domingo, 2 de dezembro de 2018

Ruinas da egreja do convento de Nos­sa Senhora da Rosa, em Caparica

O histórico Convento da Senhora da Rosa cerca do Monte de Caparica fundado em 1410 por Mendo Gomes de Seabra e cujos restos acabam de ser demolidos. Diz a tradição que na egreja d'este convento fôra sepultada em 1538 a formosíssima  infanta D. Beatriz [(1504-1538), de facto D. Beatriz fora inumada na catedral Sainte-Marie de Cimiez, arrasada em 1706], filha de D. Manuel, mulher de Carlos III, duque de Sabóia, e mãe do célebre general Manuel Felisberto, o vencedor da batalha de S. Quintino. (1)

Convento da Senhora da Rosa cerca do Monte de Caparica.
Ilustração Portugueza, 24 de novembro de 1913

O Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa de Caparica era masculino, e pertencia à Ordem dos Eremitas de São Paulo, Primeiro Eremita. Teve origem em eremitério fundado possivelmente ainda no séc. XIV ou nos primeiros anos da centúria seguinte, no lugar dito da Barriga, no termo de Almada, referido também, noutros documentos do séc. XV, por Cela Nova.

Conforme testemunho do regedor da casa em 1445, o lugar, habitado desde a sua fundação por pobres eremitas, fora reformado por Mendo Seabra (1442?), com a ajuda dos reis D. João I e D. Duarte e do Infante D. João, mestre de Santiago. Sujeitando-o então à Serra de Ossa, nomeou o clérigo João Eanes como regedor deste eremitério e dos de Alferrara e Mendoliva, e nele colocou outros pobres.

Em 1458, pela bula "Speciali gratia", Pio II concedia-lhes a isenção do pagamento da dízima sobre os frutos das herdades da provença.

Em 1466, consta da lista das casas sujeitas à Serra de Ossa. A partir do primeiro quartel do séc. XVI, a casa já surge referida como de Santa Maria da Rosa. A este cenóbio seriam anexados, em 1645, os bens do extinto mosteiro da Junqueira.

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional.

Manuel Pinheiro Chagas, História de Portugal, popular e ilustrada, Volume 3
cf. Roque Gameiro.org

Em 1883, 9 de Maio, foram transferidos os documentos do cartório da Repartição de Fazenda do Distrito de Lisboa, para o Arquivo da Torre do Tombo, no cumprimento da Portaria do Ministério da Fazenda, de 20 de Março de 1865. (2)


(1) Ilustração Portugueza, 24 de novembro de 1913
(2) Arquivo Nacional Torre do Tombo

Artigo relacionado:
Cella Nova, Senhora da Rosa de Caparica

Mais informação:
Chronica dos Erémitas da Serra de Ossa, no reyno de Portugal...
Santuario Mariano e Historia das Imagēs milagrosas de Nossa Senhora...
Chorographia moderna do reino de Portugal...
Corografia Portugueza e descripçam topografica...
Portugal antigo e moderno...

Informação relacionada:
Histórias da História da Charneca de Caparica
Mosteiro da Rosa na revista ARTIS

sábado, 1 de dezembro de 2018

Bulhão Pato, retratado por José Campas

Enquanto estivemos no Lazareto, eu frequentava muito a casa do Tio Pato. Foi sempre muito meu amigo e dava-me o grande prazer de falar comigo em muitos assuntos. Eram horas muito agradáveis para mim as que ficava na sua tão bondosa e inteligente companhia [...]

Retrato de Bulhão Pato (Caparica), José Campas, 1908.
Ilustração Portugueza 27 de abril de 1908

Um dia, convidou o Dr. Afonso Costa para o ir visitar. Ele e seu irmão, foram almoçar comigo à minha Escola, no Lazareto e depois fomos a casa de Bulhão Pato. O Tio Pato ficou muito contente, falaram bastante do presente, do passado, do futuro.

Retratos de Bulhão Pato e Isabel Pato (Caparica), José Campas, 1908.

Do passado lembrou o Tio Pato, a Sogra de Afonso Costa, que também se recordava muito de factos passados na sua mocidade em que o Tio Pato era admirado.

Último retrato de Bulhão Pato, José Campas.
Ilustração Portugueza, 10 de março de 1913

À saída tirámos um retrato que deve estar na minha mala ou na pequena caixa de madeira existente em casa de meu Filho Nuno. Nessa fotografia estavam: o irmão do meu apaixonado e uma Mulher, ele, e o Afonso Costa, seu irmão, eu e mais pessoas, conhecidas ou não, que na rua se juntaram. [...] (1)


(1) Ilda Jorge de Bulhão Pato, Pedaços da minha vida – narrados desde 11 de Fevereiro a 19 de Abril de 1971 cf. Maria Manuela de Moura Pereira, As escolas maternais de Ilda Jorge de Bulhão Pato

Artigo relacionado:
Retratos de Bulhão Pato

Mais informação:
Exposição José Campas (Obra publicada por ocasião da exposição patente no Salão Bobone, Lisboa, de 16 a 31 janeiro de 1929; tem uma relação de museus, galerias e colecções que possuem obras do artista)


José de Sousa Ferreira Campas.
Pintor, natural de Lisboa, nasceu a 14/06/1888 e faleceu a 04/01/1971.
Tirou o Curso de Pintura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, obtendo o Prémio Anunciação em 1905-1906. Estagiou em Paris, onde expôs com êxito de 1918 a 1922.
Foi discípulo de Carlos Reis, Jean Paul Laurens, Léon Bonnat, Raphael Collin e J J Duval.
Com os seus quadros recebeu honrosos galardões, como a 1ª medalha em pintura na Sociedade Nacional de Belas-Artes, estando representado no Museu Nacional de Arte Contemporânea [???].
Publicou na imprensa portuguesa valiosos artigos de crítica de arte e polémica, especialmente em "A Voz", tendo sido delegado do Governo Português na Exposição Internacional de Paris, em 1935.
Foi Professor do Ensino Técnico, tendo sido Director das Escolas Técnicas de Lagos e de Abrantes, e emérito restaurador de quadros antigos.
Executou obras apreciáveis tanto de figura como de paisagem [...]
cf. Quem É Quem, Portugueses Célebres, Círculo de Leitores, 2008

domingo, 25 de novembro de 2018

Restos do Convento e egreja dos Capuchos em Caparica

Fora fundado em 1564 por D. Lourenço Pires de Tavora, quarto senhor de Caparica, o convento de capuchos arrabidos, cujas ruinas a nossa gravura reproduz.

Roque Gameiro.org

Na egreja d'este convento está o túmulo do seu fundador, que falleceu a 15 de fevereiro de 1573. D. Lourenço Pires de Tavora fora embaixador de Portugal em Hespanha, sendo imperador Carlos V.

Caparica é povoação situada em frente de Lisboa, na margem esquerda do Tejo. É de fundação muito an­tiga, dando-se ao nome que ella tem, de Caparica, duas tradições muito curiosas, segundo refere Pinho Leal, no seu Portugal antigo e moderno.

Uns dizem que morrendo aqui um velho, declarou no testamento que deixava a sua capa para ser vendida e com o producto da venda se fazer uma capella a Nossa Senhora do Monte. Fez isto rir bastante; mas, sabidas as contas, a boa da capa estava recheiada de bellos dobrões de ouro, que chegaram de sobra para a fundação da capella.

A segunda versão é que, sen­do a Senhora do Monte de muita devoção para estes povos e limitrophes, concorreram todos para se lhe fazer uma esplendida capa, pelo que a Senhora ficou d'ahi em deante sendo conhecida por Nossa Senhora da Capa Rica. (1)


(1) Manuel Pinheiro Chagas, História de Portugal, popular e ilustrada, Volume 4,
cf. Roque Gameiro.org


Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato
Freguesia de Caparica no século XIX

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Costa da Caparica (alguma iconografia perdida e dispersa na fotografia e no cinema)

... vê-se novamente a praia do Estoril, à qual se volta todos os anos, mas também a da Figueira da Foz com banhistas em poses com os novos fato-de-banho e sombrinhas, a praia da Costa da Caparica e outras não identificadas (v. O Notícias Ilustrado, Série II, n.º 69, Lisboa, 6 de Outubro de 1929) [...]

O Notícias ilustrado Série II n.° 374, Lisboa,  8 de setembro de 1929.

A sul do Tejo, a Costa da Caparica, foi fotografada pela sua paisagem por João Martins, numa das suas primeiras colaborações para a revista (v. O Notícias Ilustrado, Série II, n.º 205, Lisboa, 15 de Maio de 1932) [...]

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins, década de 1930.
Delcampe

No interior via-se a "Caparica moderna" em mais uma fotorreportagem de Raimundo Vaissier que fotografa as raparigas de "pijama longo" e o "descanso depois do farnel" (v. O Notícias Ilustrado, Série II, n.º 219, 21 de Agosto de 1932) [...]

"Praia do Sol" na Costa da Caparica, com banhistas, pavilhão, miúdos, barca (v. O Notícias Ilustrado, Série II, n.º 272, Lisboa, 27 de Agosto de 1933) [...]

O Verão de 1935 é inaugurado com uma fotografia de raparigas de fato-de-banho na capa da revista. Seguem-se as habituais fotorreportagens sobre o Estoril, este ano fotografado por Raimundo Vaissier, a Costa da Caparica (v. O Notícias Ilustrado, Série II, n.º 374, Lisboa, 11 de Agosto de 1935) [...] (1)

Caparica
O Notícias ilustrado Série II n.° 374, Lisboa, 11 de Agosto de 1935.

Costa da Caparica (1929) Doc. p/b 35 mm; 
A Praia da Caparica (1931) Doc. p/b 35 mm; 
Caparica, Praia do Sol (1938) Doc. p/b 35 mm Perdigão Queiroga. (2)

Na Praia da Trafaria (1908) p/b 35 mm. (3)

Excerto do filme Almada - Varanda do Tejo (cor, 35 mm), Ricardo Malheiro, 1967.
Cinemateca Digital

Almada - Varanda do Tejo (1967), Ricardo Malheiro;
Do Outro Lado do Mundo - Almada (1971) cor 35 mm António de Macedo. (4)


(1) Portugal (1928-1968) : Um Filme de J. Leitão de Barros
(2) CINEPT (pesquisa: caparica)
(3) CINEPT (pesquisa: trafaria)
(4) CINEPT (pesquisa: almada)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Marquesa de Alorna na Costa de Caparica

Minha Avó residia, de verão, em Almada, na antiga casa de meus Avós. Um dia recebi uma carta sua, para a ir alli ver e combinarmos conto haviamos de festejar os annos de sua filha D. Henriqueta, nos primeiros dias do mez de Julho.

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chegando a Almada, com meu irmão, não encontrámos nossa Avó nem parentes, que nos tinham deixado recado para irmos á Costa, onde estavam em uma grande pescaria. 

Traseiras em ruínas do palácio dos marqueses da Fronteira, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A digressão era longa e não a julgámos muito divertida; comtudo, estava proximo o anniversario que queríamos festejar e nós não queriamos concorrer para que se frustrassem os projectos da nossa respeitável Avó. 

Minha Avó, que, como tenho dito, era um pouco persistente nos seus principios, tinha teimado em ir no seu paquebote, com o seu velho cocheiro e libré da antiga casa de Alorna. 

Leonor de Almeida Portugal,
4.a Marquesa de Alorna, 8.a Condessa deAssumar (1750-1839).
Wikipedia

A equipagem e a parelha eram tão velhas como a dona e o cocheiro, o caminho arenoso e impraticável para qualquer equipagem; e, tendo nós alugado cavalgaduras e partido, a todo o galope, para a Costa, encontrámos no caminho umas mulheres que nos perguntaram se eramos os meninos da Senhora Condessa d'Oyenhausen e, sabendo que sim, nos disseram que a nossa Avó e Avô estavam enterrados na areia, a pouca distancia d'ellas, e que os machos estavam quasi mortos. 

Quadro, atribuído a Domingos de Sequeira ou a Pellegrini, representando os três irmãos ainda crianças:
D. José Trazimundo, sétimo Marquês de Fronteira, D. Leonor Mascarenhas, Condessa de Alva
e General Dom Carlos de Mascarenhas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Accelerámos o passo, intrigados, sem sabermos quem era o nosso novo avô, e achámos o velho cocheiro, desamparado ao pé da carruagem e da parelha, rogando mil pragas a sua ama, declarando que nunca mais havia de servir poetas e dizendo-nos que o rancho das nossas tias se tinha adeantado, ficando minha Avó com Monsenhor Cherubini, que era quem as mulheres annunciaram por meu Avô, os quaes tinham seguido, montados em mulas de moleiro, acompanhados pelo moço da trazeira. 

Seguimos o caminho e, pouco adeante, encontrámos a caravana, dirigida por nossa boa Avó, montada em uma das taes mulas, tendo posto por cima da touca e cabelleira loura um grande chapeu de palha que lhe havia emprestado um pescador da Costa, por causa do grande calor, e conseguindo resolver o seu companheiro a fazer o mesmo, pondo sobre a calva empoada um chapeu semelhante.

Configuraçao do terreno comprehendido entre o pontal de Cacilhas e a praya da Costa, 1810.

Monsenhor ia de casaca á romana e meias encarnadas e o moleiro levava-lhe na mão o chapeu pelos cantos. O velho moço da trazeira seguia a caravana, cansadíssimo e de pessimo humor, e Monsenhor, perdido de riso, exclamava, apontando para minha Avó: Que caricatura! que graça! que espirito! que talento!

Costa da Caparica, brasão e coroa do Reino Unido de Portugal e Brasil antes colocados na "casa da coroa".
Caparica news

Assim chegámos á Costa, onde fomos recebidos pela outra parte do rancho, que se tinha adeantado, e o mestre de desenho, Luiz Thomé de Miranda, que era da partida, fez uma espécie de caricatura da entrada de minha Avó e de seu companheiro, Monsenhor Cherubini, a qual muito sinto ter perdido.  (1)


(1) Memórias do marquês de Fronteira e d'Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto... 1861

Artigo relacionado:
Alcipe

Leitura relacionada:
A Costa da Caparica de Luísa Costa Gomes

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O Casal da Encosta.

Sobre o viso do monte, e dominando o val,
Alveja o casalito, ao rez d'um pinheiral.
Quando coube em partilha ao dono que o cultiva,
Era tudo um sarçal; mas tinha agua nativa,
E terreno também de boa condição.

Vista de Caparica, tomada dos Capuchos.
Delcampe, Bosspostcard

O dono, inda rapaz, um fero latagão,
Deitou-se a trabalhar, e não largava a enxada
Desde que o, sol rompia á noite já cerrada.

Pouco depois casou. A sua companheira
Não lhe ficava atraz como mulher fragueira.

N'um casal solitário, embora o passaredo,
Logo pela manhã, chilreie no arvoredo,
É precisa outra voz, a voz duma creanca!

Nasceu-lhes uma filha. inda com mais pujança
O pae lidava só no seu torrão estreito:
A mãe trazia agora a creancita ao peito.

*
*     *

Tinha bom lançamento a nova bacellada —
Era o grande remédio! — o pão não deixa nada.
Mas pôr vinha de manta em chão barroso e duro,
E canceira cruel ! Co'a mira no futuro.
Com os olhos na filha, e trabalho inaudito,
Logrou tornar rendoso o breve casalito.

A Praia do Sol, Uma vista parcial, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 108, década de 1930.
Delcampe

Foi crescendo a pequena. Houve uns annos seguidos 
De colheita feraz; os vinhos bem vendidos. 
O parco lavrador, fazendo economias, 
Sonhava no porvir mais descançados dias!

Sonhar, sonhar, sonhar!... Não ha senão sonhar 
Co'as coisas ideaes! — a peste é o despertar! — 
Sonha o bronze também, saudando os desposados: 
Acorda! e dobra... E dobra o dobre dos finados!

*
*     *

Veiu um dia nublado, e ao mesmo tempo quente.
Aquillo foi um raio! — O míldio de repente.
Como a chamma voraz, lavrou ! Tudo queimado ;
Parra e cachito em flor! Um anno desgraçado !

Costa da Caparica, Terras da Costa e Cabo Espichel, ed. Passaporte, 7, década de 1950.
Delcampe

Ao míldio succedeu, raivando, o phylloxera,
E arrazou-lhe o vinhedo, aquella besta fera!

Ha dois dias passei pelo Casal da Encosta.
A tarde era um encanto! O mar quedo na Costa!
Na soleira da porta, avisto o lavrador,
Sentado e taciturno. —  Então, ó Salvador?...
— Isto, agora, o remédio é deitar mão á enxada;
Mas o trabalho falta, e não fazemos nada!

Apertou a cabeça entre os punhos cerrados.
Co'as lagrimas no peito — irmãs dos desgraçados!

A um lado da lareira, apagada e sombria,
A mulher, a cantar, a filha adormecia!

Que singular poder tinha o mavioso canto...
Era alegre a canção, porém a voz um pranto!

Maio, 1896.


(1) Bulhão Pato, Livro do Monte, Lisboa, Typographia da Academia, 1896

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O retiro de um velho romântico

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato. 

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Arquivo Municipal de Lisboa

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar. 

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos Maias, e digo compôs porque depois de conversado e convivido. Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares. 

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés. 

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Animado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
ComJeitoeArte

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também, que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então. 

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do Se coras não conto. 

Passos Manuel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estevão, por Columbano, 1921.
Sala dos Passos perdidos do Parlamento.
Wikipédia

E' que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só. 

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas Memórias, apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas. 

Assim, o autor da Historia de Portugal. que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; 

— "o mestre já conhece esta"

— Herculano esfregava as mãos e dizia:

— "conte, conte, as experimentadas são as melhores."

Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas. 

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!"

— Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. 

Duma vez, estava um clergiman a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas. 

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bulhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: 

— "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?"

— Pato saiu á pressa da igreja. Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral, denominada já nesse tempo lei das rolhas. 

E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara. 

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Arquivo Municipal de Lisboa

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: 

— Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato.

E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes. 

Bulhão Pato no Monte de Caparica.
RTP Arquivos

Dahi, as figuras das suas Memorias, pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista.

A rudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. 

Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia.

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. 

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Hemeroteca Digital

Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e souteneur de uma senhora da sociedade. 

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa. 

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: 

— "O bom filho a casa torna..."

— Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e dizime com os olhos brilhantes:

— "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. 

Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: 

— "Traição!" 

— E' demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: 

— "Venha! Temos pescada do alto."

— Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; 

Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinhá um gosto de pederneira, vinho já cantado por Gil Vicente e Camões:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta, 

E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: 

— "Vocês comem, mas nem palavra." 

— Eu um dia respondi: 

— "A commoção embarga-me a voz!" 

— ao que outro replicou:

— "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas...

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo, Augusto Gil [v. Uma tarde no Monte], Manuel Monteiro.

Torre de Caparica, casa onde residiu Bulhão Pato, construção de finais do século XIX.

Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: 

"Cacei hoje uma gallinhola!"

— E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. 

Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação.

Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)

João Barreira (1)


(1) João Barreira, O retiro de um velho romântico

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Leitura relacionada:
Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896