terça-feira, 16 de junho de 2020

Bulhão Pato pelo visconde de Benalcanfôr


N'um esboço tocado de traços fugitivos não cabe de certo a minucia demorada, mas indispensavel no retrato para a semelhança perfeita das feições e das physionomias. Por mais sobrio de divagações que seja o escriptor, torna-se-lhe muito difficil, senão impossivel, contrahir na tela acanhada de um capitulo as magestosas ondulações de uma corrente de poesia que ha vinte e quatro annos* despraia pelas margens da nossa litteratura depon do n'ellas o nateiro abundante e riquissimo de suas creações poeticas.

Bulhão Pato (1828-1912)
(insp. Andy Warhol, Ten Lizes, 1963)

* Data de 1850 a apparição das primeiras poesias de Bulhão Pato. Seguem-se-lhe em 1857: Amor virgem n'uma peccadora, comedia-drama em um acto, prosa e verso 1862 ; Versos , 1 vol .  1864 : Digressões e novellas , 1 vol . , e Graziella , versão de Lamartine 1866 : Paquita ( poema ) , 1867 ; Canções da tarde , 1 vol . - 1869 ; Flôres agrestes , 1 vol .  1871 ; Paisagens ( prosa ) , 1 vol , 1873 ; Cantos e satyras , 1 volume. Editores , Rolland e Semiond , 1873, Lisboa ; Renan e os sabios da academia ( satyra ) , O cemiterio de Pisa , e a Vendetta , versões de Emilio Castellar , e de Balzac.

De feito , a indole primordial e as evoluções subsequentes do talento de um escriptor ou de um poeta qualquer , teem mais do que affinidade remota com as nascenças de um rio. Como este , o talento tambem brota modesto de suas origens , e engrossa depois a sua corrente , já derivando se reno , já correndo agitado , ora apertando-se em voltas caprichosas , ora alargando seu alveo e rolando magestoso até se metter no oceano ordinariamente tempestuoso da fama litteraria . Porque é que , aos 19 annos , apaixonado e ter no como um trovador , com a bocca ainda humida do ultimo beijo , a mente escandecida por visões encantadas e por sonhos voluptuosos que — sómente a aurora desfaz arroxeando o horisonte , para voltarem na noite immediata , — canta os amores juvenis , com seus enleios e suas malicias tam bem ?

Porque scisma dôcemente Bulhão Pato vendo os lirios e as boninas em que pousa o orvalho das manhãs de abril ? Porque aspira com embriaguez o aroma dos campos ? Porque escuta os mil rumores mysteriosos do bosque ? Porque se fica esquecido a contemplar as nuvemsinhas do poente e as sombras melancolicas do crepusculo da tarde ? E porque é tambem , que passados vinte annos , vêmos o mesmo poeta , outr ' ora rescendente das essencias mais fragrantes do lyrismo , despedir-se , pelo menos momentaneamente , das canções amorosas , arrancar as cordas do seu alaúde romantico para pulsar a lyra fremente da indignação vingadora de Juvenal , de Augusto Barbier e de Victor Hugo ?

É facil conciliar esta contradicção apparente , pois não é senão uma phase natural de sua indole poetica , lembrando-nos de que Bulhão Pato é um poeta essencialmente espontaneo ; que a sua poesia é o reflexo fiel da sua alma . Suas canções risonhas como uma alvorada de maio quando as illuminava o sol da primeira mocidade , assumiram nas satyras já a gravidade das paisagens severas , já o aspecto tragico das cataratas que se despenham no inverno com medonho estrepito , ou o das noites de procella cuja escuridão é apenas alumiada pelo fulgor livido dos relampagos.

É que a doçura das illusões juvenis cortou-lh'a o travo das decepções ; é que aos idyllios descuidosos da manhã da vida seguiu-se , no poeta , o drama viril da existencia com o seu cortejo de lutas , e de paixões acerbas.

Foi este pendor natural por onde o poeta foi levado das regiões tranquillas da poesia individual e lyrica aos espaços tempestuosos da poesia social e da satyra politica , aonde as coleras , os resentimentos e até as proprias aspirações do poeta , ou antes do partidario , é inevitavel que tumultuem com o fragor e a espuma das ondas irritadas. Se a Nemesis politica pode ser , como é sempre nas satyras de Bulbão Pato , elevada , decorosa e elo quente , nem por isso está isenta , em outros poe tas contemporaneos , das allucinações do furor , e dos rebates rancorosos.

Poeta de verdade , fiel ás vozes interiores da consciencia que o chamam a combater por uma causa em que vê o triumpho da justiça , ou a fulminar os que se lhe afiguram vicios e hypocrisias sociaes com os seus terriveis alexandrinos , verda deiros raios despedidos pela mão de Juvenal , Bulhão Pato é tão espontaneo e sincero hoje na explosão das paixões , que o abrazam , como o era d'antes nas effusões do seu adoravel lyrismo.

A sua musa , agora como sempre , não se envolve em roupagens theatraes , nem carece de lentejoulas para nos seduzir com os seus encantos . É essencialmente singela , desaffectada , natural . O seu culto é o do bello , idealisado pela arte . Se algumas superstições alimentar , como todos os cultos , serão as da sinceridade dos sentimentos , da espontaneidade das impressões.

Será esta a ultima e definitiva phase do seu talento poetico , affirmado por tantos monumentos , em que a sua phantasia ao mesmo tempo vigorosa e delicada gravou as suas creações como os esculptores mais afamados gravaram com o cinzel as suas no marmore antigo mais puro ?

Não o acreditamos . A natureza com as suas vozes mysteriosas ; o coração humano com os seus enleios , esperanças e amarguras ; os mil dramas commoventes da existencia ; as subtilezas e os arcanos psychologicos da alma ; as tragedias moraes da paixão , em que gemem e succumbem , duramente suppliciados , os affectos mais intimos ; eis a tela larga e permanente em que hão-de voltar a embeber-se as côres da palheta opulenta e admiravel do nosso eminente poeta . Ainda bem , que as apostrophes e as coleras partidarias são apenas na vida social , e na littera ria tambem , um ephemero accidente.

Especie de relampagos que atravessam a atmosphera , sua claridade é momentanea , como momentaneo é tambem o ribombo do trovão que os acompanha.

Afastados os negrumes da procella , o céo recobra a antiga transparencia etherea , semelhante á superficie azul de um lago immenso que nenhuma aragem encrespa.

Quaes são as feições salientes do genio poetico de Bulhão Pato ? a imaginação , a sensibilidade , a perfeição inimitavel da fórma , e o gosto sem igual.

Em todo o poeta , que o é deveras , ha forçosamente a coexistencia da imaginação , que cria as ficções , as scenas , os personagens , com a sensibilidade que o domina , antes de nos commover , e com a melodia do rythmo cujas cadencia , sonoridade ou valentia formam a linguagem sublime da linguagem da poesia . A todo este conjuncto feliz de qualidades devem presidir as leis soberanas do gosto que lhe dão relevo , vigor , graça e harmonia.

Quando o poeta melodioso da "Harpa do crente" e da "Voz do propheta" [Alexandre Herculano] escreveu no prologo da Paquita que "Bulhão Pato é sobre tudo um homem de gosto e que o homem de gosto é sobre tudo singelo" , resumiu n 'um traço a physionomia inteira do author dos Cantos e satyras.

Alexandre Herculano (1810-1877).
Retrato por Francisca de Almeida Furtado, 1852.
 MNAA, Obras em reserva, O museu que não se vê.

Adivinha-se n'elle a sua predilecção pela singeleza de Garrett , desespero de tantos que inutilmente a teem procurado na poesia e na prosa . Nas "Digressões e novellas" , bem como nas "Paisagens" , digamos , ha contos e episodios narrados e descriptos com tal suavidade de linguagem e tal frescura de tintas , o colorido é ao mesmo tempo tão sobrio e acertado , a trama da prosa tão finamente tecida , o dizer tão caloroso e casto , que acabando de lêr aquellas paginas , nos sentimos consolados , não só com a certeza de não haver desapparecido com o visconde d'Almeida Garrett o estylo elegante , singelo e sobrio das Viagens na minha terra , mas até de o vêrmos luzir na simplicidade das suas roupagens , tão animado como d'antes , flexivel , eloquente.

Voltando á sua poesia , podemos dizer que Bulhão Pato canta suavemente , ternamente , quer o enlevem as scenas da natureza , quer o commovam as dôres profundas ou as miserias dilacerantes dos supremos infortunios . Nas cordas da sua lyra resốam-lhe espontaneos os canticos , como o vento na harpa eolia , desferindo por si mesma as notas e as estrophes . A melodia , a tristeza e o amor divagam pelas cordas do seu alaúde como o luar de uma noite de outono pelas campinas , avel ludando - as com sua doce e pallida claridade.

O seu ideal poetico nem é o naturalismo exagerado de Goethe  nem a ironia desesperada de Byron. 

Respira-se nos seus poemas o perfume do lyrismo de Garrett e de Lamartine , interrompido a espaços pela toada doudejante de Musset , mas illuminado e aquecido pelas chammas do sol da peninsula que lhe dourou o berço.

Almeida Garrett (1799-1854)
Retrato por Manuel Araujo Porto-Alegre, 1833.
Instituto Camões

Abundam na harpa do poeta as notas sentidas da elegia , e alguns dos seus poemetos , entre elles a "Rosa do monte" e "Os Noivos" , são deliciosos pelo interesse dramatico que os anima , pela paixão intensa que respiram e pela perfeição dos moldes poeticos.

Em ambas estas composições, admiraveis de fórma , o poeta elevou-se á mais alta sensibilidade, orvalhando-as de lagrimas e commovendo-nos. Que sobriedade de traços na pintura da aldea, nos Noivos, e que sympathia contagiosa pela vida aspera dos pobres pescadores !

A aldea é de pescadores .
Por essas costas do mar ,
Quando as tormentas começam ,
Aquillo é que é labutar !

Ás vezes um mez a fio ,
O vento sem acalmar ,
E os vagalhões dia e noite
Nas rochas a rebentar !

Algum remedio , e bem pouco ,
Que tanto custa a juntar ,
Pois basta um mez de invernia ,
Nem tanto , para o levar !

Que vida a da pobre gente ,
Quando começa a lutar
O vento bravó co ' as ondas ,
Por essas costas do mar !

Ha quatro casas e a ermida
De pedra e cal , o demais
Choças de colmo que ás vezes
Destroem os vendavaes.

Mas quando chega o bom tempo ,
E a pesca não escaceia ,
Respira toda alegria ,
Apesar de pobre , a aldea.

A pintura da noiva de Daniel, o arrojado pescador , é um modelo de poesia, e de naturalidade, em que se reproduzem as altas faculdades do poeta, a imaginação viva, a singeleza graciosa, a ternura tocante e o atticismo da fórma :

Amparo tinha no rosto
Uma expressão de ternura ,
Que lhe daya mais encantos
Do que a propria formosura !

Os olhos azues purissimos , 
E de transparencia tal , 
Que deixavam lêr no fundo 
Da sua alma virginal ! 

O cabello louro - escuro , 
Tão basto , tảo annelado , 
Que era um primor , posto em tranças , 
E um enlevo , desatado !

No tempo em que era criança 
E de genio folgazão , 
Com as outras raparigas , 
Pelas tardes de verão , 

Andava a brincar na praia , 
E a espreitar de quando em quando 
Os hombros nús , mais que os hombros . . . 
Em fim co ' as ondas folgando.

N ' isto vinham os rapazes — 
Mas o cabello era tanto , 
Que sacudia a cabeça , 
E servia - lhe de manto !

E que vêa dramatica lateja na rapida scena do temporal que de repente se levanta !

O céo estava sereno ; 
Era propicia a estação : 
Logo em entradas de outono , 
Dias como de verão. 

Porém o vento levanta - se 
E quando menos se espera , 
Seja verão , seja outono , 
Seja inverno ou primavera.

Daniel , deixando os outros , 
Com a companha a seu cargo , 
Fez - se ao mar , largando as artes 
A duas leguas de largo. 

O peixe dava em cardumes ; 
Lidando não attentaram 
No aspecto de certas nuvens 
Que no céo se agglomeraram. 

Dentro de pouco os relampagos 
Nos ares a fuzilar , 
E o vento a picar as ondas , 
E as ondas a rebentar !

Podiam correr á pôpa 
Mas não sem todo o cuidado 
Que á pôpa , em cahindo tempo , 
E ' navegar arriscado. 

A véla posta nos rizes — 
O vendaval carregava — 
Como um falcão corta os ares , 
O barco as ondas cortava ! 

Amparo , sobre um penhasco , 
De mãos postas a rezar : 
A morte no arfar do seio , 
Ancias de morte no olhar.

Elles já perto da costa , 
E o povo junto a dizer : 
« Se o barco vem aos cachopos 
Só Deus lhes póde valer ! » 

Tentaram fazer - se ao largo , 
Lutando co ’ a morte a braços ; 
Mas deram sobre os rochedos , 
E o barco fez - se em pedaços !

Com que saudade nos apartamos dos vergeis amenos , das solidões melancolicas ou das campinas risonbas por onde divagam alternadamente os folgares e as tristezas do seu lyrismo , lagrima crystallina em que por instante brinca um raio de sol !

Com que pena dizemos adeus aos lagos transparentes em que o vêmos espanejar suas azas brancas de cysne , para seguirmos embora por poucos instantes o poeta ás regiões tempestuosas da satyra , onde os jambos de Archilocho fuzilam como raios por entre as nuvens negras de procella e os alexandrinos esplendidos do nosso poeta ullulam , encapellando - se , como vagas enfurecidas , e possessas do demonio da tormenta !

Ouçam esse brado , em que renascem as mofas e o desprezo de Juvenal :

Lá vai correndo as ruas da cidade , 
A quatro , um titular da grande sociedade . 
Que apparatoso trem , que fardas d ’ espavento ! 
Pasma o futil vulgacho em face do portento ! 
Quem é ? sabem quem é : conhece - o todo o mundo : 
Um nobre , um par do reino , um sapo nauseabundo , 
Que á plena luz do sol , viscoso e repellente , 
Ou na praça ou na rua enoja a toda a gente ! 

Este illustre varão , poço de iniquidades , 
Tem — faculta - lhe a lei — varias immunidades : 
Póde até legislar ! ó povo desgraçado , 
Decide - te da sorte o voto d ’ um forçado , 
Que , se houvesse moral , já não seria estranho 
Vêl - o com a braga ao pé a trabalhar no banho !

A satyra que tem por titulo "Dalila" reune , a meu vêr , quantos predicados se exigem da satyra , para que ella nem na grandeza , nem na magestade , nem na eloquencia , nem na indignação , nem na ironia , desça das alturas em que deve pairar , sob pena de deixar de ser à musa terrivel do sarcasmo e transformar - se na collareja desbragada e plebêa dos mercados.

Este é o perigo supremo , a catastrophe séria que ameaça a maior parte das imprecações poeticas da actualidade . A satyra ha - de ser mais do que um aggregado de epithetos deprimentes e de injurias villăs , embora ligados n ' um feixe poetico pelo laço prestigioso de um rythmo sonoro e opulento.

É preciso sobre tudo que a satyra não perca nunca a elevação da idéa , a finura subtil da analyse , o cambiante feliz e inesperado nos traços incisivos e rapidos das suas ironias e que a colera , que a domina , não a afunde no charco das obscenidades grosseiras nem a rebaixe ás indecencias avinhadas de uma bacchante meio despida.

Eis um trecho da satyra a que nos referimos :

Que singular mulher ! 
que estranha formosura ! 
Tem tudo — o andar , o gesto , a graça da figura ! 
No purissimo azul dos olhos crystallinos 
A luz que nos transporta aos extasis divinos . 
Casando - lhe a altivez co ’ a timida innocencia , 
Deu - lhe ao rosto o ideal a mão da Providencia. 
O devoto dirá , vendo - a rezar no templo : 
« Não pode ser do mundo aquella que eu contemplo ; 
Se és anjo implora a Deus o bem da humanidade ! » 
Tal assombro produz a magica beldade !

Pois bem , esta mulher — mulher unicamente — 
Enreda , calumnia , infama a toda a gente.
No livro de orações á margem tem marcado 
O dia da entrevista , o ponto combinado. 
Uma vez escondeu , por ser o caso instante , 
No berço d ' uma filha as cartas d ’ um amante. 
Profanando , sem alma , o coração do lar , 
Profana tudo mais : a prol ' , o templo , o altar ; 
Mas como entra no mundo apparatosa e rica , 
Co ' as virtudes da santa o mundo se edifica !

Esta magnifica satyra , recheada , como vêem , de contrastes felizes , de antitheses de hypocrisia e de devassidão , de perfidia e de cynismo , prosegue sempre variada nos tons , acertada nos cambiantes e nas gradações . Na ultima parte d'ella , o poeta figura uma infeliz trahida nos seus amores pelo homem de quem teve uma filha . A sociedade mostra - se indifferente a tão grande infortunio.

Perante este egoismo revoltante do corpo social o poeta exclama :

O mundo que applaudiu as galas deslumbrantes 
Da perfida ao marido e perfida aos amantes 
Co ' a implacavel moral que inflamma a gente séria 
Desampara a infeliz prostrada na miseria.

Bemdito seja Deus ! — os que mais fazem d ' isto 
Andam sempre a invocar teu santo nome , ó Christo. 

A moralidade que respira esta composição , o caracter impessoal com que fecham estes versos esplendidos , irreprehensiveis , aonde , além do ar tista que inventa , ha o lapidario paciente que pule os prismas do diamante , o Benvenuto Cellini que lavra com um buril privilegiado e unico os pri mores da phantasia , tornam admiravel a satyra de Dalila ; e provam a elevação artistica a que póde attingir , nas mãos de um poeta eminente e sabedor da arte , um genero aliás tão perigoso e cercado de precipicios.

As suas satyras , até hoje publicadas , respiram pela maior parte a punição das apostasias e a au dacia generosa das aspirações da liberdade , sem os doestos e as represalias sanguinolentas que ge ralmente , seja qual fôr o paiz e o talento do es criptor , salpicam a satyra , e por vezes a fazem rojar pelos tremedaes , desgrenhada , odienta , plebêa.

Quando nos lembra que Barbier , o notavel e fogoso poeta , que em plena monarchia de julho fez lampejar em todo o seu fulgor os raios da satyra antiga , descrevia a liberdade como uma mulher robusta ,

Qui ne prends ses amants que dans la populace 
Qui ne prête ses larges flancs 
Qu ' a des gens forts comme elle , et qui veut qu ' on l ' embrasse 
Avec des mains rouges de sang , 

e se extasiava com o fanatismo servil de um li berto de Claudio diante das escorias sociaes , ani . madas de odios profundos ás quaes elle chama

La grande populace et la sainte canaille 

é facil prever a quantas aberrações , a quantos desregramentos póde arrastar , quando manejada por mãos imprudentes ou inhabeis , esta arma litteraria em que , se por um lado , respiram as paixões nobres e viris , por outro fermentam , não raro , os sentimentos baixos , as vinganças biliosas , e a licença deshonesta das maximas torpezas.

Ainda bem que a satyra de Bulbảo Pato é sempre elevada . Que outros não a prostituam aos convicios das encruzilhadas e não a manchem com o lodo das infamias partidarias , é o nosso voto mais sincero.

Oxalá que não se vulgarize um genero litterario que , pela sua mesma natureza , não pode ser na arte senão uma manifestação excepcional , tendo - se em conta a exaltação febril e as paixões acerbas , necessarias para a sua gestação , e de que ella vive infelizmente como da sua vida natural e permanente.

Sente - se porém admiração espontanea , irresistivel , bemdiz - se até o jambo de Archilocho e o latego de Juvenal , quando n ' elles trôa a eloquencia vingadora de "Victor Hugo no Calvario" , e da "Velhice do Seculo" . É que então a arte reveste - se , deslumbrando - nos , de todos os esplendores das auroras boreaes.

Quando a musa sobe tão alto na indignação e na eloquencia , e dos seus pincaros de luz e de chammas , ao mesmo tempo magestosa e terrivel , dardeja raios ardentes , que alumiam e abrazam quanto tocam , a grandeza solemne da scena asso berba o espectador , e subjuga - lhe por tal forma as faculdades da analyse e da critica , que estas co mo que se paralysam , para só viverem as do en thusiasmo e as da admiração.

Ouçamos o poeta [cf. Victor Hugo no Calvario ( Cantos e Satyras ) , pag . 160]:

Já um dia em Paris a honrada burguezia 
Fraternizou tambem co ' a santa clerezia , 
Protegeu a matança , e depois d ' esso horror 
Assentou sobre o throno um certo imperador. 
Veio à paz , engordou - - embora amordaçada , 
— O clero a dominar a plebe fascinada ; 
Nos campos a nudez , nas côrtes a opulencia ; 
Os excessos do luxo a darem na demencia ; 
Censura ao pensador , licença ao imbecil , 
Ao zombeteiro estulto , ao escriptor mais vil . 
Que succedeu depois ? - o tronco derrancado 
O fructo que produz é fructo desgraçado.

O direito era a força , e julgando - a tamanha 
Claudio ousou provocar os brios da Allemanha . 
O clero abençoava o protector de Roma : 
Rugia o seu leão e sacudia a coma . 
De repente a panthera atira - se ao leão , 
Mas encontra na garra um Cesar charlatão.

Não podem apagar - se versos como estes . Fundidos em bronze , teem a solidez e hão - de ter a duração e o relevo das moedas e das estatuas d ' aquelle metal . A posteridade ha - de sentir para estas composições a mesma admiração que sente para as satyras de Persio e de Juvenal , de Barthelemy e de Augusto Barbier ; porque nas satyras de Bulhão Pato fundem - se com primor igual a grandeza e a elevação da invectiva na pureza inexcedivel , perfeitissima do rythmo , — nos mais sonoros e va lentes alexandrinos , em que pode esculpir - se a linguagem de um poeta portuguez.

Troveje elle muito embora na satyra e folgue , por momentos , de sé nos revelar por entre os fulgores do raio e o graniso de fogo dos coriscos dos seus alexandrinos ; mas , por Deus lh ' o pedimos , não se despeça das regiões do seu lyrismo encantador. 

Não diga para sempre adeus á musa travessa e de vaneadora da Paquita , — d ' esse poema que lhe con quistou os fóros de eminente poeta , — d ' esse poema , que é um monumento indestructivel como já é também o tormento dos seus detractores ; por que bem sabe elle que a corôa da gloria litteraria é desgraçadamente cravada , por dentro , dos espinhos da inveja , que , por baixo das folhas de lou ro estão de continuo ensanguentando a fronte dos infelizes que a cingem!

Em resumo : eloquente , magestoso , por vezés terrivel , vibrando o sarcasmo , manejando a iro nia , nunca descahindo nas vulgaridades grosseiras , nem se atolando nos paúes da injuria torpe ( escolho dos talentos pouco delicados que confundem o vo zear das feiras com as imprecações nobres ) , Bulbão Pato sabe dar ás suas satyras as mais altas condições de decoro , de pudor , e de grandeza , de que é susceptivel esta fórma de poesia.

As suas invectivas teem a magestade classica . Assumem proporções epicas , os sacrificios , as he catombes , em que supplicía as suas victimas . Inspiram - no porém , sem nunca o desamparar , senti mentos nobres , propositos generosos , amor arden te da justiça , da liberdade , do progresso humano e social.

É por isso que , percebendo as intenções puras do poeta , sem desconhecermos as exagerações a que aliás póde levar tal genero de poesia , o applaudimos por esta brilhantissima manifestação do seu talento , onde alcançou victoria não menos assignalada e decisiva do que nos canticos da poesia lyrica , nos carmes da elegia , e principalmente nas ficções graciosas da Paquita , em que com felicidade summa seguiu entre nós as pisadas do Ariosto e de Casti , affirmando sempre a sua individualidade.

D'essa Paquita , de quem o snr. Alexandre Heculano escreveu "que a amou desde o berço porque representa na litteratura actual uma res tauração , e nega um progresso: restauração santa e progresso mentido", esperamos com avidez que não se demore a contar-nos o seguimento das aventuras que correu com o seu Pepe.

Está a pular-nos na memoria a lembrança d'aquella ermida, em que ao repontar do sol nos outeiros, Angelita se encontra com Pepe, enleados de se verem aquella hora da manhã. E o pasmo de Pepe quando em sitiaes ouve que Angelita pretende casal-o ? E a ingleza que n'esse momento se aproxima dos dous ? E as questões acaloradas entre o marido de Herminia e o da consuleza ? E o desafio dos dous apaziguado pelo mofino do Pepe, cujos amores esvoaçam sobre as tres adoraveis creaturas que o cercam, como borboletas sobre flôres ? E aquella walsa do baile, cuja descripção tem a vi vacidade calorosa da do Amaury ? E a viagem da despeitada Herminia para Athenas ? a febre mortal de Pepe quando se vê abandonado por ella ? a solicitude de Angelita correndo de noite a visitar o joven andaluz moribundo ? e o encontro d'ella com a formosa Adelina, a ingleza dos olhos azues, junto do leito do enfermo ?

Quando nos ha-de elle desenvencilhar toda esta meada intrincadissima ?

Ricardo Augusto Pereira Guimarães (1830-1889), Visconde de Benalcanfôr.

Os lances enredam-se alli n'um tal labyrintho vertiginoso de aventuras, de malicias, d'enganos, de paixões, que só poderemos alcançar o fio de Ariadna na continuação do poema, de que o author (esperamol-o ) não abrirá mão, sem primeiro satisfazer a nossa curiosidade, rematando ao mesmo tempo o monumento da sua gloria de poeta, monumento que ha-de avultar para o futuro entre os mais bellos e originaes da nossa poosia contemporanea. (1)


(1) Ricardo Augusto Pereira Guimarães, Phantasias e escriptores contemporaneos, 1874

Leitura relacionada:
Versos
Se coras, não conto
Paquita

Cantos e Satyras

Tema:
Bulhão Pato (em Mar de Caparica) 
Bulhão Pato (em Almada Virtual Museum)

sábado, 30 de maio de 2020

Bulhão Pato por José Maria de Andrade Ferreira

[VERSOS]

Classificações arbitrarias da critica . — Alfredo de Vigny e a poesia loura . - Macias e Bernardim Ribeiro e o verdadeiro sentimento poetico da peninsula preludiado pelos arabes e trovadores provençaes . — Bulhão Pato representante d ' esta familia , como Thomaz Ribeiro e João de Lemos . Analogias nas suas composições . - A convalecenle no nulono , Helena , Visão do baile . - O espirito inquieto da época influindo no talento do poeta . - A Lelia . - Retorno ás primitivas e nativas inspirações .

Bulhão Pato (1828-1912)
(insp. Andy Warhol, Ten Lizes, 1963)

A critica tambem tem as suas aberrações e as suas sympathias , e em o numero d ' aquellas deve de certo entrar a facilidade , com que ella appellidou a poesia de Bulhão Pato poesia loura . Se , á maneira do que Sainte - Beuve escreveu , tratando de Alfredo de Vigny , desejam exprimir na phrase poesia lnura a poesia pura , enthusiasta , candida , a poesia ingenua e de expansivos e singelos affectos , talvez que o epitheto não seja de todo descabido no poetar do sincero e apaixonado cantor ; mas agora , se poesia loura querem que seja a poesia de indole buliçosa , doudejante , infantil , tra vessa , embora de simples e descuidosos devaneios , n ' esse caso a qualificação não é de todo verdadeira , porque o au etor da Convalescente no oulomno , da Helena , da Visão do baile ; e de outros tantos poemetos inspirados pelo amor e pela saudade , é um poeta intimo , affectuoso , melancholico , elegiaco até , e cuja candura de alma desaffoga em ardentes e suaves estrophes de sentimento lyrico .

Nem tão pouco me parece completa , e ainda menos aproximada a similhança dos instinctos poeticos de Bulhão Pato com o genero de talento de Alfredo de Musset; ha evidente differença nas inspirações que mais habitualmente inflammam o estro dos dois cantores, e de certo maior differença nos caminhos que seguem, nos aspectos naturaes com que sym- pathisam, e nos affectos que lhes accendem o coração e a phantasia.

Nada mais difficil do que fazer classificações, e todavia, a critica abalança-se muitas vezes a este arbitrio, separando, analysando e qualificando o talento de qualquer escriptor por especies e familias, como o podera fazer qualquer botanico, tratando-se de familias de plantas. Disto segue-se mais de um Linneu ter naufragado no empenho de similhantes divisões scientificas, por que realmente ha grande distancia entre por uma etiqueta sobre este arbusto e aquella flor, ou collocal-a sobre um poeta ou um prosador.

Que, no nosso caso, a analyse e a divisão estão feitas. O talento de Alfredo de Musset apresenta um mixto de Byron e Sterne, em quanto que Bulhão Pato pertence á sentimental e melancholica estirpe de almas apaixonadas, que em França tem por irmãos mad. de Valmore e mad. Tastu, e que entre nós se apresenta como a expressão da verdadeira indole da poesia peninsular.

E se não fosse a anciã, que sempre houve entre nós, e muito mais nestes nossos tempos de faceis e desejadas aclimações estrangeiras, de ir procurar fora aproximações d"estas, como se este baptismo estranho se tornasse indispensavel á consagração dos nos sos engenhos, se não fosse esta ancia, repetimos, facil seria encontrar, mesmo no parnaso portuguez, os congenitos e os illustres ascendentes da linhagem poetica de Bulhão Pato. 

Analysando-lhe e seguindo com a vista a veia poetica, que ora se derrama em tranquillos e crystalinos meandros, por entre balseiras perfumadas, que, attrahidas pelo suavissimo sussurro do gracioso arroio, vem remirar-se na corrente e beijar-lhe as aguas; ora correndo mais apressada e espumosa se esconde em grutas, onde o amor depositára seus mysterios; ora volvendo atraz e enredando-se na selva, de para com uma gentil serrana, e ahi se demora em limpidos rodeios, como se tão seductor aspecto lhe immobilisara o nativo impulso; analysando e seguindo com os olhos todos estes caprichosos gyros, quem não comprehende que a alma do poeta se anima de todos os sentimentos que o contacto da formosura inflamma , e os diversos aspectos da natureza idealisam , e que daqui sảe aquelle composto de lyrismo suave e affectuoso , que umas vezes toma as formas bucolicas , outras arde nos impelos eroticos , outras emfim pro cura os tons meigos e penetrantes da elegia , composto sym pathico e mavioso de que o nosso desditoso Macias é já o precursor , ainda que mal definido , e Bernardim Ribeiro a nossa mais perfeita e gloriosa personificação ? !

Quem não comprehende esta indole e este parentesco ? !

E do poeta das Saudades que descende em linha recta o auctor da Helena . Até ha incontestaveis pontos de analogia entre muitos dos sentimentos , inspirações e até entre a pro pria concepção poetica dos dois trovadores . E trovador chamarei a Bulbão Pato , porque elle , como João de Lemos , e como Thomaz Ribeiro , e talvez mais do que o primeiro , e tanto como o segundo , significa um dos naturalissimos filhos d ' esta familia peninsular . 

Na sua estréa o mostrou elle logo , na Revista Universal . Foi justamente a ingenuidade , o gracioso desalinho d ' aquella musa que , para se mostrar , nem procurava as pompas das metaphoras de Victor Hugo , nem os embevecimentos contemplativos de Lamartine , attrahiu a attenção e sympathia de todos . 

Quando a maior parte dos nossos mancebos corriam azafamados , a jurar bandeiras nas hostes gloriosas dos grandes mestres francezes , Bulhão Palo parecia só querer evocar do primeiro e mais nativo periodo da nossa poesia aquella singeleza , aquella candura de affectos , aquella profunda e dolorida saudade , que os cantores provençaes nos trouxeram , e que os poetas arabes nos deixaram e que ficou sendo a manifestação da nossa in dole poetica . 

É este o caracter da poesia peninsular , e ninguem , como Bulhão Pato , a não ser o auctor do D . Jayme , a sente e revela melhor . Nos mesmos versos em que parece affastar - se um pouco da natureza dos assumptos mais predilectos do alaude antigo , n ' esses mesmos respira a simplicidade , os affectos tranquillos , o tom da suave e intima tristeza , que são o seu caracteristico . Na Folha desbotada diz , por exemplo o poeta :

... É esta na existencia 
A tua estrella de amor ! 
De amor puro , intenso , ardente , 
Mas que , occulto eternamente , 
No meu peito ficará ! 
Que, no infortunio nascido, 
Só conimigo tem vivido, 
E commigo morrerá.

Não será esta a ingenuidade, o affeclo tocante e singelo, a mesma ausencia de artificios de estylo dos trovadores?!. Até as repetições do mesmo pensamento no trocadilho final, uma das suas formulas mais usadas e caracteristicas.

E n'esta estrophe da poesia que o auctor intitula voltas, não encontraremos nós da mesma sorte a propria maneira bucolica de Bernardim Ribeiro, a ponto de nos parecer estar lendo (á parte a differença do progresso litterario das duas edades) algumas das eglogas do auctor da Menina e Moça?

Agora entre as outras flores 
Correm uns certos rumores ... 
Quaes são, não sei; mas ouvi 
Que as mais bellas da campina 
(Por quem és tão invejada), 
Quando hoje chamam por ti, 
Dizem — rosa namorada, 
E não — rosa purpurina.

N'estes versos ha a graça do idyllio junto ao perfume suave da egloga: è Rodrigues Lobo e Bernardes ao mesmo tempo.

Mas quem me vir tão escrupuloso a inquirir assim a origem e progenie poetica de Bulhão Pato, talvez presuma que elle faz consistir seus titulos de fidalguia litteraria em ser perfilhado n'esta ou n'aquella eschola, e que eu por lison jear a vaidade do poeta, a mais feminil e meticolosa de to das as vaidades, me dei a esta tarefa de investigação de linhagens, desentranhando do cadoz dos pergaminhos da ar- cheologia litteraria os seus attestados de filiação. Pois se cuidam isto, cuidam mal. 

Bulhão Pato nunca pensou em escholas poeticas, e é justamente d'esta isenção de pensamentos que lhe resulta a liberdade que desde os primeiros annos inculcara a individualidade do seu engenho. Bulhão Pato canta como o rouxinol trina, como a rola geme, como a andorinha pipilla, sem outra mira. nem intuito senão o desa bafo dos impetos que lhe agitam a alma, sem outro auxilio mais do que a nota espontanea e natural. 

É um poeta intuitivo, affectuoso e expansivo, e tão facil em derramar la grimas e mover-se a todos os transportes, tão debatida e envergado pelos ventos da paixão , tão inspirado pelos abalos intimos , tão estranho a escholas e artificios da arte , que lendo - o , e , ainda mais , ouvindo - o recitar os seus proprios versos com a vehemencia e admiravel naturalidade com que elle os recita , torna - se impossivel não considerar a poesia como independente de todo o fim convencional , e deixar de ver n ' ella o simples dom do poeta chorar , compadecer ou exaltar as suas angustias , envolvendo na melodia o seu soffrimento .

E é por isto que pertence , não intencionalmente , mas pela organisação do seu ser poetico , á mesma familia de cantores naturaes e espontaneos que , em combinações rhythmicas de extrema singeleza , acolhiam por unicas inspi rações a natureza , a gloria e o amor .

Não confundam , todavia , a naturalidade d ' este talento com a ligeireza que possa resultar de uma imaginação facil , por que Bulhão Pato é d ' aquellas organisações em que seria até impossivel separar o talento da sensibilidade , e que , por um admiravel accordo moral , e grande fundo de pathetico , nunca se apresenta deveras poeta , senão quando é amante ou vivamente impressionado . A sua faculdade poetica liga - se à paixão , como o echo á vaga , e como a vaga ao lago solitario .

Ma pauvre lyre , c ' est mon âme !

Póde dizer o poeta , e n ' este verso resumirá a essencia da sua inspiração profunda e melancholica , mas ao mesmo tempo espontanea e desartificiosa . E isto explica - se . Foi no embate das contrariedades da vida , em lucta . com as paixões , embora juvenis , porém sempre ardentes e acerbas , que o coração do mancebo modelou os seus soluços , sem outro mes tre senão a voz secreta da sua dôr . 

A lyra de Bulhão Pato nasceu uma lyra harmoniosa , mas uma lyra afinada pelos insinuantes accordes da angustia . E quem foi que no primeiro dedilhar lhe arrancou logo accentos tão penetrantes e doloridos ? Que ingratidão ou que infortunio lhe misturou com innocentes amores os ais carpidos da saudade que se lastima , ainda no limiar da vida , como Millevoye ou Soares de Passos ? Talvez nos seguintes versos achemos parte d ' este segredo .

Esvaeceu - se então completamente 
A meus olhos o anjo da candura , 
Das commoções divinas , da virtúde , 
E achei - me só , perdido , face a face 
Ante o demonio das paixões terrestres ! 
Dei - lhe a mão , e senti n ' um paroxismo
De desejo e de amor , fugir a vida .

Amargas desillusões enchem a vida do poeta , umas verdadeiras , outras agravadas pela ardencia da sua imaginação apaixonada . E n ' este primeiro poemeto da Lelia estão resumidos os mysterios da alma do affectuoso cantor . E nas . expansões delirantes de um affecto candido , que desabroxa este amor : « Es minha , diz o poeta :

« És minha : do céo proveio 
O poder que a ti me prende , 
Mas diverso fogo accende 
O teu e meu coracão : 
Tu no mundo és a innocencia ; 
Eu sou na terra a poesia ; 
Tu dás - me a tua alegria ; 
Eu dou - te a minha paixão !

Dou - te as sombras da tristeza , 
Que acertam sobre teu rosto . 
Como as sombras do sol posto 
Na rosa agreste do val . 
Recebes n ' um meigo abraço 
Meu profundo sentimento , 
E dás - me o contentamento 
Do teu seio virginal . »

Mas a aurora d ' este amor depressa se annuvia de nuvens de tristeza , porque logo depois o coração , ferido da ingra tidão , exclama :

Quando a razão voltou , como o murmurio 
Da fresca viração da primavera , 
O sopro perfumado de seus labios 
Vinha affagar - me docemente a fronte . 
Os anneis do cabello ondado e negro , 
Espargindo - se avaros procuravam 
Occultar - me da vista aquelle seio . 
Impaciente os affasto , devorando 
Num beijo , em mil , um mundo de delicias . 
Oh ! como então no peito me pulava 
O coração vaidoso e triumphante !

No languido quebranto que succede 
Ao febril desvario dos sentidos , 
Julia estava a meu lado : amortecida , 
Por entre a densa rama das pestanas , 
Partia a luz das languidas pupillas . 
Desmaiara de amor a rosa esplendida ; 
E voltava de novo aquella face 
A pallidez do lyrio das campinas .

Abatida e indolente, erguera a fronte ; 
Caminhámos os dois para a janeila : 
Os primeiros clarões da madrugada 
Vinham rompendo já no firmamento. 
Chegava, emlim, a hora; era forçoso 
Dizer adeus á seduetora imagem !

Que formosos versos! Como a paixão, pungida ligeira mente pelo espinho do remorso, desafoga n'estas ardentes estrophes, que um attractivo de melancolia torna mais insinuantes !

Não resisto á tentação de ainda trasladar para aqui mais uma parte d'esta composição. Agora o espirito diabolico, depois de haver apparecido ao poeta, e empenhado em per der Lelia, falla-lhe do seguinte modo :

— «Um sacerdote ancião, que além habita, 
N'aquella ermida que d'aqui se avista, 
Teima em não m'a deixar: tu só podias 
Ajudar-me a vencer n'esta batalha, 
lnda ha pouco menti, quando te disse 
Ser tarde já para salvar a pomba. 
É tempo ainda. Oh! vai! colhe as primicias 
D'aquelle coração que te idolatra: 
Tudo é luz, seducçao. amor, encanto, 
Na voz, no olhar, ha languida ternura 
Da rosa virginal que tu despresas. .
Anhelantes te esperam já seus labios; 
O seu peito infantil por ti saspira; 
No ouvido sente a voz dos teus protestos; 
O subito rubor lhe affronta as faces; 
Não a ves hesitar, tremer, fugir-te, 
Acercar-se outra vez, sorrir a furto, 
Escondendo nas mãos a fronte bella, 
De novo inda luetar, mas já sem forças, 
Cahir por flm num languido deliquio? 
Oh! corre a ser feliz em braços d'ella!» 
Um momento depois d'estas palavras, 
Em doce consonancia estranhas vozes, 
De improviso romperam n'este canto:

— «Seja a breve passagem da vida 
Uma serie de ardentes delirios ; 
Quem procura colher os martyrios , 
Quando existem as rosas em flor ?

Venturosos ergamos as taças, 
Onde brilha o licor purpurino, 
E soltemos as vozes n'um hymno 
Consagrado aos deleites do amor !

Vem, poeta: as tristezas do mundo 
Não comprimem jamais nossas almas ; 
Nós cercamos de floridas palmas 
A existencia votada ao prazer !

O que importa que a noite succeda 
Aos sorrisos do astro diurno? 
Para nós o astro nocturno 
Mil delicias nos torna a trazer!» 

Apossou-se de mim o immundo espirito. 
— « Sou teu, ó tentador, emflm lhe disse: 
Ao teu fatal poder entrego esta alma! 
Dize, dize, onde está essa que eu vejo, 
Mas que procuro em vão cingir nos braços !» 
— «Onde está ? vaes sabel-o ; e n'um momento 
A seus pés cairás ebrio de goso!»

Ao secreto aposento, onde jazia 
A virgem de meus sonhos, me dirige 
O torpe embaidpr. Entro em delirio, 
É ardendo em chammas de brutaes desejos, 
No casto ninho onde vivia a pomba. 
De repente uma luz serena e branda 
Veiu alegrar as trevas da minh'alma. 
Outra vez á rasão volto, e que vejo? 
Ante mim venerando sacerdote, 
Pondo-me ao peito a cruz que mais tarde 
A enganadora Julia me roubara. 
Lelia a seu lado, com as mãos erguidas, 
E os olhos postos no sagrado emblema, 
Estas doces palavras me dizia:

— « Deixou-te o negro espirito ! 
Feliz, de novo agora, 
Sorri tua alma em extasi 
Ao ver a pura aurora, 
Da qual somente é nuncia 
Na terra a humilde cruz ! 
Só ella, eterno simbolo 
De amor e de piedade, 
Brilha no mundo esplendida, 
E diz á humanidade : 
Surge das trevas lugubres, 
Ascende á etherea luz !

Mui de proposito transcrevi mais amplamente parte d'esta poesia, para evidenciar a modificação que pareceu operar-se no espirito do poeta. Sem perder de todo a singeleza primitiva, aquella graciosa singeleza de candidos affectos, que de certo fez appellidar a sua poesia de poesia loura, Bulhão Pato deixa entrever na Lelia, ainda atravez da antiga exaltação e do seu verdadeiro e sincero enthusiasmo, uns longes do sarcasmo de Affonso Karr e do azedume satyrico de Byron. 

Mas isto é uma concessão á época. O prurido da analyse, esta incuravel enfermidade de nossos dias, que tem ido embotando nos espiritos os mais nobres e generosos impulsos, e semeado o desalento e a desesperança por muito espirito , tentou talvez o poeta , mas não o venceu . 

Foi o Satanaz da saciedade pervertida , como elle mesmo o figura , que o levou até á beira do abysmo , onde , uma vez precipitado , o talento perde as azas candidas da sua innocencia primitiva , esquece de todo as imagens risonhas dos horisontes por onde espairecêra as illusões mais queridas do seu viver , e mal respira nas lobregas entranhas onde se passam as grandes miserias humanas . 

O poeta , n ’ este triste estado , deixa a penna dourada das nativas concepções , e trava do escalpelo que disseca uma por uma as fibras do coração ; já não é o cantor singelo dos santos e nobres affectos , é o analysta caustico e ameaçador das nossas fraquezas .

Porém , a boa tempera da indole poetica de Bulhão Pato salvou - o a tempo . Nada mais avesso aos seus instinctos , ás suas predilecções , ao jacto nalural , limpido e sereno da sua veia , do que as irrupções abruptas do estro d ' estes poetas moralistas , d ’ estes libellistas metrificadores , mistura inces tuosa de Rabelais e Jeremias , que apregoam bem alto os defeitos do mundo , que fingem até condoerem - se d ' elles , para mais facilmente esconderem os seus . 

E Bulhão Pato , um momento transviado das antigas predilecções , logo mostrou sua natural e directa propensão , compondo a inspirada dedicação a Helena , a sua ultima composição poetica [N'esta época , em 1862, data d'este artigo, esta poesia havia sido a ultima ], e que é um regresso felicissimo aos primeiros tempos do seu singelo e affectuoso poetar . 

Que pena não a poder trasladar para aqui por inteiro ! Mas já nas primeiras estrophes o lei tor conhece a verdade do que fica escripto .

Lembras - te , Helena , o dia em que deixamos 
O teu saudoso valle , é lentamente 
Pela elevada encosta caminhámos ? 
O sol do estio ardente 
Já não brilhava nos frondosos ramos 
Do arvoredo virente . 
Chegára o fim do outono : a natureza , 
Sem ter os mimos da estação festiva , 
Nem aquelle esplendor e gentileza 
Que tem na quadra estiva , 
Na languida tristeza , 
Na luz branda e serena 
D ' aquelle ameno dia , 
Que immensa poesia , 
E que saudade respirāva , Helena ! 
Subindo pelo monte , 
Chegámos ao casal , onde habitava 
A tua protegida , 
Aquella pobre anciã , que se agarrava 
Aos restos d ' esta vida ! 
Assim que te avistou , ergueu a fronte , 
Curvada ao peso de tão longa idade , 
Sorrindo nesse instante 
Com tal vida , que a luz da mocidade 
Parecia alegrar o seu semblante !
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Vinte annos tu contavas nesse dia : 
A fiel servidora 
Era a primeira vez que não podia 
Deixar a casa ao despontar da aurora , 
E , cheia de alegria , 
Caminhar para o valle como outr ' ora , 
Depôr uma lembrança em teu regaço , 
E unir - te ao coração n ' um meigo abraço !

Tu , na força da vida , 
Circumdada de luz e formosura , 
Foste levar a pobre desvalida 
Os dons do lar paterno ; 
Alegrar com teu riso de ternura 
Aquelle frio inverno !

Ao ver - te , com teus braços 
Nos seus braços senis entrelaçados , 
A ventura nos olhos encantados , 
A inspiração na fronte deslumbrante , 
Afigurou - me então o pensamento 
Ver um anjo descido dos espaços , 
D ' aspecto fulgurante , 
Enviado por Deus nesse momento , 
Para animar os derradeiros dias 
De quem , cançado do lidar constante , 
Abre o seio na morte ás alegrias !

As lagrymas de gosto 
Corriam cristalinas 
No rosto d ' ella e no teu bello rosto ! 
Como orvalhos do céo aquelles prantos , 
Um brilhava na hera das ruinas , 
Outro na flor de festivaes encantos , 
Na rosa das campinas , 

Quando voltaste a mim , illuminava 
O teu semblante uma alegria infinda ; 
Depois quizeste ainda Ir visitar a ermida que ficava 
No ápice do monte . 
Firmaste - te ao meu braço , e caminhamos . 
No esplendido horisonte J
á declinava o sol , quando chegamos . 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

É exactamente a mesma simplicidade de fórmas , a mesma pureza de affectos , o mesmo expansivo e natural desabafo do coração , sempre aberto ao amor e que o aspecto melan . cholico dos campos enche de saudade .

Onde se sente mais isto é na sentidissima elegia , levarla , como uma saudade sem esperança , á sepultura de Salvador Corrêa de Sá , amigo de infancia de Bulhão Pato . Parece que o anjo da dôr , depois de ter enchido a sua urna das lagrimas da amizade , as infiltrara todas no coração do poeta . Só um talento que tão de perto vive dos impulsos do co ração , poderia encontrar accentos de tão viva e penetrante agonia . 

Vejam se não ha nos versos que vão seguir - se alguma coisa do sentimento intimo e delicado , que unicamente pertence ao affecto maternal ! E a mesma exquisita sensibilidade , o mesmo conjuncto de sensações afflictivas desentranhadas dos seios de alma , e coloridas pela eloquencia das dôres sem consolação .

« Bem sei que era exilio a terra 
« Para ti . anio do céo ! 
« Porém , filha , abandonares - me , 
« Quando toda a minha vida 
« Era a luz d ' um olhar teu , 
« Ouvir essa voz infante , 
« Ver a impaciente alegria 
« De teu candido semblante ! 

« Deixar - me assim na existencia , 
« Triste , só , desamparado , 
« Aquella flor de innocencia ! 
« Que lhe fiz ? Tinha - a creado 
« De quanto amor n ' este mundo 
« Pela mão da Providencia 
« A peito de homem foi dado ! 
« Oh ! que affecto tão profundo ! 
« E tu podeste partir ? ! 
« Pois não tiveste piedade 
« Desta solemne amargura , 
« Desta infinita saudade ? ! 
« Vi - te inda olhar - me , e sorrir , 
« Ergụer os olhos aos céos , 

« No instante de proferir 
« O fatal e extremo adeus ! 
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
« Oh ! volve outra vez a mim , 
« Desce a terra , anjo do céo , 
« Vem dar - me a ventura emfim !
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
« Olha : O vivo sol de abril 
« Já nestes campos rompeu; 
« As rosas desabroxaram, 
« O rouxinol de prendeu 
« A voz em saudosos cantos; 
« Os sitios onde passaram 
« Os teus descuidados annos, 
« Não os ves cheios de encantos? 
« São estes! A mesma fonte 
« Ferve além; n'aquelle outeiro 
« O meu casal alveja; 
« As ramas do verde olmeiro 
« Dão sombra á modesta igre|a, 
« Onde tu vinhas resar, 
« Quando o som da Ave-Maria, 
« N'hora meiga do sol-posto, 
« De vaga melancolia 
« Toldava teu bello rosto. 
« Tudo o mesmo !... esta inscripção !.. 
« Este nome!... anjo do ceo, 
« Este nome, filha, é teu! 
« Oh! meu Deus, por compaixão, 
« Na mesma pedra singela, 
« Juntae o meu nome ao della!»
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
E Deos ouviu a oração... 
O mesmo tumulo encerra 
Filha e pae. Na mesma lousa, 
Onde repousam na terra, 
Uma lagrima saudosa 
Vem hoje depor tambem 
A esposa, a viuva, a mãe !

Um dos mais subidos meritos de Bulhão Pato é a concisão admiravel do seu estylo, concisão que elle leva aos ver dadeiros resultados dos grandes mestres, principalmente quando bosqueja os paineis da natureza. 

Os aspectos diante dos quaes a sua musa parece embevecer-se, são sempre sim ples e tristes, como a indole do poeta. O por-do-sol, o cair das folhas do outomno, o adro de uma aldeia, o casal que alveja ao longe por entre as cristas da serrania, são, em geral, as scenas que a phantasia se compraz de lhe aproximar, de contornar, e que lhe torna como os horisontes per manentes da sua existencia poetica. 

Mas ha sempre um vivo sentimento de poesia n'estas pinturas; e é observando-as, e estudando-lhes os effeitos que a sua impressão nos produz, que se percebe bem que secretos dons de influencia moral exercem n'alma estas combinações, em que o poeta parece chegar a ser pintor, porque o pintor, para o ser ver dadeiramente, não pode deixar de ser poeta. 

Alguns exemplos, colhidos aqui e acolá, explicam isto melhor que todas as analyses. Vejam se com linhas mais singelas se pode esboçar quadro mais amplo e solemne.

Nas nossas almas existia um mundo 
De indefinito amor; 
Do pélago profundo, 
Onde ruge o furor 
Insano, concentrado, atroz, maldicto, 
D'esta cruenta guerra 
Das ambições da terra, 
Nem uma maldição, um som, um grito 
Nos vinha perturbar! 
Era a amplidão do céo, a solidão da serra, 
Ao longe... a voz do mar! 

Que magestade e simplicidade de linhasl Outro quadro não menos verdadeiro: 

Daquelle pobre casal.
O fumo que vae subindo, 
Em ondulante espiral, 
Não diz que em volta do lar 
Se reune a pobre gente, 
Que já de perte presente, 
O frio inverno chegar? 

Quita não saberia traçar melhor este painel campesino. 

Agora este outro que parece sair da palheta suave e melancholica de Gessner. Ha n'elle o sentimento dos magicos aHectos da natureza, que tão bem comprehende e exprime a musa allemã.

Era singelo, mas sublime o quadro ! 
Em roda o mato agreste; 
No meio a pobre ermida; ao lado d'ella 
Um secular cypreste ; 
E sobre a cruz do adro, 
Pendente, uma capella 
De algumas tristes, desbotadas flores, 
Talvez emblema de profundas dores !

Bulhão Pato tambem algumas vezes tem ensaiado o genero satyrico, e com felicidade, como se vê pela poesia o Brinde, que é um desfechar constante de epygrammas contra algumas das grutescas personificações da nossa comedia politica. 

Comtudo eu prefiro, declaro-o francamente, ver tão bello estro sem abater os voos a estes charcos. As suas tendencias são outras, e mui diversas. O talento que vive do coração, a mente que se inflamma com o fogo dos sentimen tos nobres e serenos, não pode prestar-se a acceitar em o numero de suas predilecções assumptos repugnantes , e cujo halito cresta sempre as azas candidas da inspiração . 

Que Bulhão Pato é o primeiro a repellir , com o seu desdem , estas lastimaveis individualidades , dignas só de attrahirem as iras do libellista ; e nas raras horas em que a sua musa lhe tem emprestado algumas expressões de zombaria con tra taes creaturas , ha sido sempre com a hombridade e de sabrimento de quem applica uma correcção por força de necessidade : é antes uma pirraça do genio insoffrido do mancebo , que um desafogo do poeta . Este não se rebaixaria a tanto .

Agosto — 1862 . (1)


(1) José Maria de Andrade Ferreira, Litteratura, musica e bellas-artes. v.1., LIsboa, Rolland & Semiond, 1871

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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Bulhão Pato por Camillo Castello Branco

Raymundo de Bulhão Pato foi hontem á caça, e vai bater os montados frequentes vezes.

Bulhão Pato (1828-1912)
(insp. Andy Warhol, Ten Lizes, 1963)

Sabes tu que o prazer cruento de matar as innocentinhas filhas das florestas— as mansissimas aves nascidas com a nossa especie na mesma semana da creação, e aviventadas ao mesmo "fiat" do Senhor = não é que move o poeta a ir saborear-se no selvagem deleite de erguer da terra uma codorniz ensanguentada e arquejante?

Não é, decerto.

Bastar-me-ia a duvida para eu lhe não envejar o seu ruim sentir; e logo protestar, em nome das candidas almas dos sinceros poetas, contra quem os injuriasse, dando ao matador de avesinhas um titulo, que obriga a brandura, dó, sentimentos meigos, amor a tudo, e incapacidade de causar dôr a fôlego vivo.

Bulhão Pato, com certeza, não é caçador por vangloria de radicar sua genealogia em Nemrod.

Caçador de almas é que elle é o doce poeta. Por amor á regeneradora poesia dos campos, das agulhas das montanhas, dos ribeiros que serpeam ás abas das collinas, dos presbyterios, da toada saudosa dos sinos gementes de quebrada em quebrada, por tudo isto, que é o remanso dos animos agitados em vertigens d'esta vida doentia de Lisboa, é que o nosso Bulhão Pato se vai ás serras, de espingarda, polvorinho e rêde, a dar azas á inspiração, e não a quebral-as ás povoadoras do céo, que por lá o ajudam a cadenciar as suas melodias. Se isto assim não é, quero e preciso que seja assim.

Observa tu, Ernesto, que a poesia de Bulhão Pato prima em enfeitar-se com as galas antigas dos amantes da natureza; porém, as boninas, os tomilhos, as verbenas, as madresilvas sabe elle entrançal-as de geito que parecem novas as coroas, e mais encanta dores os matizes.

A cada pagina d'este seu affectuoso livro [v. Versos] encontras uma e muitas imagens campezinas: nem uma só poesia, que te não rebrilhe aljofrada pelos orvalhos da aurora, ou colorada pelos arreboes do crepusculo. Onde aprendeu o poeta a combinação das cores, que mais aprimoram os breves, mas tão peregrinos pai neis d'esta sua galeria ? Foi lá, na aldeia, na encosta, na esplainada, nos fragoêdos, onde, em vez de bandos estridentes de perdizes, lhe sáem os serenos e amantissimos genios a offertar-lhe abadas de flores.

Olha tu esta primeira poesia, que é um mimo de dulcissimo sentimento a Helena, por quem e para quem foi feito o livro. Verás que o poeta colheu da arvore bemdita da saudade os grãos do incenso, que vaporam de quantas poesias ahi vês, avocando o co ração ás passadas alegrias do campo.

É a recordação de um lance infinitamente mavioso. Helena e o poeta vão subindo a elevada encosta :

Chegara o fim do outono : a natureza, 
Sem ter os mimos da estação festiva,
Nem aquelle esplendor e gentileza
Que tem na quadra estiva
Na languida tristeza,
Na luz branda e serena
D 'aquelle ameno dia,
Que immensa poesia,
E que saudade respirava, Helena !

Helena, no dia natalicio dos seus vinte annos, vai levar "os dons do lar paterno" á sua serva entrevada,

Áquella pobre ancian que se agarrava 
Aos restos d' esta vida !

A mão alvissima do anjo da caridade entre as mãos crestadas da enferma, produzia

Effeito similhante
Ao que, por entre o mato,
Produziria a rosa de Benguela,
Á flôr mais alva, e de mais fino trato!

Choravam ambas, a consoladora, e a velhinha do casalejo da serra. Vê tu esta selecta e brevè su blimidade de uma comparação :

Como orvalhos do céo aquelles prantos, 
Um brilhava na hera das ruínas, 
Outro na flor de festivaes encantos, 
Na rosa das campinas.

Este doce cantico, doirado pelo sol que alumiava felizes dias, triste como tudo que não olha a esperanças, mas, assim mesmo, cheio de coração, fecha assim a introducção do livro:

D'aquelle dia
E de outros dias de intimas venturas,
De immensa poesia,
Nasceram essas paginas obscuras
Que hoje a teus pés deponho
Como saudoso emblema
Do tempo em que sorria
O nosso bello sonho !
Terias um poema,
Se tão gratas mémorias
Podessem ser cantados n'uma lyra
Votada a eternas glorias !
Emfim: se um pensamento, 
Se uma singela idéa onde transpire 
O perfume de vivo sentimento, 
N'estas folhas traçar a minha penna... 
A estrofe, o canto que o leitor admire,
Seja o teu nome, Helena !

Bulhão Pato foi entre os poetas, que ainda hoje representam a escola romantica, o que mais cedo floriu, e mais depressa grangeou fama. Como a amendoeira, a mais louçã e mais temporã a vestir-se das galas da primavera, a creança de ha quinze annos, já tão celebrada em seus primeiros versos, dava a recear que os germens precoces não vingassem, como acontece áquella arvore, aberta em flores ao sol tépido de fevereiro [v. Se coras, não conto].

Nos sertões do norte, onde chega raro som das lyras de Lisboa, repetiam as damas com a graça que lhes ensinava a infantil musa de Bulhão Pato aquelle mimoso conto, que principia assim :

Tu queres que eu conte um sonho que tive 
Não sei se acordado, não sei se a dormir ? 
Foi todo singelo, foi todo innocente : 
Tu coras, sorriste, tens medo de ouvir ?

Não cores, escuta...

E as circumspectas mães de familia escutavam o sonho do poeta, desejando talvez que suas filhas encontrassem quem as amasse com igual respeito, e as beijasse com quanta innocencia os beijos sonhados presumo eu que tem.

Bulhão Pato estiara algum tanto no fervor com que se dera a conhecer e bem querer do publico. Algumas poesias, leves, mas de lindissimas azas, lhe voavam do coração á pagina do jornal litterario, ou (que indigna paragem!) ao folhetim do libello politico ! Isto, porém, era pouquissimo para o muito que o poeta promettêra.

As melhores primaveras iam passando, silenciosas, tristes, sem regorgeio de aves, sem aquella abundância das primeiras flores, bem que o aroma as relembrasse.

Correu a boa nova de um poema de Bulhão Pato; e logo o snr. Alexandre Herculano prefaciou o primeiro canto com louvores muito de obrigarem o poeta a desvelar as noites de mezes e annos, invocando e esperando a liberal inspiração, que tão donosa e esbelta lhe segredára as primeiras estancias da Paquita [v. Paquita].

O talentoso moço estava n'uma idade em que os milagres do estudo e do recolhimento só póde operal-os a cubiça de renome.

O temperamento de Bulhão Pato é indocil até ao estimulo da gloria. Carece aquella alma de andar ás soltas folheando o livro da natureza, cujas paginas raro se abrem, nos seus mais formosos capitulos, áquelles que a estudam no gabinete incansavelmente. 

Assim é, e sublime deve ser o ir-se o espirito por esse azul do céo além, por essa prata fora das ondas lampejantes, por esses verdes copados das florestas, por tudo em que a alma se está como en leada, scismadora, e celestialmente melancolica. 

Tudo isto accende engenhos e os desabrocha em poemas; mas, se o remanso da solidão não segue o devanear inquieto do espirito, quer-me parecer que o melhor desses embrionarios poemas lá lhe fica enthesoura- do, incommunicavel e inexprimivel. O que, de passagem, n'um intervallo quieto de seus enlevos, o poeta nos dá, é escassamente a sombra das imagens de suas delicias ou tristezas.

Camillo Castello Branco (1825-1890)

Dou, como exemplo, se algum ha que valha a prova d'este meu juiso, o que ahi está impresso de Bulhão Pato n'este livro dos seus versos.

Que nos está dizendo esta formosa cadeia de canções amorosas, umas amor, outras caridade, ou tras lagrimas, todas, porém, coração ? Não sei eu vêr e sentir bem estes versos, se aqui não ha a poesia mais espontanea, a mais santa, a mais á flor da alma!

Começou na alvorada da vida aquelle sensitivo engenho a tecer a sua coroa de flores; depois entrançou-lhe murtas, e cyprestes, os emblemas todos das vicissitudes de uma existencia de trinta e tres annos.

A grinalda ahi está: é assim que os grandes poetas, desprendidos das mesquinhas affeições, se coroam, uns com maior feixe de flores, outros com uma só de cada especie; mas, lá na ideal craveira do sentimento, os espiritos de Bulhão Pato pairaram na altura onde subiram os mais remontados cantores.

A differença está em que Lamartine escrevia uma ode de duzentos versos bafejados pela inspiração de Bulhão Pato : isto procede de que o poeta de Elvira se dava oito horas de recesso no seu gabinete; e Bulhão Pato escrevia a lapis, na sua carteira, em oito minutos, a sua commoção, em quanto a vehemencia o arrobava. 

Não hei de eu por isso acoimal-o de esteril, de indolente, nem sequer de descultivador do seu muito engenho. Bulhão Pato é assim. Pedissem lá a Anacreonte que estirasse as suas pequenas lyricas, que elle rejeitaria a immortalidade a preço da gloria de difuso metrificador.

Está em pleito agora uma contenda, que, a meu vêr, não terá solução alguma, que preste um capitulo mais á historia do espirito humano.

Dizem litteratos de grande porte, e dos mais celebrados em França, que a poesia não pôde continuar n'esta rota que tem trazido desde que os poetas, mais ou menos adstrictos ao ideal do coração, se se questram das turbas, empinando-se em uns phantasiosos e altissimos mundos d'onde não podem chover pão e carne sobre a humanidade. Um diz que a "poesia formulada, e medida, a poesia em verso está por pouco" (palavras da sublime refutação de Castilho em desaccordo com Pelletan.)

Outro quer que o poeta se gose do seu ideal; mas ideal elevado, vivente, chamado virtude, religião, moral.

D'aqui surde o prescreverem ao poeta "deveres."

Ha de o poeta, portanto, discorrer em philosophias, emendar a viciosa conformação social com leis de trabalho, jarretar as garras á fome, alvitrar o melhor modo de vestir os nús, quebrar algemas de escravos, e conglobar, emfim, as miserias da humanidade em um ideal perfectivel, onde todo se funda o seu engenho, quer chorando, quer imprecando, quer fulminando.

Sublime desejo !

O poeta, na sonhada vespera de uma transformação social, seria o Baptista, o precursor do segundo Christo. Renasceria n'elle o espirito dos prophetas que armunciaram aos carnifices do mundo romano a redempção das victimas.

E para em tudo se honrarem com a igualdade dos destinos e proposito da comparação, quebrariam o braço, como os prophetas, na roda inquieta e indomavel da má fortuna, que arbitra o modo de ser da humanidade !

Deixar lá com os seus esplendentes paradoxos a França.

António Feliciano de Castilho (1800-1875)

Cá temos o maximo poeta, o poeta das lagrimas, das flores, dos infelizes, e das creanças, a luz vivida d'estes descoloridos tempos, o thesouro insubmergivel n'este pelago de borrascas revoltas, cá temos o nosso Castilho mostrando a olhos de todos o sacro lume, e aquecendo com elle os animos intanguidos. É elle que diz:

"... De sobejos annos a esta parte refervemos todos n'uma continuada revolução, ora tempestuosa e á superficie, ora surda e recondita, ora tenebrosa, ora resplandecente. É uma fermentação geral, que não se interrompe; é um revolutear insoffrido de todos e cada um ás portas cerradas do porvir." 

"Nestes momentos de absorpção, de preoccupações, de incerteza, até os bardos se fazem obreiros, peleja dores, intrigantes, covardes, ou scepticos; se algures se conserva a poesia é nas creancinhas e nos pas saros..."

Ah ! aqui, meu querido mestre, foi V. Ex.a menos condoido das dores que ahi vão no seio dos poetas silenciosos, dos poetas, que passaram das alphombras dos jardins ao regêlo das abobadas das secretarias. Eram pobres avesinhas que não acharam no eirado dos fazendeiros um grão esquecido da feracissima colheita, que os taes fazendeiros grangeavam com egoista e muitas vezes infame labutar e suar. 

Que haviam de fazer elles, os cantores do céo, se não baixarem aos telhados das secretarias, e espreitarem azo de impoleirarem-se no poleiro das pessoas graves, bem jantadas, bem calçadas, bem vestidas, e bem aco lhidas nos festins dos proceres, onde, hoje em dia, nem o lacrimoso Tolentino ganharia perna de peru? 

Pobres poetas callados ! se elles continuassem a cantar, até os tendeiros se fariam formigas para lhes dizerem o desdenhoso palavriado que a faminta cigarra ouviu, corada até ás orelhas, se a amarellidão da fome a deixava corar !

E, depois, estes poetas perderam a fé em si, e no seu apostolado, quando viram o proprio Victor Hugo duvidar de sua missão reformadora, exclamando :

Cest peut-être le soir qu'on prend pour une aurore.
Peut-étre ce soleil vers qui 1'homme est penchê,
Ce soleil qu'on appelle á l'horison qu'il dore,
Ce soleil qu'on espère est un soleil couché.

Fieis á poesia, áquella virgem meiga e triste que se esconde entre moitas de flores para não vêr nem ser vista, são por certo aquelles que dariam tres partes da vida por terem em cada dia do seu curto praso uma hora como todas as horas de Antonio Feliciano de Castilho.

Aquelles, porém, que, á imitação de Raymundo de Bulhão Pato, empedrenidos no meio d'este acerbo mundo que lhes está giando sempre o desgosto, ainda recebem em cheio peito um raio de luz, e estremecem, e se apaixonam, e se abrem n'uma torrente de ira ou amor, de supplica ou de sarcasmo, estes não são os poetas silenciosos; são os que, de espaço a espaço, conseguem diluir em lagrimas o fél do intransitivo calix do talento.

Lá mesmo em, Tibur, não é bem amargo o calix de Castilho?...

..............................................

Adeus, Ernesto.

Havia de fallar-te hoje d'um livro de Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, conforme te prometti; mas tu, de certo, destinas as restantes paginas do teu jornal a assumptos mais de se lerem. 

Será no seguinte numero.

Os teus leitores são bons e pacientes; mas tambem querem não ser tentados a perderem aquellas excellentes qualidades.

Lisboa — 1863. (1)


(1) Camillo Castello Branco, Esboços de apreciações litterarias, Porto, Em casa da viúva Moré, 1865

Leitura relacionada:
Versos
Se coras, não conto
Paquita

Tema:
Bulhão Pato (em Mar de Caparica) 
Bulhão Pato (em Almada Virtual Museum)

terça-feira, 10 de março de 2020

Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto

E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes. E, por ora, ponto final.

Costa da Caparica.
Delcampe

Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo. 

Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.

Costa da Caparica.
Delcampe

[...] pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio. 

Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.

Costa da Caparica.
Delcampe

[...] Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:

─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.

Costa da Caparica, década de 1980.
Delcampe

Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo. [...] As ruas ficavam cheias de gente, [...] os contentores transbordavam de lixo [...] 

Costa da Caparica, vista aérea, década de 1980.
Delcampe

Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções das actividades económicas [...] (1)


(1) Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed. Caminho, 1995

quarta-feira, 4 de março de 2020

Sibylla Blei, Billy Lieben

Sibylla Blei é quase desconhecida. Pequena maravilha — ao mesmo tempo que foi a filha de um bem conhecido escritor a sua carreira com actriz foi demasiado curta para deixar traços maiores. O biógrafo pode recordar que ela foi a tradutora de uma novela (erradamente) atribuida a Oscar Wilde. Catálogos de bibliotecas e a Internet referem um catálogo de livros, que na maior parte foram propriedade do pai, Franz Blei, doados à Biblioteca Nacional de Portugal por Sibylla Blei e Sarita Halpern.

Sibylla Blei fotografada por Trude Fleischmann c. 1924.
MutualArt

M. A. Pinto Correia [cf. Ein grosses Bestiarium der Weltliteratur. Franz Bleis Büchersammlung in Lissabon. In: Franz Blei: Mittler der Literaturen. Hrsg. von Dietrich Harth. Hamburg: EVA 1997, 213–222] contribuiu com um esboço biográfico de ambas as mulheres para essa bibliografia. 

Mais recentemente, Sibylla Blei foi interpretada como um tipo de mulher lésbica emancipada [...] (1)

Sibylla Blei fotografada por Trude Fleischmann c. 1924.
MutualArt

Fotografias antigas: Billy sempre na proximidade do mar, recostada na amurada de um navio e quase tombando sobre as ondas, ou destacando-se numa paisagem mediterrânica de sol e palmeiras; Billy no círculo de amigos, como ela emigrados em Espanha, ao encontro de uma trupe de saltimbancos, cuidando de animais ou ainda banhando-se na Costa da Caparica.

Billy era assim, criatura do ar livre, do "natural e elementar", como já o pai, Franz Blei, a retratava numa das raras referências, a mais longa, que lhe faz na sua autobiografia Erzühlung eines Lebens: 

"Entregava-se-lhe [ao mar], quase seria levado a dizer, como uma noiva, pois as águas, o nelas mergulhar, o cortá-las com as velas, o arpoar os seus habitantes, qual caçadora com o tridente, foi desde sempre a grande predilecção da sua vida, ela que estava mais próxima de tudo o que é natural e elementar do que do humano e do circunscrito de um pequeno redil."

Sibylla Blei por Trude Fleischmann c. 1920-1925.
Theatermuseum, Wien

E, nestas palavras com que Franz Blei relata o breve episódio do desaparecimento da filha durante a viagem de barco que a família faz para os Estados Unidos em 1897, julgamos ver já traçadas algumas das linhas da personalidade de Billy — a irrequitude, a vitalidade, mas, sobretudo, o inconformismo, essa recusa total de se submeter a normas, um comprazimento no quebrar de barreiras, afinal o que de mais nítido nos fica dos poucos dados biográficos que dela possuímos.

Filha do escritor Franz Blei, Sibylle Blei nasceu em Viena, a 14 de Março de 1897, e faleceu em Portugal, na Costa da Caparica, em data que não conseguimos determinar com exactidão, possivelmente nos fins dos anos sessenta [14 de março de 1962 ...]

O casamento com Billy durou poucos meses, mas a ruptura nunca foi completa. Ernst von Lieben seguiu-a sempre à distância, mesmo ao longo das etapas do exílio: primeiro, Palma de Maiorca, e depois, já durante a guerra, Costa da Caparica, onde algumas vezes a visitou [...]

Sibylla Blei por Trude Fleischmann, 1924.
artnet

Em princípios de 1939, Billy e Sarita fundam na Costa da Caparica uma pequena empresa de fabrico de cosméticos [...] (2)

*     *
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3 de março, 1941

Dear Hermann!

Fui interrompida, há sempre trabalho, já que sou carpinteiro, pedreiro, canalizador, serralheiro, embalador, jardineiro, tudo na mesma pessoa. Pelo meio, para não esquecer, cozinho, e quando as minhas sandálias estão estragadas, arranjo-as ou faço novas.

Maria Eva Sibylla Blei.
geni

E esta casa come o tempo como uma ténia, pois há sempre alguma coisa para reparar, está sempre algo partido. 

O estuque está a cair das paredes, as portas e os caixilhos das janelas estão torcidos porque foram feitos com madeira verde, os vidros caem das janelas porque a massa é da pior qualidade, a chuva entra pelos caixilhos e paredes, os fios elétricos caem das paredes porque os pregos não se fixam nas paredes, é divertido. Digo-te! Tudo é feito apenas para mostrar, e tudo, tudo, tudo é lixo!

Tudo com grandes pretensões — e nada por detrás, mas realmente nada! — Agora haviam três dias de primavera, necessários para secar a casa. A proprietária não se deixa ver, mas vêem-se de sobremaneira as rachaduras na casa. As pessoas dizem que não devemos ficar na casa, é perigoso, mas ninguém nos aconselha "sobre o que" devemos mudar e, portanto, levamos isso de ânimo leve e confiamos na nossa boa sorte como até agora. Principalmente porque não temos opção.

O carnaval acabou, o bacalhau está enterrado, e os trabalhadores andam de ressaca e de mau humor e não sabem muito bem o que fazer. Muitos sonhos e esperanças não deram em nada (a esperança, principalmente, de encontrar um noivo), os corações estão desfeitos porque o noivo dançou com outra garota e a triste monotonia impera. As tentativas interrompidas são retomadas, e agora o desejo mais urgente é que em breve seja primavera e o tempo aqueça novamente.

Os dois bebês nascidos fora do casamento estão vivos, e as mães, com 16 anos de idade, também, os velhos "progenitores" foram condenados a multas pesadas. Uma das raparigas deixou-se persuadir por amor, a outra pela promessa de uma bicicleta, a qual, afinal, não conseguiu. 

Em suma, a vida continua como de costume. Um dos sedutores é um camponês da nossa vizinhança. Tem uma família numerosa e ontem, mais uma vez, casou uma de suas filhas. Ele tem uma esposa ainda relativamente jovem, robusta e saudável, que foi motivo de uma conversa entre duas camponesas:

"Que tenha escolhido uma rapariga tão magricela e "verde", entre todas. Ela não tem nada, nem à frente nem atrás, ainda não tem peitos, nem nada especialmente porque ele tem uma esposa com boa apresentação, com peitos (gesto redondo) isso não consigo compreender! " [...]

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anterior a maio, 1941

Billy Lieben

Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal

Dear Hermann!

[...] agora não é tempo para novas aventuras, e não poderíamos fazer isso a esse homem [associarem-se na gestão de um laboratório], porque quando Hitler chegar, seremos retiradas e ele ficará só! Falta-lhe o conhecimento, quer entregá-lo a uma pessoa confiável ou vender tudo como está.

Sibylla Blei por Trude Fleischmann em 1921.
Booklooker

Discutimos o assunto muito abertamente com ele porque não queremos apressá-lo nem desapontar sobre nossa situação "política". Ele compreendeu e quer esperar mais um mês (na verdade é já o terceiro mês!).

Mas, num mês, Hitler ainda não estará derrotado... Se fôssemos porcos, ficaríamos caladas e agarraríamos a oportunidade — com ambas as mãos: mas não podemos.

E, portanto, temos que renunciar a essa grande oportunidade, muitas vezes sonhada! Porque sempre sonhámos encontrar alguém como ele, e agora acontece que esta pessoa desconhecida se aproxima de nós, até mesmo com um laboratório grande e perfeitamente equipado, etc. — não conseguiriamos pensar em nada mais agradável e melhor — sim, mas não funciona.

Sim, poderíamos casar com portugueses, mas isso também custaria mais dinheiro qo que aquele que temos, e também não seria suficiente para protecção. Em França também prendem franceses [...]

E agora, finalmente, os dados desta simbiose, para o teu álbum:

Sarita: Sarah Halpern, nascida em 3 de setembro de 88 [1898?] em Bolszowce (Pole, passaporte Polaco) e Billy: Sibylla Lieben-Blei, nascida em Zurique em 27 de março de 1897 (ex-austríaca, passaporte austríaco)
Competências: cosmeticistas, produtoras de produtos cosméticos de alta qualidade (batons, loções, leites hidratantes, loção para o cabelo etc. etc. cremes faciais para vários tipos de pele e muitos itens similares)
Carácter: Pessoas honestas, fiáveis ​​e corajosas


Yours ever,
Billy

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Lisboa, 28 de maio, 1941

Dear Hermann,

[...] O peso leve de um espectro afundou-se sobre mim ao sair do comboio. Loge [Franz Blei, pai de Sibylla] — não, um vagabundo barbudo — não, um velho hebreu — não, o cadáver vivo de Tolstoi — não, era Loge, nos meus braços. Imediatamente num carro e para casa, para o meu lugar aqui, do qual não se mexeu desde então.

Costa da Caparica, Vista geral da Quinta de Santo António, ed. desc., década de 1940.
Delcampe

A primeira coisa foi trazer o barbeiro da aldeia dois homens vieram, e quase se podia dizer que fora necessário, porque poderia ter sido demasiado para uma só pessoa barba e cabelo etc. (tirei uma foto antes! Como lembrança!) Nos próximos dias, fotografarei o "depois".

O alfaiate também estave aqui. Em suma, ele estava em trapos, e eu tive que o vestir completamente de novo, e agora ele parece-se com um ser humano e muito melhor.


Ele estava completamente malnutrido. O médico disse que se ele tivesse sofrido de algum problema orgânico e não esteve naturalmente saudável - ele nunca teria conseguido. Ele come e dorme e come, dorme e felizmente, tem paciência consigo mesmo, assim como nós com ele [...] toma bem conta de si próprio e em pouco tempo estará na sua anterior forma novamente.

Se alguém me pudesse dar a garantia de que Hitler não viria, mantê-lo-ia aqui. Se alguém pudesse, pelo menos, garantir que esse H. não chegaria até o final do outono, eu solicitaria uma extensão do seu visto para poder alimentá-lo por mais tempo e ele poderia descansar mais — mas não ouso.


Não devo, nem irei, expô-lo a outro choque! Porque, para além de todas as outras coisas que nos podem acontecer aqui, a fome que irá irromper neste país — um país tão pobre (sem as suas colônias) — seria pior do que em França [...]

*     *
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8 de agosto, 1941

Billy Lieben
Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal

Dear Hermann!

[...] não acredito num ideal de qualquer maneira, mas calculo que possa ser "relativamente" melhor.

Costa da Caparica, Quinta de Santo António e Mata, ed. desc., década de 1940.
Delcampe

Recentemente, fui relembrada desses esforços por um incêndio. Por causa da estupidez de uma mulher adulta, houve um incêndio numa pastagem seca frente à casa, que se espalhou rapidamente devido ao vento.

Esta pastagem é um lugar de vários quilômetros quadrados, com algumas casas espalhadas. Nós e alguns de nossos trabalhadores partimos logo com água e regadores. Foi uma corrida infernal, porque o fogo saltava repetidamente sobre as cinturas de água e em lugares diferentes, e eramos poucas mãos e mal podíamos correr suficientemente rápido.
A "originadora" e algumas outras pessoas estavam atrás dos muros do jardim como espectadores interessados​​! Todos os gritos e insultos foram inúteis, e tivemos que gerir sem ajuda — finalmente conseguimos!

Billy Lieben, Daughter of Franz Blei, Portugal, 1940.
Hermann Broch Collection

Ach, Hermann, a revolução tem que começar com as crianças! (Hitler compreendeu isso bem!...) [...] (3)


(1) Hartmut  Walravens, S ibylle Blei (1897-1962) an independent woman
(2) M. A. Pinto Correia, Uma biblioteca reencontrada, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988
(3) Hartmut  Walravens, Idem

Mais informação:
Sybilla Blei por Alexandre Flores (I)
Sybilla Blei por Alexandre Flores (II)

Informação relacionada:
Diário de Maria Blei - Tagebuch für Tochter Billy
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 1988
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 2011

Leitura relacionada:
Wien Geschichte Wiki: Sibylla Blei
Billys Diariumescape: "Glûcksritterinnen" Billy und Sarita
Hermann Broch Collection