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terça-feira, 1 de novembro de 2022

Alegria no trabalho

Suprimindo todas as instituições privadas e públicas – provenientes da República de Weimar – responsáveis pelos interesses trabalhistas como sindicatos e instituições recreativas, o Estado numa atitude totalitária, e visando anular as lutas de classe, criou em maio de 1933 a Frente Alemã para o Trabalho - Deutsche Arbeitsfront (DAF). Presidida por Robert Ley, a DAF tornou-se no principal mediador entre entidades patronais e empregados, acabando por fundar em novembro do mesmo ano a Kraft durch Freude (KdF), uma organização recreativa (...)

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais, 1937.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Numa ação propagandística e pretendendo regulamentar os tempos livres dos trabalhadores, a Obra sindical Alégria y Descanso facultou aos seus associados átimos de educação cultural e artística, viagens e excursões, formação militante e atividades desportivas, sofrendo influência direta das bases práticas e teóricas das suas congéneres – italiana, alemã e portuguesa. Importa mencionar que, antes da sua consolidação em 1940, a direção da Obra sindical se reuniu várias vezes com os quadros administrativos da OND, da FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho), da KdF, entre 1936 e 1938, para discutir e apreender os seus moldes teóricos e formas de atuação (...)

Costa da Caparica, encontro Jacista (Juventude Agrária Cristã), 1938.
Delcampe Bosspostcard

Similarmente ao modus operandi dos restantes regimes fascistas Europeus, o Estado Novo concebeu, a partir de 1933 várias organizações corporativas, paramilitares, opressivas, propagandísticas e recreativas que o coadjuvaram no projeto de centralização de poder e no controlo integral dos vários domínios da vida pública e privada, tendo em vista a construção de um novo «Homem Português» (...)

Costa da Caparica, Jardim da F.N.A.T., ed. Passaporte n° 46.
Delcampe

Instituído no ano de 1933, o Secretariado De Propaganda Nacional (SPN), sob a orientação de António Ferro, tornou-se responsável pela conceção e promoção de uma política cultural popular que, enquanto conduzia os portugueses para os princípios sociais e políticas do Estado, o dotava de uma irrepreensível imagem tradicional de Bom-Gosto. (1)

Bandeira da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
BestNet Leilões

"A organização corporativa da Nação não deve limitar os seus objetivos ao campo das preocupações de ordem meramente material. Por muito graves e instantes que sejam as solicitações de alguns problemas económicos do momento presente, há que alargar os horizontes do nosso esforço.

Sem um intenso movimento de espiritualização da vida e sem um forte apelo aos valores morais, a obra do Estado Novo poderia renovar materialmente a face da terra portuguesa, mas não seria conseguida a sua vitória mais alta: a transformação profunda da nossa mentalidade, o revigoramento de todos os laços e de todos os sentimentos que mantém a comunidade nacional e a perpetuam através dos tempos. (...)

É preciso estimular o ambiente de puro idealismo em que tais instituições se criaram, manter acesa a chama do entusiasmo e da confiança que o pensamento social do Estado Novo Corporativo fez reacender na consciência das massas trabalhadoras"  (2)


Em 1939, e mesmo antes de se converter em Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI) no ano de 1944, o SPN acumulou novas funções e passou a ter sob a sua alçada a incumbência de estimular e regulamentar a prática turística (...)

Costa da Caparica, fotografia de Pais Ramos,
Panorama revista portuguesa de arte e turismo n° 10, agosto de 1942.
Hemeretoca Digital


Considerando a classe operária como um grupo sensível à criação de associativismos e movimentos de contestação social, o Estado Novo, arvorando a missão de pedagogo nacional, promoveu, adstrito à ação da FNAT, a criação de várias colónias de férias dedicadas aos “trabalhadores inscritos nos sindicatos Nacionais e nas Casas do Povo e as suas famílias”, entre 1935 e 1974.

Costa da Caparica, F.N.A.T. Um lugar ao sol. Pavilhão central, ed. desc. (Neogravura).
Delcampe


Dependendo das débeis condições da Fundação e dos apoios estatais e, inicialmente, restrito à obra desenvolvida na Mata da Caparica, o projeto das colónias de férias nacionais para trabalhadores avançou, durante vinte anos, a título experimental, não existindo condições para identificar, no período em questão, num programa base a si destinado.

Costa da Caparica, Entrada principal para a FNAT, ed. Passaporte, 88, década de 1960.
Delcampe

De facto, apesar de existir empenho por parte do regime e da organização “em melhorar as condições de vida do trabalhador” consagrando “especial atenção à necessidade de assegurar a sua recuperação física”, as fragilidades que a FNAT enfrentou, ao longo dos seus primeiros anos de instituição, não permitiram gerar o equilíbrio necessário para a ampliação desejada da obra «Um Lugar ao Sol».

Apartada da “«cidade de férias» de Cassiano Branco, que se adivinhava veloz e vibrante ao ritmo d’a idade do Jazz-band”, a primeira colónia de férias nacional estruturou-se como uma verdadeira urbanização, de vertente familiar e educativa, adaptando-se ao espaço envolvente em composições de «roupagem» moderna.

Costa da Caparica, F.N.A.T. Um lugar ao sol. Vista aérea, ed. Neogravura.
Delcampe Bosspostcard

“A partir de 1950, atingiu-se o equilíbrio num nível de receitas e de despesas de ordem dos 2,600 contos”, que, conquanto longe de ser o desejável ou “significar desafogo”, permitiu, associado ao terceiro estatuto da Fundação, expandir o projeto das colónias de férias.

Não detendo mais a gestão das colónias balneares infantis e tendo como base a obra de «Um Lugar ao Sol», a FNAT desenvolveu um plano de readaptação dos seus edifícios, anteriormente destinados às crianças, para o público adulto.

Costa da Caparica, F.N.A.T. Um lugar ao sol. Trecho duma avenida, ed. Neogravura.
Delcampe Bossposcard

Enfatizando “as feições de uma obra que Salazar desejava simples, despretensiosa, agradável, higiénica e confortável”, o plano de readaptações, contando com “uma forte carga pedagógica na elevação cultural moral e cívica dos trabalhadores”, dotou os seus edifícios, repetidamente descritos na documentação como «pitorescos» e «com pendor tradicional», de dormitórios destinados a solteiros, quartos familiares, salas de jantar, salas de convívio, bar, casas-de-banho, capela, garagem e áreas funcionais que albergaram cozinhas, despensas e compartimentos destinados a funcionários (...) (3)


(1) Joana Castanheira Gabriel, Arquitetura social da FNAT (1938-1974)..., 2019
(2) Decreto-lei n.º 25 495, 13 de junho de 1935. Diário do Governo n.º 134 - I Série. Presidência do Conselho. Lisboa, p. 857.
(3) Joana Castanheira Gabriel, idem

Artigos relacionados:
Um lugar ao sol
Sobre o projecto de Cassiano Branco
Indevidamente chamada de Caparica
Mata do Estado e Quinta de Santo António

Leitura relacionada:
Panorama revista portuguesa de arte e turismo n° 10, agosto de 1942

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Bairro Novo dos Pescadores

O arquivo da "Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro" — designação opaca que radica no processo de desmantelamento da Organização das Pescas, que teve início em 26 de Abril de 1974 —, integra uma profusa colecção de correspondência trocada com pessoal político do regime e uma não menos valiosa compilação de milhares de fotografias de culto do "patrão das pescas" e da sua "obra social e de fomento".

Costa da Caparica, Bairro dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

Documentos escritos e repertório de imagens fixas, ambos supõem uma liturgia do poder, encenada à maneira dos fascismos modernos [...] (1)

*
*     *

1937, 11 março - a Lei n.º 1953, autoriza a criação "em todos os centros de pesca, de organismos de cooperação social, com personalidade jurídica, denominados Casas dos Pescadores", cuja esfera de atuação é limitada à área da respetiva capitania ou delegação marítima (Base I); 

Costa da Caparica, Bairro dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

o mesmo diploma cria a Junta Central das Casas dos Pescadores (JCCP), "que exercerá a sua atividade em colaboração com a Secção de Previdência Social do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência", com a competência de "orientar e coordenar a ação das Casas de Pescadores" e "de administrar o seu fundo comum" (Base II); 


1938, 14 julho - constituição da Casa dos Pescadores de Lisboa, com secções na Costa da Caparica e Seixal;

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura, Mario Novais, 1946.
Delcampe - Bosspostcard

1939, dezembro - 1940, fevereiro - construção da Sede da Secção da Casa dos Pescadores de Lisboa, na Costa da Caparica; 

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

1946, 20 maio - apresentação do anteprojeto pelo arquiteto Faria da Costa à JCCP;  julho - aprovação do anteprojeto pela JCCP;  27 agosto - lançamento do concurso para construção do Bairro para Pescadores na Caparica, cujas 40 casas começam a ser construídas antes do final do ano;  6 setembro - entrega do Plano do Bairro para Pescadores e do projeto definitivo das casas económicas tipo 1 e 2;

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1950, 04 fevereiro - o Decreto-Lei n.º 37750 confere à JCCP novas competências nomeadamente "construir, por si ou em comparticipação com o Estado, habitações destinadas aos sócios efetivos das Casas dos Pescadores (...), concedidas a título precário"; 

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1951 - criação do Serviço Técnico da JCCP (Serviço de Bairros e Construções), que passa a executar os projetos e fiscalizar as obras;

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1953, 31 dezembro - segundo o relatório anual da JCCP, existiam à data 27 bairros para pescadores, com 1512 casas e 7125 habitantes; 

1961 - segundo o relatório da JCCP, estão em construção 44 casas no bairro; 

Costa da Caparica, Bairro Novo dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

1962, 01 abril - inauguração do bairro; (2)

Costa da Caparica, Bairro Novo dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

Fundações em alvenaria de pedra e argamassa de cimento; paredes exteriores com soco em alvenaria de pedra e argamassa, elevação das paredes em blocos de argamassa de cimento e areia; paredes interiores em blocos de argamassa de cimento e areia; pavimentos do rés-do-chão em massame de cimento revestido de betonilha (sala comum e instalação sanitária) e solho sarrafado nas outras divisões, pavimentos do 1.º andar em laje betão armado revestido a betonilha (sala comum e instalação sanitária) ou solho sobre sarrafado (outras divisões); tetos rebocados e caiados; escada com degraus em betão ligeiramente armado; portas em madeira de pinho com ferragens tipo económico; caixilharias das janelas e portas interiores em madeira de pinho, vidraça nacional e ferragens tipo económico (memória descritiva do projeto das casas económicas do Bairro para Pescadores na Costa da Caparica) (3)

Costa da Caparica, inauguração do Centro de Assistência, 1963.
Arquivo Histórico da Marinha

1974, 31 dezembro - com a publicação da Portaria n.º 866/74, a JCCP assume a competência e as funções de uma caixa sindical de previdência; 

1976, 20 janeiro - pelo Decreto-Lei 49/76, a JCCP passa a denominar-se Caixa de Previdência e Abono de Família dos Profissionais de Pesca, passando as Casas dos Pescadores a delegações administrativas dessa mesma Caixa. (4)


(1) Álvaro Garrido, Henrique Tenreiro, uma biografia política, Lisboa Círculo de Leitores, 2009
(2) João Guilherme Faria da Costa, Bairro de Casas para Pescadores da Costa da Caparica / Bairro Novo dos Pescadores
(3) Idem
(4) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
Junta Central das Casas dos Pescadores
Plano de Urbanização da Costa da Caparica

Leitura relacionada:
João Guilherme Faria da Costa (1906-1971)
Almada na História,Boletim de Fontes Documentais, n° 31, 2018 cf. Jornal Praia do Sol, n.º 193, 1 de janeiro de 1962

Mais informação:
Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro (diversas obras sociais)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sobre o projecto de Cassiano Branco

A aproximação da construção à área costeira limitou a forma de ver a possibilidade e potencialidades locais de crescimento urbano, resultando em aglomerados habitacionais próximos da praia, por vezes até de uma forma potencialmente perigosa.

Costa da Caparica, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Por estas razões talvez o plano de Cassiano Branco fosse utópico para a época mas também será verdade afirmar que seria em muitos aspectos um plano actual, realista caso tivesse sido implementado, atribuído um rumo bem diferente àquela região.

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Observemos então a proposta de Cassiano Branco ou o postal e, a partir dele, desenvolvemos algumas reflexões, necessariamente especulativas essencialmente porque não existem textos que acompanhem a reflexão sobre o território, que pretendem descodificar as motivações, compreender os enquadramentos e comentar um desejo de uma nova cidade.

Hotel, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

O postal que representa uma proposta utópica para a Costa da Caparica, que seguramente não é somente um simples postal, prefigura uma cidade de lazer, particularmente apetrechada com equipamentos desportivos, lúdicos e culturais, que também, seguramente, não são imagem de Portugal dos anos 30, como não é igualmente representativa das tendências urbanísticas impostas pelo Estado-Novo.

Casino, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

Efectivamente, só na década seguinte se realizaram em Portugal alguns Planos de Urbanização de algumas estâncias de férias do litoral, cujos programas são quase exclusivamente a habitação unifamiliar, o hotel, o mercado e a igreja, não tendo contudo um caracter tão abrangente no território como o Plano da Costa da Caparica de Cassiano Branco.

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Refira-se uma vez mais que os limites deste plano não são claros mas, referenciando a extensão da Arriba Fóssil, quase que podemos afirmar que ele se estende desde a Costa da Caparica até à zona da Fonte-da-Telha.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

São propostas registadas em planta que apresentam uma estrutura viária disciplinada e hierarquizada em função de pequenas rotundas ou praças, à qual corresponde também uma hierarquização do programa.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

Prevalece um cenário de Cidade-Jardim muitas vezes associado à intenção de preservação e aproveitamento do património vegetal pré-existente.

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

A cidade jardim é um modelo de cidade concebido por Ebenezer Howard, no final do Séc. XIX, consistindo em uma comunidade autónoma cercada por um cinturão verde num meio-termo entre campo e cidade.

Costa da Caparica, vista aérea, c. 1980.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

A ideia era aproveitar as vantagens do campo eliminando as desvantagens da grande cidade, mas nem sempre pode ser um sinónimo de eco-cidade. (1)

Ilustração de Cassiano Branco, L'Illustration 4963, 16 April 1938.
Imagem: Old french Adverts

Art Deco: estilo que surgiu na década de 1920 ganhando força nos anos 30 na Europa e na América do Norte e do Sul e que abrangeu a moda, a arquitectura, as artes plásticas, o design gráfico, a tipografia e o design industrial.

O estilo deve o seu nome à Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais modernas (em francês: Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes), realizada em Paris, em 1925.

Essencialmente era um estilo decorativo que combinava luxo, e ornamentação formal, e que apresentava cores discretas, traços sintéticos, formas estilizadas ou geométricas... (2)


(1) Rufino, A. M. A. C. P, Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade, Lisboa, , 2014
(2) Rufino, A. M. A. C. P, Idem


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Costa da Caparica — urbanismos

Informação relacionada:
Arquivo RTP: Vida & Obra de Cassiano Branco