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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Bulhão Pato, a consagração da scena

LIVROS NOVOS

Ruy Blas — Traducção em verso de Bulhão Pato. — 

Sem ser um Shakespeare, Victor Hugo ha de viver largos seculos no theatro. Nos seus dramas não se reflecte o homem, mas reflecte-se a humanidade. Ruge nos seus dramas a paixão impessoal, pelas mascaras de bronze desses personagens titanicos. 

Retrato de Bulhão Pato (detalhe), Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

Nas peças de Shakespeare sente-se a carne que se contorce, os nervos que vibram, o sangue que corre por baixo da epiderme dos personagens; nas de Victor Hugo não se veem senão as grandes mascaras de bronze, de cujas bocas sae o grande sopro lyrico das paixões impetuosas. 

Ruy Blas é de todos os dramas aquelle em que mais se sente sua impersonalisação. Tudo está fora do real, desde a mascara demoniaca de D. Sallustio até á mascara silenica de D. Cezar de Bazan, mas as grandes paixões, que podem agitar a humanidade, trovejam, riem, ou soluçam em todos aquelles labios que teem, em vez da carnação rosada da vida, a rigidez metallica dos labios das estatuas.

Entre Sallustio e Iago ha um abysmo; lago é um infame, Sallustio é a infamia. Romeu é um apaixonado, Ruy Blas é a paixão. Fallstaff e um typo immortal de bebado jovial, fanfarrão, vadio. D. Cezar é a propria symbolisação de todos esses vicios alegres.

Por isso Victor Hugo ha de viver no theatro como Shakespeare, este para convulsionar eternamente as platéas pela verdade humana dos seus personagens, aquelle para as inflammar nos arrebatamentos lyricos e infaustos da sua linguagem apaixonada e candente.

Por isso o que se cita de Shakespeare? as scenas: a do jardim de Julieta, a de Othello e lago, a de Shylock e Antonio, a de Ricardo III e rainha Anna, a de Macbeth e de lady Macheth, do rei Lear e o bobo, a de Hamlet e a mãe ou de Hamlet e Ophelia.

O que se cita de Victor Hugo? monologos, o de Carlos V no "Hernani", o do marquez de Nansis na "Marion Delorme" e o de Barba Roxa nos "Burgraves", o de Ruy Blas aos grandes de Hespanha no drama de que nos occupanios agora.

Quem falla em Shakespeare são os personagens pela boca do poeta, e em Victor logo o poeta pela boca dos personagens. O genio de Sbakespeare faz vibrar com o seu magico sopro os nervos das suas creaturas, Victor Hugo dá ás suas os nervos de bronze da sua propria lyra.

Bulhão Pato, que já enriquecera a litteratura portugueza com duas magnificas traducçães de Shakespeare, quis tambem traduzir Victor Hugo e pôz em verso portuguez esse magnifico Ruy Blas, a que alludimos ha pouco.

Pôl-o em verso portuguez de lei, n'esse magnifico verso solto hoje trocado pelo alexandrino magestoso e massudo, que arrasta o dialogo ao passo cadenciado das suas rimas alternadas. Foi extraordinariamente feliz n'esta audaciosa tentativa. No verso solto parece que vibra mais livre o latego de Ruy Blas, que dança mais descuidosa a jovialidade de D. Cezar, que suspira mais melodiosamente o lyrismo amoroso da rainha.

Ruy Blas por Bulhão Pato, O António Maria, 13 novembro de 1884 (detalhe).
Hemeroteca Digital

Oiçam o final da objurgatoria de Ruy Blas aos ministros:

Teu auxilio, o teu braço, ó Carlos quinto; 
Porque surcumbe a flespanha, a Hespanha extingue-se!

Aquelle globo em tuas mãos robustas,
O sol deslumbrador, que n'outro tempo
Fazia acreditar ao mundo inteiro
Que era em Madrid que despontava o dia, 

Agora, astro sem vida, a pouco e pouco 
Vai-se sumindo, lua em seu minguante, 
Que de outro povo ha de apagar a aurora!

Nas mãos de vendilhões a tua herança! 
Fundiram em moeda a tua c'rôa! 
Conspurcam o. esplendor das tuas glorias! 
Ó gigante, é possível que tal durmas?

Vendem teu sceptro a pezo; anões disformes, 
Do teu manto de rei talham as vestes. 
Tua águia imperial, que doutros tempos 
De raios e fulgor enchia o mundo, 
Pobre ave já sem penas, os famelicos 
Vão devoral-a na marmita infame.

Ah! como o nosso bom verso endecasyllabo, manejojado por mãos vigorosas, serve ainda para tudo! como elle zurze! como silva nos ares! como substitue pela amplitude do rhytmuo a amplitude syllabica do alexandrino:

De raios e fulgor enchia o mundo!

Afinal Victor Hugo com todo o seu genio para ter um alexandrino com esta idéa não poude fazer mais de que metter um adjectivo perfeitamente dispensavel:

Couvrait le monde entier de tonnere et de flammes.

Para isso, bem o sabemos, é indispensavel que o traductor se chame Bocage, ou Castilho, ou Bulhão Pato, é necessario que se tenha no ouvido, para segurança melodica, o segredo do rhythmo, que dispensa o diapasão da rima, de que sempre carecem as cantores mediocres, é indispensavel que se tenham boas pernas nervosas, como Bulhão Pato tem em caçadas e em poesia, para acompanhar as passadas de gigante de Victor Hugo sem se empoleirar uma pessoa nas andas dodecasylabicas do alexandrino portuguez.

Six personnages de Victor Hugo Louis Boulanger, 1853 (musée des beaux-arts de Dijon).
Sont représentés, de gauche à droite en commençant par le haut Don Ruy Gomez, Don César de Bazan, Don Salluste, Hernani, Esméralda, De Saverny.
Wikipédia

Pois no celebre monologo de que demos um trecho, e que é enorme, Bulhão Pato, vertendo escrupulosamente, só precisou de mais uns dez ou onze versos do que os que tem Victor Hugo no original, e n'esse longo trecho apenas teremos de notar uma phrase em que a traducção não é rigorosamente a que nos parece verdadeira. "Depuis Philippe quatre" deveria traduzir-ie "Desde Philippe IV" e não "Após de Philippe IV, como o sentido historico indica, porque Victor Hugo diz, peta boca de Ruy Blas, primeiro ministro do rei de Hespenha: 

"Nous avons, depuis Philippe Quatre, 
Perdu le Portugal, le Brésil..."

Ora como foi exactamente no tempo de Philippe IV que a Hespanha perdeu Portugal e Brazil, vê-se que "depuis" não pôde ter outra significação senão a que tem realmente e lexicologicamente "desde".

Fizemos esta pequeníssima observação, para pôr em relevo a fidelidade maravilhosa com que Bulhão Pato acompanha o texto do grande poeta, chegando até a não o emendar, quando Victor Hugo perpetra a respeito de coisas portuguezas um d'aquelles disparates, que elle atira com uma serenidade olympica do alto de um alexandrino recheiado de erudição: 

"Perdu Ie Portugal, le Brésil, sans combatre?"

Para dizer isto nas bochechas dos vencidas de Montes-Claros, de que ainda se havia de lembrar amargamente algum dos velhotes do conselho, era necessario que Ruy Blas tivesse urgentimima necessidade de encontrar uma rima para "Philippe Quatre". Bulhão Pato, com urna fidelidade a toda a prova escreve: 

Portugal e Brazil "sem um combate"
Deixámos ir por mão. 

A proposito da sem cerimonia com que Victor Hugo trata a historia portugueza, sempre nos ha-de lembrar aquelle disparate que Hernani atira magestosamentc a Carlos V na crypta d'Aix-la-Chapelle:

"Je suis Jean d'Aragon, grand-mailre d'Avis né..."

Voltemos ao Ruy Blas, e á magnifica tradução de Bulhão Pato. Para acabarmos do provar como o nosso eminente poeta é fidelissinio na traducção, basta dizermos que, só porque se afastou ligeirissimamen-te do original, na esplendida versão do canto das lavadeiras, chamou-lhe logo imitação. 

Comparem e vejam como se espelham no crystal sonoro dos versos de Bulhão Pato as graciosas e frescas imagens dos versos de Victor Hugo:

À quoi bon entendre
Les oiseaux des bois?
L'oiscau le plus tendre
Chante dans ta voix. 


Que Dieu montra ou voile 
Les astres des cieux! 
La plus pure étoile 
Brille dans tes yeux.

Qu'Avril renouvelle 
Le jardin en fleur! 
La fleur la plus belle 
Fleurit dans tom coeur. 

Cet oiscau de flamme, 
Cet astro du jour, 
Cette fleur de l'âme 
S'appelle l'Amour 

Vejamos agora na versão portugueza:

Ruy Blas por Bulhão Pato, O António Maria, 13 novembro de 1884 (detalhe).
Hemeroteca Digital

Para que — ouvir das aves 
A voz na selva copada, 
tem notas mais suaves 
A tua voz encantada! 

Para que — ver a mais bella 
D'essas estrellas dc Deus, 
Se mais peregrina estrella 
Refulge nos olhos teus!

Para que — abril em rosa 
Vai transformar um botão, 
Se outra flor, e mais formosa, 
Sorri no teu coração. 

Ave, flor, astro do dia, 
Canto, perfume, esplendor, 
Formam a mesma harmonia 
E tem um só nome: Amor! 

Pois que ha n'estes versos mais do que a refracção que tem a luz ao passar de um para outro meio, da transparencia do ar para a limpidez da agua, e a imagem ao passar do sonoro francez de Victor Hugo para o harmonioso portuguez dc Bulhão Pato?

Lisboa, Teatro D. Maria II, c. 1890.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em resumo, a traducção de Ruy Blas por Bulhão Pato é uma verdadeira obra prima. que deve ter, que esperamos que tenha, a consagração da scena. 

Obras assim devem engastar-se no reportorio dramatico nacional.

P. C. [Manuel Pinheiro Chagas] (1)


*
*     *

No final da ultima scena, Bulhão Pato foi chamado ao proscenio pelo publico que queria victorial-o, mas o illustre poeta não appareceu porque andava, segundo ouvimos, lá pela Outra Banda, de espingarda ao hombro, a caçar nos seus homonymos bravos.

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Biblioteca Nacional de Portugal

O publico, desesperado por não lhe apparecer o Pato que pedia em D. Maria, foi para a cervejaria da rua do Principe, onde se vingou pedindo pato com macarrão! (2)


(1) Jornal do Domingo, Revista Universal, Anno I n° 42, 4 de dezembro de 1881
(2) O António Maria, 13 novembro 1884

Informação relacionada:
Bulhão Pato (1829-1912): no Centenário da sua Morte

Leitura relacionada:
Victor Hugo, Ruy Blas, traducção em verso por Bulhão Pato, Lisboa, David Corazzi, 1881

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O Alfama (3 de 3)

Os presos da cadeia de Almada não tiveram ante-hontem o jantar que costumava ser-lhes annualmente distribuido n'esse dia. O bemfeitor que costumava mandar-lh'o era o velho Manuel Alfama da Costa de Caparica, que falleceu ha tres dias e cujo passamento foi geralmente sentido.

Costa de Caparica, Alfredo Roque Gameiro, Illustração Portugueza n.° 300, 20 de novembro de 1911.
Imagem: roquegameiro.org

Alfama era muito esmoler. Os pescadores da Costa tinham n'elle um protector. (1)

Testamento do velho Alfama de Caparica

Damos em seguida a copia do testamento do benemerito Alfama, ha dias fallecido em Caparica. Este homem que era a Providencia dos pobres, não se esqueceu no seu testamento d'aquelles por quem sempre velou. Deve muito a costa de Caparica ao finado Alfama, cuja memoria se conservará viva por largos annos:

Determina, que se lhe faça um enterro modesto, que o seu corpo seja levado n'uma sege acompanhado por 12 pobres, de qualquer asylo, a cada um dos quaes se dará a esmola de 2$500, sendo metade para o cofre do respectivo asylo, e a outra metade para as despezaa particulares dos mesmos pobres; que o seu corpo será sepultado em caixão no cemiterio da costa de Caparica, onde se mandará erigir um tumulo muito modesto.

Que no 7.° dia depois do seu passamento se digam por sua alma 20 missas; 20 por alma de seu pae e mãe; 20 por alma de sua irmã Maria Barbara, e da ex.a sr.a D. Rosa Maria da Conceição, que foi sua protectora.

Deixa ao hospital de D. Pedro II estabelecido na cidade do Recife de Pernambuco, no império do Brazil, o capital nominal de 200$000 réis em inscripções da Junta do Credito Publico.

Ao hospital de beneficência portugueza da referida cidade réis 200$000 em inscripções.

Ao hospital de S. José, ao asylo Maria Pia, á Casa Pia de Belém, á santa casa da misericórdia, ao asylo de S. João. ao asylo de mendicidade de Santo Antonio dos Capuchos, ao asylo das raparigas abandonadas, e ás casas de infancia desvalida, todas da cidade de Lisboa, 200$000 réis nominaes, em inscripções, a cada um.

A cada uma das viuvas pobres residentes na costa de Caparica, que tenham filhos menores, 5$000 réis.

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

A cada uma das viuvas pobres residentes na costa de Caparica, que não tenham filhos, 2$000 réis.

A todas as viuvas pobres residentes na costa de Caparica, que não estejam no caso dos precedentes legados, 1$000 réis a cada uma.

A todas as pessoas pobres, não mencionadas nos tres legados precedentes, tanto maiores como menores, de um e de outro sexo, incluindo creanças de mama, tambem residentes no logar da costa, 500 réis a cada uma.

Bellas Artes, 16, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

Para obras da capella da costa o capital nominal de 1:000$000 de réis em inscripções. 

Para despeza do culto do orago da freguezia de Nossa Senhora do Monte, o capital de 200$000 de réis em inscripções.

A sua tia D. Catharina da Silva, residente em Setúbal, o usofructo de 4:000$000 réis nominaes, ficando a propnedade, pertencendo a seu irmão Manuel Pedro, morador na costa.

A sua sobrinha Maria Rita, casada, filha de seu irmão Manuel Pedro 6:000$000 réis nomiaes em inscripções.

A seu sobrinho Antonio Duarte, filho de seu irmão Manuel Pedro, 2:000$000 réis em metal sonante, bem como o capital de réis 2:000$000 em inscripções.

A seu sobrinho José Nicolau, aleijado, filho do dito meu irmão Manuel Pedro, o capital nominal de 6:000$000.

A cada um dos filhos e filhas de sua sobrinha Maria Rita; filha do dito seu irmão Manuel Pedro 250$000 em metal sonante.

A cada um dos filhos ou filhas que tiver seu sobrinho Antonio Duarte 250$000 metal.

A cada um dos dois filhos e filha de sua sobrinha fallecida, Genoveva do Sacramento, que foi casada com Joaquim Ribeiro, e que também era filha do dito seu irmão Manuel Pedro 1:600$000, nominaes em inscripções. 

A cada um dos primos e primas em primeiro gráo 25$000 em metal.

Á sua afilhada Amelia; filha do Manuelsinho 100$000 réis em metal.

Ao sr. José Fernandes, pescador, morador na Costa 100$000 em metal, em signal de reconhecimento pela amisade que sempre lhe tributou.

Costa da Caparica, Pescadores, Alfredo Roque Gameiro (1864-1935).
Imagem: roquegameiro.org

Institue seu universal herdeiro do remanescente ao seu irmão Manuel Pedro, em recompensa da muita amisade com que sempre o tratou, com a condicção de despender annualmente até á quantia de 150$000 réis para educação e vestuário de 10 meninos e 10 meninas pobres, que sejam residentes no logar da Costa e que frequentem qualquer collegio ou escola estabelecida na freguezia de Nossa Senhora do Monte de Caparica, isto emquanto seu irmão for vivo. 

Será obrigado também seu irmão; a mandar dizer, todos os annos, no dia do anniveraano do seu fallecimento, uma missa por sua alma, e outra pelas almas de seus paes e que serão ditas na capellinha da cemiterio da Costa. 

Que a contribuição do registo fica a cargo da herança e que os legados são livres da respectiva contribuição. 

Nomeia testamenteiros. 
1.° Seu irmão Manuel Pedro
2.° José Fernandes.
3.° Manuel Gonçalves Bexiga
Todos moradores no logar da Costa. (2)


(1) Diário Illustrado, 27 de dezembro de 1884
(2) Diário Illustrado, 1 de janeiro de 1885

Artigos relacionados:
O Alfama (1 de 3)
O Alfama (2 de 3)
A Costa no século XIX
Colégio do Menino Jesus (1876 - 1901)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Alfama (2 de 3)

Realisou se no domingo, na Costa de Caparica, uma festa de caridade, de una significação tão sympathica como commovente.

Costa de Caparica (detalhe), Alberto Carlos Lima, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O distincto poeta Christovão Ayres, nosso amigo, foi o iniciador d'essa festa encantadora, poetisada pela infancia, sanctificada pelo infortunio, por isso que era dedicada ás creanças. victimas do medonho incêndio que reduziu a cinzas a maior parte das casas da Costa de Caparica. 

A distribuição do fato, feito ás creanças da Costa de Caparica

O nosso collega, Christovão Ayres, inaugurou no Jornal de Commercio, de que é redactor, uma subscrípção destinada a soccorrer as creanças reduzidas á ultima miséria, em consequencia da catastrophe que feriu os infelizes pescadores da Costa.

General Christovão Ayres por José Malhoa.
Imagem: artnet

Obtida uma somma importante acompanhada de donativos não menos valiosos, o sr. Christovão Ayres teve a feliz lembrança de convidar, por meio do jornal, as senhoras a fazerem, pelas suas proprias mãos, os fatos que desejava distribuir ás creanciahas.

O apello acordou uma larga vibração: as senhoras, que se acham a banhos na Trafaria, e muito especialmente a esposa do illustre poeta, a sr.ª D. Maria do Carmo Vaz de Carvalho, (que foi incansável em reunir todos os elementos para o bom êxito d'este emprehendimento) coadjuvaram com alvoroço a tarefa, em parte realisada por muitas senhoras de Lisboa.

A obra, nào obstante ser avultada, por que a subscripção, por um lado, e os donativos pelo outro, ampliava todos os dias a acquisição das fazendas, effectuou-se como por milagre, fixando-se o domingo 28 de setembro, à 1 hora da tarde, para se proceder á destribuiçào.

Em uma das melhores casas da Costa de Caparica, reuniram-se muitas senhoras e cavalheiros, vindos da Trafaria, de Almada e de Lisboa. 

Os volumes do fato, separados em lotes, com a competente indicação das idades das creanças a que se destinavam, cobriam duas mezas.

Á ultima hora, uma caridosa anonyma enviou seis peças de panno cru; e o nosso bom collega Brito Aranha, que assistiu à destribuiçào, apresentou um fardo de fazendas, offerecidas para o mesmo fim e remettidas á redacção do Diário de Noticias.

O conhecido bemfeitor da Costa, o Alfama, cuja figura veneranda representa a personificação da caridade e encerra uma mysteriosa historia de renuncias obscuras e de abnegaçõas ignoradas, auxiliando valiosamente os trabalhos das pessoas presentes, fez uma lista escripta, das famílias victimadas pelo incêndio.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

O sr. Christovão Ayres, assumindo, como lhe cumpria, a direcção da sympathica festa, organisou uma equitativa destribuiçào, regulada por meio de sortes, que cada uma das senhoras presentes, a quem cabia um dos grupes das differentes idades, inscriptas nos volumes, offerecia ás creançinhas enlaçadas pelos braços das mães.

O espectáculo nào podia ser mais sympathico o enternecedorl. As mulheres ao receberem das mãos das senhoras, o fatinho costurado por ellas, para os pequeninos seres, que lhe pendiam do seio, que se lhe agarravam ás saias, fitando todos e tudo com esse olhar das creanças, vagamente interrogador, de uma doçura ineffavel, desatavam a chorar e balbuciavam agradecimentos, entrecortados de lagrimas.

Algumas creancinhas como que tendo a inconsciente intuição de que se achavam, n'aquella hora, divinamente misericordiosa, no seio da caridade protegidas, pela bemdita effusão do amor, amparadas pelos braços da mesericordia infinita, choravam, ao leval-as as mães, queriam ficar, estendiam os bracitos, como se do fundo das suas pequenas almas de lyrio brotasse a prece agracecida, que appróxima os anjos dos homens e une a terra ao céu. 

Depois de realisada a distribuição, excellentemente dirigida sobejaram bastantes velumes de roupa, que foram repartidos pelas restantes famílias desvalidas da Costa, escolhidas por indicação do bom Alfama.

Entre as pessoas presentes a essa abençoada festa, que arrancou lagrimas a quantos a presenciaram, lembra-nos de ter visto as seguintes: deputado por Almada, Costa Pinto, e esposa; Raposo de Carvalho, administrador de Almada, Pedroso de Lima e D. Idalina Tavares de Lima, sua esposa e filha do nosso collega das Instituições, Eduardo Tavares; D. Virginia Chichorro, D. Maria da Gloria Archer e seu filho, Christovão Ayres e esposa, dr. Castro Freire e esposa, Brito Aranha, dr. Baeta Neves e esposa, Eduardo Burnay e esposa, Pinhões, D. Ermelina Allen, a nossa collega n'este jornal, D. Guiomar Torrezão, etc., etc.

Em seguida á distribuição, o sr. Christovão Ayres offereceu um lunch ás pessoas presentes. 

Realisaram-se, por essa occasião, alguns brindes enthusiasticos, que reproduzimos por sua ordem: 

Do sr. Costa Pinto, ao sr. Chrisovão Ayres e esposa a quem se devia a iniciativa e realisação da obra de caridade que acaba de effectuar-se.

Costa da Caparica, O incêndio do Costa Pinto, O António Maria, 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

Do sr. Christovão Ayres, agradecendo e brindando ao sr. Costa Pinto e aos seus relevantes e as- signalados serviços, no circulo de que é digno representante em côrtes. 

Do sr. Christovão Ayres ás senhoras, agradecendo lhes a sua generosa e espontânea coadjuvaçào.

Da nossa collega, D. Guiomar Torrezão, ao Diário de Noticias, sempre o primeiro na vanguarda de todas as cruzadas caritativas, e ao sr. Brito Aranba, como representante da redacção d'esse jornal.

Do sr. Brito Aranha à sr.ª D. Guiomar Torrezão, agradecendo e brindando-a em nome da redacção.

Do sr. Pedroso de Lima á imprensa, e em especial aos tres jornalistas presentes, que a representavam: Christovào Ayres Jornal do Commercio; Brito Aranha, Diario de Noticias; D. Guiomar Torrezão, Diário Illustrado.

Do sr. Costa Pinto ao sr. Raposo de Carvalho, a Eduardo Coelho, a toda a redacção do Diário de Noticias, a quem se deve grande parte da propaganda feita a favor da Trafaria e Costa de Caparica, propaganda coroada do melhor êxito; e por ultimo á imprensa ali representada. 

Do sr. Archer a Christovão Ayres e esposa.

Do sr. Christovão Ayres á sr.ª D. Maria da Gloria Archer e seu filho. 

Do sr. Raposo de Carvalho ao engenheiro florestal, o sr. Magalhães. 

Do sr. Costa Pinto á família real portugueza, e a sua alteza o príncipe real, D. Carlos, pelo seu anniversario natalício. 

Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Do mesmo sr. á sr.ª D. Idalina Tavares de Lima, brindando seu pae, o digno redactor principal das Instituições, o sr. Eduardo Tavares. 

E, por ultimo, ainda do sr. Costa Pinto ao sr. Alfama, exaltando a sua inexgotavel caridade a favor dos pobres de Caparica. 

O sr. Alfama agradeceu por entre lagrimas de commoção os benefícios das pessoas presentes, e, dirigindo se ás senhoras, em algumas palavras repassadas de sentimento, a que a sua cabeça encanecida prestava uma dupla eloquencia, disse que só o Ente Supremo poderia recompensar-lhes a grande obra de caridade que ali tinham ido praticar. 

Costa da Caparica, O incêndio do Costa Pinto, 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

As senhoras presentes foram, por espontâneo impulso, apertar a mão do respeitável ancião.

Cerca das cinco horas da tarde, retiraram todas as senhoras e cavalheiros para a Trafaria. 

A comitiva, formando uma numerosa cavalgada, composta na maioria dos pacíficos burros, atravessando o vasto areal que separa a Trafaria da Costa, apresentava um aspecto pittoresco e movimentado. 

Costa da Caparica, Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Conversava-se, discutia-se as próximas novidades theatraes; as vozes e os risos resoavam harmoniosamente na límpida atmosphera de uma tarde encantadora. 

O cheiro aromatico do juncal, a doçura contemplativa do crepúsculo, envolviam os cavalleiros; e não foi sem a vaga melancolia que deixam na alma as horas suaves, quando fogem, e as diversões queridas quando terminam, que as mãos se tocaram, cruzando se ao som d'esta palavra, raras vezes indifferente: — adeus. (1)


(1) Diário Illustrado, 1 de outubro de 1884


Artigos relacionados:
O Alfama (1 de 3)
A Costa no século XIX
Colégio do Menino Jesus (1876 - 1901)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O Alfama (1 de 3)

Estava então na Costa o reverendo padre Hughes, e o Tio Alfama, que pelos modos lhe pesavam na consciência uns certos e determinados peccaditos, procurou este ver o sacerdote para que o ouvisse de confissão. É então desde essa data que aquelle homem começa a derramar sobre a povoação da Costa benefícios sem número. (1)

Costa da Caparica, Pescadores remendando as redes.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

O sr. Alfama proprietario em Caparica deu hontem um jantar a 19 presos da cadeia de Almada, distribuindo tambem 100 réis a cada um. (2)

Alfama [João Ignácio da Costa (?-1884)] é um perfeito heroe de romance inverosomível; e, comtudo, nada de mais verdadeiro nem de mais positivo do que essa personalidade extravagante.

João Ignácio da Costa Alfama, 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

Possuidor de bens de fortuna relativamente avultados, vive entre os bandos de pescadores, a quem soccorre com os rendimentos do seu peculio, e com os quaes se confunde, tanto no passadio como no trajo!

Costa da Caparica, O incêndio do Costa Pinto, 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

Alma singularissima, terá talvez gosado, n'aquelle doce mister de praticar o bem humildemente, as emoções estranhas que decerto não experimentam os que exercem a caridade em busca de louvores. (3)


(1) Duarte Joaquim Vieira Júnior, Villa e termo de Almada..., Lisboa, Typographia Lucas, 1896
(2) Diário Illustrado, 2 de abril de 1883
(3) O António Maria, 4 de setembro de 1884

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A Costa no século XIX
Colégio do Menino Jesus (1876 - 1901)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A Costa no século XIX

"Deverá o velho morrer sozinho, irmãos? Deverá o velho morrer sozinho?

Não haverá homens na cristandade, para reunir em volta de seu trono?

Não haverá mãos esquerdas para agarrar a espada dos heróis que partiram [...]"

O autor, padre Hughes, foi um galês que em 1860 ofereceu os seus serviços ao Patriarca de Lisboa para evangelizar a então totalmente negligenciada costa de Caparica, a sul do Tejo.

Não só encorajou e inspirou os moradores, como lhes construiu a igreja e, também, realizou um grande trabalho social com a plantação de eucaliptos e pinheiros ao longo de quilômetros de areal, livrando assim a região da febre dos pântanos. (1)

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Refira-se que a Costa de Caparica só começou a ser ocupada a partir de finais do século XVIII.

Era então um lugar inóspito e desabrigado onde dominavam terrenos pantanosos e dunas com escassa vegetação rasteira sem outra protecção contra a inclemência do Verão.

Era também um lugar isolado pelos vastos pinhais (do conde de Arcos) que o separavam da Trafaria (então principal porto de pesca da zona) e do Monte de Caparica, tendo por isso proporcionado abrigo a salteadores e piratas.

Foram pescadores de origem algarvia e de Ílhavo que começaram por se fixar na Costa apenas durante os meses de Outubro a Dezembro, construindo para o efeito choupanas de junco e colmo, que incendiavam ao partir.

As primeiras companhas de pesca a fixar-se com carácter definitivo fazem-no em 1770.

Instituíram a figura do "Cofre dos Quinhões", organização de carácter mutualista e assistêncial que provia à protecção e alimentação dos órfãos e das viúvas, ao pagamento dos ordenados na ausência de faina e ainda à construção e/ou beneficiação de edifícios de interesse comum: vedação do cemitério, construção da igreja e do poço de água doce que abastecia a população.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

Numa descrição do local de 1896, a Costa continua a ser uma zona de "grandes pântanos, outrora cobertos de juncos e hoje quase totalmente cultivados de vinhas e arvoredos".

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902
Imagem: IGeoE

O centro da povoação situava-se no areal, onde havia o conjunto de “várias barracas de colmo, da origem primitiva, salpicadas agora de grande número de brancas e singelas casinhas”.

Hoje [1978] não há rivalidade entre as famílias daquelas duas regiões, mas resta a Rua dos Pescadores, sinal da antiga fronteira.

Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), 1978, Almada, Câmara Municipal de Almada, 316 págs.

A norte está a igreja, "abaixo da rocha, ao norte do pântano, destaca-se o pequeno cemitério, ao fundo do vasto areal, sempre cortado por médos ondulantes de uma finíssima areia, espraia-se na extensão de 3 léguas o oceano Atlântico".

Existiam nesta data 8 companhas de pesca, que lançavam as redes entre o mar da Laje e a Fonte da Telha, numa distância de 2 léguas.

Em 1824 existia uma única casa de alvenaria em toda a povoação, possivelmente construída por volta de 1820, pelo seu proprietário, mestre de redes José dos Santos.

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

A esta casa ficou ligada a lenda da presença do rei D. João VI que, após aqui ter comido uma caldeirada, mandou colocar na fachada a sua coroa de armas.

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

Vários incêndios ao longo dos tempos deflagraram na povoação [...]
Em 1840, o grande fogo, denominado da Quinquilharia [do quinquilheira], devorou 98 barracas;

em 1864, outro fogo, rememorado como o da Rosa do Cheché, reduziu a cinzas 55 choupanas;

em 1884, um terceiro sinistro ficou na história da região como o Fogo do Costa Pinto, pelos grandes benefícios que por essa altura foram recebidos do honrado deputado por este círculo, tendo ardido ainda desta última vez 60 barracas.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

Convém citar aqui o nome completo desse cidadão: Jaime Artur da Costa Pinto (1846-1909), conhecido nestas paragens como o Pai dos Pobres, pela sua entrega total ao bem comum.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Correia, Romeu, Op. Cit.
A partir de 1884, devido à intervenção do deputado às Cortes, pelo círculo de Almada, Jaime Artur da Costa Pinto, a Costa de Caparica vai ser sujeita à construção de uma primeira urbanização, de 54 casas de alvenaria e um arruamento (Rua Jaime Artur Costa Pinto).

Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Almanach Illustrado do Correio da Europa

Oito anos antes a igreja tinha sido reedificada em "pedra e cal" por acção de um "brasileiro" residente [João Inácio Alfama, ou João Inácio da Costa].

Costa da Caparica, ed. Lif, 04, Igreja da Nossa Senhora da Conceição, 1945
Imagem: Delcampe

Em 1882 foi aberta a vala de esgoto e iniciaram-se as florestações, numa tentativa de melhorar as más condições ambientais que ainda persistiam.

No nº. 1 do jornal A Realeza, de 2 Setembro de 1882, é publicado o artigo "Direcção do pântano do Juncal e fixação das dunas e arborização dos terrenos da Trafaria e Costa de Caparica, onde se pretendia efectuar a arborização em pinheiros e eucaliptos numa área de 1500 hectares para prender as dunas ou areias moventes da Caparica, vale da Trafaria e pântano do Juncal da Costa".

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112, década de 1930
Imagem: Delcampe

Considerava-se ser esta a melhor acção para terminar com a vasta extensão pantanosa que rodeava a povoação, provocando frequentemente epidemias e paludismo.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960
Imagem: Delcampe, Oliveira

Por iniciativa do padre Bailie Hughes, de origem americana [sic], foi criada logo em 1876 uma sala de aulas feminina para o ensino primário e mais tarde, o Colégio do Menino Jesus, para rapazes e que existiu até 1901. (2)

Costa da Caparica, um piquenique familiar, em segundo plano a igreja e o Colégio do Menino Jesus, década de 1900
Imagem: Arlindo Pereira


(1) The TABLET

(2) Programa POLIS — Plano Estratégico da Costa de [sic] Caparica, 4. 2. 1. Nota Histórica, sobre texto de Correia, António, com citações de Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896


Leitura adicional: Costa da Caparica