quinta-feira, 30 de maio de 2019

Barcos meia-lua (Aveiros, não Saveiros...)

No imenso areal o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas para o céu. (1)

Costa da Caparica Saveiros Meia-lua da Caparica  Marinha de Pesca.
Comissão Cultural da Marinha

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. 

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Hemeroteca Digital

Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos. (2)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros...
Hemeroteca Digital

Também as populações do litoral se deslocam: pescadores de Ílhavo e Ovar fundaram colónias, como a Costa da Caparica, onde se encontraram com algarvios, vindo depois engrossar a mesma aglomeração gente de Sesimbra e das margens dos esteiros do sul do Tejo [...]

Saveiro da Costa.
Caderno de Todos os Barcos do Tejo, tanto de Carga e transporte como d'Pesca, por Joao de Souza, 1785.

Os saveiros da Costa da Caparica, em forma de crescente, reproduzem um dos tipos de embarcação da Ria de Aveiro. (3)

Barco meia lua da Costa da Caparica usado na pesca da sardinha com rede de arrastar para terra.Construidos primitivamente em Ílhavo (Aveiro) navegavam com uma vela de pendão e um leme provisório que chegados à Caparica eram substituidos por remos.
Origem do fabrico Aquário Vasco da Gama.
Museu de Marinha

Quando os pescadores de Ovar abandonaram, no século XVI, a pesca na Ria e se dedicaram aos trabalhos do mar, fixaram-se primitivamente no lugar onde hoje se ergue a praia do Furadouro, que foi a sua primeira colónia.

Depois, nas estações próprias, partiram para o norte e para o sul, procurando locais para exercer a pesca e estabelecendo outras colónias entre o Douro e o Vouga e, finalmente, atingiram locais do litoral português cada vez mais afastados da terra natal. 

Os pescadores da Costa da Caparica (detalhe), Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944).
cf. estudo para "Quadro de Os Pescadores da Costa da Caparica, no "atelier" de Sousa Lopes" (1927).
Exibido na exposição "Efeitos de luz" (2015) no MNAC (Museu do Chiado)

Nos séculos XVI e XVII, estavam na Torreira e nas Areias mas, durante estes dois séculos, não se fixam nos lugares mencionados, regressando à vila após as fainas marítimas. Na primeira metade do século XVIII, trabalham como marmoteiros na Afurada, numa colónia onde estão já presentes também 92 mulheres. 

Na segunda metade do século XVIII, chegam à Caparica, Santo André e Olhão, para onde eram transportados nos caíques algarvios que se dirigiam a Aveiro para vender os carregamentos de peixe salgado e, de regresso, levavam para o Algarve as bateiras dos pescadores vareiros e murtoseiros, com as suas redes e aprestos. (4)

Barco no Tejo com mau tempo, Emeric Essex Vidal (1791-1861), 1833.
artnet

Nas artes de arrastar para terra figuram as xavegas do Algarve, os saveiros e as meias-luas, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na praia de Sines. (5)

Saveiro da Costa de S. Jacinto (Aveiro) usado no lançamento das artes de arrastar para terra.
Origem do fabrico Aquário Vasco da Gama

Museu de Marinha

Os "meias-luas" eram antigamente construídos em Ovar pelo construtor Bernardino Gomes. Eram muito mais pequenos do que o "barco do mar" que pode, ainda hoje, ser encontrado em Aveiro.

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

Os primeiros barcos eram, apesar de tudo, bastante grandes: o seu comprimento era de 10,80 metros e a sua boca 2,85 metros,como está representado num modelo da Colecção Seixas no Museu de Marinha, construído à escala de 1:25, cujas linhas e plano de construção foram retirados por José Pessegueiro Gonçalves em 1920 de uma embarcação existente denominada "SEMPRE VIM". 

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

Estas grandes embarcações eram construídas com quatro bancadas para os remadores e as posteriores, mais pequenas, e em menor número, que mediam 8,50 x 2,40 metros aproximadamente, eram construídas com três. 

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

A parte de ré do casco era deixada aberta para permitir espaço no qual era alojada a rede, as suas numerosas poitas e flutuadores de cortiça e os cabos de puxar. (6)

Meia lua "Ha-de ser o que Deus Quiser", TR-306-L. Registada na Delegação Marítima da Trafaria, em 18 de setembro de 1946 por Vitorino José, que a mandou construir ao carpinteiro naval, Marcolino Ferreira, no estaleiro de Porto Brandão. Destinava-se à pesca local com arte de navegar.

Meia lua da Costa da Caparica, "Ha-de ser o que Deus Quiser", 1946.
Revista da Armada

Em 04 de março de 1950 passou a ser propriedade de António Xavier Carrapinha e António Pinto Ribeiro.

Marintimidades

Lotação: 12 homens; Tonelagem: 4,155. Comprimento: 8,50 m (8,42 m Documento da Delegação Marítima); Boca: 2,40 m (2,35 m Documento da Delegação Marítima); Pontal: 0,80 m (0,84 m Documento da Delegação Marítima). (7)

Outro exemplo expressivo, captado também nos anos 60, é a proa da barca da arte xávega de Monte Gordo. 


Barca de pesca em meia lua do Algarve na zona de Monte Gordo.
Museu de Marinha
No beque, uma cabeça de cobra.

Proa da barca de Monte Gordo, anos 60.
Marintimidades

Local para a cabeleira, ocasionalmente retirada. Olhos bem delineados, postados na proa, sem delimitação da cara. (8)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(3) Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, Geografia de Portugal, comentários e actualização de Suzanne Daveau, Lisboa, Edições Sá da Costa, 1999 -1987-, volume III, pp. 754-6 cf. Clara Sarmento, Práticas, discursos e representações da cultura popular portuguesa
(4) Clara Sarmento, Práticas, discursos e representações da cultura popular portuguesa
(5) Ramalho Ortigão, O culto da arte em Portugal, Lisboa, A.M. Pereira, 1896
(6) Revista da Armada
(7) Museu de Marinha
(8) Marintimidades

Artigos relacionados:
Os Meia Lua da Costa de Caparica
Lugar da Costa de Caparica, 12 de setembro de 1833
Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial
Ílhavos
etc.

Mais informação:
Ana Maria Lopes, Marintimidades, O meia-lua: da praia para o Museu?...
Leitão, Manuel Leitão, Revista da Armada, Dezembro 2002, (pág. 397, ou pesquisar "Caparica")
Senos da Fonseca, Factos & História 
Senos da Fonseca, A arte da xávega
Caxinas a freguesia
etc.

terça-feira, 28 de maio de 2019

"Deus te guie"

De novo o Deus te guie fez proa ao mar, e o calador foi folgando cabos e pondo coiros a flutuar de oito em oito cordas. O arrais pediu fósforos, chegou o lume ao morrão do caldeiro e fez sinal para terra. Deu o brado de "ninguém reme!" e apagou a chama. 

Costa da Caparica, Deus te guie.

Houve um silêncio no Deus te guie... E o espadilheiro bateu com a pá na água.

— Abriu! Abriu peixe! — chamaram os remos, batendo cada um, depois, com gana. 

Mas os arrais berrou: — Ninguém bate! Aqui, quem dá ordes!?


Desenho do saveiro Deus te guie da Costa da Caparica.
Museu de Marinha
Fez-se tamanho silêncio que só o marulho das águas tem rumor. A bica da vante está voltada ao sul. As mãos do calador atam a corda à rede. Vão descer as primeiras malhas... Todos se descobrem. 

Desenho do saveiro Deus te guie da Costa da Caparica.
Museu de Marinha

E o arrais diz: — Vai em louvor de Nossa Senhora do Cabo! (1)


(1) Romeu Correia, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950

Artigo relacionado:
Arte xávega por Romeu Correia

terça-feira, 7 de maio de 2019

Pescadores de Setubal

Na Costa de Caparica, onde vivem cerca de 4:000 pescadores, deu-se uma grave occorrencia na madrugada de 3 do corrente. 

(Instantaneos do sr. Alberto Lima)
Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Arquivo Municipal de Lisboa

Os da Costa, surpreendendo quatro galeões e um buque com pescadores de Setubal a pescarem dentro das aguas reservadas pela capitania aos pescadores da Costa, foram estes em dois galeões com 6o homens, ao seu encontro e aprisionaram os de Setubal, metendo-lhe dois galeoes e o buque no fundo, e cortaram-lhe as redes.

Os pescadores de Setubal foram conduzidos para a praia, onde desembarcaram e seguiram para a sua terra, sem que os da Costa os maltratassem. 

(Instantaneos do sr. Alberto Lima)
Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900.
Arquivo Municipal de Lisboa

Os prejuizos calculam-se nuns 15:000$000 de réis. Não é a primeira vez que se dão estes casos entre os pescadores de Setubal e os da Costa. 

Ha uns vinte annos deu-se conflito semelhante, e oxalá não se repitam, para que não surjam consequencias funestas. (1)


(1) O Occidente n.° 1066, 10 de agosto de 1908