domingo, 15 de julho de 2018

Uma tarde no Monte

Só, como o espargo no monte! A solidão aqui rara vez desmente o rifão.

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Internet Archive

De vez em onde, aos compassos do mar na costa e do vento nas ramadas seculares dos poucos ulmeiros que escaparam á fúria dendroclasta dos nossos homens do campo, reune-se o chalrar alegre da mocidade escolhida, mocidade de educação e talento, que visita estes logares para se desenfadar do bulicio dos arruamentos da cidade na paz alpestre e nos travos salubres de graciosas paizagens.

Vista de Caparica, tomada dos Capuchos, anterior aos trabalhos de construção do IC 20.
Delcampe, Bosspostcard

O anno passado um grupo de rapazes veiu jantar a casa do meu bom amigo e vizinho de há quinze annos, Manuel Luiz Fernandes, actual presidente da camara de Almada; rapazes distinctos nas sciencias, na arte e nas lettras.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, vista sul, c. 1900.
Internet Archive

O melhor d'essas horas seriam á mesa, posta no eirado que avança ao rez da casa, eirado com os seus alegretes floridos e arvorêtas viçosas, d'onde os olhos se desafogam correndo desde o Castello de Palmella até Nossa Senhora do Cabo.

Cezimbra — Cabo Espichel e Ponta do Cavallo, cf.. ed. Martins/Martins & Silva, 606, década de 1900.
Delcampe

Quadro enorme que abraça todo o cimo ondulado da serra da Arrábida; pomares, vinhedos, vastissimos tratos de pinheiral, que se perdem nos longes das planuras, que vão morrer nas faldas da montanha divisória do Sado e Tejo.

Costa da Caparica, Terras da Costa e Cabo Espichel, ed. Passaporte, 7, década de 1950.
Delcampe

O esmalte dos casaes, aldeotas, logarejos, moinhos de vento, campeando d'entre macissos de verdura; a ampla bahia do Alfeite, tudo, ou no referver do dia ou no descahir da tarde, com as frechas horizontaes do sol ponente, tem variedade, expressão e viveza como em poucas partes se encontram.

Historical military picturesque..., George Landmann, Estrada Palmela Moita.

Sentámo-nos á mesa do nosso hospede. Entre os convivas não faltava um orador de temperamento, orador no foro, e, quando venha o lance, tribuno ao ar livre, nos ímpetos mysteriosos do improviso, sublevando os ânimos, como o vento, aos desgarrões, levanta as ondas do mar. 

Filho de um jurisconsulto primaz, que na mocidade foi saudado poeta por Almeida Garrett, sobrinho de um dos maiores poetas que teve o século passado em Portugal, — cae-me o seu nome da penna, nome que anda na bôcca e na admiração de todos: Alexandre Braga.

A tarde era de verão, serena e calmosa, mas arejada por um mareiro do oceano, salgadio e fresco. As copas frias do espadeiro, da talia [ou douradinha], do boal, vinhos d'este torrão celebrados já por Gil Vicente e Camões [cf. o Pranto da Maria Parda de Gil Vicente; o Banquete dado na Índia de Luís de Camões; a Comedia Ulysippo de Jorge Ferreira de Vasconcelos...], accendiam até a alma de um velho que lá estava, quanto mais o coração dos rapazes!

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Internet Archive

Foi n'essa tarde que tive ensejo de apertar pela primeira vez a mão de Augusto Gil. Da sua mediana estatura, do seu concentramento physionomico, desmentido pelo faiscar dos olhos garços, olhos entre sentimentaes e irónicos; do sorriso timido com um pico mordaz, de toda a sua individualidade, emfim, — porque elle tem a rara fortuna de ser individual — me estava saltando o poeta sincero e o cancionista encantador. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
  Internet Archive

Poucos, bem poucos, tenho conhecido que façam menos conta da gloria que lhe podia dar o talento, talento real, que lhe vem aos borbotões do intimo, sem andar atraz d'elle remodelando metros na cadencia estridula e monótona do martello de um ferrador que bate canello n'uma incude. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Internet Archive

Não é nem romântico, nem parnasiano, nem symbolista, é elle — o Augusto Gil — nome que é um gracioso rithmo. 

Devera já ter volumes se durante annos, nas voltas do Mondego, pelos hortos onde gorgeiam os pássaros, e nas fontes onde cantam as cachopas, não deixasse dezenas de estancias, que amanhã serão margaridas multicores dos campos e conchas lapidadas pelos mares no cancioneiro nacional. Por quê refoge da luz da grande publicidade este poeta tão vivo, tão picante e tão de lei?! 

Precisamos recorrer aos seus companheiros de Coimbra para lhe apanharmos a flor das composições que elle esqueceu ha muito. Só outros — Deus me perdoe — são de uma abundância diabética! 

Como as gotas crystallinas de nascente pura, caem-lhe da bôcca os versos que não escreve, e que lá vão nos assomos da lua no crescente, n'um sopro da aragem, no fuzilar de uma estrella na tremulina das aguas, para onde nasceram, para o sorriso de uns lábios vermelhos ou para um suspiro do peito alvoroçado de uma rapariga. 

Parece que certas organisações teem o que quer que seja do somnambulo. Correm á beira dos precipicios sem os ver, jogam-se aos matagaes espinhosos e não os sentem; talvez nas regiões dos sonhos aspirem o aroma das rosas ideaes; mas, quando acordam para as misérias humanas, vêem com as carnes rasgadas e sangrentas dos pedregaes da jornada. 

Oiçam-lhe os versos, duas quadras apenas:

Teus olhos, contas escuras,
São duas ave-marias
D'um rosário de amarguras,
Que eu rezo todos os dias.

Amas a Nosso Senhor,
Que morreu por toda a gente,
E a mim não me tens amor
Que morro por ti somente!

Em Coimbra, a vizinha da casa fronteira, a dos olhos negros, que passava o dia costurando ao pé da janella, entre um mangericão copado e um craveiro florido, essa é que o ia desgraçando. 

O craveiro da janela, Augusto Gil, Aillaud e Bertrand, 1920.
Livraria Alfarrabista

Os nossos convivas partiram para Lisboa. A tarde esmorecia. O sol baqueava nas ondas, deixando o largo crepúsculo dos dias estivaes. A  lua, n'um período delicioso, surgia do nascente, rubra como a aurora. Depois, com a noite, alteou no céo branca e beijou a terra.

Rio Tejo e Torre de Belém (efeito de luar).

Que bem cahiria, n'esse momento, um estudante de Coimbra, viola ao peito, cantando n'uma voz afinada e masculina a quadra do seu camarada Augusto Gil:

Teus olhos, contas escuras, 
São duas ave-marias 
D'um rosário de amarguras, 
Que eu rezo todos oa dias.

Monte, 1904. (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Pescadores da Costa da Caparica (1967)

O "meia-lua" era transportado para a borda de água por todos os homens da "companha" que levavam aos ombros uns paus atravessados por cima do barco com esta finalidade.

Excerto do filme Almada - Varanda do Tejo (cor, 35 mm), Ricardo Malheiro, 1967.
Cinemateca Digital

Para ser lançado à rebentação, sem virar, eram necessárias três coisas: uma vara nas mãos do homem da proa ou "vareiro" que resistia ao impulso lateral da corrente que nele actuava; uma vara por baixo da popa, segura por alguns homens do grupo de terra, de um lado ou do outro do barco conforme necessário; e um cabo com um gancho passado a um anel a ré e puxado na direcção oposta.


O barco era então empurrado para a onda e iniciava a progressão com as remadas, guiado por um remo montado a estibordo a ré. 

Regresso de pescadores, Col. Passaporte (LOTY), 370 (61 p/b).
Delcampe

A tripulação consistia no homem da proa (proeiro), seis a oito remadores, um homem a vante para guiar a "arte de arrastar para terra" ou "xávega" assim que esta era lançada pela borda, e o homem do leme que era o patrão e norma1mente o dono da embarcação. 

Costa da Caparica, Pescadores arrastando o seu barco, ed. Passaporte, 371.
Delcampe

O aparelho de pesca era uma rede de arrasto, lançada em semicírculo de maneira que concentrasse o peixe, normalmente sardinha, e depois trazê-lo para a praia. (1)


(1) Revista da Armada n° 369, dezembro de 2002

Tema:
Arte xávega

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Costa de Caparica em 1922


Excertos do filme Os Faroleiros de Maurice Mariaud
Produzido por Raul Caldevilla em 1922
Produção Rui Granadeiro 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

Caparicanas

Ercília Costa (1902 - 1985)

No inicio do nosso século havia um pescador caparicano que nas horas de ócio dedilhava a guitarra. Tocava e desabafava, inconformado com aquilo que, na sua singeleza, chamava triste sina...

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

Havia constituído lar, e nele nasceram três meninas. Uma, a mais viva, de nome Ercília, muito cedo brincou com a guitarra e cantarolou, numa inocente imitação do progenitor. Aos quatro anos, acompanhava a mãe quando esta viajava até Lisboa, e durante a travessia do Tejo, nos vapores da carreira, lá os passageiros achavam graça às cantigas da pequenita, presenteando-a com moedas de cobre. Foram os primeiros aplausos e os primeiros ganhos da futura actriz-cantora.

Mais mulherzinha, veio residir em Lisboa e aprendeu o ofício de costureira de alfaiate. E tudo parecia ser mais uma rica vocação abortada pelo condicionalismo do dia-a-dia.

Ercília Botelho Farinha Salgueiro nasceu na Costa de Caparica a 3 de Agosto de 1902. Filha de Manuel Farinha e de D. Virgínia Maria Botelho. O apelido de Salgueiro adoptou-o apos o casamento com o funcionário bancário José Salgueiro, falecido em 27 de Junho de 1977.

Mas a vocação da jovem Ercília não se iria perder, e o interregno acabaria no dia em que, estando a trabalhar no oficio, alguém (ouvindo-a cantar...) lhe pergunta se queria tomar parte num coro de alunos do Conservatório Nacional, ali perto à Rua dos Caetanos. Tratava-se do Auto do Fim do Dia, prova de exame que teria lugar dali a dias no Teatro de S. Carlos.

O mestre da oficina dispensou-a por umas horas, e a bela voz de Ercília logo foi notada no improvisado coro. Dirigiam os ensaios o Maestro Hermínio do Nascimento, na parte musical, e Mestre António Pinheiro, quanto ao poema. E todos foram unânimes em classificar de esplêndida aquela voz surpreendida numa oficina de alfaiate.

Várias circunstâncias impediram a incipiente cantora de se cultivar. Rapariga pobre, nunca poderia empatar sete anos nos estudos. Mas uma nova oportunidade iria surgir pouco depois e, em 1928, estimulada pelos actores Mario Campos e Eugénio Salvador teste ao tempo doublé de futebolista do 1." team do Sport Lisboa e Benfica). começou a cantar o fado e outras canções.

Ercilia, que, entretanto, se baptizara como artista, unindo o primeiro nome ao da sua terra natal, passou a ser anunciada e conhecida por Ercília Costa.

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Primeiro cantou fados no Olimpia, de Lisboa. Ferro de Engomar, em Benfica. e nos conhecidos retiros da Capital Café Luso, Solar da Alegria e Retiro da Severa. Dois meses após a sua estreia, gravou discos para a Brunswich e Odéon e, terminada essa tarefa, estreou-se no teatro, contratada pelo empresário José Loureiro.

Entretanto, recebia o cartão de artista de variedades. No Trindade, estreou-se na revista A Cigarra e a Formiga. Tempos depois, na Feira da Luz, no Apolo; no Variedades, com Satanela, Raul de Carvalho e Assis Pacheco no Canto da Cigarra; no Coliseu dos Recreios, na História do Fado; no Avenida, no Fogo-de-Vistas; no Maria Vitória, no Rei dos Fadistas: de novo no Coliseu, no Fim do Mundo e Última Maravilha.


Em 1931, visitou as Ilhas, tendo representado em todos os teatros da Madeira e Açores. Depois ici percorrendo todos os palcos do Minho ao Algarve. Em 1934, esteve presente em Vigo, nas festas luso-galaicas, aquando da inauguração da estátua a Camões: e segue logo para Madrid, onde actua em teatros e grava um disco no mesmo dia e na mesma firma em que gravava o argentino Carlos Gardel.

Ercilia é do tempo em que o artista actuava sem o auxílio do microfone. Então era exigido ao cantor, para lá do valor e da qualidade da peça a executar, um domínio absoluto sobre o auditório.

A forte personalidade do cantor tornava-se um factor de extrema importância. Ercilia Costa tinha esta última qualidade em elevado grau, ao ponto de, no enorme Coliseu dos Recreios, com a lotação esgotada (6000 espectadores), quando ela cantava, não se ouvia sequer uma mosca...

Um aspecto da formidável enchente do Coliseu dos Recreios, em cujo palco foi representada a revista O Fim do Mundo, com a participação de Ercília Costa e Leonor d'Eça, 1934.Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

E, como a sua concentração, nesses momentos de transe, a levava, mimicamente, a pôr as mãos como numa prece, alguém, impressionado, disse um dia que ela parecia uma santa a cantar o fado...

Diante do microfone, Ercília foi uma pioneira: no Posto Radiofónico CT1AA, de Abílio Nunes dos Santos, dos Grandes Armazéns do Chiado, foi o primeiro artista a actuar para ser ouvido no estrangeiro.

A nossa biografada, para lá do valor das orquestras que com ela colaboraram em inúmeros espectáculos e audições, pede que não nos esqueçamos do espantoso Armandinho, cuja guitarra por si dedilhada se transformava num coração humano com vida própria.


Quando do seu funeral, Ercília pediu licença à viúva do grande guitarrista para lhe beijar as mãos.

Continuando a citar os vários países e lugares onde a actriz-cantora actuou, temos que: em 1936, foi pela primeira vez ao Brasil, integrada na Companhia de Revista Adelina Abranches-Eva Stachino; por mais duas vezes visitou este país, em 1938 e 1945; nestas digressões percorreu de lés a lés a grande nação sul-americana.

Em 1937, esteve na Exposição Universal de Paris, actuando numa récita de gala no Teatro Campos Elisios, cantando ainda na emissora Rádio-Parisiènne. Em 1939, cantou na Exposição Mundial de Nova Iorque, demorando-se um ano na América do Norte, onde visitou 26 estados, indo até à Califórnia. Voltou aos Estados Unidos oito anos depois. Bing Crosby, Gary Cooper, Leo Carrillo e outros astros de Hollywood foram seus admiradores, presenteando-a com elogiosos autógrafos nas suas fotografias.

Ercilia Costa foi, no seu tempo, o artista português que gravou mais discos, sendo ainda (e isto constitui uma curiosa revelação...) a autora de várias músicas dos seus fados.

Interpretou dois filmes: Amor de Mãe, para a Aguia Filme, e Madragoa, de Perdigão Queiroga.




Leonor de Eça (1905 -1940)

Leonor da Cunha Eça Costa e Almeida veio ao mundo na Caparica a 8 de Agosto de 1905. Filha de João Lopo da Cunha de Eça e Almeida e de D. Maria Madre de Deus Dinis Almeida.

Leonor de Eça,
Margarida no filme As Pupilas do Senhor Reitor,
Leitão de Barros, 1935.
Imagem: Hemeroteca Digital

Actriz teatral e cinematográfica. Estreou-se em Abril de 1926 no Teatro Nacional, substituindo a actriz Ester Leão na protagonista de O Amor Vence, onde obteve êxito.

Desempenhou cerca de duas dezenas de papéis neste palco, dirigido por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Foi duas vezes ao Brasil e trabalhou em quase todos os teatros de Lisboa, Porto e outras cidades.

A chegada, a Lisboa, da artista brasileira Aracelis Castor Bastos, na foto Estêvão Amarante, Aracelis Castor Bastos, Maria Velez, Maria Castelar, Leonor de Eça, Raul de Carvalho, 1936.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No cinema, toma parte nos filmes As Pupilas do Sr. Reitor, de Leitão de Barros, e Pão Nosso, de Armando de Miranda. No primeiro filme foi premiada no Rio de Janeiro pelo seu desempenho de "Margarida". (2)




(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Idem 

Informação relacionada:
Interpretações de Ercília Costa
Leonor de Eça no Dicionário do Cinema Português de Jorge Leitão Ramos

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma excursão alegre à Praia do Sol

Quatro meninas lisboetas, cheias de espírito de empreendimento, atraídas pelo sol, resoveram de um momento para o outro fazer uma excursão à Praia da Caparica.


De braço dado seguem para a praia. Nenhuma sabe o que as espera, e é precisamente esta atmosfera de aventura e de incerteza que torna a excursão tão atraente.

O reporter do "Sinal", Leopold Fiedler, teve o prazer de as acompanhar, apanhando com a sua objectiva as aventuras das irrequietas alfacinhas na praia, episódios ao sol e à beira mar, que dão alegria e novas energias, deixando esquecer os cuidados e afazeres cotidianos.

Almoçam num pequeno restaurante de Caparica. A Carmen, que gosta de dançar, imita diante do seu "público" uma bailarina conhecida.


Na praia. Três das meninas subiram para a prôa de um dos característicos barcos de pesca, em quanto a quarta dá o seu passeio, montada num burro.


O que os pescadores fazem não deve ser difícil para as mãos habilidosas das "meninas", o que elas põem imediatamente à prova.


Uma das quatro desconhecia uma fonte, o que dá azo a novas brincadeiras. (1)


A presença Alemã em Portugal durante o período da II Guerra Mundial foi articulada na sua maior parte através da actividade dos Serviços da Legação.

Entre estes, tomou alguma proporção o Serviço de Propaganda que se dotou duma estrutura hierarquizada e bem organizada na qual empregou no período de 1941-43 “cerca de 70 funcionários permanentes e centenas de voluntários em todo o país” (António José Telo, “Propaganda e Guerra Secreta em Portugal” Perspectivas & Realidades Lisboa Maio de 1990).

Sinal (edição portuguesa da publicação alemã Signal) n° 6, 1944.
iOffer

O Serviço de Propaganda da Legação Alemã era dirigido pelo seu chanceler Dr. Wilhelm Klein, com quem trabalhava o homem que dirige a SINAL em Portugal: Kurt Zehntner (Rui Araújo, "O Império dos Espiões", Oficina do Livro, Lisboa Outubro de 2010). (2)


(1) Signal Magazine
(2) Idem

segunda-feira, 30 de abril de 2018

As lágrimas das coisas!

Deixei na cidade as satyras,
Com as brumas da invernia:
Venho ao campo — um dia esplendido!
— E eu alegre, como o dia!

Lisboa vista da margem sul, Johann Heinrich Luttringshausen (1783-1857).
Imagem: arcadja

Tardou em chegar abril;
Mas agora é que deveras
Vem mais robusto e gentil
Do que n'outras primaveras.

Rebenta na encosta os pâmpanos;
Enflora o pomar nas hortas.
Cheio o regaço de dadivas,
Já bate a todas as portas!

É tal a forca de luz
E de vigor, que elle traz,
Que, ao ver-lhe a face, eu suppuz
Que estava feito um rapaz!

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em volta do ninho os pássaros,
Palpitando de desejos;
E as rosas, abrindo as túnicas,
Aos cravos atiram beijos!


Quando até as próprias rosas
Beijam cravos a tremer,
Quantas coisas mysteriosas
No coração da mulher!...

Este bello sol deslumbra-me,
E arrebata-me ao passado...
Era assim!... Um dia fulgido!
Céo azul, em flor o prado!

Vista panorâmica de Lisboa ocidental, Maria Guilhermina Silva Reis.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um vestidito singello,
Ao peito um cravo vermelho,
Posto em tranças o cabello;
E sem consultar o espelho,

Vinha commigo. Julgando-me
Moço de rara sapiência,
Ouvia, exultando, as syntheses,
Próprias da minha sciencia...

Cantavam ao desafio,
Nas pedras batendo as roupas,
As lavadeiras no rio,
E as toutinegras nas choupas.

Costa da Caparica,  ed. Passaporte, 7, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Rosada, fresca, alegríssima, —
Encantadora creança, —
Raiavam-lhe os olhos límpidos,
E verdes como a esperança!

Um mal-me-quer do balsedo
Tomou nas mãos pequeninas,
E foi dizendo, em segredo,
As palavras sybillinas.

— Muito, muito! — exclamou, trémula,
E pela primeira vez,
Demudou-lhe o rosto, súbita,
Uma grande pallidez!

Esperando o peixe, Adolfo Rodrigues, 1893.
Imagem: arquipélagos

Ao despedir-se de mim,
N'um vivo aperto de mão
Disse tudo quanto emfim
Diz, na mudez, a paixão!

E cahiu d'aquellas pálpebras
Uma pérola do amor,
Como cae o orvalho rutilo
Da aurora sobre uma flor!

Ha muito que a rosa agreste,
D'olhos verdes como a esp'rança,
Dorme á sombra d'um cypreste. . .
Desventurada creanca!

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Ó sol d'abril, tu cegaste-me!
Debalde acudo ao passado,
Que não volta a flor do espirito,
Como volta a flor do prado!

Monte de Caparica, abril 20, 1888. (1)


(1) Bulhão Pato, Sunt lacrimae rerum!, Hoje, sátiras, canções e idyllios, Lisboa, 1888

sexta-feira, 2 de março de 2018

Costa de Caparica, toponímias de 1951

Exm.° Sr. Presidente da Câmara Municipal de Almada Exm.° Senhor A Comissão de Toponímia Municipal, a que tenho a honra de presidir, tendo em vista os elementos de informação que recolheu, deliberou dar parecer favorável às sugestões formuladas pela Junta de Freguesia da Costa de Caparica, relativas à nova nomenclatura dos arruamentos das povoações que a constituem, e, assim, vem depôr nas mãos de V. Ex.a o seu relatório, para ser apreciado e, para sobre ele, incidirem as resoluções que essa Exm.a Câmara houver por convenientes.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica executado em 1954.
Imagem: Biblioteca Digital do Exército

Nestes termos, vem a sobredita Comissão propor que, em relação à povoação e praia da Costa de Caparica, 

1.° — se mantenha a actual denominação de Avenida da República dada ao arruamento que conduz [do antigo Largo do Chafariz, depois Largo Comandante Sá Linhares, hoje Largo da Liberdade] ao largo da igreja local, por representar uma antiga homenagem ao regimem da nação;

Costa da Caparica, Avenida da República, 1962.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

2.° — se dê à Avenida n.° 1 o topónimo de Avenida Agro Ferreira, como homenagem à personalidade a quem, entre outros benefícios, a Costa ficou devendo as primeiras tentativas de uma urbanização séria [proposta não aprovada, a Avenida n.° 1 seria a Avenida Dr. Oliveira Salazar, hoje parte da Avenida General Humberto Delgado]

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

3.° — se dê à Avenida n.° 2 o nome de Avenida Dr. Oliveira Salazar, Chefe do Governo, a quem a Nação deve, em trabalhos e sacrifícios inesquecíveis, a sua grandeza e prosperidade [proposta não aprovada, a Avenida n.° 2 seria a Avenida Marechal Carmona]

4.° — se dê à Avenida n.° 3 o nome de Avenida Presidente Carmona, como homenagem à memória do saudoso Chefe da Nação [proposta não aprovada, a Avenida n.° 3 seria a Avenida Agro Ferreira]

5.° — se dê à Avenida n.°5 a denominação de Avenida Comandante Tenreiro [actual Avenida 1.° de Maio], como demonstração do grande carinho e gratidão que toda a Costa de Caparica sente pela pessoa que tem proporcionado aos seus pescadores os benefícios de uma assistência social, a todos os títulos notável;

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

6.° — se mantenha a denominação de Rua dos Pescadores dada à rua principal de acesso à praia da Costa, como homenagem à memória dos primitivos pescadores que tornaram possível a existência desta já hoje notável povoação; 

Costa da Caparica, Rua dos Pescadores, ed. Passaporte, 93, década de 1950.
Imagem: Delcampe

7.° — se mantenha também os nomes das Ruas Prof. Dr. Salazar de Sousa, Dr Barros de Castro e Dr. Castro Freire, pela justíssima homenagem que representam a individualidades portuguesas de renome científico, a quem a Costa ficou devendo prestigiosa propaganda das suas belezas naturais, condições climatéricas e helioterápicas; 

8.° — se mantenham igualmente as denominações das Ruas M. D. (Maria Dulce); M. L. (Manuel Luís); M. M. (Maria Manuela); A. M. (Ana Maria) [familia Agro Ferreira], por representarem homenagem a pessoas que, pelo seu devotado amor à Costa, dela foram propagandistas militantes; 

9.° — se dê à Rua Capitão Ribeiro da Cruz, o nome de Rua Ribeiro da Cruz , como homenagem que lhe foi dispensada por virtude dos melhoramentos levados a cabo pela vereação da sua antiga presidência;

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

10.° — se mantenha a denominação da Rua Costa Pinto, antigo deputado do extinto regime, a quem os pescadores da Costa tanto ficaram a dever em benefícios de carácter social; 

11.° — se mantenha a antiga denominação de Rua Dr. Francisco Inácio, por representar homenagem a um dos mais dedicados propagandistas da praia da Costa, individualidade que fez parte da Comissão pró-Bairro Costa Pinto;

12.° — se mantenha o nome de Rua das Flores, dado ao armamento que há muitos anos o usa, pois que, consagrado já pelo povo, inútil se toma qualquer alteração toponímica;

13.° — se dê à antiga. Rua das Terras o nome de Rua Dr. Aresta Branco , como homenagem ao ilustre clínico, em quem a Costa teve sempre um amigo e propagandista de eleição;

14.° — se dê a outro prolongamento da referida Rua das Terras o nome de Rua Narciso Alves Xavier, como homenagem à memória de quem sempre se mostrou amigo e defensor dos interesses da Praia da Costa.

15.° — se dê à rua constituída pelo leito da estrada de Cacilhas, no troço integrado no perímetro da localidade, a denominação de Rua do Monte de Caparica, como homenagem à povoação, dentro de cuja freguesia nasceu a Costa, que usa o seu complemento toponímico [actual Rua Horácio da Silva Louro];

Costa da Caparica, Praia do Sol, Vista Parcial, ed. desc.
Imagem: Delcampe

16.° — se mantenha, por estar arreigado na tradição, o nome de Largo da Corôa ao largo onde ainda existe o prédio que serviu de aposentadoria a D. João VI, o qual muito apreciava as belezas da praia;

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

17.° — se dê ao Largo do Chafariz o nome de Largo Comandante Sá Linhares, como homenagem ao ilustre presidente da Câmara Municipal de Almada, ao accionado de cuja vereação, criteriosamente orientada pela Sua Ex.a, deve a Costa de Caparica o brilhante progresso que lhe está dando nova fisionomia turística enriquecendo-a como estância de cura e repouso inconfundível;

18.° — se dê ao Largo da Praia o nome de Rua Vasco da Gama, como homenagem ao grande descobridor, a quem o ouro das areias da Costa iluminou o caminho que havia de o levar à Índia [hoje, Largo Vasco da Gama]; 

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

19.° — se mantenha a antiga denominação de António Martins "Sacho", dada ao arruamento assim conhecido, como homenagem do povo da Costa a um dos mais zelosos funcionários que o têm servido; 

20.° — se dê à Rua n.° 1 a denominação de Rua de Olivença, por evocar uma antiga terra portuguesa, ainda hoje considerada na posse espiritual dos portugueses, posto que submetida ao domínio material e político de país estrangeiro [proposta não aprovada, a rua n.° 1 seria a rua dos Ílhavos, no então Bairro do Convento]

Costa da Caparica, uma moradia no Bairro do Convento.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

21.°— se dê à Rua n.° 2 o nome de Rua dos Saveiros, para evocação dos pescadores ílhavos que colonizaram em parte a praia da Costa e que fizeram com que as campanhas primitivas adoptassem o tipo tão característico dos barcos conhecidos por "meias luas"; 

22.°— se dê à Rua n.° 3 a denominação de Rua Eng.° Duarte Pacheco, em homenagem à figura do Ministro ilustre, que soube materializar, em melhoramentos de concepção grandiosa e utilitária, o alto pensamento patriótico da obra do Estado Novo;

23.° — se dê à Rua n.° 4 o nome de Rua Teixeira da Cunha, como homenagem rendida a uma individualidade a quem a Costa; que muito lhe deve, considera um dos seus grandes beneméritos; 

24.° — se dê à Rua n.° 6 a denominação de Rua Mestre Bexiga, por ter sido este quem, por assim dizer, instituiu no século XVIII, na Costa de Caparica, a indústria da pesca; 

25.° — se dê à Rua n.° 7 o nome de Rua Dr. Albuquerque, distintíssima figura de cidadão e de médico, querida de todos os trabalhadores do concelho de Almada, onde faleceu em 1907 e a quem a população da Costa considerou sempre um grande amigo e benemérito (ver junto a este a informação do Exm.° sr. Conde dos Arcos); 

26.°— se dê à Rua n.° 8 o nome da Rua do Mestre Manuel, o qual foi também um dos fundadores da arte da pesca na Costa de Caparica; 

27.° — se dê a um dos prolongamentos da referida Rua n.° 8 o nome de Rua Conselheiro Manuel Luís Fernandes, cavalheiro que foi um grande amigo dos pescadores da Costa e antigo presidente deste município; 

28.° — se dê à Rua n.° 9 a denominação de Rua D. João VI, monarca que manifestou sempre grande simpatia pela praia da Costa;

29.° — se dê à Rua n.° 10 o nome de Rua do Padre Baltazar, inesquecível figura de sacerdote, "apóstolo da Verdade e da Justiça", por quem os pobres da Costa sentiam ferverosa admiração;

30.° — se dê à Rua n° 11 a denominação de Rua Gil Fanes, em memória do grande navegador que, ao serviço do infante D. Henrique, foi o primeiro a ultrapassar o Cabo Bojador, dando glorioso início à época dos grandes descobrimentos; 

31.° — se dê à Rua n° 12 a denominação de Rua do Mestre Salvador, para perpetuidade do nome de um dos pescadores mais estimados da Costa de Caparica; 

32.° — se dê à Rua n.° 13 o nome de Rua Manuel da Costa, em homenagem à pessoa que, auxiliando numerosos pobres sem lar próprio, tanto contribuiu, com o seu dinâmico poder de construtor, para o desenvolvimento urbanístico da zona sul da Costa de Caparica; 

33.° — se dê à Rua n.° 14 a denominação de Rua Padre Manuel Luís, para lembrança do nome de um dos mais ilustres filhos da povoação da Costa;

34.° — se dê à Rua n.° 15 o nome de Rua Patrão Lopes, para memória do glorioso marítimo, salvador de numerosas vidas [hoje rua Mestre Adrião];

35.° — se dê à Rua n.° 20 a denominação de Rua do Mestre Joaquim Pedro, topónimo que recordará aos vindouros mais um dos velhos instituidores da indústria da pesca na Costa;

36.° — se dê à Rua n.° 23 a denominação de Rua Victorino José da Silva, para que se perpetue o nome dum honrado cidadão que muito prestigiou a povoação da Costa; 

37.° — se dê à Rua n.° 24 a denominação de Rua do Mestre João Lopes, comemorativa de outro dos corajosos instituidores da arte da pesca na Costa; 

38.° — se dê à Rua n.° 25 o nome de Rua Dr. Leite Lage, para memória da distinta personalidade do que foi um dos mais autorizados propagandistas clínicos da grande praia da Costa; 

39.° — se dê à Rua n.° 30 o nome de Rua Joaquim Matosa, evocando assim uma das figuras de relevo no meio local, quando a Costa, estância balnear de formação ainda incipiente, carecia do esforço e do amparo de verdadeiros amigos, como ele o soube ser;

40.° — se dê à Rua n.° 31 o nome de Rua de João Alfama, como homenagem a uma das mais humanas figuras de beneméritos que pisaram o solo arenoso da velha Costa de Caparica, onde ele foi o anjo tutelar de tantos corpos sôfregos de pão e de tantas almas sedentas de amparo espiritual;

41.° – se dê à Rua n.° 32 a denominação de Rua do Mestre Arnaldo dos Santos, pondo em recordação a pessoa de mais outro dos velhos pescadores que iniciaram a faina da pesca na extensa zona oceânica, em cujos areais a Costa nasceu; 

42.° — se dê, ao troço de ligação das Ruas n.os 10 a 12, o nome de Rua Elisa Barão, como homenagem à respeitabilíssima senhora a quem a Costa, desde a primeira hora do seu ressurgimento urbanístico, mereceu o interesse e o carinho mais entusiásticos; 

43.° — se dê ao ponto de ligação da actual Escola, a denominação de Rua João Teotónio Pereira, como homenagem a seus filhos, a um dos quais o Sr. Luís Teotónio Pereira, Almada deve a iniciativa e a realização de melhoramentos que a muito enobrecem;

44.° — se dê à Rua n.° 1 – Bairro do Convento – a denominação de Rua dos Ilhavos, por coincidir com o local onde se fixaram na Costa de Caparica os pri-meiros pescadores da região de Aveiro .

Mais, em relação à povoação denominada Quinta de Santo António, vem igualmente a Comissão de Toponímia propôr que:

Quinta de Santo Antonio e Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

1.° — se dê à 1.a rua paralela à estrada que serve a referida localidade, a denominação de Rua de Almada, homenagem à vila, sede deste concelho, de tão gloriosas tradições históricas;

2.° — se dê à 2.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua da Costa,por ser em território hoje compreendido na área da nova freguesia, que nasceu, sob signo doirado, a Quinta de Santo António;

3.° — se dê à 3.a rua paralela à dita estrada da Trafaria, a denominação de Rua do Norte, o que se harmoniza com a sua orientação topográfica, facilitando a sua identificação;

4.° — se dê à avenida ali aberta a denominação de Avenida do Oceano, topónimo que se coaduna com a localização da Quinta de Santo António, tão perto do Atlântico;

5.° — se dê à 4.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua dos Fortes, que demoram próximo da povoação;

6.° — se dê à 1.a rua transversal o nome de Rua de Santo António, por ser este o onomástico da quinta que originou a povoação;

7.° — se dê à 2.a rua transversal a denominação de Avenida do Mar, por ser o hálito do mar que bafeja e salubriza a pitoresca povoação;

8.° — se dê, finalmente, à 3a rua transversal o topónimo de Rua da Mata, por virtude da contiguidade da Mata florestal, cujas essências perfumam permanentemente a povoação.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Estudo urbanístico do arquitecto Faria da Costa.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

Dando por concluída mais esta fase dos seus trabalhos, a Comissão de Toponímia apresenta os seus respeitosos cumprimentos a V. Ex.a e aos seus devotados colaboradores na Vereação.

A bem da Nação
Paços do Concelho de Almada, 19 de Junho de 1951
O Presidente da Comissão
Silvestre Rosmaninho. (1)



(1) Almada na História, Boletim de Fontes Documentais n.° 13-14

Artigo relacionado:
Plano de Urbanização da Costa da Caparica