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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Anjinhos da Costa

Perguntei, porque é que eles só tinham cabeça?

Pedestal da imagem da Nossa Senhora do Rosário colocada em nicho no Largo da Coroa.
Mar da Costa/Mar de Caparica


A minha mãe em tom de fim de conversa, para obviar a minha insistência, respondeu: — São anjinhos, e os anjinhos não têm corpo! — Então se não têm corpo, como é que têm cabeça? Mas a conversa ficou por ali, não fossem aqueles anjos decapitados, de olhar melado e triste, aparecer-me à noite durante o sono animados com expressões mais aterradoras, querendo vingar-se.

Com o passar do tempo apercebi-me que os anjinhos são mais de tropelias que malvados. Na única fotografia que consegui apenas eles ficaram focados. A Nossa Senhora do Rosário aparece por detrás do reflexo da vista que se lhe encontra devante.

Nossa Senhora do Rosário em nicho no Largo da Coroa.
Mar da Costa/Mar de Caparica

A Coroa do Largo, essa, fizeram-na desaparecer há muito...

Costa da Caparica, casa da coroa.
almaDalmada

Raul Higgs refere no livro, A nossa Costa, Nossa Senhora Conceição do Rosário padroeira da freguesia da Costa da Caparica, mas a imagem do largo da Coroa não lhe corresponde. A Senhora da Conceição não é representada o menino ao colo.

O padre Baltasar pregando à multidão na praia da Costa da Caparica, 1937.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Tanto na Costa como no Monte, a evocação da Senhora do Rosário foi progressivamente sendo ocupada pela da Senhora da Conceição, creio que no caso da Costa mais acentuadamente após a abertura da maternidade na Casa dos Pescadores, sendo que no Monte a transição foi ainda mais precoce (v. O inimigo). Creio que os anjinhos estiveram envolvidos.


oooOooo

Sobre a devoção da Senhora do Rosário da Costa há duas versões. António Correia regista que em 1863, na segunda quinzena de Setembro, os pescadores da companha do mestre Reguinga, depois de uma virada, foram salvos pelos pescadores da companha do mestre Vitorino José da Silva, depois de invocarem a dita Sra., passando estes mestres a fazer uma festa grande om dinheiro angariado na Ribeira Nova e nas lotas da praia, continuada pelos seus sucessores (cf. Praia do Sol, 1 de março de1955).

Já Manuel Lourenço Soares regista que o naufrágio do mestre Manuel Reguinga foi em 1 de Julho de 1824, passando as festas a realizarem-se em Setembro até 1929 e depois retomadas por mais alguns anos depois de 1937 (cf. Jornal de Almada, 10 de setembro de 1993).

Certo é que já em 1888 eram celebradas (cf. AHPL, SR 13.05: E144, rnçt 1888, 2 de novembro de 1888).

A origem desta devoção poderá estar relacionada Com a presença dos Missionários Dorninicanos Inglesinhos do Pe. Higgs (Hughes) na Costa, onde dirigiam o Colégio do Menino Jesus da Praia, também conhecido pelo Conventinho, fundado pelo mesmo padre em1870 (cf. Vieira Júnior, Villa e termo de Almada..., l897, p. 108). (1)


(1) Rui Manuel Mesquita Mendes, Fenómenos de Religiosidade Popular na Caparica dos Séculos XVIII e XIX, 2013

Artigos relacionados:
A procissão
O inimigo

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Carta de Lei, pela qual Vossa Magestade Ha por bem dar Armas

DOM JOÃO, por graça de Deus, Rei do Reino Unido de Portugal, e do Brasil, e Algarve, d’aquém e d’além-mar em Africa, Senhor de Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Ethiopia, Arabia, Persia, e da Índia, &c. Faço saber aos que a presente Carta de Lei virem: Que tendo sido servido unir os meus Reinos de Portugal, Brasil e Algarve, para que juntos constituissem, como efetivamente constituem um só e mesmo Reino:

... escudo Real Portuguez, inscrito na dita Esféra Armillar de Ouro em campo azul, com uma Corôa sobreposta...
Carta de Lei, pela qual Vossa Magestade Ha por bem dar Armas ao seu Reino do Brasil

é regular e consequente o incorporar em um só Escudo Real das Armas de todos os três Reinos, assim da mesma forma, que o Senhor Rei Dom Affonso Terceiro, de Gloriosa Memoria, Unindo outróra o Reino do Algarve ao de Portugal, Uniu também as suas Armas respectivas: E occorrendo que para este effeito o Meu Reino do Brasil ainda não tem Armas, que caracterizem a bem merecida preeminencia que Me aprouve exalta-lo: Hei por bem, e me Praz ordenar o seguinte:

I. Que o Reino do Brasil tenha por Armas uma Esféra Armillar de Ouro em campo azul.

... o Reino do Brasil tenha por Armas uma Esféra Armillar de Ouro em campo azul...
Carta de Lei, pela qual Vossa Magestade Ha por bem dar Armas ao seu Reino do Brasil

II. Que o Escudo Real Portuguez, inscrito na dita Esféra Armillar de Ouro em campo azul, com uma Corôa sobreposta, fique sendo de hoje em diante as Armas do Reino Unido de Portugal, e do Brasil e Algarve, e das mais Partes integrantes da Minha Monarquia.

III. Que estas novas Armas sejam por conseguinte as que uniformemente se hajão de empregar em todos os Estandartes, Bandeira, Sellos Reais, e Cunho de Moedas, assim como em tudo mais, em que até agora se tenha feito uso das Armas precedentes.

Casa da Coroa, da qual se dizia que hospedou D. João VI.
Imagem: Carlos Caria

E esta se cumprirá como nella se contém. Pelo que Mando a huma e outra Meza do Desembargo do Paço, e da Consciencia e Ordens; Presidente do Meu Real Erario; Regedores das Casas da Supplicação; Conselhos da Minha Real Fazenda, e mais Tribunaes do Reino Unido; Governadores das Relações do Porto, Bahia, e Maranhão; Governadores, e Capităes Generaes, e mais Governadores do Brasil, e dos Meus Dominios Ultramarinos, e a todos os Ministros de Justiça, e mais Pessoas, a quem pertencer o conhecimento, e execução desta Carta de Lei, qne a cumprão, e guardem, e fação inteiramente cumprir, e guardar, como nella se contém, não obstante quaesquer Leis, Alvarás, Regimentos, Decretos, ou Ordens em contrario; porque todos, e todas Hei por derogadas para este effeito somente, como se dellas fizesse expressa, e individual menção, ficando aliàs sempre em seu vigor.

E ao Doutor Thomas Antonio de Villa Nova Portugal, edo de Conselho, Desembargador do Paço, e Chanceller Mór do Reino do Brasil, Mando que a faca publicar na Chancellaria, e que della se remettão Copias a todos os Tribunaes, Cabeças de Comarca, e Villas deste Reino; publicando-se igualmente na Chancellaria Mór do Reino de Portugal, remettendo-se tambem as referidas Copias ás Estações competentes; registando-se em todos os lugares onde se costumão registar semelhantes Cartas, e guardando-se o Original onde se guardão as Minhas Leis, Alvarás, Regimentos, Cartas, e Ordens deste Reino do Brasil, Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos treze de Maio de mil oitocentos e dezesete.


EL REI Com Guarda.⁠

Marquez de Aguiar.⁠

CArta de Lei, pela qual Vossa Magestade Ha por bem dar Armas ao seu Reino do Brasil, e incorporar em hum só Escudo Real as Armas de Portugal, Brasil, e Algarves, para symbolo da União, e identidade dos referidos tres Reinos, tudo na forma acima declarada.

Para Vossa Magestade Vér.

João Carneiro de Campos a fez... (1)



(1) Carta de Lei, pela qual Vossa Magestade Ha por bem dar Armas ao seu Reino do Brasil

Artigo relacionado:
Pedra d'Armas

Leitura relacionada:
Projecto para o estabelecimento político do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Pedra d'Armas

Portaria ao Juiz de Fóra de Almada, para que combine com o Juiz de Fóra de Cezimbra, os meios mais eficazes para a prizão dos dezertores e salteadores que se acoutão na Costa de Caparica.

Google Books

Portaria ao Juiz de Fóra de Cezimbra, para que combinando com o Juiz de Fóra de Almada jajão de effectuar a prizão dos dezertores e salteadores que se acoutaão nas companhias dos pescadores Costa, e de que faz menção na sua conta de 25 do corrente. (1)


Google Books

O Juiz de Fóra de Almada dá parte, que na noute de 27 para 28 de Maio, com auxílio de Tropa, conseguiu prender na Costa de Caparica desanove individuos, alguns dos quaes lhe estão denunciados por desertores, e que trata saber com toda a individuação, quaes são os seus Regimentos, e Companhias, para os poder remetter com estas declarações; e dos que não são desertores, tirar as averiguações necessarias. (2)

Pedra d'Armas com Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa" na Costa de Caparica
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
caparica news


(1) Diário do Governo n.° 107, quarta-feira, 8 de maio de 1822
(2) Diário do Governo n.° 138, sexta-feira, 14 de junho de 1822