segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Regresso ao bairro do Costa Pinto

Foi o António Maria, antecessor do Pontos nos ii, um dos jornaes que o publico mais destinguiu a subscripção destinada a soccorrcr os pobres de Caparica victimados por mais dum terrivel desastre.

Vista da Costa de Caparica, ed. desc. (Martins & Silva) Bairro do Costa Pinto, década de 1900.
Delcampe

Ao tempo estampou aquelle jornal o desolado aspeto da mísera povoação, e por isso nos parece interessante apresentar hoje o novo aspecto d'esses areaes ermos, ainda ha pouco, do mais insignificante conforto, aspecto agora risonho, com as suas despretensiosas mas confortaveis habitações, onde se abrigam mais de dusentos pobres que se atrophiariam ao desamparo se lhes não acudisse como accudiu a beneficencia publica, tão bem aproveitada e secundada pelo esforço d'uma iniciativa particular para a qual serão poucos toda a gratidão e todo o elogio. (1)

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino.
Hemeroteca Digital

O Occidente publica no seu numero de hoje, uma gravura das ruinas do incendio de Caparica, uma outra gravura das novas edificações e um retrato de Jayme Arthur da Costa Pinto, nome ligado de ha muito a todos os bellos melhoramentos que se teem feito nestes ultimos annos, do outro lado do Tejo. E pedem-me um artigo para acompahhar essas tres gravuras, artigo meio bigraphico meio historico, que descreva o perfil simpathico desse bello rapaz e conte o apparecimento d'esses quarterióes de casas, que se erguem, todas garridas, junto àI praia, ouvindo o bater compassado das ondas nas suas pedras.

Eu não sei se conhecem Caparica e não lhes levo a mal. que a não conheçam. Eu tambem a não conhecia, aqui ha dois mezes. Uma manhã appareceu-me Jayme Pinto, convidando-me a ir ate lá. Distribuiam-se as ultimas casas aos pescadores que ainda estavam sem moradia, depois do incendio que lhes devestára as toscas cabanas, onde viviam centenas de familias.

As novas habitações da Costa de Caparica, dezembro de 1886, desenho de Bordallo Pinheiro.
Hemeroteca Digital

Quem vier ainda hoje á praia, e olhar em torno d'ella para uns poucos de casebres antigos, que ainda lá existem, cobertos de fetos, e depois reparar nas novas editficações, perfeitamente modernas, muito simples e multo aceiadas, que formam duas ruas da praia, perceberá facilmente qual o contentamento d'aquella pobre gente, que vendo um dia destruidas pelas chammas as suas míseras habitações, julgando por momentos inteiramente perdidos os seus parcos haveres, se encontra poucos meses depois — graças á caridosa iniciaiva de Jayme Pinto secundada brilhntemente por um grupo de cavalheiros presididos por El Rei, — inquilinos de umas casinhas cuja architectura e cuja divisão iam muito além da sua espectativa, com quartos separados, elles que dormiam n'uma miscellanea pouco perfumada, e uma cosinha aspeciai, coitados, que antigamente faziam o jantar junto á enxerga onde dormiam!

— Até temos sala, dizia nos uma pobre velhinha, toda ufana, satisfeita do seu pequenino lar. E mostrava-me urna das divisões, com duas cadeiras e uma roca.. Ern alli que ella fiava o linho, n'essas escuras noutes de inverno, á luz fraca da lendaria candeia, quando cá fora o vento sopra rijo e os pobres pescadores descantam tristes da sua faina diurna, á espera de melhor tempo. E que vida tão curiosa, a dessa pobre gente, alheia completamente ao resto do mundo, gente que vive annos e annos, frente a frente com o sol que doura as conchas das praias e as ondas que as lambem, ignorante mas feliz, que não conhece, é verdade as maravilhas da sciencia e o encanto das artes, mas .que em compensação nunca leu um artigo politico, nem uma noticia de Hig life.

As novas habitações da Costa de Caparica, dezembro de 1886, desenho de Bordallo Pinheiro.
Hemeroteca Digital

Ha apenas um nome de que hoje se não esquecem, uma obra que lhes deve lembrar a todo o instante, se a ingratidão não tiver já minado aguelIas consciencias sãs e boas, — o nome de Jayme Pinto e o grande serviço que elle lhes prestou.

A transformação operada no aspecto de Caparica foi completa. O incendio nada respeitara, queimara uma a uma os pobres casebres, arrasara quasi inteiramente todo o bairro.

Costa Pinto era então deputado por Almada, e como deputado que era — e ninguém melhor do que elle o sabia ser para os seus constituintes — tratou logo de arranjar soccorros para tanta miseria. Ajudado então por varios cavalheiros, cujos sentimentos caritativos todos conhecem, titulares, artistas, engenheiros, burocratas e jornalistas, entre os quaes nos lembramos do marquez de Fronteira, engenheiro Magalhães, Brito Aranha, Eduardo Coelho, Antonio Castanheira, dr. Cunha Seixas, formou. se a commissão. El-Rei accedeu a presidil-a, e foi essa commissão tendo á sua frente o monarcha, que promoveu subscripções, que angariou esmolas, que pediu donativos, e que por fim mandou edificar n'aquelle areial immenso de Caparica meia duzia de quarteirões de casas onde vivem mais de cem familias.

As novas habitações da Costa de Caparica, dezembro de 1886, desenho de Bordallo Pinheiro.
Hemeroteca Digital

Mas a caridade entre nós, apezar de toda a sua boa vontade é fraca. tem poucos recursos, e a obra que se propunha fazer, era das que reclamavam maior receita. Pedro Correia então, por intermedio do seu escellente Jornal o Correio da Europa que todos os quinze dias leva aos nossos compatriotas do Brazil, a resenha dos acontecimentos mais importantes de Portugal, foi accordar lá no Imperio o coração delles implorandolhes uma esmola para os infelizes pescadores, seus irmãos, cahidos de repente por um fatal desastre, na mais horrorosa das misenas, e sempre generosos ouviram-o e mandaram então para a patria o fructo das suas subscrições.

E foi esse dinheiro junto ao que dentro do pais se apurou, que serviu para custear n despesa dessas edificações, que a commissão destribuiu ha mexes pelas familias mais necessitadas de Capariea.

E não deixa de ser curiosa a maneira como se fez essa distribuição. Pensarão muitos, sobretudo os espiritos incredulos do bem e da generosidade, que a ideia de Costa Pinto teve maior alcance do que a simples caridade.

"Um deputado, com os demonios! dirão os scepticos, não é sujeito que dê ponto sem nó. As estradas são serviços imponentes ás localidades, mas quem ha ahi que julgue que se dá assim do pé para a mão uma estrada, quanto mais um bairro inteiro!"

Costa da Caparica, vista aérea, 1930/1932.
Arquivo Municipal de Lisboa

Pois dão-se, ou pelo menos deu-as Jayme Pinto, sem ter sequer em mira a facilidade de arranjar mais meia duzia de votos para as suas candidaturas do porvir; deu-as, porque essas dadivas alegravam-o, satisfaziam-lhe o desejo do seu animo, bom, caritativo, serviçal, que fez com que elle passasse quasi á posteridade juntamente com a Outra Banda, na sua faina ingloria mas generosa de arranjar para o circulo que representava em cortes todos os melhoramentos, até os mais difficeis, de que elle carecia.

A forma como as casas foram distribuidas ahi esta para o provar. Essa distribuição não a fez elle, não a fez tão pouco qualquer dos seus collegas da commissão, fizeram-a os arraes de Caparica, os mestres, os chefes dos pescadores, que conheciam de perto aquella gente e que formaram de combinação a lista com os nomes dos mais pobres.

E, ponto importante ainda para os scepticos, esses pobres... não são eleitores.

Jayme Pinto chegou a ter, como ligeiramente notamos acima, a monomania dos melhoramentos para Almada. Ninguem melhor do que elle defendeu até hoje no parlamento portuguez os exigencias dos seus constituintes, e, francamente, quando um homem pugna de tal lorma pela terra que o elegeu como seu representante em cortes, imaginasse e muito bem que essa terra lhe dará, como justa recompensa a tão enormes serviços, a sua representação em côrtes... pelo menos emquanto houver estradas a fazer.

Costa da Caparica, ed. José Nunes da Silva s/n, década de 1940.
Bairro dos ílhavos ou do Costa Pinto vista tomada do Hotel Praia do Sol.
Delcampe

Puro engano! Parece que não conhecem essa caprichosa senhora que dá pelo nome de popularidade, e que Augusto Harbier descreveu já n'um assaz conhecido verso! Mas que importa! Melhor do que as listas que poderiam cahir na urna eleitoral, ahi tem Jayme Pinto as bençãos d'esses pobres soccorridos, a recompensal-o da sua obra meritoria e digna.

E nós vimos bem quanto esses infelizes lhe querem, na alegria com que o abraçavam commovidos, nessa rude mas sincera gratidão de campo-mos, que afinal são os unicos que sabem realmente ser gratos.

João Costa. (2)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Sentinellas perdidas

Foram crescendo a par;
São irmãos, e do píncaro do monte,
Dominam, todo em circulo, o horisonte
Da Costa brava, e do sanhudo mar!


Sentinelas ou Guardas avançadas, Caparica, Falcão Trigoso, 1935.

Nas grandes invernias,
Sentinellas perdidas, dam signal —
Sempre alerta, n'aquellas serranias —
Ao remoto casal.
Nos silvos das frondeadas ramarias.
Que se approxima o furacão austral!


Junho, 96.


(1) Bulhão Pato, Livro do Monte, 1896

sexta-feira, 24 de julho de 2020

We missed Caparica

Em 1947, no pós-Segunda Guerra Mundial, quando se começou a assistir a um enorme desenvolvimento da prática turística, a editora londrina Phoenix House lançou uma colecção ilustrada com o título “The Young Traveller Series” [...]

Costa da Caparica, Um trecho da praia, ed.Passaporte, 44.
Delcampe

Bem recebidos por pais e professores, passaram a integrar as listas das leituras aprovadas e recomendadas por muitas instituições, nomeadamente a Library Association, a School Library Association e a National Book League. 

O objectivo era descrever a vida de vários países, expondo os jovens leitores à diversidade do mundo e à diferença linguística e cultural [...]

Costa da Caparica, Vista parcial da Praia do Sol, ed. Passaporte, 43.
Delcampe

É possível que descrições longas pudessem ser consideradas cansativas para o público-alvo, pois a narradora diz, a certa altura, que os próprios filhos, às tantas, já estavam “sick of looking at things”.

Um exemplo flagrante de concisão diz respeito a Sintra, lugar venerado por forasteiros de origem britânica desde há muito e transformado em local de peregrinação romântica, o qual era normalmente objecto de arrebatadas descrições por parte dos viajantes estrangeiros. 

Costa da Caparica, Vista parcial da Praia, ed. Passaporte, 15.
Delcampe

Neste caso são-lhe apenas dedicadas breves linhas, sem as habituais citações de Childe Harold’s Pilgrimage, de Lord Byron [v. artigo relacionado: Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron] – nas palavras de Karen R. Lawrence, um exemplo eloquente do modo como “fictional travel impinges on actual travel” –, por a descrição ser feita pelo jovem William, a quem escapa a magia do lugar e que afirma prosaicamente não terem subido até ao Palácio da Pena por... estar muito calor.

A Costa da Caparica, outro local considerado imperdível, foi também propositadamente evitado, por ser demasiado frequentado: “All the guide books we had ever read told us that no visitor to Portugal should miss Caparica (...)

Costa da Caparica, Vista parcial da Praia, ed. Passaporte, 19.
Delcampe

As G.H. said, it was all enough to make us avoid the place like the plague. (...) We told one another that not seeing Caparica lent a certain distinction to our travels.”

E houve até quem sugerisse à autora, à custa disso, um título para o livro que estava a preparar: “We Missed Caparica”.

Costa da Caparica, Um aspecto da Praia, Passaporte, 21.
Delcampe - Bosspostcard

Sublinhe-se esta vontade deliberada em percorrer um itinerário alternativo aos consagrados pelos guias turísticos que o próprio título da obra, The Young Traveller in Portugal (e também o da colecção em que está integrada, “The Young Traveller Series”), espelha, quando se opta pelo termo traveller e não tourist (o qual ia ganhando conotações negativas). (1)


(1) Maria Zulmira Castanheira,The Young Traveller in Portugal... Revista de estudos anglo-portugueses 26, 2017

terça-feira, 14 de julho de 2020

Ercília Costa, Antigamente

O Fado tem em Ercília Gosta uma das suas mais legitimas e fieis intérpretes. "Sereia peregrina do Fado", no dizer de alguns críticos, "Santa do Fado", no dizer de outros, Ercília Gosta é indubitavelmente uma grande cantadeira. 

Ercilia Costa (1902-1985).
Museu do Fado

Filha de gente do mar, teve por berço essa linda praia da Costa de Caparica, e foi de certo ali, embalada pelo murmúrio do Oceano, que a sua linda voz, que nos recorda a da saudosa Maria Vitória, aprendeu a cantar o Fado.

Ercília canta admiravelmente todos os fados, repassando-os dum profundo sentimento, escolhendo para cantar os versos mais simples da poesia popular — dessa poesia que ela sabe sentir e reflecte como um espelho a alma do povo.

Começando desde muito nova a cantar o Fado, não tardou a impôr-se pela sua voz de fadista primorosa. Portugal inteiro a conhece e admira, e ainda recentemente, no Brasil, Ercília teve ensejo de ver quanto é querida e apreciada não só pelos seus patrícios como pelo povo brasileiro.


Tem cantado em quasi todos os teatros do pais, em algumas casas fidalgas e, que nos lembre, gravou os seguintes discos: "Fado dois tons", "O meu filho", "Rosas", "Fado sem pernas", "Fado Ercília", "Fado Aida", "Fado Tango", "Saudades", "Fado Lisboa", "Divina Graça", "A minha vida", "Desilusão", "Um desgosto", "Amor de Mãi", "Fado Corrido", "Negros Traços", "A desgarrada", com o dr. Antonio Menano e Joaquim Campos, e "Fado da Mouraria", também com Joaquim Campos.

Quando há anos se realizou em Lisboa um desafio de football Portugal Espanha, reuniram-se numa ceia de confraternização, no restaurante Boina, diversos jornalistas desportivos, portugueses e estrangeiros, tendo sido Ercília Costa e o seu colega Filipe Pinto convidados a assistir a essa festa.


Ambos cantaram de tal modo, engrinaldando de sentimento os seus versos, que alguns dèsses estrangeiros que não conheciam o Fado, se declararam maravilhados, aplaudindo delirantemente a gentil portuguezinha e o seu colega. 

Decorrido bastante tempo, Ercília Costa ainda era assediada por alguns dêsses jornalistas estrangeiros, que lhe escreviam recordando essa noite memorável e pedindo lhe autógrafos e discos das suas criações.


Em sua homenagem, depois do seu recente regresso das Terras de Santa Cruz, foram-lhe oferecidas duas festas: no salão de Chá, do Café Chave de Ouro e no Retiro da Severa, em que Ercília Costa, pela selecta assistência que a elas acudiu, mais uma vez teve ensejo de ver quanto o público a estima.

Do seu reportório que Ercília escolhe escrupulosamente as seguintes quadras do poeta popular João da Mata:

ANTIGAMENTE

Antigamente era uso 
Jantar-se fora de portas,
E cantar-se o fado luso
Na sombra amena das hortas.

Preparavam se os farnéis, 
Combinado de antemão: 
Uns tratavam dos pasteis, 
Outros do vinho e do pão... 

Uma carroça enfeitada 
De palmeiras verdejantes, 
Levava a rapaziada 
Para o sitio dos descantes. 

Animação, algazarra, 
No banquete improvisado...
Até que a voz da guitarra
Vinha anunciar o Fado!

Toda a gente se calava,
E a garganta fresca e bela
Dum cantador modulava
Uma cantiga singela. (1)


(1) A Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, Tip. Gonçalves, 1937

Artigos relacionados:
Ercília Costa (1902-1985)
Rosa Costa, A minha paixão
Caparicanas

Outras referências:
Ercília Costa no Museu do Fado
Livro "Ercília Costa - Sereia Peregrina do Fado" no facebook
Ercília Costa no YouTube
Ercília Costa em Discogs

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Sarah Affonso, postais da Costa a Manuel Mendes (1930-1931)

Ainda na década de 1930, a Costa era um fervedouro de conversas e encontros entre os escritores Manuel Mendes e José Rodrigues Miguéis (amigos desde a juventude e companheiros da Seara Nova), e respectivas mulheres, Berta e Pola, os desenhadores e retratistas Sarah Affonso, José Tagarro e Alice Rey Colaço, o maestro e compositor Fernando Lopes-Graça, e o escultor Barata Feyo. 

Autorretrato (1927) e retrato de Manuel Mendes (1930), Sarah Affonso.
MNAC

As temporadas que Rodrigues Miguéis passou na vivenda Engrácia (Quinta de Santo António), alugada por Manuel Mendes, inspiraram algumas passagens da sua obra, como esta de O Milagre Segundo Salomé, em que a "criadinha pacóvia e sem lábia", Dores dos Santos, vai com o senhor Tesouras à Costa da Caparica: "Ela nunca tinha ido a uma praia de verdade, co 'mar' para ela era o Tejo, aquilo que se avistava de Algés e Dafundo..." (1)

3 de agosto de 1930

Receia que o assunto, que lhe interessa, não esteja resolvido. Regressa a Lisboa...

Costa da Caparica, Partida para a pesca, ed. Acção Bíblica (Aliança Bíblica), c. 1930.
Casa Comum

14 de agosto de 1931

Envia cumprimentos, esperando a sua visita...

Costa da Caparica, A Praia do Sol, A faina, ed. Acção Bíblica Casa da Bíblia, c. 1930.
Casa Comum

12 de outubro de 1931

Informa-o sobre a partida para Lisboa...

A Praia do Sol, Costa Caparica, ed. Acção Bíblica Casa da Bíblia, c. 1930.
Casa Comum


(1) Costa da Caparica: de Pina Manique a Mário Domingues, revista Sabado 22 de agosto de 2019

Mais informação:
Museu Nacional de Arte Contemporânea
Museu Calouste Gulbenkien, Sarah Affonso
Almanaque Silva, Mariazinha africanista
Casa Comum, Sarah Affonso

sábado, 20 de junho de 2020

Os noivos (último canto de Bulhão Pato)

«Se passares pelo adro,
No dia do meu enterro,
Pede á terra que não gaste
As tranças do meu cabello.»
Canção Popular.

I

A aldea é de pescadores.
Por essas costas do mar,
Quando as tormentas começam,
Aquillo é que é labutar!

Desenho da Costa antiga, autor António Lopes Martins, Col. Particular.
Rui Manuel Mesquita Mendes (fb)


Ás vezes um mez a fio,
O vento sem acalmar,
E os vagalhões dia e noite
Nas rochas a rebentar!

Algum remedio, e bem pouco,
Que tanto custa a juntar,
Pois basta um mez de invernia,
Nem tanto, para o levar!

Que vida a da pobre gente,
Quando começa a lutar
O vento bravó co'as ondas,
Por essas costas do mar!

II

Ha quatro casas e a ermida
De pedra e cal, o demais
Choças de colmo que ás vezes
Destroem os vendavaes.

Mas quando chega o bom tempo,
E a pesca não escaceia,
Respira toda alegria,
Apesar de pobre, a aldea.

Daniel é moço e forte; 
Ninguém com elle compete, 
Já no saber, já no arrojo 
Com que a todo o mar se mette!

Vê-se uma negra de peixe —
Ás vezes mal se tem visto: 
Lá vae co'a sua companha 
Por esses mares de Christo. 

Tem fé co'a Virgem do Amparo, 
E alguém diz qne a devoção 
É por ser Amparo o nome 
De certa rosa em botão. 

D'entre as demais raparigas 
Só ella não é trigueira, 
Também não se expõe ao tempo, 
Trabalha como rendeira. 

Lidar de noite e de dia, 
Com tanto affinco, é bem raro!
Esteio da mãe velhinha, 
Bem posto o nome de Amparo!

Daniel, n'aquella aldeia 
Onde o viver é tão parco,
Já tem um barco, e tem redes, 
Quo valem mais do que o barco.

III

A mutua affeição dos dois,
Que era na infância amisade,
Tomou-se em amor, depois
Que entraram em certa idade.

Elle quiz-se declarar,
E com voz entrecortada,
A custo poude fallar:
Ella é que não disse nada!

Sentindo agitado o seio,
Não raro diz a innocencia,
Com a mudez do receio,
Bem mais que a voz da eloquência!

Que importa o que os lábios calam,
Quando as palavras se prendem?
Também as flores não fallam,
E pelo aroma se entendem!

É que esse aroma, imagino
Que será, talvez, na flor
O mesmo effluvio divino
A que chamamos amor !

IV 

Amparo tínha no rosto
Uma expressão de ternura,
Que lhe dava mais encantos
Do que a própria formosura!

Os olhos azues purissimos,
E de transparência tal,
Que deixavam ler no fundo
Da sua alma virginal!

O cabello loiro-escuro,
Tão basto, tão annelado,
Que era um primor, posto em tranças,
É mn enlevo, desatado!

No tempo em que era creança,
E de génio folgasão,
Com as outras raparigas,
Pelas tardes de verão;

Andava a brincar na praia,
E a espreitar de quando em quando:
Os hombros nús, mais que os hombros...
Emfim, co'as ondas folgando.

N'isto vinham os rapazes
Mas o cabello era tanto.
Que sacudia a cabeça,
E servia-lhe de manto!

Ao amado da sua alma
Deu ella um dia, em secreto.
Um annel d'esses cabellos.
Penhor de sagrado affecto!

E elle, cheio de alvoroço,
Sem hesitar um momento,
Para pagar-lhe a fineza,
Foi pedil-a em casamento.

Fundíam-se aquellas almas
Em celestiaes alegrias:
Ha dias do ceu na terra!
Eu creio que ha d'esses dias!

V

Uma tarde, era nas vésperas
De se fazerem as bodas,
Os pescadores na costa
Largavam as redes todas.

O ceu estava sereno;
Era propicia a estação:
Logo em entradas de outono,
Dias como de verão.

Porém o vento levanta-se!
E quando menos se espera.
Seja verão, seja outono,
Seja inverno ou primavera.

Daniel, deixando os outros,
Com a companha a seu cargo,
Fez-se ao mar, largando as artes
A duas léguas de largo.

O peixe dava em cardumes;
Lidando não attentaram
No aspecto de certas nuvens
Que no ceu se agglomeraram. 

Dentro de pouco os relâmpagos
Nos ares a fuzilar,
E o vento a picar as ondas,
E as ondas a rebentar!

Podiam correr á popa,
Mas não sem todo o cuidado,
Que á popa, em caindo tempo,
É navegar arriscado.

A vela posta nos rizes
— O vendaval carregava —
Como um falcão corta os ares,
O barco as. ondas cortava!

Amparo, sobre um penhasco.
De mãos. postas a resar:
A morte no arfar do seio,
Ancias de morte no olhar

Elles já perto da costa,
E o povo junto a dizer:
«Se o barco vem aos cachopos
Só Deus lhes pode valer!»

Tentaram fazer-se ao largo,
Luctando co'a morte a braços;
Mas deram sobre os rochedos,
E o barco fez-se em pedaços!

Salvou-se toda a companha.
Daniel inda se ouviu 
Bradar: — «Ó Virgem do Amparo!»
E nisto não mais se viu...

A noiva soltara um grito;
Mas quem lhe fôra acudir,
Vira-lhe o rosto sereno,
E até a bocca a sorrir!

Aquelle grito estalara-Ihe
As fibras do coração
E a infeliz, nesse momento,
Tinha perdido a razão!

VI 

Passados dias, Amparo
Puiha-se á beira do mar,
A olhar — como quem espera
Por alguém que hade voltar!

E os que passavam ouviam-lhe,
Sem que ella desse por tal,
Repetir estas palavras
D'uma tristeasa mortal:

«Devem cumprir-se os pedidos
D'aquelles que vão morrer;
Uma só coisa te peço,
— Mas que tu me has de fazer:

«Se passares pelo adro.
No dia do meu enterro,
Pede á terra que não gaste
As tranças do meu cabello.»

E depois, soltando as tranças
A larga brisa do mar,
Repetia inda estes versos,
E desatava a chorar!

Janeiro, 1871 (1)


(1) Bulhão Pato, Cantos e satyras, Lisboa, Rolland & Semiond, 1873

terça-feira, 16 de junho de 2020

Bulhão Pato pelo visconde de Benalcanfôr


N'um esboço tocado de traços fugitivos não cabe de certo a minucia demorada, mas indispensavel no retrato para a semelhança perfeita das feições e das physionomias. Por mais sobrio de divagações que seja o escriptor, torna-se-lhe muito difficil, senão impossivel, contrahir na tela acanhada de um capitulo as magestosas ondulações de uma corrente de poesia que ha vinte e quatro annos* despraia pelas margens da nossa litteratura depon do n'ellas o nateiro abundante e riquissimo de suas creações poeticas.

Bulhão Pato (1828-1912)
(insp. Andy Warhol, Ten Lizes, 1963)

* Data de 1850 a apparição das primeiras poesias de Bulhão Pato. Seguem-se-lhe em 1857: Amor virgem n'uma peccadora, comedia-drama em um acto, prosa e verso 1862 ; Versos , 1 vol .  1864 : Digressões e novellas , 1 vol . , e Graziella , versão de Lamartine 1866 : Paquita ( poema ) , 1867 ; Canções da tarde , 1 vol . - 1869 ; Flôres agrestes , 1 vol .  1871 ; Paisagens ( prosa ) , 1 vol , 1873 ; Cantos e satyras , 1 volume. Editores , Rolland e Semiond , 1873, Lisboa ; Renan e os sabios da academia ( satyra ) , O cemiterio de Pisa , e a Vendetta , versões de Emilio Castellar , e de Balzac.

De feito , a indole primordial e as evoluções subsequentes do talento de um escriptor ou de um poeta qualquer , teem mais do que affinidade remota com as nascenças de um rio. Como este , o talento tambem brota modesto de suas origens , e engrossa depois a sua corrente , já derivando se reno , já correndo agitado , ora apertando-se em voltas caprichosas , ora alargando seu alveo e rolando magestoso até se metter no oceano ordinariamente tempestuoso da fama litteraria . Porque é que , aos 19 annos , apaixonado e ter no como um trovador , com a bocca ainda humida do ultimo beijo , a mente escandecida por visões encantadas e por sonhos voluptuosos que — sómente a aurora desfaz arroxeando o horisonte , para voltarem na noite immediata , — canta os amores juvenis , com seus enleios e suas malicias tam bem ?

Porque scisma dôcemente Bulhão Pato vendo os lirios e as boninas em que pousa o orvalho das manhãs de abril ? Porque aspira com embriaguez o aroma dos campos ? Porque escuta os mil rumores mysteriosos do bosque ? Porque se fica esquecido a contemplar as nuvemsinhas do poente e as sombras melancolicas do crepusculo da tarde ? E porque é tambem , que passados vinte annos , vêmos o mesmo poeta , outr ' ora rescendente das essencias mais fragrantes do lyrismo , despedir-se , pelo menos momentaneamente , das canções amorosas , arrancar as cordas do seu alaúde romantico para pulsar a lyra fremente da indignação vingadora de Juvenal , de Augusto Barbier e de Victor Hugo ?

É facil conciliar esta contradicção apparente , pois não é senão uma phase natural de sua indole poetica , lembrando-nos de que Bulhão Pato é um poeta essencialmente espontaneo ; que a sua poesia é o reflexo fiel da sua alma . Suas canções risonhas como uma alvorada de maio quando as illuminava o sol da primeira mocidade , assumiram nas satyras já a gravidade das paisagens severas , já o aspecto tragico das cataratas que se despenham no inverno com medonho estrepito , ou o das noites de procella cuja escuridão é apenas alumiada pelo fulgor livido dos relampagos.

É que a doçura das illusões juvenis cortou-lh'a o travo das decepções ; é que aos idyllios descuidosos da manhã da vida seguiu-se , no poeta , o drama viril da existencia com o seu cortejo de lutas , e de paixões acerbas.

Foi este pendor natural por onde o poeta foi levado das regiões tranquillas da poesia individual e lyrica aos espaços tempestuosos da poesia social e da satyra politica , aonde as coleras , os resentimentos e até as proprias aspirações do poeta , ou antes do partidario , é inevitavel que tumultuem com o fragor e a espuma das ondas irritadas. Se a Nemesis politica pode ser , como é sempre nas satyras de Bulbão Pato , elevada , decorosa e elo quente , nem por isso está isenta , em outros poe tas contemporaneos , das allucinações do furor , e dos rebates rancorosos.

Poeta de verdade , fiel ás vozes interiores da consciencia que o chamam a combater por uma causa em que vê o triumpho da justiça , ou a fulminar os que se lhe afiguram vicios e hypocrisias sociaes com os seus terriveis alexandrinos , verda deiros raios despedidos pela mão de Juvenal , Bulhão Pato é tão espontaneo e sincero hoje na explosão das paixões , que o abrazam , como o era d'antes nas effusões do seu adoravel lyrismo.

A sua musa , agora como sempre , não se envolve em roupagens theatraes , nem carece de lentejoulas para nos seduzir com os seus encantos . É essencialmente singela , desaffectada , natural . O seu culto é o do bello , idealisado pela arte . Se algumas superstições alimentar , como todos os cultos , serão as da sinceridade dos sentimentos , da espontaneidade das impressões.

Será esta a ultima e definitiva phase do seu talento poetico , affirmado por tantos monumentos , em que a sua phantasia ao mesmo tempo vigorosa e delicada gravou as suas creações como os esculptores mais afamados gravaram com o cinzel as suas no marmore antigo mais puro ?

Não o acreditamos . A natureza com as suas vozes mysteriosas ; o coração humano com os seus enleios , esperanças e amarguras ; os mil dramas commoventes da existencia ; as subtilezas e os arcanos psychologicos da alma ; as tragedias moraes da paixão , em que gemem e succumbem , duramente suppliciados , os affectos mais intimos ; eis a tela larga e permanente em que hão-de voltar a embeber-se as côres da palheta opulenta e admiravel do nosso eminente poeta . Ainda bem , que as apostrophes e as coleras partidarias são apenas na vida social , e na littera ria tambem , um ephemero accidente.

Especie de relampagos que atravessam a atmosphera , sua claridade é momentanea , como momentaneo é tambem o ribombo do trovão que os acompanha.

Afastados os negrumes da procella , o céo recobra a antiga transparencia etherea , semelhante á superficie azul de um lago immenso que nenhuma aragem encrespa.

Quaes são as feições salientes do genio poetico de Bulhão Pato ? a imaginação , a sensibilidade , a perfeição inimitavel da fórma , e o gosto sem igual.

Em todo o poeta , que o é deveras , ha forçosamente a coexistencia da imaginação , que cria as ficções , as scenas , os personagens , com a sensibilidade que o domina , antes de nos commover , e com a melodia do rythmo cujas cadencia , sonoridade ou valentia formam a linguagem sublime da linguagem da poesia . A todo este conjuncto feliz de qualidades devem presidir as leis soberanas do gosto que lhe dão relevo , vigor , graça e harmonia.

Quando o poeta melodioso da "Harpa do crente" e da "Voz do propheta" [Alexandre Herculano] escreveu no prologo da Paquita que "Bulhão Pato é sobre tudo um homem de gosto e que o homem de gosto é sobre tudo singelo" , resumiu n 'um traço a physionomia inteira do author dos Cantos e satyras.

Alexandre Herculano (1810-1877).
Retrato por Francisca de Almeida Furtado, 1852.
 MNAA, Obras em reserva, O museu que não se vê.

Adivinha-se n'elle a sua predilecção pela singeleza de Garrett , desespero de tantos que inutilmente a teem procurado na poesia e na prosa . Nas "Digressões e novellas" , bem como nas "Paisagens" , digamos , ha contos e episodios narrados e descriptos com tal suavidade de linguagem e tal frescura de tintas , o colorido é ao mesmo tempo tão sobrio e acertado , a trama da prosa tão finamente tecida , o dizer tão caloroso e casto , que acabando de lêr aquellas paginas , nos sentimos consolados , não só com a certeza de não haver desapparecido com o visconde d'Almeida Garrett o estylo elegante , singelo e sobrio das Viagens na minha terra , mas até de o vêrmos luzir na simplicidade das suas roupagens , tão animado como d'antes , flexivel , eloquente.

Voltando á sua poesia , podemos dizer que Bulhão Pato canta suavemente , ternamente , quer o enlevem as scenas da natureza , quer o commovam as dôres profundas ou as miserias dilacerantes dos supremos infortunios . Nas cordas da sua lyra resốam-lhe espontaneos os canticos , como o vento na harpa eolia , desferindo por si mesma as notas e as estrophes . A melodia , a tristeza e o amor divagam pelas cordas do seu alaúde como o luar de uma noite de outono pelas campinas , avel ludando - as com sua doce e pallida claridade.

O seu ideal poetico nem é o naturalismo exagerado de Goethe  nem a ironia desesperada de Byron. 

Respira-se nos seus poemas o perfume do lyrismo de Garrett e de Lamartine , interrompido a espaços pela toada doudejante de Musset , mas illuminado e aquecido pelas chammas do sol da peninsula que lhe dourou o berço.

Almeida Garrett (1799-1854)
Retrato por Manuel Araujo Porto-Alegre, 1833.
Instituto Camões

Abundam na harpa do poeta as notas sentidas da elegia , e alguns dos seus poemetos , entre elles a "Rosa do monte" e "Os Noivos" , são deliciosos pelo interesse dramatico que os anima , pela paixão intensa que respiram e pela perfeição dos moldes poeticos.

Em ambas estas composições, admiraveis de fórma , o poeta elevou-se á mais alta sensibilidade, orvalhando-as de lagrimas e commovendo-nos. Que sobriedade de traços na pintura da aldea, nos Noivos, e que sympathia contagiosa pela vida aspera dos pobres pescadores !

A aldea é de pescadores .
Por essas costas do mar ,
Quando as tormentas começam ,
Aquillo é que é labutar !

Ás vezes um mez a fio ,
O vento sem acalmar ,
E os vagalhões dia e noite
Nas rochas a rebentar !

Algum remedio , e bem pouco ,
Que tanto custa a juntar ,
Pois basta um mez de invernia ,
Nem tanto , para o levar !

Que vida a da pobre gente ,
Quando começa a lutar
O vento bravó co ' as ondas ,
Por essas costas do mar !

Ha quatro casas e a ermida
De pedra e cal , o demais
Choças de colmo que ás vezes
Destroem os vendavaes.

Mas quando chega o bom tempo ,
E a pesca não escaceia ,
Respira toda alegria ,
Apesar de pobre , a aldea.

A pintura da noiva de Daniel, o arrojado pescador , é um modelo de poesia, e de naturalidade, em que se reproduzem as altas faculdades do poeta, a imaginação viva, a singeleza graciosa, a ternura tocante e o atticismo da fórma :

Amparo tinha no rosto
Uma expressão de ternura ,
Que lhe daya mais encantos
Do que a propria formosura !

Os olhos azues purissimos , 
E de transparencia tal , 
Que deixavam lêr no fundo 
Da sua alma virginal ! 

O cabello louro - escuro , 
Tão basto , tảo annelado , 
Que era um primor , posto em tranças , 
E um enlevo , desatado !

No tempo em que era criança 
E de genio folgazão , 
Com as outras raparigas , 
Pelas tardes de verão , 

Andava a brincar na praia , 
E a espreitar de quando em quando 
Os hombros nús , mais que os hombros . . . 
Em fim co ' as ondas folgando.

N ' isto vinham os rapazes — 
Mas o cabello era tanto , 
Que sacudia a cabeça , 
E servia - lhe de manto !

E que vêa dramatica lateja na rapida scena do temporal que de repente se levanta !

O céo estava sereno ; 
Era propicia a estação : 
Logo em entradas de outono , 
Dias como de verão. 

Porém o vento levanta - se 
E quando menos se espera , 
Seja verão , seja outono , 
Seja inverno ou primavera.

Daniel , deixando os outros , 
Com a companha a seu cargo , 
Fez - se ao mar , largando as artes 
A duas leguas de largo. 

O peixe dava em cardumes ; 
Lidando não attentaram 
No aspecto de certas nuvens 
Que no céo se agglomeraram. 

Dentro de pouco os relampagos 
Nos ares a fuzilar , 
E o vento a picar as ondas , 
E as ondas a rebentar !

Podiam correr á pôpa 
Mas não sem todo o cuidado 
Que á pôpa , em cahindo tempo , 
E ' navegar arriscado. 

A véla posta nos rizes — 
O vendaval carregava — 
Como um falcão corta os ares , 
O barco as ondas cortava ! 

Amparo , sobre um penhasco , 
De mãos postas a rezar : 
A morte no arfar do seio , 
Ancias de morte no olhar.

Elles já perto da costa , 
E o povo junto a dizer : 
« Se o barco vem aos cachopos 
Só Deus lhes póde valer ! » 

Tentaram fazer - se ao largo , 
Lutando co ’ a morte a braços ; 
Mas deram sobre os rochedos , 
E o barco fez - se em pedaços !

Com que saudade nos apartamos dos vergeis amenos , das solidões melancolicas ou das campinas risonbas por onde divagam alternadamente os folgares e as tristezas do seu lyrismo , lagrima crystallina em que por instante brinca um raio de sol !

Com que pena dizemos adeus aos lagos transparentes em que o vêmos espanejar suas azas brancas de cysne , para seguirmos embora por poucos instantes o poeta ás regiões tempestuosas da satyra , onde os jambos de Archilocho fuzilam como raios por entre as nuvens negras de procella e os alexandrinos esplendidos do nosso poeta ullulam , encapellando - se , como vagas enfurecidas , e possessas do demonio da tormenta !

Ouçam esse brado , em que renascem as mofas e o desprezo de Juvenal :

Lá vai correndo as ruas da cidade , 
A quatro , um titular da grande sociedade . 
Que apparatoso trem , que fardas d ’ espavento ! 
Pasma o futil vulgacho em face do portento ! 
Quem é ? sabem quem é : conhece - o todo o mundo : 
Um nobre , um par do reino , um sapo nauseabundo , 
Que á plena luz do sol , viscoso e repellente , 
Ou na praça ou na rua enoja a toda a gente ! 

Este illustre varão , poço de iniquidades , 
Tem — faculta - lhe a lei — varias immunidades : 
Póde até legislar ! ó povo desgraçado , 
Decide - te da sorte o voto d ’ um forçado , 
Que , se houvesse moral , já não seria estranho 
Vêl - o com a braga ao pé a trabalhar no banho !

A satyra que tem por titulo "Dalila" reune , a meu vêr , quantos predicados se exigem da satyra , para que ella nem na grandeza , nem na magestade , nem na eloquencia , nem na indignação , nem na ironia , desça das alturas em que deve pairar , sob pena de deixar de ser à musa terrivel do sarcasmo e transformar - se na collareja desbragada e plebêa dos mercados.

Este é o perigo supremo , a catastrophe séria que ameaça a maior parte das imprecações poeticas da actualidade . A satyra ha - de ser mais do que um aggregado de epithetos deprimentes e de injurias villăs , embora ligados n ' um feixe poetico pelo laço prestigioso de um rythmo sonoro e opulento.

É preciso sobre tudo que a satyra não perca nunca a elevação da idéa , a finura subtil da analyse , o cambiante feliz e inesperado nos traços incisivos e rapidos das suas ironias e que a colera , que a domina , não a afunde no charco das obscenidades grosseiras nem a rebaixe ás indecencias avinhadas de uma bacchante meio despida.

Eis um trecho da satyra a que nos referimos :

Que singular mulher ! 
que estranha formosura ! 
Tem tudo — o andar , o gesto , a graça da figura ! 
No purissimo azul dos olhos crystallinos 
A luz que nos transporta aos extasis divinos . 
Casando - lhe a altivez co ’ a timida innocencia , 
Deu - lhe ao rosto o ideal a mão da Providencia. 
O devoto dirá , vendo - a rezar no templo : 
« Não pode ser do mundo aquella que eu contemplo ; 
Se és anjo implora a Deus o bem da humanidade ! » 
Tal assombro produz a magica beldade !

Pois bem , esta mulher — mulher unicamente — 
Enreda , calumnia , infama a toda a gente.
No livro de orações á margem tem marcado 
O dia da entrevista , o ponto combinado. 
Uma vez escondeu , por ser o caso instante , 
No berço d ' uma filha as cartas d ’ um amante. 
Profanando , sem alma , o coração do lar , 
Profana tudo mais : a prol ' , o templo , o altar ; 
Mas como entra no mundo apparatosa e rica , 
Co ' as virtudes da santa o mundo se edifica !

Esta magnifica satyra , recheada , como vêem , de contrastes felizes , de antitheses de hypocrisia e de devassidão , de perfidia e de cynismo , prosegue sempre variada nos tons , acertada nos cambiantes e nas gradações . Na ultima parte d'ella , o poeta figura uma infeliz trahida nos seus amores pelo homem de quem teve uma filha . A sociedade mostra - se indifferente a tão grande infortunio.

Perante este egoismo revoltante do corpo social o poeta exclama :

O mundo que applaudiu as galas deslumbrantes 
Da perfida ao marido e perfida aos amantes 
Co ' a implacavel moral que inflamma a gente séria 
Desampara a infeliz prostrada na miseria.

Bemdito seja Deus ! — os que mais fazem d ' isto 
Andam sempre a invocar teu santo nome , ó Christo. 

A moralidade que respira esta composição , o caracter impessoal com que fecham estes versos esplendidos , irreprehensiveis , aonde , além do ar tista que inventa , ha o lapidario paciente que pule os prismas do diamante , o Benvenuto Cellini que lavra com um buril privilegiado e unico os pri mores da phantasia , tornam admiravel a satyra de Dalila ; e provam a elevação artistica a que póde attingir , nas mãos de um poeta eminente e sabedor da arte , um genero aliás tão perigoso e cercado de precipicios.

As suas satyras , até hoje publicadas , respiram pela maior parte a punição das apostasias e a au dacia generosa das aspirações da liberdade , sem os doestos e as represalias sanguinolentas que ge ralmente , seja qual fôr o paiz e o talento do es criptor , salpicam a satyra , e por vezes a fazem rojar pelos tremedaes , desgrenhada , odienta , plebêa.

Quando nos lembra que Barbier , o notavel e fogoso poeta , que em plena monarchia de julho fez lampejar em todo o seu fulgor os raios da satyra antiga , descrevia a liberdade como uma mulher robusta ,

Qui ne prends ses amants que dans la populace 
Qui ne prête ses larges flancs 
Qu ' a des gens forts comme elle , et qui veut qu ' on l ' embrasse 
Avec des mains rouges de sang , 

e se extasiava com o fanatismo servil de um li berto de Claudio diante das escorias sociaes , ani . madas de odios profundos ás quaes elle chama

La grande populace et la sainte canaille 

é facil prever a quantas aberrações , a quantos desregramentos póde arrastar , quando manejada por mãos imprudentes ou inhabeis , esta arma litteraria em que , se por um lado , respiram as paixões nobres e viris , por outro fermentam , não raro , os sentimentos baixos , as vinganças biliosas , e a licença deshonesta das maximas torpezas.

Ainda bem que a satyra de Bulbảo Pato é sempre elevada . Que outros não a prostituam aos convicios das encruzilhadas e não a manchem com o lodo das infamias partidarias , é o nosso voto mais sincero.

Oxalá que não se vulgarize um genero litterario que , pela sua mesma natureza , não pode ser na arte senão uma manifestação excepcional , tendo - se em conta a exaltação febril e as paixões acerbas , necessarias para a sua gestação , e de que ella vive infelizmente como da sua vida natural e permanente.

Sente - se porém admiração espontanea , irresistivel , bemdiz - se até o jambo de Archilocho e o latego de Juvenal , quando n ' elles trôa a eloquencia vingadora de "Victor Hugo no Calvario" , e da "Velhice do Seculo" . É que então a arte reveste - se , deslumbrando - nos , de todos os esplendores das auroras boreaes.

Quando a musa sobe tão alto na indignação e na eloquencia , e dos seus pincaros de luz e de chammas , ao mesmo tempo magestosa e terrivel , dardeja raios ardentes , que alumiam e abrazam quanto tocam , a grandeza solemne da scena asso berba o espectador , e subjuga - lhe por tal forma as faculdades da analyse e da critica , que estas co mo que se paralysam , para só viverem as do en thusiasmo e as da admiração.

Ouçamos o poeta [cf. Victor Hugo no Calvario ( Cantos e Satyras ) , pag . 160]:

Já um dia em Paris a honrada burguezia 
Fraternizou tambem co ' a santa clerezia , 
Protegeu a matança , e depois d ' esso horror 
Assentou sobre o throno um certo imperador. 
Veio à paz , engordou - - embora amordaçada , 
— O clero a dominar a plebe fascinada ; 
Nos campos a nudez , nas côrtes a opulencia ; 
Os excessos do luxo a darem na demencia ; 
Censura ao pensador , licença ao imbecil , 
Ao zombeteiro estulto , ao escriptor mais vil . 
Que succedeu depois ? - o tronco derrancado 
O fructo que produz é fructo desgraçado.

O direito era a força , e julgando - a tamanha 
Claudio ousou provocar os brios da Allemanha . 
O clero abençoava o protector de Roma : 
Rugia o seu leão e sacudia a coma . 
De repente a panthera atira - se ao leão , 
Mas encontra na garra um Cesar charlatão.

Não podem apagar - se versos como estes . Fundidos em bronze , teem a solidez e hão - de ter a duração e o relevo das moedas e das estatuas d ' aquelle metal . A posteridade ha - de sentir para estas composições a mesma admiração que sente para as satyras de Persio e de Juvenal , de Barthelemy e de Augusto Barbier ; porque nas satyras de Bulhão Pato fundem - se com primor igual a grandeza e a elevação da invectiva na pureza inexcedivel , perfeitissima do rythmo , — nos mais sonoros e va lentes alexandrinos , em que pode esculpir - se a linguagem de um poeta portuguez.

Troveje elle muito embora na satyra e folgue , por momentos , de sé nos revelar por entre os fulgores do raio e o graniso de fogo dos coriscos dos seus alexandrinos ; mas , por Deus lh ' o pedimos , não se despeça das regiões do seu lyrismo encantador. 

Não diga para sempre adeus á musa travessa e de vaneadora da Paquita , — d ' esse poema que lhe con quistou os fóros de eminente poeta , — d ' esse poema , que é um monumento indestructivel como já é também o tormento dos seus detractores ; por que bem sabe elle que a corôa da gloria litteraria é desgraçadamente cravada , por dentro , dos espinhos da inveja , que , por baixo das folhas de lou ro estão de continuo ensanguentando a fronte dos infelizes que a cingem!

Em resumo : eloquente , magestoso , por vezés terrivel , vibrando o sarcasmo , manejando a iro nia , nunca descahindo nas vulgaridades grosseiras , nem se atolando nos paúes da injuria torpe ( escolho dos talentos pouco delicados que confundem o vo zear das feiras com as imprecações nobres ) , Bulbão Pato sabe dar ás suas satyras as mais altas condições de decoro , de pudor , e de grandeza , de que é susceptivel esta fórma de poesia.

As suas invectivas teem a magestade classica . Assumem proporções epicas , os sacrificios , as he catombes , em que supplicía as suas victimas . Inspiram - no porém , sem nunca o desamparar , senti mentos nobres , propositos generosos , amor arden te da justiça , da liberdade , do progresso humano e social.

É por isso que , percebendo as intenções puras do poeta , sem desconhecermos as exagerações a que aliás póde levar tal genero de poesia , o applaudimos por esta brilhantissima manifestação do seu talento , onde alcançou victoria não menos assignalada e decisiva do que nos canticos da poesia lyrica , nos carmes da elegia , e principalmente nas ficções graciosas da Paquita , em que com felicidade summa seguiu entre nós as pisadas do Ariosto e de Casti , affirmando sempre a sua individualidade.

D'essa Paquita , de quem o snr. Alexandre Heculano escreveu "que a amou desde o berço porque representa na litteratura actual uma res tauração , e nega um progresso: restauração santa e progresso mentido", esperamos com avidez que não se demore a contar-nos o seguimento das aventuras que correu com o seu Pepe.

Está a pular-nos na memoria a lembrança d'aquella ermida, em que ao repontar do sol nos outeiros, Angelita se encontra com Pepe, enleados de se verem aquella hora da manhã. E o pasmo de Pepe quando em sitiaes ouve que Angelita pretende casal-o ? E a ingleza que n'esse momento se aproxima dos dous ? E as questões acaloradas entre o marido de Herminia e o da consuleza ? E o desafio dos dous apaziguado pelo mofino do Pepe, cujos amores esvoaçam sobre as tres adoraveis creaturas que o cercam, como borboletas sobre flôres ? E aquella walsa do baile, cuja descripção tem a vi vacidade calorosa da do Amaury ? E a viagem da despeitada Herminia para Athenas ? a febre mortal de Pepe quando se vê abandonado por ella ? a solicitude de Angelita correndo de noite a visitar o joven andaluz moribundo ? e o encontro d'ella com a formosa Adelina, a ingleza dos olhos azues, junto do leito do enfermo ?

Quando nos ha-de elle desenvencilhar toda esta meada intrincadissima ?

Ricardo Augusto Pereira Guimarães (1830-1889), Visconde de Benalcanfôr.

Os lances enredam-se alli n'um tal labyrintho vertiginoso de aventuras, de malicias, d'enganos, de paixões, que só poderemos alcançar o fio de Ariadna na continuação do poema, de que o author (esperamol-o ) não abrirá mão, sem primeiro satisfazer a nossa curiosidade, rematando ao mesmo tempo o monumento da sua gloria de poeta, monumento que ha-de avultar para o futuro entre os mais bellos e originaes da nossa poosia contemporanea. (1)


(1) Ricardo Augusto Pereira Guimarães, Phantasias e escriptores contemporaneos, 1874

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