terça-feira, 28 de maio de 2019

"Deus te guie"

De novo o Deus te guie fez proa ao mar, e o calador foi folgando cabos e pondo coiros a flutuar de oito em oito cordas. O arrais pediu fósforos, chegou o lume ao morrão do caldeiro e fez sinal para terra. Deu o brado de "ninguém reme!" e apagou a chama. 

Costa da Caparica, Deus te guie.

Houve um silêncio no Deus te guie... E o espadilheiro bateu com a pá na água.

— Abriu! Abriu peixe! — chamaram os remos, batendo cada um, depois, com gana. 

Mas os arrais berrou: — Ninguém bate! Aqui, quem dá ordes!?


Desenho do saveiro Deus te guie da Costa da Caparica.
Museu de Marinha
Fez-se tamanho silêncio que só o marulho das águas tem rumor. A bica da vante está voltada ao sul. As mãos do calador atam a corda à rede. Vão descer as primeiras malhas... Todos se descobrem. 

Desenho do saveiro Deus te guie da Costa da Caparica.
Museu de Marinha


E o arrais diz: — Vai em louvor de Nossa Senhora do Cabo! (1)


(1) Romeu Correia, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950

Artigo relacionado:
Arte xávega por Romeu Correia

Leitura relacionada:
Ricardo Salomão, Meia-Lua: O Saveiro da Costa da Caparica, Revista MUSA 4, 2014

terça-feira, 7 de maio de 2019

Pescadores de Setubal

Na Costa de Caparica, onde vivem cerca de 4:000 pescadores, deu-se uma grave occorrencia na madrugada de 3 do corrente. 

(Instantaneos do sr. Alberto Lima)
Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Arquivo Municipal de Lisboa

Os da Costa, surpreendendo quatro galeões e um buque com pescadores de Setubal a pescarem dentro das aguas reservadas pela capitania aos pescadores da Costa, foram estes em dois galeões com 6o homens, ao seu encontro e aprisionaram os de Setubal, metendo-lhe dois galeoes e o buque no fundo, e cortaram-lhe as redes.

Os pescadores de Setubal foram conduzidos para a praia, onde desembarcaram e seguiram para a sua terra, sem que os da Costa os maltratassem. 

(Instantaneos do sr. Alberto Lima)
Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900.
Arquivo Municipal de Lisboa

Os prejuizos calculam-se nuns 15:000$000 de réis. Não é a primeira vez que se dão estes casos entre os pescadores de Setubal e os da Costa. 

Ha uns vinte annos deu-se conflito semelhante, e oxalá não se repitam, para que não surjam consequencias funestas. (1)


(1) O Occidente n.° 1066, 10 de agosto de 1908

terça-feira, 30 de abril de 2019

Costa da Caparica de José Cardoso Pires

José Cardoso Pires cruzou-se muitas vezes comigo e tive numerosas ocasiões para o conhecer pessoalmente. Comíamos muitas vezes no mesmo restaurante – O Polícia – e até passei um mês de Agosto no mesmo edifício na Caparica – o Meia Proa – eu aluguei um apartamento e Cardoso Pires, segundo julgo saber, era proprietário de outro [...] (1)

Costa da Caparica, avenida general Humberto Delgado, década de 1980.

Hoje, Cardoso Pires passa a maior parte do tempo na Caparica e quando está em Lisboa evita sair muito. Convive pouco. "Na Caparica estou a 18 quilómetros da minha casa, às vezes venho a bares a Lisboa a minha mulher nem sabe e volto para lá ... "A Caparica para mim é um sitio de isolamento e eu sou muito solitário, parecendo que não", afirma o escritor, prosseguindo nas suas revelações de intimidades: "Sou eu que, muitas vezes, faço as refeições" [...]

Retrato de José Cardoso Pires (1925-1988) no apartamento da Costa da Caparica, Eduardo Gageiro, 1984.
Eduardo Gageiro, Retratos com Histórias

Na sua casa, em Lisboa, ele está rodeado de obras de arte de valor apreciável, todas, faz notar, oferecidas "que eu não tenho dinheiro para estas coisas". Tem uma Vieira da Silva, um João Abel Manta, o Vespeira, o Júlio Pomar (um retrato a óleo seu e uma cerâmica, entre vários quadros, pois são íntimos amigos). Podem ler-se as assinaturas de Rogério Ribeiro, Costa Pinheiro, Pontimari, João Rodrigues e Manuel Amado.


Depois, há um retrato de mulher da autoria de Alice Jorge, um torso em mármore de Bruno Jorge, de quem é compadre, e uma sugestiva pintura de Eduardo Nery, que representa um esqueleto de um dinossauro dentro de uma sala, oferecido por um amigo, José Maria Caetano, a propósito do seu livro-fábula "Dinossauro Excelentíssimo" ...


É claro que na Caparica, onde escreve, o ambiente é semelhante, até porque é de fundamental importância para o despoletar da sua imagética. (2)


(1) A viagem dos argonautas
(2) Cardoso Pires só escreve na solidão da Caparica, A Capital, 23 Novembro 1987

Leitura relacionada:
Dossier digital José Cardoso Pires (1925-1998)

terça-feira, 26 de março de 2019

Rosa Costa, A minha paixão

Irmã da laureada cantadeira Ercilia Costa, como esta nasceu à beira do Oceano, embalada pelo doce murmúrio das ondas que a ensinou a cantar o Fado. 

Costa da Caparica. Um aspecto das festas à Senhora da Boa Viagem, 1929.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Rosa Costa apareceu como cantadeira profissional em 1927, numa festa de beneficência organizada por sua irmã Ercilia a favor dos náufragos da Costa de Caparica, no Teatro de S. Luiz, obtendo desde logo um retumbante êxito. 

Sabendo dizer e cantar, os versos saem-lhe dos lábios como preces impregnadas de sentimento. 

Depois dessa auspiciosa estreia, que a imprensa sublinhou com justas apreciações, Rosa Costa cantou em outras festas de caridade no Salão Artístico de Fados, Solar da Alegria, Arcádia, Coliseu, Capitólio, teatros do Gimnásio, Apolo e Trindade, nos cinemas Palatino, Portugal, Oriente e Salão de festas da Promotora.

Rosa Costa no Solar da Alegria, Diário de Lisboa, 1937.
Fadistando

Em digressão artística com sua irmã, Alberto Costa e Alfredo Duarte "Marceneiro" [Troupe Guitarra de Portugal], percorreu todo o Norte, Beiras, Estremadura e Alentejo, obtendo grandes triunfos. 

Troupe Guitarra de Portugal.
Em pé: João Fernandes, Rosa Costa e Santos Moreira. Sentados: Alfredo D. Marceneiro, Ercília Costa e Alberto Costa.
Fadoteca

Quando da sua passagem por Vila Nova da Baronia, foi convidada a ir a casa duma senhora entrevada que, não podendo ir ao teatro, assim lhe manifestou o seu grande empenho em ouvi-la cantar o Fado, pedido a que Rosa Costa gentilmente acedeu, cantando para essa ilustre dama as melhores leiras do seu repertório. 

Gravou em discos, na casa Castelo Lopes, os seguintes fados: "A fiandeira", "Fado Corrido" e "Fado menor", e têm-lhe sido oferecidos contratos para ir cantar à Ilha da Madeira, os quais não tem aceitado por não querer afastar se do seu lar. 

Desde que nasceu sua filha que se encontrava retirada, tendo reaparecido recentemente a cantar, com o mesmo sucesso de outrora, no Rádio Clube Português, nos Cafés Luso e Mondégo e em várias sessões de Fado promovidas por alguns colegas seus. 

Rosa Costa.
Ídolos do fado

Rosa Costa, que gentilmente nos distinguiu acedendo a esta entrevista — a primeira que concede, não obstante por mais duma vez ter sido assediada por colegas nossos — com a mesma gentileza nos autorizou a transcrever a letra que mais gosta de cantar e que é da autoria do poeta popular José dos Santos:

A minha paixão

(na música do "Fado da Paixão")

Eu vivo triste,
Triste sem ti, vilão,
Olhas p'ra mim e ris-te
Desta cruel paixão;
Não tens amor
Á nossa filha qu'rida
E só te ris, traidor,
Por me deixares perdida.

Mas eu só peço a Deus,
Já que sou tão triste mãi,
Que me leve lá p'ra os cens
Com minha filha também;
Eu juro a morte.
Morte sim, por salvação,
E a quem Deus criou tal sorte
Que Deus lhe pague a traição.

Essa mulher
Que hoje em teus braços ri,
Talvez p'lo vil prazer
De eu só chorar por li;
Que não se ria
Do meu tormento assim,
Que o seu amor, um dia,
Pôde sofrer mau fim.



Tive um viver bendito,
Tão feliz como ela ou mais.
Mas por ésse amor maldito
De mágoa matei meus pais.
Oh, altos ceus!
Se a morte é supremo bem,
Dou minha filhinha a Deus,
P'ra depois, morrer também. (1)


(1) A Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, Tip. Gonçalves, 1937

Artigos relacionados:
Ercília Costa (1902-1985)
Caparicanas

terça-feira, 12 de março de 2019

A Procissão

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia — que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1929.
Delcampe - Bosspostcard

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o sol-e-dó.
Quando o regente lhe acena co'o braço,
Logo o trombone faz pó-pó-pó-pó.


Olha os bombeiros, tão bem alinhados
Que se houver fogo, vai tudo num fole!
Trazem ao ombro, luzentes machados
E os capacetes a rebrilhar ao sol.

O padre Baltasar pregando à multidão na praia da Costa da Caparica, 1937.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.Delcampe - Bosspostcard

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes, nas opas vermelhas!
Ninguém supunha que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Costa da Caparica, procissão com a imagem do Menino Jesus do Sarrico ou da Praia, 1926.Delcampe - Bosspostcard

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Costa da Caparica, procissão, 1926.Delcampe - Bosspostcard

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.Delcampe - Bosspostcard

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que sobem ao Céu!

Costa da Caparica, procissão do Senhor dos Passos, década de 1940.
Sandra Barros Simões

Com o calor, o Prior vai aflito
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia  que Deus a proteja!
Já passou a procissão. (1)


(1) Antóno lopes Ribeiro, A Procissão ou Festa na Aldeia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Mouro na Costa

Relação dos cativos que por ordem De El Rey N. Senhor D. João V resgataram na cidade de Argel, os religiosos da Santissima Trindade, da Provincia de Portugal este anno de 1739, sendo Provincial, o Pregador Geral Fr. Mathias do Rozario ; Redemptores, o Doutor Er. Martinho de Santa Anna, e o Mestre Fr. Francisco Coutinho, Thesoureiro Joze Antonio Soares de Noronha, e Escrivão Joze Coutinho de Faria, Procurador Geral da Redempçao dos Cativos, Fr. Miguel da Nóbrega, Religioso da mesma Ordem, e Promottor , e Procurador Geral da fazenda dos mesmos Cativos, o Doutor Valentim da Costa Deslandes Cavalleiro professo da Ordem de Christo, por impedimento do Doutor Manoel de Tavora Correa.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião de Caparica em 1767.
Obecervaçoens trignometricas q. se fizerão no campo nos citios de Bonus Ayrés e caza brancana Tappada Rial de S. Magestade (detalhe).
Biblioteca Nacional de Portugal

Partirão os Padres Redemptores, e Officiaes do Resgate deste Rio de Lisboa em 17.da Outubro, Chegaraó a Cidade de Argel em 27. do mesmo mez. Partirão de Argel para esta a Cidade a 15. de Novembro; chegarão a este Porto a 27. de Dezembro, e trouxerão resgatados os Cativos seguintes [...]

Rerato de D João V (1689-1750), Giorgio Domenico Duprà.
 Batalha do Cabo Matapão, 19 de julho de 1717.
Diário de Notícias

117 Jozè de Sousa, Pescador, solteiro, filho de Luiz de Sousa, natural de Caparica, junto a Lisboa, de idade de 26. annos, c de cativeiro 5. mezes, custou 440. patacas, que fazem 330U000.

Rio Tejo e Torre de Belém (efeito de luar), Nicolas Delerive.
Fundação Ricardo Espírito Santo Siva

118 Jozè Gonçalves, Pescador casado com Marianna da Sylva, natural de Caparica, junto a Lisboa, de idade de 43. annos, e de cativeiro 5. mezes, custou 415. patacas, que fazem 358U750. (1)


(1) Relação dos cativos que por ordem De El Rey N. Senhor D. João V resgataram na cidade de Argel...

Mais informação:
Corsários argelinos na Lisboa do século XVIII

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Pera

A propriedade, ou como é dito na língua portuguesa a Quinta, está situada numa parte do país que, pela sua fertilidade, recebeu o nome de Capa Rica ou Rico Manto. Esta freguesia forma uma espécie de península ou língua de terra que se projeta para oeste, situada entre o rio Tejo, no seu lado norte, e o Atlântico, a sul, que aqui faz a baía tão familiar a todos os lisboetas e que se estende desde a foz do Tejo até ao Cabo Espichel.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1903.
Imagem: IGeoE

A Quinta situa-se cerca de uma milha a partir da extremidade ocidental desta língua de terra, e quase a uma distância igual a partir do Tejo e do Atlântico. O nome de Pera foi-lhe dado a ele a partir da abundância de peras anteriormente produzidas na sua vizinhança. A casa não era nem bonita, nem grande nem cômoda, mas cerca de vinte anos atrás, foi consideravelmente ampliada pela construção de uma outra divisão, que foi feita pelo falecido Presidente, o Right Rev. Monsenhor Baines [bispo eq.], e, atualmente, é suficientemente grande para acomodar, sob seu teto, todos os internos do Colégio. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

No piso térreo é composta por uma adega razoavelmente grande, notável pela sua frescura, usada para o armazenamento dos barris de vinho e os quartos destinados ao alojamento do caseiro ou fazendeiro e seus trabalhadores. No primeiro andar há uma boa cozinha, uma pequena capela, e seis quartos, um dos quais é grande e serve como um refeitório quando a comunidade aí está. No andar superior são quartos para os Superiores e o dormitório. Os espaços exteriores consistem numa destilaria nova e limpa, adega, lagar, e estábulo.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A simplicidade do edifício é amplamente compensada pelo cenário encantador que o rodeia. Indo de leste para oeste, situa-se a meio caminho da encosta norte de um belo vale, ou melhor, depressão com cerca de uma milha de diâmetro, com colinas opostas suavemente inclinadas, e de quase igual altura embora sem grande elevação, estendendo em direcção oeste, até ao Atlântico cujas margens sobrepõe. Todo o vale é vestido, desde a sua base ao seu bordo, com vinhas intercaladas aqui e ali com campos de milho.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Inúmeras casas brancas estão espalhadas nos lados suavemente inclinados, enquanto no cume das colinas podem ser vistos ao sudoeste uma igreja e um convento, agora, infelizmente, em ruínas e servindo como celeiro mas que até a supressão das ordens religiosas foi ocupado pelos frades da Ordem de S. Francisco.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

A sul, frente à Quinta, a cena é variada, aldeias, moinhos de vento, e pequenas plantações de pinheiros, enquanto a norte, atrás da Quinta encontram-se as duas vilas de Pera, cada um com seu moinho de vento. Pelo meio do vale passa uma estreita estrada pública ladeada de canas, que lhe dão a aparência de um riacho. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, vista sul, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Na extremidade ocidental onde o vale atravessa as colinas, e à distância de cerca de uma milha, uma parte do Atlântico é avistável, o rugido oco das ondas que batem na costa é incessantemente ouvido.

Vista de Caparica, tomada dos Capuchos, anterior aos trabalhos de construção do IC 20.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Vista de Caparica tomada dos Capuchos, após os desaterros no vale cego de Brielas para a construção do IC 20.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Imediatamente abaixo da Quinta fica a casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, que, meio escondida atrás de um tufo de altas árvores antigas, forma um objeto pitoresco, especialmente numa noite de verão, quando como nos tempos antigos o gado era deixado solto para se alimentar nos campos vizinhos. 

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O vale é refrescado durante os calores do verão pela brisa do mar que entra na abertura a oeste, e o local é tão salutar que os seus habitantes geralmente chegam a uma velhice extrema. As terras do Colégio, que consistem quase inteiramente de vinhas ficam em volta da casa, estendendo-se desde o cume da colina norte, sobre a qual fica, até à estrada a sul, que atravessa o meio do vale . De tempos a tempos, conforme as oportunidades, apareciam acrescentos de terra, que por compra, eram feitos à propriedade original.

Encantador como este lugar de beleza natural, o amor dos filhos de Lisboa para com a Quinta deve ser procurado em dias felizes nos quais eles possam olhar para trás durante a "quinzena em Pera", que anualmente em setembro, a Comunidade aí passa.

A liberdade absoluta e sem contenção, que a reclusão da freguesia em que a Quinta está situada, torna possível o relaxamento da rigorosa disciplina do Colégio, a deliciosa sensação do "dolce far niente", que sucede à grave tensão mental da preparação para exames; a suave atmosfera ainda pura, revigorante e enriquecida carregada pela brisa a partir da ampla extensão do Atlântico, conferem um charme especial para as duas ou três semanas que aí são anualmente gastas lá, e que são familiarmente conhecida como "tempo da Quinta ".

Jardins do Colégio em Lisboa, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A estas devem ser adicionadas a beleza da paisagem com "grupos de vinha nas colinas e suas frequentes divagações pelo vale [They had oft rambled forth along the vale...]", e os inúmeros pontos de interesse e de extrema beleza que se encontram ao alcance de um agradável passeio à noite .

Learn Your Homophones: Pear, Pair, and Pare
Imagem: grammarly

A simples menção do cume das alturas escarpadas que aqui formam a linha de costa, defrontando o vasto Atlântico, será suficiente para trazer de volta uma série de aprazíveis reminiscências a cada sucessiva geração de estudantes de Lisboa.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Para ver os resistentes pescadores puxar com as suas redes o tributo prateado exigido ás águas prolíficas, ou para passear ao longo da costa desolada e contemplar as ondas a arfar e a curvar soberbas, enquanto gradualmente se aproximam, como que impacientes de contenção, e, soando oco, se joguem furiosamente contra a praia, foram fontes de prazer que repetidas visitas nunca roubaram a sua frescura.

A Praia do Sol, Alando a rede, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 106, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Aqui os grandiosos aspetos da natureza desvelam-se à vista, e o poderoso oceano poderia ser estudado nos seus humores sempre variáveis. (1)


(1) Croft, William, 1836-1926; Gillow, Joseph, 1850-1921; Kirk, John, 1760-1851 Historical account of Lisbon College, 1902, St. Andrew's press, Barnet

Informação relacionada:
Pontifical English College of Sts Peter and Paul - Lisbon