domingo, 21 de julho de 2019

A janela de José Cardoso Pires

A 4 de novembro de 1998, o Jornal de Letras dedicava um número especial à figura e obra de José Cardoso Pires, de quem nos tínhamos despedido poucos dias antes, na Biblioteca das Galveias. Para esse número, José Carlos de Vasconcelos convidou amigos e admiradores para escreverem sobre aquele que partia mas deixava uma obra única para a posteridade.

José Cardoso Pires no apartamento da Costa da Caparica.
Jornal de Letras, 4 de novembro de 1998.
Hemeroteca Digital

Sentei-me então à mesa e escrevi um texto com a memória recente, e a paixão viva, pela sua pessoa de perfil inconfundível como nunca mais encontraria na vida [...] (1)

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*     *

A conversa [com Filipa Melo] fez-se a seguir ao almoço. Tom um de dois interlocutores que se conhecem ao ponto de não aceitarem o disfarce. Tema, dentro do possível: José Cardoso Pires troca Lisboa pela Costa de Caparica: o seu dia-a-dia; se o trabalho rende ou não; por exemplo, e para começar, que lugar preenchem os amigos na vida do romancista [...]

— Neste semi-exílio da Caparica passas boa parte da semana sozinho é?

— Sozinho, sim. Sempre. A maior parte do tempo [...]

— Este teu apartamento, compraste-o com os direitos autorais?

— Não, não. Eu tinha dinheiro de várias coisas, e algum também dos direitos autorais, mas que não foi a base [...]

— Antes de vires para a Caparica escrevias em Lisboa?

— Na minha casa de Lisboa? Não. Escerevi de um modo geral noutros sítios, em casas de amigos. Em Lisboa não, porque tinha problemas, havia as miúdas, havia sempre umas lutas bestiais. Eu gosto muito do silêncio, gosto da solidão, não sou capaz de escrever diante de ninguém [...]

Costa da Caparica, José Cardoso Pires.
Jornal Público, 27 de outubro de 1998.
Hemeroteca Digital

Escrevo em longos períodos, por vezes sou capaz de estar oito a dez horas sentado a escrever. Sou muito anarca. Quase sempre anda por volta dos três anos o tempo que demoro a escrever um romance. E quase todos os livros que faço têm mais que uma versão. (2)


(1) Lídia Jorge
(2) Jornal de Letras, 4 de novembro de 1998

Artigo relacionado:
Costa da Caparica de José Cardoso Pires

Leitura relacionada:
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998)
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998): entrevistas
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sexta-feira, 5 de julho de 2019

A tragédia do Pensativo por Norberto de Araújo

Aqui há uns trinta e tal anos deu-se na Caparica o naufrágio de um barco de pesca em que morreram (pois) dez ou doze homens à vista da praia, à vista daquela gente toda, das familias... foi uma coisa tremenda. Alberto de Araújo fora designado para fazer a reportagem da Caparica, e escolheu-me para o acompanhar e para o ajudar. Eu que nesse tempo sabia pouco ajudar e muito menos um mestre. Ficou lá uns vinte minutos, ele, viveu o ambiente de tragédia, aquelas pobres familias, alanceadas, mulheres que já eram viúvas, crianças que já eram órfãs... encarregou-me de tomar nome dos mortos, o nome do barco etc. E viemos para o jornal.

O jornalista Maurício de Oliveira fala de Norberto de Araújo e da sua reportagem aos 15"45' em
Sabe quem foi Norberto de Araújo? 1971, RTP Arquivos

Ele, em vinte minutos, escreveu uma página, das dimensões de um vespertino nosso, aqui da cidade. Ele perguntou-me duas ou três coisas, mas apenas o nome do barco, o nome dos homens, e quando terminou disse: — Pronto, está feito!

Umgrupo de náufragos posando para o nosso jornal.
Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Olhou para mim e verifiquei que os seus olhos estavam vermelhos, não de fadiga, mas de umas lágrimas, que começavam, que começavam a saltar: a saltar das pálpebras. Percebeu, ele percebeu que eu entendia a sua emoção, e então disse-me (aquilo foi terrível... foi uma coisa terrível), o homem que era Norberto Araújo, profundamente humano, sentimental, coração generoso, tinha sido tomado de assalto pela própria emanação do seu talento, e estava a chorar a desgraça que ele acabava de descrever com verdadeiro génio. (1)

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No Oceano, defronte da Costa de Caparica, que acabamos de contemplar envolta de azul e de luminosidade transparente, com um mar de crianças inocente das suas traiçõezinhas, a praia quietíssima e as figuras tisnadas das gentes sucumbidas ao peso da desgraça — desenrolou-se esta manhã, em rápidos minutos, ainda era lusco-fusco, urna tragedia, que põe de luto muitos lares e arrebatou á vida onze homens, alguns quasi crianças, a maioria na força da vida — entre os 16 e os 30 anos. 

Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

A população local e dos arredores encontra-se consternadíssima. Uma vaga de tristeza. que se não traduz em palavras, mas no silencio que quasi toda a gente mantém, paira sobre a ridente povoação da Costa, primitiva praia de pescadores, onde ha ainda um ou outro traço selvagem, e onde a civilização ha anos para cá vem entrando, pé ante pé, já com os seus ares e as suas aspirações, que, contudo não afastam da linda praia o seu caracter original e o seu encanto de grande praia piscatória, de rudimentares artes e atrevidas fainas do mar. 

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

Na casa da companha está estendido um cadáver; o mar guarda por enquanto, para demorar. a posse, mais dez, e nove sobreviventes, alguns como tontos. andam por ali... a ver o mar — que parece que não foi nada com ele. 

As companhas do "Mestre Chico"

Na Costa da Caparica a actividade piscatória, de processos primitivos como dizemos, tal qual em outras praias do litoral português do Norte ao Sul do país banhado pelo Atlântico, exerce-se entre o começo da primavera e o principio do inverno. 

Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Ás vezes, audaciosamente, os pescadores entram pelo inverno. Por enquanto o mar não "puxa" ainda muito.

As campanhas que ali trabalham não são agora muitas. Três ou quatro, cada uma com seu barco, cada barco com a sua gente, um arrais, um espadilheiro, e aí vinte homens que remam, lançam as redes, trazem o barco para terra e puxam as duas cordas, uma, a "panda", que fica presa em terra logo quando o barco sai, e a outra que o barco trás consigo, quando, largadas as redes ao largo, ai a cerca de uma milha, volta á praia, nos braços das ondas.

"Mestre Chico", figura simpática e prestigiosa da terra, ali nado e criado, que foi pescador e chegou a proprietário de varias "artes", tem hoje três barcos com suas companhas, que todas as manhãs e todas as tardes, quando o mar permite, vão ao mar, fazer os seus lances, alguns dos quais repetem, quando no primeiro matam muito peixe. 

"Mestre Chico", o sr. Francisco José da Silva, casado, ali proprietário tambem de um estabelecimento de mercearia, tem ao seu trabalho assim uns setenta homens, entregues aos três arrais, que escolhem a hora oportuna e o sitio apropriado para lançar as redes, que ás vezes, após duras canseiras, quasi de condenados, trazem apenas caranguejo reles, para estrume. 

Esta temporada não tem sido má de todo. Têm "matado" bem, e lances tem havido que se aproximam de uma dezena de contos. Contudo, estes lances felizes mal chegam para compensar as companhas da centena de vezes que inutilmente vão ao mar, ou das semanas em que o rigor do tempo os obriga á imobilidade, estendidos debaixo das redes ou acolhidos ás palhotas ou ás casitas já de pedra e madeira. 

Vida de heroísmo e de sacrifício ignorados...

Três barcos no mar

Esta manhã os arrais de "Mestre Chico" resolveram que fossem para o mar o "Pensativo" e o "S. Francisco". Tambem iria o "S. José", de outro proprietário, o "Júlio da Filipa". Em terra ficou encalhado o "Portugal", tambem do dono do "Pensativo". Era escuro, e os homens andaram pela terra a gritar: "pró mar!" Foram-se chegando para a praia as companhas, vultos escuros deslizando pela areia, ainda no negrume da noite.

Naufrágio na Costa da Caparica, ao centro o arrais do barco naufragado.
Torre do Tombo
E aí cérca das cinco horas, mal dealbava, saíram os três barcos, de altas proas, cada um com seu espadilheiro à popa, guiando "aquilo", e trinta e seis e braços puxando pelos remos ciclópicos.

Dos três, o "Pensativo" foi o ultimo a sair. Ferrou a "panda" na areia, os homens empurraram-no á agua (já lá andavam os outros dois) saltaram para dentro, tomaram a seu lugar, vá de puxar com força, e foram-se afastando, afastando. 

O mar não estava alvoroçado; não havia neblina, e piscavam ainda o seu olho vermelho e branco os faróis da Espichel e do Bugio. As familias dormiam descansadas: uma faina como tantas... 

Levanta-se nevoeiro

Menos de urna hora andou o "Pensativo" ao largo, já o "S. Francisco?" seu irmão, e o "S. José" vinham para terra. Começava a cair uma neblina leve.

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

O arrais Vitorino escolheu o sitio que lhe pareceu — ás vezes por palpite — mais sujeito a peixe, e mandou largar as pesadas e grandes redes, cujo saco há de recolher o peixe que por ali anda, aos cardumes, as "brancas" de sardinha ou de carapau que vão de longada para o Sul.

Começava a clarear, vagamente. Os faróis mal brilhavam. Fazia frio; o mar não dava de si "para mal", mas a neblina fez-se nevoeiro, e fechava-se, em "treva branca". 

Lançada a rede, já no isolamento dos outros barcos dos camaradas, o "Pensativo" deu ainda umas dúzias de remadas duras, entre o balanço das ondas, que mais cresce quanto mais o barco se aproxima da terra. E aproava á praia. 

Já tinham "abicado" o "S. José" e "S. Francisco", este do arrais Cavalinho, e pertença tambem de "Mestre Chico".

E na praia os grupos indistintos dos peixeiros vendedores, que vão para ali com seus cabazes e cêstas de carga, andavam de um lado para o outro "a ver o que vinha", á espera da lota. Os guardas-fiscais e os cabos do mar misturavam-se na mancha sempre escura, do gentio comprador: E tudo envolto num nevoeiro densíssimo.

Uma traição do mar

— Ouvia-se apenas as pancadas secas dos remos pesados na agua do mar, que começava "puxando". Havia já débil claridade. Nada que fizesse prever traição. Os homens puxavam, puxavam, e alguns pensariam se a rede traria esta manhã ou não traria peixe.

Naufrágio na Costa da Caparica, o rimeiro cadáver que deu à costa.
Torre do Tombo

Aí a vinte "cordas" de terra, e cada corda tem 18 praças — ou seja á distancia de multo menos de um quilometro — o barco é sacudido por um vagalhão, destes que andam "perdidos". Sacode o "Pensativo" pela popa, e fé-lo estremecer todo, como uma casca de noz. Que ondas!

Mas é costume... O espadilheiro aguentou. O barco preso pela espia segura-se e a onda há de passar. Novo vagalhão, já os remos custam a segurar. A meia lua, que o barco com suas pontas reviradas desenha ao lume de agua, no fundo de um nevoeiro que parece ocultá-lo do resto do mundo, afunda-se e logo ressurge, intacto. 

Mas a espia quebra!

A tripulação percebeu o golpe; entendeu o perigo. Estavam perdidos! E não houve mais pensar e o leme tornou-se inútil. O barco, tornado frágil, eleva-se das ondas uns metros e cai ao peso de si proprio, volta-se, como um barquinho de crianças.

— Acudam-nos! Acudam-nos! — gritam para terra. E enrodilha-se tudo. O barco fica de fundo para o ar, e sob ele lutam desesperadamente, aqueles vinte homens. 

A tragedia não tem descrição possivel. Uns nadam, vigorosamente, não sabendo para que lado está a terra. Outros saltam ao barco, pretendendo ultimo apoio. Outros, enrodilhados nos remos, não se teriam, por ventura, podido mover. 

E os gritos, dos que conseguem gritar confundem-se com gemidos dos teriam sido atingidos pelas madeiras, pelos apetrechos pesados bordo. Agarram-se alguns a outros numa ansia de salvação. O desespero da salvação! A ansia de viver! 

A maioria daqueles homens não tem 30 anos [...]


Um balanço sinistro

Reúnem-se os homens. Um grito de um que manda calar. Uma voz de outro que interrompe o silencio.

Naufrágio na Costa da Caparica, Francisco Pinto de 14 anos que se salvou a custo.
Torre do Tombo

Um pranto uma mulher que vem fazer a ultima pergunta: 

O meu filho? Mas só o meu filho que não volta?! 

Ninguem responde. E levam-na.

"Mestre Chico" — parece uma sombra. Ele não diz nada. São os seus homens. Foi a sua "arte". Foi o seu barco. E um mais valoroso aventa: 

— Vamos a contar... Vamos a contar...

E contam. Um vai escrevendo, numa garatuja de alfabeto primitivo. Nós recompomos.

Desaparecidos, sem esperança de qualquer salvação, e mortos, portanto:

—  Agostinho Coelho, o "Bexiga" — ali estendido numa esteira da Casa da. Companha — 29 anos, solteiro, de familia. em Lisboa. 

— João dos Santos Quintino, de 39 anos, de Belém. Casado e com dois filhos. 

— Francisco Saloio, de 14 anos, do Bombarral, mas criado e vivido na Costa da Caparica. A criança da companha. 

— Manuel Agostinho, de 30 anos, de fóra da Costa, onde não tinha familia. Era o mais moderno da companha, e fôra para o mar contra vontade da familia. 

— Joaquim Monarte, o "Cabinho", de 28 anos, casado e com um filho, natural da Costa, onde tem tambem pai e irmãos. 

— Manuel da Grama Santos, de 18 anos, da Costa da Caparica. Muito simpático e alegre. Vivia com sua mãe, de quem era o amparo. Ontem á noite andou a cantar na fonte da povoação, e foi a cantar para o mar. 

— João Nozes Júnior, tambem da Costa, 30 anos, vivia com seu pai, que tambem foi pescador. 

— Merceano da Silva, natural da Costa, de 22 anos. Casado há pouco tempo, deixa sua mulher gravida. Tinha tambem sua mãe em casa. 

— Delfim, um rapazinho que fazia hoje 16 anos, e que foi ajudante do banheiro Ivandro. Natural do Cruzeiro da Ajuda. 

— António Davina, de 25 anos, casou há 15 dias na Costa, onde tinha tambem mãe e irmãs. 

— José Martins, de 24 anos, solteiro, o amparo de sua casa, pois tem o pai e a mãe tuberculosos, e era ele o sustentáculo da casa. 

Eis a lista sinistra.

Os sobreviventes

São, como dissemos, nove. Não atribuem o facto de se salvarem á circunstancia de saberem nadar. "Ficaram lá alguns que sabiam mais do que nós". São eles:

Alguns sobreviventes do naufrágio na Costa da Caparica.
Torre do Tombo

Vitorino José Galinho, o arrais, de 24 anos; José Raimundo, filho, que era o espadilheiro; Eduardo Ribeiro; Pedro Manarte, Pina Setubalão, Francisco Capote, sobrinho; Raimundo Gonçalves, Antonio Isidoro e Alberto Martins, que foi o primeiro a chegar a terra.

As causas da catástrofe

As descrições dos sobreviventes, que têm animo para falar, é que nos permitem reconstituir a tragedia como acima a damos. 

Mestre Francisco da Silva limita-se a dizer-nos, em resumo:

— Esta desgraça só a podemos atribuir a uma traição do destino. Quantas vezes, com temporal, e mar "a puxar" as minhas companhas iam ao mar. Porque não sou eu, mas os arrais que mandam. E o mar hoje estava bom. Não era um mar de senhoras. Era um mar de pescadores. Veio aquele puxão de agua, e o barco não nos dava [...] os homens sabe do seu oficio. Mas a espia quebrou, e esta é que foi a desgraça. Com o mar que súbito embravecera e sem aquele apoio, voltou-se. Não sabemos como aquilo foi. A corda era nova. Talvez tivesse "desabuçado", quer dizer, talvez um dos nós se tivesse desatado com o puxão. Nunca sucedeu. Foi a desgraça. 

E numa grande e sincera lastima: 

— Pobres rapazes! Tudo gente nova! Alguns eram crianças! E todos bons homens, coitados. E Mestre Chico custa-lhe a suster as lagrimas.

O "Pensativo na praia"

Poucas horas depois da tragedia, o "Pensativo", que continuava boiando, indiferente, vitima tambem do mar, foi arrastado para terra. Estava quasi esfrangalhado. Os remos, que são pesados braços de madeira, alguns dos quais têm de ser manejados por dois homens, estavam quasi todos quebrados. 

O barco que naufragou, depois de recolhido e varado em terra.
Torre do Tombo

A proa e a popa desfeitas. Os bancos partidos. É um farrapo de si proprio, o pobre barco, T122F, que largos invernos resistiu aos temporais e sempre muito cuidado, estava como novo, com suas pinturas frescas e a sua elegância esbelta de cortador das ondas. 

Dentro dele ainda está roupa, barretes e calçado dos náufragos, que trabalham descalços. Tem sete metros de comprimento e apesar de ser agora uma ruina, ainda avulta ao lado do "S. Francisco" e do "S. José". 

A rede ficou no fundo do mar, e está-se tentando conseguir um barco que a levante, visto a vida dos pescadores não poder parar. O "Pensativo" é que ficará na praia muito tempo, encalhado, a ver os outros partirem, os outros chegarem [...] (1)


(1) Sabe quem foi Norberto de Araújo?, 1971, RTP Arquivos
(2) Diário de Lisboa, 12 de dezembro de 1929

Artigo relacionado:
O naufrágio do Pensativo

Mais informação:
Sabe quem foi Norberto de Araújo?, 1971, RTP Arquivos (aos 15"45' o jornalista Maurício de Oliveira fala de Norberto de Araújo e da sua reportagem)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Bairro Novo dos Pescadores

O arquivo da "Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro" — designação opaca que radica no processo de desmantelamento da Organização das Pescas, que teve início em 26 de Abril de 1974 —, integra uma profusa colecção de correspondência trocada com pessoal político do regime e uma não menos valiosa compilação de milhares de fotografias de culto do "patrão das pescas" e da sua "obra social e de fomento".

Costa da Caparica, Bairro dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

Documentos escritos e repertório de imagens fixas, ambos supõem uma liturgia do poder, encenada à maneira dos fascismos modernos [...] (1)

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1937, 11 março - a Lei n.º 1953, autoriza a criação "em todos os centros de pesca, de organismos de cooperação social, com personalidade jurídica, denominados Casas dos Pescadores", cuja esfera de atuação é limitada à área da respetiva capitania ou delegação marítima (Base I); 

Costa da Caparica, Bairro dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

o mesmo diploma cria a Junta Central das Casas dos Pescadores (JCCP), "que exercerá a sua atividade em colaboração com a Secção de Previdência Social do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência", com a competência de "orientar e coordenar a ação das Casas de Pescadores" e "de administrar o seu fundo comum" (Base II); 


1938, 14 julho - constituição da Casa dos Pescadores de Lisboa, com secções na Costa da Caparica e Seixal;

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura, Mario Novais, 1946.
Delcampe - Bosspostcard

1939, dezembro - 1940, fevereiro - construção da Sede da Secção da Casa dos Pescadores de Lisboa, na Costa da Caparica; 

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

1946, 20 maio - apresentação do anteprojeto pelo arquiteto Faria da Costa à JCCP;  julho - aprovação do anteprojeto pela JCCP;  27 agosto - lançamento do concurso para construção do Bairro para Pescadores na Caparica, cujas 40 casas começam a ser construídas antes do final do ano;  6 setembro - entrega do Plano do Bairro para Pescadores e do projeto definitivo das casas económicas tipo 1 e 2;

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1950, 04 fevereiro - o Decreto-Lei n.º 37750 confere à JCCP novas competências nomeadamente "construir, por si ou em comparticipação com o Estado, habitações destinadas aos sócios efetivos das Casas dos Pescadores (...), concedidas a título precário"; 

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1951 - criação do Serviço Técnico da JCCP (Serviço de Bairros e Construções), que passa a executar os projetos e fiscalizar as obras;

Costa da Caparica, Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro.
Arquivo Histórico da Marinha

1953, 31 dezembro - segundo o relatório anual da JCCP, existiam à data 27 bairros para pescadores, com 1512 casas e 7125 habitantes; 

1961 - segundo o relatório da JCCP, estão em construção 44 casas no bairro; 

Costa da Caparica, Bairro Novo dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

1962, 01 abril - inauguração do bairro; (2)

Costa da Caparica, Bairro Novo dos Pescadores.
Arquivo Histórico da Marinha

Fundações em alvenaria de pedra e argamassa de cimento; paredes exteriores com soco em alvenaria de pedra e argamassa, elevação das paredes em blocos de argamassa de cimento e areia; paredes interiores em blocos de argamassa de cimento e areia; pavimentos do rés-do-chão em massame de cimento revestido de betonilha (sala comum e instalação sanitária) e solho sarrafado nas outras divisões, pavimentos do 1.º andar em laje betão armado revestido a betonilha (sala comum e instalação sanitária) ou solho sobre sarrafado (outras divisões); tetos rebocados e caiados; escada com degraus em betão ligeiramente armado; portas em madeira de pinho com ferragens tipo económico; caixilharias das janelas e portas interiores em madeira de pinho, vidraça nacional e ferragens tipo económico (memória descritiva do projeto das casas económicas do Bairro para Pescadores na Costa da Caparica) (3)

Costa da Caparica, inauguração do Centro de Assistência, 1963.
Arquivo Histórico da Marinha

1974, 31 dezembro - com a publicação da Portaria n.º 866/74, a JCCP assume a competência e as funções de uma caixa sindical de previdência; 

1976, 20 janeiro - pelo Decreto-Lei 49/76, a JCCP passa a denominar-se Caixa de Previdência e Abono de Família dos Profissionais de Pesca, passando as Casas dos Pescadores a delegações administrativas dessa mesma Caixa. (4)


(1) Álvaro Garrido, Henrique Tenreiro, uma biografia política, Lisboa Círculo de Leitores, 2009
(2) João Guilherme Faria da Costa, Bairro de Casas para Pescadores da Costa da Caparica / Bairro Novo dos Pescadores
(3) Idem
(4) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
Junta Central das Casas dos Pescadores
Plano de Urbanização da Costa da Caparica

Leitura relacionada:
João Guilherme Faria da Costa (1906-1971)
Almada na História,Boletim de Fontes Documentais, n° 31, 2018 cf. Jornal Praia do Sol, n.º 193, 1 de janeiro de 1962

Mais informação:
Comissão de Extinção das Instalações do Almirante Tenreiro (diversas obras sociais)

terça-feira, 11 de junho de 2019

Gentes da Costa (e a miguelista exaltada) em 1828

Cedo na manhã seguinte parti para a Costa com o meu inteligente amigo Coronel Lambert.

Barco no Tejo com mau tempo, Emeric Essex Vidal (1791-1861), 1833.
artnet

Atravessámos as águas, alugámos mulas, e passeámos durante algumas milhas por terras sem interesse.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
IGeoE

Do cimo da colina vimos em baixo a aldeia da Costa, possuindo uma forte parecença com essas tendas árabes que tinha visto cravejando as planícies africanas, parecendo à distância como que montículos de terra erguido em formas piramidais. As tendas árabes são feitas em pelo de camelo, mas estas barracas são aparentemente compostas por colmo, e são ambas conspícuas na escuridão da sua cor.

A Costa está contruída à beira da água; ante si está uma fina extensão de areia e um pronunciado mar aberto, as montanhas de Cintra emergem nobremente à distância.

A fisherman and his family, Pedrouços, Marianne Baillie, Costumes of Portugal.
Google Books

Por uma estranha inconsistência, perceptível em muitas partes da península, as mulheres da Costa estavam belamente vestidas, apesar das suas cabanas miseráveis serem destituídas do comummente necessário à vida: os homens estavam em terra alando as redes; alguns usavam gorros, outros capuzes que pareciam capotes, enquanto que a corda, cingida em torno de suas roupas soltas e pitorescas, lhes dava uma aparência de monges, em desacordo com a severidade dos seus semblantes e a liberdade de suas atitudes. 

As crianças estavam carregadas com mexilhões e vociferantes por dinheiro, e alguns "pence" lançados entre eles produziram um tremendo declínio e queda dos seus bens aquáticos. 

Demorámo-nos no local, apreciando a cena, e vimos os pescadores puxarem um saco de sardinhas cintilantes.

Costa da Caparica, brasão e coroa do Reino Unido de Portugal e Brasil antes colocados na "casa da coroa".
Caparica news

À nossa partida fomos de algum modo molestados por uma dama antiga, uma alma digna, sem dúvida, mas um pouco sentimental e muito intoxicada; falava com energia sobre Dom Miguel e parecia muito inclinada a associar-nos às suas críticas políticas, aí tívemos alguma dificuldade em evitar o perigoso tema.  

Chegámos a Lisboa antes do anoitecer. (1)


 (1) Earl of Carnarvon, Portugal and Galicia... 3rd ed, London, John Murray, 1848

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O guardião dos Capuchos

"O guardião dos Capuchos abriu-se connosco um bocadinho e tem boas razões o bom do velho", o que não é senão uma crítica mordaz ao estado em que o convento se encontrava.

Roque Gameiro.org

Ele [Norberto de Araújo] imagina uma entrevista com o velho frei Bernardo:

— Há quantos anos está aqui de guardião?

— Desde 1558 que foi quando o senhor D. Lourenço, que Deus guarde, me trouxe para aqui dos Capuchos da Arrábida. Aqui tem a lápide do túmulo que foi de D. Lourenço, morgado da Caparica, o fundador do convento que foi nesta nave sepultado.

— Quantos anos conta frei Bernardo?

— Quatrocentos e doze de idade!

— E está disposto a viver muito tempo ainda?

—  Enquanto durarem os Capuchos...

Costa da Caparica - Convento dos Capuchos 
Ed. Comissão Municipal de Turismo (fotografia original de Mário Novais)

O que é facto é que a sua campanha resultou e o convento foi restaurado, como se pode ver, pois logo a seguir à publicação deste artigo sai a boa notícia:


"A Câmara de Almada resolveu comprar os Capuchos". (1)


(1) Jornal Praia do Sol, 1 de fevereiro de 1950, cf. Sabe quem foi Norberto de Araújo? (excerto), 1971, RTP Arquivos

Artigos relacionados (Convento dos Capuchos):
Mar de Caparica
Almada Virtual Museum

Artigos relacionados (Norberto de Araújo):
As meninas da Torre
Atragédia do Pensativo por Norberto de Araújo (a publicar)

Mais informação:
O Convento dos Capuchos, Vida, Memória, Identidade, Catálogo da Exposição

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Barcos meia-lua (Aveiros, não Saveiros...)

No imenso areal o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas para o céu. (1)

Costa da Caparica Saveiros Meia-lua da Caparica  Marinha de Pesca.
Comissão Cultural da Marinha

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. 

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Hemeroteca Digital

Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos. (2)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros...
Hemeroteca Digital

Também as populações do litoral se deslocam: pescadores de Ílhavo e Ovar fundaram colónias, como a Costa da Caparica, onde se encontraram com algarvios, vindo depois engrossar a mesma aglomeração gente de Sesimbra e das margens dos esteiros do sul do Tejo [...]

Saveiro da Costa.
Caderno de Todos os Barcos do Tejo, tanto de Carga e transporte como d'Pesca, por Joao de Souza, 1785.

Os saveiros da Costa da Caparica, em forma de crescente, reproduzem um dos tipos de embarcação da Ria de Aveiro. (3)

Barco meia lua da Costa da Caparica usado na pesca da sardinha com rede de arrastar para terra.Construidos primitivamente em Ílhavo (Aveiro) navegavam com uma vela de pendão e um leme provisório que chegados à Caparica eram substituidos por remos.
Origem do fabrico Aquário Vasco da Gama.
Museu de Marinha

Quando os pescadores de Ovar abandonaram, no século XVI, a pesca na Ria e se dedicaram aos trabalhos do mar, fixaram-se primitivamente no lugar onde hoje se ergue a praia do Furadouro, que foi a sua primeira colónia.

Depois, nas estações próprias, partiram para o norte e para o sul, procurando locais para exercer a pesca e estabelecendo outras colónias entre o Douro e o Vouga e, finalmente, atingiram locais do litoral português cada vez mais afastados da terra natal. 

Os pescadores da Costa da Caparica (detalhe), Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944).
cf. estudo para "Quadro de Os Pescadores da Costa da Caparica, no "atelier" de Sousa Lopes" (1927).
Exibido na exposição "Efeitos de luz" (2015) no MNAC (Museu do Chiado)

Nos séculos XVI e XVII, estavam na Torreira e nas Areias mas, durante estes dois séculos, não se fixam nos lugares mencionados, regressando à vila após as fainas marítimas. Na primeira metade do século XVIII, trabalham como marmoteiros na Afurada, numa colónia onde estão já presentes também 92 mulheres. 

Na segunda metade do século XVIII, chegam à Caparica, Santo André e Olhão, para onde eram transportados nos caíques algarvios que se dirigiam a Aveiro para vender os carregamentos de peixe salgado e, de regresso, levavam para o Algarve as bateiras dos pescadores vareiros e murtoseiros, com as suas redes e aprestos. (4)

Barco no Tejo com mau tempo, Emeric Essex Vidal (1791-1861), 1833.
artnet

Nas artes de arrastar para terra figuram as xavegas do Algarve, os saveiros e as meias-luas, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na praia de Sines. (5)

Saveiro da Costa de S. Jacinto (Aveiro) usado no lançamento das artes de arrastar para terra.
Origem do fabrico Aquário Vasco da Gama

Museu de Marinha

Os "meias-luas" eram antigamente construídos em Ovar pelo construtor Bernardino Gomes. Eram muito mais pequenos do que o "barco do mar" que pode, ainda hoje, ser encontrado em Aveiro.

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

Os primeiros barcos eram, apesar de tudo, bastante grandes: o seu comprimento era de 10,80 metros e a sua boca 2,85 metros,como está representado num modelo da Colecção Seixas no Museu de Marinha, construído à escala de 1:25, cujas linhas e plano de construção foram retirados por José Pessegueiro Gonçalves em 1920 de uma embarcação existente denominada "SEMPRE VIM". 

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

Estas grandes embarcações eram construídas com quatro bancadas para os remadores e as posteriores, mais pequenas, e em menor número, que mediam 8,50 x 2,40 metros aproximadamente, eram construídas com três. 

Saveiro da costa norte, "Sempre vim", 1920.
Museu de Marinha

A parte de ré do casco era deixada aberta para permitir espaço no qual era alojada a rede, as suas numerosas poitas e flutuadores de cortiça e os cabos de puxar. (6)

Meia lua "Ha-de ser o que Deus Quiser", TR-306-L. Registada na Delegação Marítima da Trafaria, em 18 de setembro de 1946 por Vitorino José, que a mandou construir ao carpinteiro naval, Marcolino Ferreira, no estaleiro de Porto Brandão. Destinava-se à pesca local com arte de navegar.

Meia lua da Costa da Caparica, "Ha-de ser o que Deus Quiser", 1946.
Revista da Armada

Em 04 de março de 1950 passou a ser propriedade de António Xavier Carrapinha e António Pinto Ribeiro.

Marintimidades

Lotação: 12 homens; Tonelagem: 4,155. Comprimento: 8,50 m (8,42 m Documento da Delegação Marítima); Boca: 2,40 m (2,35 m Documento da Delegação Marítima); Pontal: 0,80 m (0,84 m Documento da Delegação Marítima). (7)

Outro exemplo expressivo, captado também nos anos 60, é a proa da barca da arte xávega de Monte Gordo. 


Barca de pesca em meia lua do Algarve na zona de Monte Gordo.
Museu de Marinha
No beque, uma cabeça de cobra.

Proa da barca de Monte Gordo, anos 60.
Marintimidades

Local para a cabeleira, ocasionalmente retirada. Olhos bem delineados, postados na proa, sem delimitação da cara. (8)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(3) Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, Geografia de Portugal, comentários e actualização de Suzanne Daveau, Lisboa, Edições Sá da Costa, 1999 -1987-, volume III, pp. 754-6 cf. Clara Sarmento, Práticas, discursos e representações da cultura popular portuguesa
(4) Clara Sarmento, Práticas, discursos e representações da cultura popular portuguesa
(5) Ramalho Ortigão, O culto da arte em Portugal, Lisboa, A.M. Pereira, 1896
(6) Revista da Armada
(7) Museu de Marinha
(8) Marintimidades

Artigos relacionados:
Os Meia Lua da Costa de Caparica
Lugar da Costa de Caparica, 12 de setembro de 1833
Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial
Ílhavos
etc.

Mais informação:
Ana Maria Lopes, Marintimidades, O meia-lua: da praia para o Museu?...
Leitão, Manuel Leitão, Revista da Armada, Dezembro 2002, (pág. 397, ou pesquisar "Caparica")
Senos da Fonseca, Factos & História 
Senos da Fonseca, A arte da xávega
Caxinas a freguesia
etc.