era sua irmã, a sr.a D. Maria da Piedade, com o seu ar senhoril, e a sua voz alta e vibrante. Muito parecida nas feições com elle, não o era menos no fino espirito e na amenidade do trato. Mais velha do que Raymundo foi, por assim dizer, sua segunda mãe. Acompanhou-o na vida, e tudo com elle participou — a gloria e a adversidade. Tinha um animo varonil a illustre senhora: aquelles primeiros annos da sua mocidade, passados em Hespanha, no meio das guerras civis, deram-lhe a tempera. Era uma alma forte, e por isso mesmo egual, serena e resignada, na boa e na má fortuna.

Estes Bulhões são de bom. e antigo sangue. Manuel de Bulhão foi um homem em toda a accepção da palavra — honrado, forte, e valente.

Transposta esta primeira estação, em cima estava o poeta, já a pé, vestindo-se, espreitando pelas janellas, voltadas ao sul, o cariz do céu, e o rumo do vento, e fazendo o prognostico da caçada.

Alli era o seu miradouro, o seu gabinete de trabalho; alli recebia os seus intimos, atli compunha os seus poemas. Aposento modesto e simples, que tinha nas paredes, por único ornato, uma cercadura feita com os bellos retratos dos contemporâneos illustres, gravados por Souza, para a "Revista Contemporânea" [v. Joaquim Pedro de Souza (1818-1878), Retratos de portuguezes do século XIX].

Ia eu subindo a pequena escada de dois lanços, e já o ouvia falar:
— És tu, Zacharias?
E logo, em seguida, quando eu abria a porta:
— Temos caçada. O dia esplendido! Ja la está o Lourenço?

E depois, sempre poeta, trocadas as primeiras palavras, dizia, com a sua máscula e bella voz. os conhecidos versos da Chácara da Nazareth:

Manhãs frescas de setembro, 
quando orvalho está a cair: 
frescas manhãs de setembro, 
quem nas poderá dormir!

E saltava para estes — tão vivos, que todos os dirião dum caçador!

Voam corseis e sabujos!
Apupa, apupa, clarim! 
Que esta sina de fragueiros 
não tem descanço, nem fim!

E como commentario, a fechar, dizia:
— Deixa-os lá. É um grande poeta.

A "toilette" estava terminada. Afivellado o cinto, mettidas nelle as luvas de camurça, dando um relance dolhos em volta do quarto, como a despedir-se:
— Agora vamos ao café, que sem esse viatico não ficamos amanhados. Vae também uma golada de "cognac"? A manhã está fria.
E, pondo-me a mão no hombro:
— Rapaz, rapaz, dizia-me elle — estás nos teus vinte annos!...

Lisbon from the Rua de San Miguel, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Datavam de pouco as nossas relações; eu tinha então vinte e sete annos cumpridos, elle devia ter trinta e seis. Os meus vinte já lá ficavam para traz na estrada, mas eu, felizmente, sempre fui mais novo que a minha edade. E ainda hoje tenho esse defeito. Surprehendo, ás vezes, em mim ingenuidades infantis — auroras, esplendores, e soes poentes de dias, que ha muito passaram... Na minha memoria evoco esses phantasmas, que me apparecem vivos, e travo dialogo com elles... E tudo isto é "pela virtude do muito imaginar". A phantasia, a memoria viva, fazem-nos o milagre destas resurreições!

Tomado o viatico, accesos os cigarros Pato prefere a cigarrilla ao havano — despediamo-nos de D. Maria da Piedade, e partíamos. Ella ficava — algumas vezes também nos acompanhou nestas excursões — mas nós tínhamos a certeza de que o seu pensamento não nos desamparava, porque no seu espirito, como no de todos, á idéa da caça andava associada a do perigo.

Desciamos a rua de S. Domingos e chegávamos á rocha do Conde d'Obidos, atravessando as ruas, ainda desertas. Os Lourenços e o José tinham marchado na frente com as bagagens.

Vista de Lisboa no Lado Oeste, Arte Gravura João Pedroso, 1865
Imagem: Hemeroteca Digital

Assim abriam para nós esses dias — jamais esquecidos. Alvoradas alegres de rosado oriente e céu d'anil, ou manhãs pardacentas, húmidas e tristes, encontravam em nós o mesmo animo. Nos dias bonitos tínhamos a crença; nos feios era a esperança, e em todos a grande poesia da mocidade...

O tempo voou, mas, todos os annos, nos primeiros dias de setembro, nas lindas madrugadas do outono, serenas e cheias de luz, lembro-me com saudade de quando, ao entrar no quarto do poeta, eu era saudado com os versos da caçada do Alcaide-Mór de Affonso Henriques:

Manhãs frescas de setembro, 
quando orvalho está a cair;

V

A rocha do Conde de Óbidos — João Lourenço

Bulhão Pato no Juncal

Aquella rocha do Conde d'Obidos — assim chamada por ser alli junto o solar, o palácio dos illustres fidalgos d'este titulo — vemol-a hoje mascarada com parapeitos, varandas e escadas, e coroada, no alto, com uma pequena praça ajardinada, donde se gosa a linda vista do nosso rio. "Quantum mutata ab illo"! Era então toda egual a uma nesga, que ainda lá se conserva — uma encosta pedregosa, adusta pelo sol, batida dos ventos, escalvada pelas chuvas, coberta aqui e alli por uma vegetação rachitica e parda. Um trecho da natureza selvagem., uma verdadeira arriba do mar!

Cais de Santos, vista da Rocha do Conde de Óbidos, Alfredo Keil, 1873.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Descia-se para o rio por um longo corredor, entre dois muros — um do palácio, e outro da cerca do convento das Albertas — e a escada que conduzia ao pequenino caes [cais de José António Pereira], lá em baixo, era um verdadeiro quebra-costas — tortuosa, os degraus irregulares, abertos uns na rocha, outros na terra. Do alto da rampa, verdadeiro precipicio. vi eu, um dia, sendo muito novo, cair um marinheiro inglez ébrio. Um horror!

Parece impossivel que aquillo fosse, até aos nossos dias, um dos caes de desembarque d'esta bella cidade! Era ahi que embarcávamos.

Arrumadas as malas, seguros os cães, os remos caíam na agua.

— Jesus! dizia Lourenço.
— Maria! segundava o filho.

E o catraio seguia, de voga arrancada, rio abaixo, direito á Trafaria, quando não a Belém, onde iamos buscar o João Lourenço — o João da Burra, como lhe chamavam desde pequenino, duma burra com que da sua villa nos arredores — Cintra, creio eu — costumava elle vir á cidade.

Lisboa, Sol Nascente, Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Caçador de El-Rei D. Luiz, morava em Belém, e, quando não tinha serviço no Paço, acompanhava-nos nestas digressões ao Juncal.

De boa estatura, e robusto, o olho pequeno e vivo, a tez rosada, as feições regulares, o nariz aquilino, João parecia um abbade minhoto, dos que tem bons presuntos na despensa e bom vinho na adega.

Boa espingarda, bom garfo, bom copo, bom rosto, e, portanto, bom companheiro, era, além de tudo isto,.tino como um coral. Rapaz, tilho do povo, lizcra-sc homem na cidade ; tinha, o que é raro nos homens da sua classe e profissão, aprendido a sciencia difficil de se manter sempre no seu logar. mas quando queria obsequiar alguém, fazia-o com a gentileza d'um fidalgo.

Um exemplo.

Homem videiro, abrira elle em Belém, defronte dos Jeronymos, um restaurante, a que poz o nome de Caçador. Um dia, em que eu fui visitar a egreja, demorei-me mais, e eram horas de jantar, quando de lá saí. A minha casa ficava longe, dirigi-me ao Caçador. Prevenindo Já a hypothese de lá estar o dono, entrei pela porta do lado. O creado que veiu receber as minhas ordens, parece que me conhecia, porque elle a voltar costas, e João a apparecer com o seu rosto prazenteiro. Eu disse-lhe o que queria, elle sentou-se no logar fronteiro, e travámos a conversa, é claro, sobre a matéria vasta — a caça, e artes e historias correlativas.

Quando eu ia no fim do primeiro prato, João, tomando os ventos, disse-me:
— Está-me cheirando bem. Parece-me que lhe faço companhia, se me dá licença.
— Ora essa. O João está na sua casa.

E jantámos os dois, entremeiando o paio com ervilhas, e as eirozes grelhadas, com historias, algumas mais salgadas do que os guisados, que íamos saboreando.

Quando accendemos os charutos, e eu pedi a conta, elle fez um signal ao servo, que desappareceu, e logo voltando-se para mim:
— V. Ex.a deu-me a honra de jantar comigo na minha casa, e eu estou pago. Não deve nada.

É claro que não insisti. Se teimasse, eu é que era malcreado.

Tempos antes fizera-lhe uma pequenina fineza, e elle quiz-me mostrar que não a havia esquecido. Podia contar d'elle outras historias, mas esta basta.

Torre de Belém, Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

João Lourenço trazia comsigo, para as nossas caçadas, os seus cães, na companhia dos quaes vinham alguns, que pertenciam á Casa Real, e que, seja dito de passagem, não envergonhavam os nossos. E não trazia só isso; muitas vezes vestia também o seu pittoresco trajo do Real serviço, e com elle vinham outros caçadores da Casa, bem armados, e bons atiradores.

Quem visse então no Juncal Bulhão Pato, e os seus amigos, com aquella comitiva de caçadores, perdigueiros, e batedores do sitio, que se nos aggregavam, e attentasse na chapa, com as armas reaes de prata reluzente, que ornava o chapéu á "Mosqueteira" do nosso "moço do monte", cuidaria que éramos alguns príncipes saciados de caça, que, para variar o "menu" cynegetico de Mafra e Villa Viçosa, iam, pedestre e burguezmente, atirar alli ás codornizes e narcejas.

Caçadores reaes e verdadeiros éramos nós, e príncipes também ás vezes iam dois: um era Lopes Cabral — que nós eleváramos a essa dignidade; o outro tinha-se elevado a si próprio, era Bulhão Pato — mas o seu principado era, e é, na Republica das Lettras. Tem menos fausto, menos representação, e incomparavelmente menos rendimentos, mas tem sobre os outros uma vantagem, uma absoluta superioridade: os seus súbditos podem não lhe tirar o chapéu, podem discutil-o, podem não o ler — que é a máxima affronta — mas o que não podem é obrigal-o a abdicar!

Bulhão Pato em Uma arribada em calma branca, Revista Serões,  1907.
Imagem: Hemeroteca Digital

As coroas dos poetas estão acima das revoluções. (1)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 136, sexta-feira 15 de abril de 1898


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Bulhão Pato, Zacharias d'Aça, O Occidente n.° 717, 30 de novembro de 1898
O Occidente n.° 434, 11 de janeiro de 1891

Bulhão Pato, Paquita, Typographia Franco-Portugueza, 1866Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896
Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo,
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Bulhão Pato, Poeta — Pintor do mar — Sportsman, por Zacharias d'Aça (II)

Esbocemos agora, a traço largo, a physionomia, a figura do poeta no campo, n'esse meio, tão outro e diverso das salas e academias.

Caparica. Vista da enseada da paulina e do Lazareto instalado na TorreVelha.
Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

No seu trajo de caçador, rodeado dos companheiros — grupo sempre pittoresco, pela variedade dos typos, e a que dão ainda mais vida e realce os cães, os perdigueiros, com a desenvoltura dos seus movimentos — Bulhão Pato lembra-nos um desses fidalgos d'outro tempo, poetas cortesãos e fragueiros, tão conhecidos nos saraus do paço da Alcáçova, como nas batidas e monterias de Salvaterra e d' Almeirim ; aquelles que corriam com egual ardor as aventuras do amor e as da guerra, affrontando-lhes os perigos com a mesma galhardia.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Individualidade como a sua, tão accentuada, tão cheia de caracter, não conheço outra entre os nossos poetas contemporâneos: é poeta em toda a parte, a toda a hora, com toda a gente — na rua, no café, á mesa d'um hotel como no lar domestico, no salão das duquezas como nas salas da Academia! Em Veneza, um dia, entrando num dos hotéis mais elegantes, para jantar, o creado — um original, que sabia o Dante de cór — a poucas palavras trocadas, encarando com o nosso amigo, disse-Ihe, interrogando e affirmando ao mesmo tempo com o gesto:

— Voi siete poeta?...

E d'ahi a pouco os dois tinham travado dialogo sobre litteratura.

Nasce-se caçador, como se nasce poeta, como se nasce orador. Bulhão Pato é tudo isto, de nação, como diz ainda o nosso povo dos campos. Ser caçador é nelle quasi um talento, uma das formas do seu ser.

Atirar ás codornizes nos trigaes, perseguir as perdizes nas vinhas, chofrar as narcejas nos alagamentos, descobrir as gallinholas nas estevas, nos pinhaes, esperar a passagem das rolas e dos pombos, carregar uma lebre na campina, correr um veado, emprazar um javali, fazel-o sair da "mancha", esperal-o de cara numa "porta", é um prazer, para os que procuram essas sensações fora da vida banal das cidades, nos campos, nas florestas, nos mattos ermos e selvagens. E é mais fácil sentil-o, do que explical-o aos que, extranhando-o, por isso mesmo não o podem comprehender. Tanto valeria explicar a um surdo, ou a um cego, as bellezas da musica e da paizagem.

Haurindo o ar fresco e embalsamado dos campos; dilatando a vista pelas verdes e extensas pradarias, ondulantes como o mar, pelos doirados vinhedos, pelos cimos quebrados das serras, entra-se em mais intima communhão com a natureza.

Não são ruas alinhadas e poeirentas, edifícios rectangulares, sombras geométricas no chão, nem céu recortado, aqui e alli, pelos telhados da casaria urbana. Terra, luz e ar, estão alli a descoberto, não nol-as encobre a mão do homem. O sol irradia esplendido no limpo azul do tirmamento, a aragem é pura, e a própria terra envia-nos o perfume das ervas rasteiras e das florinhas agrestes, que pisamos.

Paisagens de caça:
Raimundo António de Bulhão Pato, 1829-1912;
sel. textos, org. e notas Nuno Sebastião.
cf. Bulhão Pato, Paizagens, Lisboa, Rolland E Semiond, 1871;

capa de Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Ribeira Seca

Neste contacto com a terra o homem rejuvenesce, e á serenidade dos campos responde em nós uma alegria, que não é a que rompe d' entre o convivio das festas ruidosas, mas outra, mais funda, de que depois nos lembramos, e nos apparece, no entardecer da vida, com o ineffavel encanto da saudade.

E no meio d'esse scenario rústico aquelle poeta, que todos — os que sentimos e amamos a natureza, trazemos dentro de nós, occulto e tácito, acorda, e nós vamos sèguindo-o, e a phantasia vae com elle a voejar, a voejar...

Nascido em Bilbau e creado em Deusto, aldeia próxima, diz o poeta, nas suas, "Memorias" "que era a peste dos ninhos". Alli perto estavam as Encartaciones, onde nasceu António de Trueba, o popularissimo auctor do "Libro de los cantares", e por ventura então outro inimigo das avesinhas. Já La Fontaine o disse: "Cet âge est sans pitié", e ellas poderão dizer que as outras edades não são melhores.

Os cantos da infância ouviu-os elle truncados pelo estrondear da fuzilaria: era a caça ao homem — as embuscadas e recontros de "carlistas" e de "christinos". Scenas dramáticas, tragedias, como a da historia d'aquella Maria Salomé, que elles fuzilaram! Valente mulher, destemido e dedicado coração! Era a ama do poeta.

Aquellas paginas, que elle me dedicou — em termos para mim muito honrosos, e que eu aqui, em publico, lhe agradeço — aquelle nefando assassinio, não o releio sem um estremeção de horror!

Reconhece-se no homem feito o forte leite que bebeu, e as primeiras auras que respirou. Bulhão Pato tem, com effeito, na sua accentuada physionomia, na entoação alta e viril da voz, nos ademanes, no porte elegante e erecto, apesar dos annos, algo, se não muito, da aristocrática altivez dos habitantes d"aquelle rincão da Hespanha, que é ainda hoje — em tempos de republicas — o baluarte, o castello roqueiro, onde se abrigam as velhas tradições e crenças peninsulares.

Não foi, porém, nos campos de Deusto que elle aprendeu a manejar a espingarda: saía apenas da infância, quando Manuel de Bulhão, seu pae, voltou com a familia para Portugal.

Abundavam então amadores illustres nas classes mais elevadas da sociedade portugueza. Na aristocracia, na alta magistratura, entre os grandes proprietários, Redinhas, Atalaias, Arcos, Minas, Bacellar, Nizas, António Borges, de S. Miguel, Mira, Vaz Preto, Laborim, Vimioso, tão firme na sella como na pontaria — e é o caso de se dizer mais uma vez — j'en passe, et des meilleurs — todos notáveis, uns como atiradores, outros como cavalleiros, mantinham alto o pendão da grande irmandade de Santo Huberto; sobresaindo-lhes, pelo fausto e pela magnificencia das suas caçadas, o fidalgo do Farrobo, em tudo grande — grande senhor e grande artista.

Havia n'esse tempo mais riqueza nos palácios — e mais caça nos campos.

Ficaram na memoria dos caçadores as famosas espingardas inglezas de Manton, de Purdey, que se pagavam de vinte a quarenta moedas; e os que viram, nesses dias afortunados, trabalhar os cães das raças do Marquez das Minas, do conde da Atalaia e do visconde da Praia, recordam-se ainda hoje com saudade da belleza de formas, da elegância e da firmeza desses magníficos animaes. Raças hoje extinctas e não substituídas. Os do visconde da Praia comprou-os elle em Paris, numa exposição, e deu, se não me engano, cincoenta libras pelo casal. E, se me engano no preço, é para menos.

Não são menos famosas as caçadas principescas nas terras do Farrobo.

Foi com estes amadores — em tudo mestres — nesta grande arte da caça, os "curiosos", os "amadores", é que são os mestres, e só elles o podem ser, tão complexa ella é, porque, sendo arte, é feita de sciencias — foi, digo, com taes mestres que o joven poeta, tão precoce nestes campos como no das lettras, fez as suas primeiras armas.

Quando eu me alistei na venatoria confraria, foi Bulhão Pato meu padrinho, e na companhia d'elle perpetrei os meus primeiros crimes. Que Santo Huberto m'os perdoe. A minha primeira victima foi um maçarico. íamos no catraio do Lourenço para o Juncal da Trafaria, que então — "hélas!" — ainda tinha codornizes, lebres e narcejas. Foi ha trinta annos, e parece-me que o estou vendo, ao pernalto, cair na agua!

Trafaria, Vista dos Moinhos, ed. Manuel Henriques, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Antes disto já me tinha exercitado, atirando aos gaivões, que todas as tardes vinham fazer as suas correrias aéreas no alto da quinta do Desembargador, e por cima da minha casa, em S. Francisco de Paula.

A anglomania não se apoderara do poeta, apesar da moda e da tradição, já antiga. A sua espingarda d'então era uma bella arma hespanhola de Eybar — canos de "herraduras" — como nelles se lia em lettras d'oiro, e oitavados até um terço. D'oiro era a mira, e com elle discretamente ornada na bôcca e em volta da fecharia [das platinas] . Nada de oriental nesta ornamentação sóbria — um filete apenas. O guarda-matto [a fecharia] tinha mola de segurança. Elegante e solida, esta caçadeira havia dado as suas provas: a esse tempo entrara já em muitas batalhas, e pouco antes Lopes Cabral — um athleta — matou com ella, em um dia, na Gollegã, setenta e cinco codornizes!

A Eybar succedeu Paris, e a espingarda que lhe conheço em effectivo serviço, ha mais de vinte annos, é uma Gastine-Renette, do systema Lefaucheux, cinzelada e acabada com a maior perfeição. Arma fina e de preço.

Gastine-Renette é úm dos mais illustres entre os fabricantes d'armas contemporâneos. Foi o "Arquebusier" de Napoleão III, o seu fornecedor predilecto de armas de caça e de guerra.

No cabide de armas do poeta vêem-se mais duas — uma de fogo central, belga, e outra Flobert-Remington.

Traiçoeira esta ultima. — Como os machos d'arrieiro morde e dá couce! O cão levanta, e o tiro vem, ás vezes, também para a cara do atirador! Perigoso systema.

Dos cães da espingarda para os das perdizes a transição é fácil, e está feita.

O capitulo dos nossos fieis alliados, e dedicados companheiros, é para nós ainda mais importante do que o das armas; com uma espingarda medíocre pode-se caçar — é com ella que atira a maior parte dos caçadores — mas com um cão mau é impossível: a caça que levanta é por acaso, e, depois de morta ou ferida, uma não se acha, á outra perde-se o rastro, e a maior parte fica no campo para as genetas, rapozas e milhafres.

Pois os paragraphos deste capitulo são brilhantes; Bulhão Pato tem tido a fortuna de caçar na companhia dos seus amigos, com óptimos perdigueiros, e, entre os seus, conheci algumas "espadas" de primeira ordem. Teve o "Pombo", soberbo animal — presente, se não me engano, do morgado António Borges da Camará Medeiros, distincto amador, da ilha de S. Miguel; a "Medóra", lindissima perdigueira, uma estampa, fina de desenho e de côr, e que era o enlevo de Alexandre Herculano, apesar delle não ser caçador.


A estes seguiu-se o "Mazeppa" — um verdadeiro tyrano dos campos, que a nada perdoava: o que elle encontrava deante de si havia de ir para o ar! Branco, todo elle, alto, a cabeça grande, a orelha curta, robusto de formas, dum enorme alcance de olfacto, caçando com uma certeza e a distancias, prodigiosas, era um bello espectáculo vel-o trabalhar em campo largo. Apontava a caça de cabeça erguida, e ia direito a ella, com tal firmeza, que não seria maior, se elle a visse!

Como todas as formosas tinha um senão — não trazia a caça ao dono! Porque um tal defeito em animal de raça, e tão fino como este era, ao certo não o sei. Podia tel-o de natureza ou adquirido. Offerecido ao illustre poeta pelo seu velho amigo, o general Schwalbach, mandara-lho este do Porto, ainda novo, mas, se bem me lembro, já feito, e a caçar. Talvez lá fosse ensinado por algum amador inglez, e estes, como se sabe, costumam, caçando com dois ou mais cães, delegar no "retriever" as funcções subalternas de procurar e trazer á mão a ave, a lebre, ou o coelho, levantados pelos seus nobres "pointers" ou "setters". Fosse o que fosse, "Mazeppa" era, apesar d'esta falta, um brilhantíssimo explorador.

"Lady" a cuja morte o poeta — como outros, Byron, por exemplo — dedicou sentidos versos, não desmerecia d'estes, e em duma meiguice notável e duma rara dedicação.

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Eu não fiz versos aos meus, não sou poeta: mas quando elles fecharam os oIhos para sempre, os meus nunca ficaram enxutos. (1)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 135, sexta-feira 1 de abril de 1898

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Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo,
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bulhão Pato, Poeta — Pintor do mar — Sportsman, por Zacharias d'Aça (I)

De certas organisações poéticas, espíritos singularmente dotados pela natureza, podemos dizer que o decorrer do tempo, os baldões da vida, os assaltos da má fortuna, a inconstância da sorte, todo este mar revolto do mundo, o affrontam elles com o olhar sereno, e o animo impávido. Nesta virtuosa navegação, com a experiência de tantos naufragios — os próprios e os alheios — elles são como esses grandes navegadores que, a despeito dos ventos, dos mares, e dos homens — ainda peiores inimigos, não desconfiam da sua estrella, e conseguem chegar ao porto do seu destino!

Costa da Caparica, Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

São estes os poetas de raça, os verdadeiros poetas: para estes não ha annos de prosa. Cantam na mocidade, na primavera da vida; cantam no estio; o outono illumina-os, doira-os com os tons melancólicos da saudade, e o inverno da vida dá-lhes uma serenidade altiva, a tranquillidade das altas regiões espirituaes, em que a alma, sempre viva e lúcida, na sua constante evolução, alheiada das paixões terrenas, como a chrysálida vae-se transformando, para se abrir em novos mundos!

Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital

A esta privilegiada familia. a esta aristocracia intellectual, pertence Bulhão Pato. Todos o conhecem, todos o sabem; não é isto novidade, que precise de demonstração.

Neste logar não falaremos especialmente do grande escriptor, das suas altas e finas qualidades de prosador e de poeta. Aqui as lettras não são de certo nem extranhas, nem malvindas, mas nos campos soam mais do que os accordes da lyra as trompas e o vozear dos caçadores. 

O auctor da "Paquita" e do "Livro do Monte" — o seu ultimo e precioso livro — não é um escriptor sedentário, não é um poeta de gabinete, inventando sensações, compondo com sentimentos imaginários situações em que nunca se encontrou; não, e os seus livros — poemas, narrativas, cantos, e sátiras — a sua prosa e a sua poesia, são obras vividas: estão alli os personagens, as scenas, os episódios, os lances do drama da sua vida; são aquelles o céu, as terras, os mares, os homens e as mulheres, que elle viu, que elle conheceu e que elle amou.

Alma curiosa e sedenta de impressões, não se limitava a gosar dos encantos do mundo das salas; e elle saía d'um baile e partia para uma caçada, e d'ahi para uma larga digressão pelas nossas províncias, ou ia-se de foz em tora até á ilha de S. Miguel, á Hespanha ou á Itália, com um verdadeiro prazer e não era necessário que nol-o dissesse, porque bem se lhe via no rosto, que o sentia.

[II]

São esplendidas de verdade as suas paizagens; com um toque ou dois dá-nos o artista a impressão do mundo real, — estamos vendo e ouvindo os seus aldeões, os seus rústicos. Os seus olhos íixam e gravam em si para sempre os movimentos, os gestos dos animaes — os da terra e os do ar, e os aspectos da natureza. As grandes scenas marítimas, as largas paizagens oceânicas que elle nos pinta — não digo descreve — na "Paquita", são obras-primas, quadros agitados, em que o turvar da atmosphera, o assobiar do vento nas enxárcias, o fuzilar do raio e o estalar do trovão, teem tal certeza nos traços, tal viveza no colorido, que, quando os lemos, como que nos aconchegamos no gabinete, tanto a realidade da descripção do tremendo espectáculo se impõe ao nosso espirito!

No mar está o poeta no seu elemento. Nos momentos solemnes, em pleno vendaval, no mar dos Açores, quando os passageiros recolhiam aos beliches, e no convéz só se viam os homens da faina com as suas Japonas e os seus nordestes breados, eu vejo, na minha imaginação, na popa do vapor, quatro vultos, o.s dois homens do leme, o capitão Telles Machado, velho lobo do mar, e Bulhão Pato. E tudo a postos... Que um temporal naquelles mares é de tremer! Os naufrágios são, ás vezes, ás dúzias, quando o vento se levanta, e as ondas se encapellam naquellas costas!

Bulhão Pato por Marciano Henriques da Silva
(museu Carlos Machado em Ponta Delgada).
Imagem: Alexandre Flores

Era ahi que o poeta recebia a impressão directa do grandioso e medonho scenario das formidáveis tragedias do mar!

Os originaes dos seus quadros viu-os o grande artista bem de perto de dia, e mais temerosos ainda de noite! E com que alto estxlo elle os pintou!

Quando o mar, de improviso, se encapella.
Quem nesse instante acorda, julga um sonho,
Horrível sonho, o assalto da procella!

[...]

A faiscar, em virotões, o raio!
Ribombava o trovão, inda distante;
O sol, açafroado e de soslaio,
Tocava as densas nuvens do levante;
Dando ás cristas das ondas rebentadas,
A espaço, uma tinta coruscante !

Faina geral ! O vento desgarrão,
Austral, intercadente, a carregar,
E a rajada maior que o recalmão!
Investindo furiosas, a intestar.
As torvas ondas de fumante espuma,
Co'as nuvens achatadas sobre o mar!

Ó mar! quando a refrega violenta
Em pyramide as ondas te alevanta,
Quem se atreve comtigo na tormenta
A besta fera ao teu bramir se espanta! 
Somente o homem te contrasta os impetos!
Elle só contra ti se não quebranta!

Em tuas solidões desamparado,
Olhando para o céu — que, em taes momentos.
Parece por Satan reconquistado! —
Mais audacioso que o furor dos ventos.
Paira acima do horror da natureza,
Como um Deus, por seus altos pensamentos!

Tem o mar os seus amantes, os seus apaixonados, e nós comprehendemos o sentimento de orgulho, que as almas fortes devem experimentar, ao affrontarem as cóleras immensas do Oceano!

Marinha, João Christino da Silva, 1855-1860.
Imagem: MNAC

Levantarem-se-lhes as ondas em montanhas, e de súbito, e logo em seguida, cavar-se-lhes o ahysmo verde-negro e medonho, entrevendo-se, lá em baixo, as fauces do grande tragador, a bôcca escancarada e o seio da immensa sepultura! Soprar-lhes o vento nos cabos o hymno desvairado da procella — os intervallos do silencio trágico cortados pelo gemer arrastado do arvoredo!... E as investidas d'esse mar, o desabar d essas montanhas, essa baldeação enorme, em que ellas se precipitam, onda sobre onda, e correm e lavam o convéz de proa á popa, e levam e arrastam tudo! E as lufadas do vento, e as cambiantes da atmosphera, e o fulgurar dos relâmpagos, e o scintillar do raio, os gritos de terror, a pallidez dos rostos, o tremor das vozes, o anceio dos ânimos, o trepidar dos corações!... E tudo isto a succeder-se na expressão dos olhos, espelhos da alma!... Oh! quem tiver assistido a taes scenas, se duraram horas, pode contal-as por séculos!

Recuar da onda, João Christino da Silva, 1857.
Imagem: Museu Calouste Gulbenkian

Mas os que escapam ás fúrias da tempestade, não voltam as costas ao mar! Antes parece que mais lhe ficam querendo! Já o Camões pintou esse amor, quando poz na bôcca do Adamastor aquelles versos, desesperados e saudosos:

Todas as deusas desprezei do céu,
só por amar das aguas a princeza!

Tem sido navegador o nosso poeta, também foi cavalleiro; e quem escapou das tormentas do mar esteve a pique de perder-se em terra, e num rio sem agua! Um milagre este, se não maior, pelo menos mais veridico do que o succedido ao bom cavalleiro D. Fuás Roupinho, que o nosso grande poeta Castilho immortalisou na sua Chácara da Senhora da Nazareth.

Deu-se o caso um dia que Bulhão Pato saíra a passeio pelos arredores da Arruda, na companhia do visconde de Asseca, Salvador Corrêa, pae do actual titular. O cavallo que elle montava, era um potro d'Alter fogosíssimo, e o poeta, então na exuberância de forças dos vinte annos, deu-lhe largas: o que a principio era trote passou a galope, e na desenfreada carreira chegaram á ponte, pequena e irregular, mas que mede talvez trinta pés d'alto... O parapeito é baixissimo, e o leito do rio estava sècco, a descoberto.

Torres Vedras, Morro do Castelo e Rio Sizandro.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Bulhão Pato quiz voltar o potro, ao entrar na ponte, mas já não poude!... O impulso da corrida era maior, e cavallo e cavalleiro salvaram as guardas, e caíram no leito pedregoso do Sizandro! O cavallo ficou inutilisado, o cavalleiro incólume! Não tinha uma beliscadura! Valeu-lhe o ser magro e de pequena estatura, dirão: valeu-lhe a fortuna, porque o salto era mortal!

Quando alguns homens correram para o rio, já acharam o poeta de pé, sacudindo a terra de si, e aprestando-se para sair do que quasi lhe fora tumulo! É impossível descrever o pasmo que d'elles se apossou, ao verem o cavalleiro dizer-lhes:

— Vocês vinham para me levar!? Hein! Pois, obrigado, eu cá vou andando. Se quizerem levem o cavallo: esse é que de certo não pode comsigo.

Na villa apontavam o poeta, e olhavam-no depois com certa admiração respeitosa. Parecia com effeito que elle cruzara os terríveis humbraes da morte! Elle, todavia, preferiu as campinas e as várzeas, o mundo, a que tão cedo o quizera arrancar o fogoso corsel!

Torres Vedras, Rio Sizandro, Marques Abreu, c. 1900.
Imagem: Delcampe

E por mares e rios, montes e valles, o viemos acompanhando, e cá estamos com elle nas várzeas e nas campinas, nas vinhas e nos pinhaes — numa palavra, no campo das suas caçadas. (1)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 134, terça-feira 15 de março de 1898

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