O mar longe, movido... Solta, de quando em quando, um lúgubre gemido... Bulhão Pato (1828-1912)
sábado, 28 de março de 2020
terça-feira, 10 de março de 2020
Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto
E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes. E, por ora, ponto final.
Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo.
Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.
[...] pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio.
Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.
[...] Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:
─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.
Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo. [...] As ruas ficavam cheias de gente, [...] os contentores transbordavam de lixo [...]
Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções das actividades económicas [...] (1)
(1) Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed. Caminho, 1995
![]() |
| Costa da Caparica. Delcampe |
Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo.
Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.
![]() |
| Costa da Caparica. Delcampe |
[...] pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio.
Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.
![]() |
| Costa da Caparica. Delcampe |
[...] Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:
─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.
![]() |
| Costa da Caparica, década de 1980. Delcampe |
Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo. [...] As ruas ficavam cheias de gente, [...] os contentores transbordavam de lixo [...]
![]() |
| Costa da Caparica, vista aérea, década de 1980. Delcampe |
Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções das actividades económicas [...] (1)
(1) Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed. Caminho, 1995
quarta-feira, 4 de março de 2020
Sibylla Blei, Billy Lieben
Sibylla Blei é quase desconhecida. Pequena maravilha — ao mesmo tempo que foi a filha de um bem conhecido escritor a sua carreira com actriz foi demasiado curta para deixar traços maiores. O biógrafo pode recordar que ela foi a tradutora de uma novela (erradamente) atribuida a Oscar Wilde. Catálogos de bibliotecas e a Internet referem um catálogo de livros, que na maior parte foram propriedade do pai, Franz Blei, doados à Biblioteca Nacional de Portugal por Sibylla Blei e Sarita Halpern.
M. A. Pinto Correia [cf. Ein grosses Bestiarium der Weltliteratur. Franz Bleis Büchersammlung in Lissabon. In: Franz Blei: Mittler der Literaturen. Hrsg. von Dietrich Harth. Hamburg: EVA 1997, 213–222] contribuiu com um esboço biográfico de ambas as mulheres para essa bibliografia.
Mais recentemente, Sibylla Blei foi interpretada como um tipo de mulher lésbica emancipada [...] (1)
Fotografias antigas: Billy sempre na proximidade do mar, recostada na amurada de um navio e quase tombando sobre as ondas, ou destacando-se numa paisagem mediterrânica de sol e palmeiras; Billy no círculo de amigos, como ela emigrados em Espanha, ao encontro de uma trupe de saltimbancos, cuidando de animais ou ainda banhando-se na Costa da Caparica.
Billy era assim, criatura do ar livre, do "natural e elementar", como já o pai, Franz Blei, a retratava numa das raras referências, a mais longa, que lhe faz na sua autobiografia Erzühlung eines Lebens:
"Entregava-se-lhe [ao mar], quase seria levado a dizer, como uma noiva, pois as águas, o nelas mergulhar, o cortá-las com as velas, o arpoar os seus habitantes, qual caçadora com o tridente, foi desde sempre a grande predilecção da sua vida, ela que estava mais próxima de tudo o que é natural e elementar do que do humano e do circunscrito de um pequeno redil."
E, nestas palavras com que Franz Blei relata o breve episódio do desaparecimento da filha durante a viagem de barco que a família faz para os Estados Unidos em 1897, julgamos ver já traçadas algumas das linhas da personalidade de Billy — a irrequitude, a vitalidade, mas, sobretudo, o inconformismo, essa recusa total de se submeter a normas, um comprazimento no quebrar de barreiras, afinal o que de mais nítido nos fica dos poucos dados biográficos que dela possuímos.
Filha do escritor Franz Blei, Sibylle Blei nasceu em Viena, a 14 de Março de 1897, e faleceu em Portugal, na Costa da Caparica, em data que não conseguimos determinar com exactidão, possivelmente nos fins dos anos sessenta [14 de março de 1962 ...]
O casamento com Billy durou poucos meses, mas a ruptura nunca foi completa. Ernst von Lieben seguiu-a sempre à distância, mesmo ao longo das etapas do exílio: primeiro, Palma de Maiorca, e depois, já durante a guerra, Costa da Caparica, onde algumas vezes a visitou [...]
Em princípios de 1939, Billy e Sarita fundam na Costa da Caparica uma pequena empresa de fabrico de cosméticos [...] (2)
Dear Hermann!
Fui interrompida, há sempre trabalho, já que sou carpinteiro, pedreiro, canalizador, serralheiro, embalador, jardineiro, tudo na mesma pessoa. Pelo meio, para não esquecer, cozinho, e quando as minhas sandálias estão estragadas, arranjo-as ou faço novas.
E esta casa come o tempo como uma ténia, pois há sempre alguma coisa para reparar, está sempre algo partido.
O estuque está a cair das paredes, as portas e os caixilhos das janelas estão torcidos porque foram feitos com madeira verde, os vidros caem das janelas porque a massa é da pior qualidade, a chuva entra pelos caixilhos e paredes, os fios elétricos caem das paredes porque os pregos não se fixam nas paredes, é divertido. Digo-te! Tudo é feito apenas para mostrar, e tudo, tudo, tudo é lixo!
Tudo com grandes pretensões — e nada por detrás, mas realmente nada! — Agora haviam três dias de primavera, necessários para secar a casa. A proprietária não se deixa ver, mas vêem-se de sobremaneira as rachaduras na casa. As pessoas dizem que não devemos ficar na casa, é perigoso, mas ninguém nos aconselha "sobre o que" devemos mudar e, portanto, levamos isso de ânimo leve e confiamos na nossa boa sorte como até agora. Principalmente porque não temos opção.
O carnaval acabou, o bacalhau está enterrado, e os trabalhadores andam de ressaca e de mau humor e não sabem muito bem o que fazer. Muitos sonhos e esperanças não deram em nada (a esperança, principalmente, de encontrar um noivo), os corações estão desfeitos porque o noivo dançou com outra garota e a triste monotonia impera. As tentativas interrompidas são retomadas, e agora o desejo mais urgente é que em breve seja primavera e o tempo aqueça novamente.
Os dois bebês nascidos fora do casamento estão vivos, e as mães, com 16 anos de idade, também, os velhos "progenitores" foram condenados a multas pesadas. Uma das raparigas deixou-se persuadir por amor, a outra pela promessa de uma bicicleta, a qual, afinal, não conseguiu.
Em suma, a vida continua como de costume. Um dos sedutores é um camponês da nossa vizinhança. Tem uma família numerosa e ontem, mais uma vez, casou uma de suas filhas. Ele tem uma esposa ainda relativamente jovem, robusta e saudável, que foi motivo de uma conversa entre duas camponesas:
"Que tenha escolhido uma rapariga tão magricela e "verde", entre todas. Ela não tem nada, nem à frente nem atrás, ainda não tem peitos, nem nada — especialmente porque ele tem uma esposa com boa apresentação, com peitos (gesto redondo) — isso não consigo compreender! " [...]
anterior a maio, 1941
Billy Lieben
Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal
Dear Hermann!
[...] agora não é tempo para novas aventuras, e não poderíamos fazer isso a esse homem [associarem-se na gestão de um laboratório], porque quando Hitler chegar, seremos retiradas e ele ficará só! Falta-lhe o conhecimento, quer entregá-lo a uma pessoa confiável ou vender tudo como está.
Discutimos o assunto muito abertamente com ele porque não queremos apressá-lo nem desapontar sobre nossa situação "política". Ele compreendeu e quer esperar mais um mês (na verdade é já o terceiro mês!).
Mas, num mês, Hitler ainda não estará derrotado... Se fôssemos porcos, ficaríamos caladas e agarraríamos a oportunidade — com ambas as mãos: mas não podemos.
E, portanto, temos que renunciar a essa grande oportunidade, muitas vezes sonhada! Porque sempre sonhámos encontrar alguém como ele, e agora acontece que esta pessoa desconhecida se aproxima de nós, até mesmo com um laboratório grande e perfeitamente equipado, etc. — não conseguiriamos pensar em nada mais agradável e melhor — sim, mas não funciona.
Sim, poderíamos casar com portugueses, mas isso também custaria mais dinheiro qo que aquele que temos, e também não seria suficiente para protecção. Em França também prendem franceses [...]
E agora, finalmente, os dados desta simbiose, para o teu álbum:
Sarita: Sarah Halpern, nascida em 3 de setembro de 88 [1898?] em Bolszowce (Pole, passaporte Polaco) e Billy: Sibylla Lieben-Blei, nascida em Zurique em 27 de março de 1897 (ex-austríaca, passaporte austríaco)
Competências: cosmeticistas, produtoras de produtos cosméticos de alta qualidade (batons, loções, leites hidratantes, loção para o cabelo etc. etc. cremes faciais para vários tipos de pele e muitos itens similares)
Carácter: Pessoas honestas, fiáveis e corajosas
Yours ever,
Billy
Dear Hermann,
[...] O peso leve de um espectro afundou-se sobre mim ao sair do comboio. Loge [Franz Blei, pai de Sibylla] — não, um vagabundo barbudo — não, um velho hebreu — não, o cadáver vivo de Tolstoi — não, era Loge, nos meus braços. Imediatamente num carro e para casa, para o meu lugar aqui, do qual não se mexeu desde então.
A primeira coisa foi trazer o barbeiro da aldeia — dois homens vieram, e quase se podia dizer que fora necessário, porque poderia ter sido demasiado para uma só pessoa — barba e cabelo etc. (tirei uma foto antes! Como lembrança!) Nos próximos dias, fotografarei o "depois".
O alfaiate também estave aqui. Em suma, — ele estava em trapos, e eu tive que o vestir completamente de novo, e agora ele parece-se com um ser humano e muito melhor.
Ele estava completamente malnutrido. O médico disse que se ele tivesse sofrido de algum problema orgânico e não esteve naturalmente saudável - ele nunca teria conseguido. Ele come e dorme e come, dorme e felizmente, tem paciência consigo mesmo, assim como nós com ele [...] toma bem conta de si próprio e em pouco tempo estará na sua anterior forma novamente.
Se alguém me pudesse dar a garantia de que Hitler não viria, mantê-lo-ia aqui. Se alguém pudesse, pelo menos, garantir que esse H. não chegaria até o final do outono, eu solicitaria uma extensão do seu visto para poder alimentá-lo por mais tempo e ele poderia descansar mais — mas não ouso.
Não devo, nem irei, expô-lo a outro choque! Porque, para além de todas as outras coisas que nos podem acontecer aqui, a fome que irá irromper neste país — um país tão pobre (sem as suas colônias) — seria pior do que em França [...]
8 de agosto, 1941
Billy Lieben
Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal
Dear Hermann!
[...] não acredito num ideal de qualquer maneira, mas calculo que possa ser "relativamente" melhor.
Recentemente, fui relembrada desses esforços por um incêndio. Por causa da estupidez de uma mulher adulta, houve um incêndio numa pastagem seca frente à casa, que se espalhou rapidamente devido ao vento.
Esta pastagem é um lugar de vários quilômetros quadrados, com algumas casas espalhadas. Nós e alguns de nossos trabalhadores partimos logo com água e regadores. Foi uma corrida infernal, porque o fogo saltava repetidamente sobre as cinturas de água e em lugares diferentes, e eramos poucas mãos e mal podíamos correr suficientemente rápido.
A "originadora" e algumas outras pessoas estavam atrás dos muros do jardim como espectadores interessados! Todos os gritos e insultos foram inúteis, e tivemos que gerir sem ajuda — finalmente conseguimos!
Ach, Hermann, a revolução tem que começar com as crianças! (Hitler compreendeu isso bem!...) [...] (3)
(1) Hartmut Walravens, S ibylle Blei (1897-1962) an independent woman
(2) M. A. Pinto Correia, Uma biblioteca reencontrada, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988
(3) Hartmut Walravens, Idem
Mais informação:
Sybilla Blei por Alexandre Flores (I)
Sybilla Blei por Alexandre Flores (II)
Informação relacionada:
Diário de Maria Blei - Tagebuch für Tochter Billy
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 1988
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 2011
Leitura relacionada:
Wien Geschichte Wiki: Sibylla Blei
Billys Diariumescape: "Glûcksritterinnen" Billy und Sarita
Hermann Broch Collection
![]() |
| Sibylla Blei fotografada por Trude Fleischmann c. 1924. MutualArt |
M. A. Pinto Correia [cf. Ein grosses Bestiarium der Weltliteratur. Franz Bleis Büchersammlung in Lissabon. In: Franz Blei: Mittler der Literaturen. Hrsg. von Dietrich Harth. Hamburg: EVA 1997, 213–222] contribuiu com um esboço biográfico de ambas as mulheres para essa bibliografia.
Mais recentemente, Sibylla Blei foi interpretada como um tipo de mulher lésbica emancipada [...] (1)
![]() |
| Sibylla Blei fotografada por Trude Fleischmann c. 1924. MutualArt |
Fotografias antigas: Billy sempre na proximidade do mar, recostada na amurada de um navio e quase tombando sobre as ondas, ou destacando-se numa paisagem mediterrânica de sol e palmeiras; Billy no círculo de amigos, como ela emigrados em Espanha, ao encontro de uma trupe de saltimbancos, cuidando de animais ou ainda banhando-se na Costa da Caparica.
Billy era assim, criatura do ar livre, do "natural e elementar", como já o pai, Franz Blei, a retratava numa das raras referências, a mais longa, que lhe faz na sua autobiografia Erzühlung eines Lebens:
"Entregava-se-lhe [ao mar], quase seria levado a dizer, como uma noiva, pois as águas, o nelas mergulhar, o cortá-las com as velas, o arpoar os seus habitantes, qual caçadora com o tridente, foi desde sempre a grande predilecção da sua vida, ela que estava mais próxima de tudo o que é natural e elementar do que do humano e do circunscrito de um pequeno redil."
![]() |
| Sibylla Blei por Trude Fleischmann c. 1920-1925. Theatermuseum, Wien |
E, nestas palavras com que Franz Blei relata o breve episódio do desaparecimento da filha durante a viagem de barco que a família faz para os Estados Unidos em 1897, julgamos ver já traçadas algumas das linhas da personalidade de Billy — a irrequitude, a vitalidade, mas, sobretudo, o inconformismo, essa recusa total de se submeter a normas, um comprazimento no quebrar de barreiras, afinal o que de mais nítido nos fica dos poucos dados biográficos que dela possuímos.
Filha do escritor Franz Blei, Sibylle Blei nasceu em Viena, a 14 de Março de 1897, e faleceu em Portugal, na Costa da Caparica, em data que não conseguimos determinar com exactidão, possivelmente nos fins dos anos sessenta [14 de março de 1962 ...]
O casamento com Billy durou poucos meses, mas a ruptura nunca foi completa. Ernst von Lieben seguiu-a sempre à distância, mesmo ao longo das etapas do exílio: primeiro, Palma de Maiorca, e depois, já durante a guerra, Costa da Caparica, onde algumas vezes a visitou [...]
![]() |
| Sibylla Blei por Trude Fleischmann, 1924. artnet |
Em princípios de 1939, Billy e Sarita fundam na Costa da Caparica uma pequena empresa de fabrico de cosméticos [...] (2)
* *
*
3 de março, 1941
Dear Hermann!
Fui interrompida, há sempre trabalho, já que sou carpinteiro, pedreiro, canalizador, serralheiro, embalador, jardineiro, tudo na mesma pessoa. Pelo meio, para não esquecer, cozinho, e quando as minhas sandálias estão estragadas, arranjo-as ou faço novas.
![]() |
| Maria Eva Sibylla Blei. geni |
E esta casa come o tempo como uma ténia, pois há sempre alguma coisa para reparar, está sempre algo partido.
O estuque está a cair das paredes, as portas e os caixilhos das janelas estão torcidos porque foram feitos com madeira verde, os vidros caem das janelas porque a massa é da pior qualidade, a chuva entra pelos caixilhos e paredes, os fios elétricos caem das paredes porque os pregos não se fixam nas paredes, é divertido. Digo-te! Tudo é feito apenas para mostrar, e tudo, tudo, tudo é lixo!
Tudo com grandes pretensões — e nada por detrás, mas realmente nada! — Agora haviam três dias de primavera, necessários para secar a casa. A proprietária não se deixa ver, mas vêem-se de sobremaneira as rachaduras na casa. As pessoas dizem que não devemos ficar na casa, é perigoso, mas ninguém nos aconselha "sobre o que" devemos mudar e, portanto, levamos isso de ânimo leve e confiamos na nossa boa sorte como até agora. Principalmente porque não temos opção.
O carnaval acabou, o bacalhau está enterrado, e os trabalhadores andam de ressaca e de mau humor e não sabem muito bem o que fazer. Muitos sonhos e esperanças não deram em nada (a esperança, principalmente, de encontrar um noivo), os corações estão desfeitos porque o noivo dançou com outra garota e a triste monotonia impera. As tentativas interrompidas são retomadas, e agora o desejo mais urgente é que em breve seja primavera e o tempo aqueça novamente.
Os dois bebês nascidos fora do casamento estão vivos, e as mães, com 16 anos de idade, também, os velhos "progenitores" foram condenados a multas pesadas. Uma das raparigas deixou-se persuadir por amor, a outra pela promessa de uma bicicleta, a qual, afinal, não conseguiu.
Em suma, a vida continua como de costume. Um dos sedutores é um camponês da nossa vizinhança. Tem uma família numerosa e ontem, mais uma vez, casou uma de suas filhas. Ele tem uma esposa ainda relativamente jovem, robusta e saudável, que foi motivo de uma conversa entre duas camponesas:
"Que tenha escolhido uma rapariga tão magricela e "verde", entre todas. Ela não tem nada, nem à frente nem atrás, ainda não tem peitos, nem nada — especialmente porque ele tem uma esposa com boa apresentação, com peitos (gesto redondo) — isso não consigo compreender! " [...]
* *
*
anterior a maio, 1941
Billy Lieben
Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal
Dear Hermann!
[...] agora não é tempo para novas aventuras, e não poderíamos fazer isso a esse homem [associarem-se na gestão de um laboratório], porque quando Hitler chegar, seremos retiradas e ele ficará só! Falta-lhe o conhecimento, quer entregá-lo a uma pessoa confiável ou vender tudo como está.
![]() |
| Sibylla Blei por Trude Fleischmann em 1921. Booklooker |
Discutimos o assunto muito abertamente com ele porque não queremos apressá-lo nem desapontar sobre nossa situação "política". Ele compreendeu e quer esperar mais um mês (na verdade é já o terceiro mês!).
Mas, num mês, Hitler ainda não estará derrotado... Se fôssemos porcos, ficaríamos caladas e agarraríamos a oportunidade — com ambas as mãos: mas não podemos.
E, portanto, temos que renunciar a essa grande oportunidade, muitas vezes sonhada! Porque sempre sonhámos encontrar alguém como ele, e agora acontece que esta pessoa desconhecida se aproxima de nós, até mesmo com um laboratório grande e perfeitamente equipado, etc. — não conseguiriamos pensar em nada mais agradável e melhor — sim, mas não funciona.
Sim, poderíamos casar com portugueses, mas isso também custaria mais dinheiro qo que aquele que temos, e também não seria suficiente para protecção. Em França também prendem franceses [...]
E agora, finalmente, os dados desta simbiose, para o teu álbum:
Sarita: Sarah Halpern, nascida em 3 de setembro de 88 [1898?] em Bolszowce (Pole, passaporte Polaco) e Billy: Sibylla Lieben-Blei, nascida em Zurique em 27 de março de 1897 (ex-austríaca, passaporte austríaco)
Competências: cosmeticistas, produtoras de produtos cosméticos de alta qualidade (batons, loções, leites hidratantes, loção para o cabelo etc. etc. cremes faciais para vários tipos de pele e muitos itens similares)
Carácter: Pessoas honestas, fiáveis e corajosas
Yours ever,
Billy
* *
*
Lisboa, 28 de maio, 1941
Dear Hermann,
[...] O peso leve de um espectro afundou-se sobre mim ao sair do comboio. Loge [Franz Blei, pai de Sibylla] — não, um vagabundo barbudo — não, um velho hebreu — não, o cadáver vivo de Tolstoi — não, era Loge, nos meus braços. Imediatamente num carro e para casa, para o meu lugar aqui, do qual não se mexeu desde então.
![]() |
| Costa da Caparica, Vista geral da Quinta de Santo António, ed. desc., década de 1940. Delcampe |
A primeira coisa foi trazer o barbeiro da aldeia — dois homens vieram, e quase se podia dizer que fora necessário, porque poderia ter sido demasiado para uma só pessoa — barba e cabelo etc. (tirei uma foto antes! Como lembrança!) Nos próximos dias, fotografarei o "depois".
O alfaiate também estave aqui. Em suma, — ele estava em trapos, e eu tive que o vestir completamente de novo, e agora ele parece-se com um ser humano e muito melhor.
Ele estava completamente malnutrido. O médico disse que se ele tivesse sofrido de algum problema orgânico e não esteve naturalmente saudável - ele nunca teria conseguido. Ele come e dorme e come, dorme e felizmente, tem paciência consigo mesmo, assim como nós com ele [...] toma bem conta de si próprio e em pouco tempo estará na sua anterior forma novamente.
Se alguém me pudesse dar a garantia de que Hitler não viria, mantê-lo-ia aqui. Se alguém pudesse, pelo menos, garantir que esse H. não chegaria até o final do outono, eu solicitaria uma extensão do seu visto para poder alimentá-lo por mais tempo e ele poderia descansar mais — mas não ouso.
Não devo, nem irei, expô-lo a outro choque! Porque, para além de todas as outras coisas que nos podem acontecer aqui, a fome que irá irromper neste país — um país tão pobre (sem as suas colônias) — seria pior do que em França [...]
* *
*
8 de agosto, 1941
Billy Lieben
Quinta San Antonio
Costa Caparica
Portugal
Dear Hermann!
[...] não acredito num ideal de qualquer maneira, mas calculo que possa ser "relativamente" melhor.
![]() |
| Costa da Caparica, Quinta de Santo António e Mata, ed. desc., década de 1940. Delcampe |
Recentemente, fui relembrada desses esforços por um incêndio. Por causa da estupidez de uma mulher adulta, houve um incêndio numa pastagem seca frente à casa, que se espalhou rapidamente devido ao vento.
Esta pastagem é um lugar de vários quilômetros quadrados, com algumas casas espalhadas. Nós e alguns de nossos trabalhadores partimos logo com água e regadores. Foi uma corrida infernal, porque o fogo saltava repetidamente sobre as cinturas de água e em lugares diferentes, e eramos poucas mãos e mal podíamos correr suficientemente rápido.
A "originadora" e algumas outras pessoas estavam atrás dos muros do jardim como espectadores interessados! Todos os gritos e insultos foram inúteis, e tivemos que gerir sem ajuda — finalmente conseguimos!
![]() |
| Billy Lieben, Daughter of Franz Blei, Portugal, 1940. Hermann Broch Collection |
Ach, Hermann, a revolução tem que começar com as crianças! (Hitler compreendeu isso bem!...) [...] (3)
(1) Hartmut Walravens, S ibylle Blei (1897-1962) an independent woman
(2) M. A. Pinto Correia, Uma biblioteca reencontrada, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988
(3) Hartmut Walravens, Idem
Mais informação:
Sybilla Blei por Alexandre Flores (I)
Sybilla Blei por Alexandre Flores (II)
Informação relacionada:
Diário de Maria Blei - Tagebuch für Tochter Billy
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 1988
Doação Sibylle Blei - Sara Halpern, catálogo de 2011
Leitura relacionada:
Wien Geschichte Wiki: Sibylla Blei
Billys Diariumescape: "Glûcksritterinnen" Billy und Sarita
Hermann Broch Collection
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Barcos varados no areal por Ogden Pleissner
As paisagens europeias do pós-guerra de Pleissner — se bem que menos conhecidas do que a sua arte desportiva — são consideradas encarnações magistralmente compostas de lugares e momentos particulares no tempo e, mais importante para Pleissner, transmitem um leque de mudanças de humor.
"Pode-se dizer que uma imagem tem o sentido do lugar", explicou Pleissner, "mas numa pintura, uma paisagem, para mim é o humor transmitido que conta. Constable, Homer e George Innes transmitem um sentido de lugar nas suas imagens, mas há algo mais que vai muito para além disso".
Para além disso Pleissner sentiu que "cores neutras e cores brilhantes criarão diferentes humores. Pode-se tomar o mesmo motivo, o mesmo assunto, em diferentes momentos do dia, ou em diferentes momentos do ano. Certos dias, o motivo, parecerá muito contrastante e brilhante, e as cores serão vivas. Noutro dia o nevoeiro cobrirá a cena ou será de manhã cedo, ou depois, ao fim da tarde, ou à noite. Então tudo se misturará, e não teremos o poderoso efeito do contraste, e um humor diferente, mais suave, irá prevalecer" [...]
Considerou Portugal, especialmente a região do Algarve, um dos "lugares mais bonitos" que alguma vez visitou e "um lugar maravilhoso para pintar" e, enquanto aí esteve, conseguiu congelar no tempo o estilo de vida do velho mundo (incluindo a população tradicionalmente trajada) que perdurou durante a maior parte do século XX, compondo um alinhamento perfeitamente proporcionado de primitivos barcos de proa alta, modelados a partir dos navios dos antigos fenícios [...] (1)
(1) The Lusher gallery
Mais informação:
Ogden Pleissner (Wikipedia)
Shelburne Museum: Pleissner gallery
artnet
![]() |
| Costa da Caparica, Beached boats, Ogden Pleissner. MFA H |
"Pode-se dizer que uma imagem tem o sentido do lugar", explicou Pleissner, "mas numa pintura, uma paisagem, para mim é o humor transmitido que conta. Constable, Homer e George Innes transmitem um sentido de lugar nas suas imagens, mas há algo mais que vai muito para além disso".
![]() |
| Costa da Caparica, Fishing boats, Portugal, Ogden Pleissne. |
Para além disso Pleissner sentiu que "cores neutras e cores brilhantes criarão diferentes humores. Pode-se tomar o mesmo motivo, o mesmo assunto, em diferentes momentos do dia, ou em diferentes momentos do ano. Certos dias, o motivo, parecerá muito contrastante e brilhante, e as cores serão vivas. Noutro dia o nevoeiro cobrirá a cena ou será de manhã cedo, ou depois, ao fim da tarde, ou à noite. Então tudo se misturará, e não teremos o poderoso efeito do contraste, e um humor diferente, mais suave, irá prevalecer" [...]
![]() |
| "Barkes du mar", Ogden Pleissner. Amazon |
Considerou Portugal, especialmente a região do Algarve, um dos "lugares mais bonitos" que alguma vez visitou e "um lugar maravilhoso para pintar" e, enquanto aí esteve, conseguiu congelar no tempo o estilo de vida do velho mundo (incluindo a população tradicionalmente trajada) que perdurou durante a maior parte do século XX, compondo um alinhamento perfeitamente proporcionado de primitivos barcos de proa alta, modelados a partir dos navios dos antigos fenícios [...] (1)
![]() |
| Portuguese fishing boats, Costa da Caparica, Ogden Minton Pleissner, artnet |
(1) The Lusher gallery
Mais informação:
Ogden Pleissner (Wikipedia)
Shelburne Museum: Pleissner gallery
artnet
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
As praias Trafaria e Caparica em 1900 por Pires Marinho
1 — Os três directores do Club dos Banhistas da Trataria.
2 — O banheiro Manuel Martins que salvou ha dias um banhista.
3 — Antonio da Rocha, por alcunha o "Hersent" da Trataria.
4 — Um grupo do creanças na praia.
5 — A casa do monge na Costa do Caparica.
6 — Na matta da Trataria.
7 — Ao pé das barracas, na praia da Trafaria.
8 — Na estrada para a Costa.
9 — Uma cubata na Costa de Caparica.
10 — As novas casas de Caparica.
11 — Os pescadores a arranjarem a rede.
12 — Um pescador apanhado por uma onda.
13 — Os pescadores puchando para terra um saveiro. (1)
(1) Brasil-Portugal n.° 42, 16 de Outubro de 1900
Pires Marinho:
Occidente, n.° 1253, 20 de outubro de 1913
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
A construção do Barco do Mar por Paul Johnstone
Da Costa [Henrique Ferreira da Costa, Mestre de Ribeira em Pardilhó] has only two daughters and no apparent successor to take over his boat-building business in the little village of Pardilhó near Aveiro.
The incompleteness and briefness of this attempt to record his methods is due partly to our shortage of time there, partly to the interpreter who was willing but uninformed about boats, and partly because at the time da Costa was working on a smaller related, but not identical, type to the "xavega".
The wood he uses for a "xavega" is pine, which grows abundantly in the district, though now frequently mixed with intrusive eucalyptus.
Before construction begins, the strakes are sawn and bent to the right curve. This is done simply by wetting them, putting them under tension and then lighting a fire of pine shavings underneath. For the frames, pine trunks are selected with a single root growing to approximately the right angle left on them.
Unlike the smaller boats which are built in the boatyard itself, the "xavegas" are built in the open air near their launching place, a dock which leads on to one of the great lagoons north of Aveiro, the working area of some of the almost equally remarkable "moliceiros" or seaweed-gathering craft.
The small boat we saw under construction had apparently no particular name other than "barco" the Portuguese for boat. Senhor da Costa seemed to feel that naming the different sorts of boat was a matter for boatmen rather than the builder. Like the "xávega" (or "saveiro") and all the other local boats the "barco" we saw building had no keel.
The process of building begins with a line of posts (which would be called keel blocks if there were a keel) to support the centre-line plank of the boat’s bottom. In the case of the "xávega", these are under the centre line. The tops of these posts follow, in height from the ground, the rocker of the bottom of the craft.
br />
The ones at bow and stem are of course much higher than the others because of the curve of the bottom. The centre-line plank is lightly nailed to each of these blocks with a single iron nail. Rather surprisingly, the bottom of the boat is not completed at this stage.
Gaps are left either side between the centre-line planks and the outer bottom planks. Next, the boat’s centre-line is drawn on the bottom plank, and ticked off at equal intervals to show the positions of the frames. This is done with a measuring rod ("pau dos pontos" in Portuguese) on which are marked the distances from the centre-line to the boat’s hard chine at each frame.
Da Costa has one of these rods for each boat he builds. One face of it has these dimensions for the after frames, numbered from 1 (for the after-most) to 8. Another face carries the dimensions of the forward frames, numbered in a similar manner.
So the bottom of the boat is marked out. A long, light batten (about a one centimetre square in cross-section) is bent round the pencil points, and a pencil line is drawn to represent the chine of the boat either side. The bottom is now sawn to shape.
Meanwhile the frames have been prepared. One adjustable mould governs the shape of all the frames except one at each end. It is the only other measuring instrument used besides the rod. Each frame is in two pieces. The larger L-piece includes almost a complete floor timber. The smaller piece is little more than an upright or futtock. The first frame to be put in place is the forward one.
The larger pieces are built into the boat next, with uprights alternately to port and to starboard, making a pleasing pattern. The upright portions are left overlong and unfinished. The bend of each frame is in fact lined up to the outer bottom plank, i.e. to the chíne.
The curve of the upright portions is drawn on prepared pieces of timber by follo-wing the line of the mould with ink. The curves are then sawn along the lines by two boys with a bow-saw, using a trestle structure instead of a saw-pit.
We observed the lads sawing a considerable bevel by eye. Da Costa explained that an adze [enxó] is used as necessary to finish off the bevel after the frames have been set up.
Next comes the top strake. With a "xavega" Da Costa has a timber offset about five metres long for the top strake, because of its very pronounced sheer.
After first being held in place with clamps and small iron nails, the top strake, like the other planking is permanently secured with treenails.
These treenails are made from roughly-shaped pieces of pine wood sawn from a slab. Da Costa then finishes them with a curious tool rather like a bill-hook. He does this by inserting one in a hole in a wooden roundel and then pressing treenail and roundel against his chest with one hand, leaving the other free for the shaping.
All is done by eye and he leaves a considerable head on one end and slightly slopes off the point at the other. No wedges or inserted metal nails are used to secure the treenails in place. Presumably, being pine, they are soft enough to be compressed when hammered home and then expand enough, especially when wet, to make a tight fit.
Da Costa used an electric drill to make holes for his tree-nails, but he was quick to demonstrate the auger which he had apparently used until recently. The holes are drilled, and the treenails then driven from the outside, dry, without any grease or other preparation. A lad using a saw or an adze cuts off the surplus flush with the inner face of the frame.
Once the top strake is secured in place the frames are trimmed down to its upper edge. The final shape of the boat is now apparent.
The next step is to scarf in the uprights which complete each frame. A simple 45oscarf is used, secured, in the small boat, with a single treenail and in the "xavega" with a quincunx of treenails.
The side planking is completed next, and then a gunwale, i.e. a length of wood running inside the frames level with the top strake. All the side strakes are horizontal, even to the small ones high up in the bow in the "xavega".
This combination of extravagant sheer with horizontal planking is a striking feature of the "xavega" and also of other local craft, the "meia lua", the "moliceiro" and the "mercantel". This combination also appears outside Portugal in the Venetian gondola and the boats of Malta.
Finally, the boat is detached from the blocks and rolled on its side for the remaining bottom planking to be put in place and secured.
The caulking is of hemp, inserted with a normal caulking iron. Pitch is also used on top of the caulking in the seams in the bottom. Five straps round the bottom and sides of the bow and stern respectively, and the thole-pin plates are of metal but, like the other metal fittings, seem after-thoughts or recent additions.
There are also two metal cruciform straps each side which hold the hauling rings for the oxen and two rings on the stem for the same purpose. Metal bolts are used to fasten these but da Costa was at pains to explain to us that metal fastenings were much less satisfactory than treenails, as they had no elasticity and so were more liable to snap. In all, he uses about 1,600 treenails in one ‘xavega’, whose working life is estimated to be about eight to ten years.
Since the planking is bent round and then secured to the larger part of each frame first, and the smaller part of the frame inserted after this has been done, the "xavega" can claim additionally to be built in neither true skeleton nor shell-fashion.
An example of one of these craft, the "San Paio", as has been said, can now be studied in detail at Exeter, and a BBC TV ‘Chronicle’ film was made of one in use at Torreira, which can also be viewed at the Museum. But unfortunately time and cost limited the amount of filming of the construction.
Hence these brief notes, which we hope may encourage more people to contribute to the records of traditional craft, many of which will shortly disappear from use for ever. It all seemed to us that the "xavega" reinforced the arguments of Throckmorton and others that surviving practices tell archaeologists a good deal that it is impossible to deduce from remains alone. (1)
(1) Paul Johnstone/A. F. Tilley, An Unusual Portuguese Fishing Boat, Mariner’s Mirror, Vol 62, no. 1, 1976, p. 15 e seg. cf. Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
A construção do Barco do Mar (apontamentos diversos):
Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988
Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas
Senos da Fonseca, Embarcações que tiveram berço na laguna
O meu barco da Arte Xávega
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja
Arte Xávega em Espinho
![]() |
| (Instantaneos do sr. Alberto Lima) Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900. Arquivo Municipal de Lisboa |
The incompleteness and briefness of this attempt to record his methods is due partly to our shortage of time there, partly to the interpreter who was willing but uninformed about boats, and partly because at the time da Costa was working on a smaller related, but not identical, type to the "xavega".
The wood he uses for a "xavega" is pine, which grows abundantly in the district, though now frequently mixed with intrusive eucalyptus.
![]() |
| Costa da Caparica, Meia-lua, Paul Johnstone. Portuguese fishing boats, Country Life Magazine, 1966 |
Before construction begins, the strakes are sawn and bent to the right curve. This is done simply by wetting them, putting them under tension and then lighting a fire of pine shavings underneath. For the frames, pine trunks are selected with a single root growing to approximately the right angle left on them.
Unlike the smaller boats which are built in the boatyard itself, the "xavegas" are built in the open air near their launching place, a dock which leads on to one of the great lagoons north of Aveiro, the working area of some of the almost equally remarkable "moliceiros" or seaweed-gathering craft.
The small boat we saw under construction had apparently no particular name other than "barco" the Portuguese for boat. Senhor da Costa seemed to feel that naming the different sorts of boat was a matter for boatmen rather than the builder. Like the "xávega" (or "saveiro") and all the other local boats the "barco" we saw building had no keel.
The process of building begins with a line of posts (which would be called keel blocks if there were a keel) to support the centre-line plank of the boat’s bottom. In the case of the "xávega", these are under the centre line. The tops of these posts follow, in height from the ground, the rocker of the bottom of the craft.
![]() |
| Início da construção do Saveiro, Paul Johnstone. An unusual portuguese fishing boat |
Gaps are left either side between the centre-line planks and the outer bottom planks. Next, the boat’s centre-line is drawn on the bottom plank, and ticked off at equal intervals to show the positions of the frames. This is done with a measuring rod ("pau dos pontos" in Portuguese) on which are marked the distances from the centre-line to the boat’s hard chine at each frame.
Da Costa has one of these rods for each boat he builds. One face of it has these dimensions for the after frames, numbered from 1 (for the after-most) to 8. Another face carries the dimensions of the forward frames, numbered in a similar manner.
So the bottom of the boat is marked out. A long, light batten (about a one centimetre square in cross-section) is bent round the pencil points, and a pencil line is drawn to represent the chine of the boat either side. The bottom is now sawn to shape.
Meanwhile the frames have been prepared. One adjustable mould governs the shape of all the frames except one at each end. It is the only other measuring instrument used besides the rod. Each frame is in two pieces. The larger L-piece includes almost a complete floor timber. The smaller piece is little more than an upright or futtock. The first frame to be put in place is the forward one.
![]() |
| Costa da Caparica, Cavername do Meia-lua, Paul Johnstone. Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988 |
The larger pieces are built into the boat next, with uprights alternately to port and to starboard, making a pleasing pattern. The upright portions are left overlong and unfinished. The bend of each frame is in fact lined up to the outer bottom plank, i.e. to the chíne.
The curve of the upright portions is drawn on prepared pieces of timber by follo-wing the line of the mould with ink. The curves are then sawn along the lines by two boys with a bow-saw, using a trestle structure instead of a saw-pit.
![]() |
| Costa da Caparica, Cavername em "L", Paul Johnstone. To illustrate the monuments |
We observed the lads sawing a considerable bevel by eye. Da Costa explained that an adze [enxó] is used as necessary to finish off the bevel after the frames have been set up.
Next comes the top strake. With a "xavega" Da Costa has a timber offset about five metres long for the top strake, because of its very pronounced sheer.
After first being held in place with clamps and small iron nails, the top strake, like the other planking is permanently secured with treenails.
![]() |
| Costa da Caparica, Cavilhas em madeira, Paul Johnstone. To illustrate the monuments |
These treenails are made from roughly-shaped pieces of pine wood sawn from a slab. Da Costa then finishes them with a curious tool rather like a bill-hook. He does this by inserting one in a hole in a wooden roundel and then pressing treenail and roundel against his chest with one hand, leaving the other free for the shaping.
All is done by eye and he leaves a considerable head on one end and slightly slopes off the point at the other. No wedges or inserted metal nails are used to secure the treenails in place. Presumably, being pine, they are soft enough to be compressed when hammered home and then expand enough, especially when wet, to make a tight fit.
Da Costa used an electric drill to make holes for his tree-nails, but he was quick to demonstrate the auger which he had apparently used until recently. The holes are drilled, and the treenails then driven from the outside, dry, without any grease or other preparation. A lad using a saw or an adze cuts off the surplus flush with the inner face of the frame.
Once the top strake is secured in place the frames are trimmed down to its upper edge. The final shape of the boat is now apparent.
The next step is to scarf in the uprights which complete each frame. A simple 45oscarf is used, secured, in the small boat, with a single treenail and in the "xavega" with a quincunx of treenails.
The side planking is completed next, and then a gunwale, i.e. a length of wood running inside the frames level with the top strake. All the side strakes are horizontal, even to the small ones high up in the bow in the "xavega".
This combination of extravagant sheer with horizontal planking is a striking feature of the "xavega" and also of other local craft, the "meia lua", the "moliceiro" and the "mercantel". This combination also appears outside Portugal in the Venetian gondola and the boats of Malta.
Finally, the boat is detached from the blocks and rolled on its side for the remaining bottom planking to be put in place and secured.
The caulking is of hemp, inserted with a normal caulking iron. Pitch is also used on top of the caulking in the seams in the bottom. Five straps round the bottom and sides of the bow and stern respectively, and the thole-pin plates are of metal but, like the other metal fittings, seem after-thoughts or recent additions.
There are also two metal cruciform straps each side which hold the hauling rings for the oxen and two rings on the stem for the same purpose. Metal bolts are used to fasten these but da Costa was at pains to explain to us that metal fastenings were much less satisfactory than treenails, as they had no elasticity and so were more liable to snap. In all, he uses about 1,600 treenails in one ‘xavega’, whose working life is estimated to be about eight to ten years.
Since the planking is bent round and then secured to the larger part of each frame first, and the smaller part of the frame inserted after this has been done, the "xavega" can claim additionally to be built in neither true skeleton nor shell-fashion.
An example of one of these craft, the "San Paio", as has been said, can now be studied in detail at Exeter, and a BBC TV ‘Chronicle’ film was made of one in use at Torreira, which can also be viewed at the Museum. But unfortunately time and cost limited the amount of filming of the construction.
![]() |
| Saveiro meia-lua da Torreira, "S. Paio", Exeter Maritime Museum (1969-1997). eBay |
Hence these brief notes, which we hope may encourage more people to contribute to the records of traditional craft, many of which will shortly disappear from use for ever. It all seemed to us that the "xavega" reinforced the arguments of Throckmorton and others that surviving practices tell archaeologists a good deal that it is impossible to deduce from remains alone. (1)
(1) Paul Johnstone/A. F. Tilley, An Unusual Portuguese Fishing Boat, Mariner’s Mirror, Vol 62, no. 1, 1976, p. 15 e seg. cf. Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
A construção do Barco do Mar (apontamentos diversos):
Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988
Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas
Senos da Fonseca, Embarcações que tiveram berço na laguna
O meu barco da Arte Xávega
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja
Arte Xávega em Espinho
sábado, 1 de fevereiro de 2020
A construção do Barco do Mar por Manuel Leitão
A primeira tábua a ser assente é a "tábua da quilha", na linha mediana. Dado que não existe quilha propriamente dita, este componente, de 3 cm de espessura e 50 em de largura, é um elemento importante da estrutura e deve estar livre de qualquer defeito.
Duas outras tábuas, de forma pré-estabelecida, as "tábuas dos covados", com a mesma espessura e cada uma com 26 cm de largura, são pregadas a 26 "cavernas (paus direitos)" transversais, a conveniente distância de cada lado da primeira tábua, de modo a dar ao fundo a sua forma nas "arestas dos encolamentos".
A altura das cavernas e de 8 cm e a sua largura de 17,5 cm; o seu espaçamento é de 42,5 cm.
Os "braços" são "paus de volta", unidos por "escarvas simples" à face superior das extremidades das cavernas. A sua espessura diminui gradualmente desde o seu pé até à borda do barco, onde a medida da cabeça da baliza é 5,5 cm. A largura diminui tambem com a subida do braço: desde 17,5 cm até 5,5 cm. O braço tem assim a forma quadrada no seu topo. Um vau arqueado ou "barrote", com 3,7 cm de espessura, reúne as cabeças do primeiro par de braços.
São então montadas a "roda de proa" e a "roda de ré", que têm 60 mm de espessura e uma largura média de 12,5 cm, seguidas pelos "forcados da proa" e os "forcados de ré", os quais são balizas em V, sem caverna. As cabeças dos forcados da proa, que se prolongam acima do nível do convés, são conhecidas por "mãozinhas" ou "golfiões".
Tendo sido braceados o fundo e a estrutura central para obter a curva desejada do "tosado do fundo",são colocadas as "tábuas de armar" cuja função é formar e fixar o encolamento.
O próximo passo consiste em montar duas "cintas", uma por bordo, por fora dos braços, medindo 4x15 cm a meia nau e estreitando para 4x12,5 cm nas extremidades, para consolidar a estrutura ao nivel da borda.
Estas cintas ocupam todo o comprimento do barco, e as de bombordo e de estibordo encontram-se avante da roda de proa e por ante-a-ré da roda de ré. Formam, com o "capelo" da roda, a decorativa "bica".
São colocadas "dragas" ou "dormentes" de 3x18 cm no lado interno dos braços, com recortes para receberem os "bancos" ou "trastes" antes da montagem do "forro interior".
A borda falsa é então completada com "bordas", que são peças de revestimento de 2x18 cm escarvadas para o barrote da proa e cortadas junto dos forcados de ré. Os topos dos braços são cobertos por "remates das bordas" (1,5x11 cm), que levam "marrões" ou "chumaceiras" que suportam o atrito dos remos.
Finalmente, são montados os "vaus do convés" e as "tábuas do costado" que ficam encostadas com as cintas e que têm o nome de "tábuas de água e sol", visto que são situadas acima das obras vivas do casco.
Estas tábuas são de 28 mm de espessura e não podem seguir a curva ascendente do tosado nas extremidades do barco, onde os espaços triangulares que permanecem são cheios posteriormente por "fiadas perdidas".
Vira-se então o barco para um dos lados, e depois para o outro, para conseguir o revestimento do fundo, e calafetar e pontar as juntas. O fundo é todo alcatroado antes de endireitar o barco e terminar o revestimento do costado.
Os estrados elevados avante e à ré são conhecidos por "paneiros da proa e da ré", e neles são montados "paus de voga" simples, de 12 cm de diâmetro, mais uns duplos, chamados recoveiras ou trilhapés, nas quais são pregadas tábuas onde alguns dos remadores trabalham de pé.
Os pequenos assentos laterais nos " remates das bordas", são conhecidos por "requintas".
À popa, os "remates das bordas" são sempre feitos em peças separadas, porque precisam de ser substituidas periodicamente, pois o atrito dos cabos de manobra, neste local, vai desgastando a madeira.
Existe urn bloco de madeira de 25x15 cm, o "descanso da muleta", fixado ao cadaste, onde a "forquilha" da extremidade daquela vara é apoiada quando o barco é empurrado para entrar na rebentação do mar além do local onde os homens podem apear.
As ferragens são simples:
— existem 8 ou 10 pares de cintas de ferro, as "boçardas", colocadas 4-5 pares para vante e 4-5 pares para ré, perpendiculares às "arestas dos encolamentos", para as reforçar;
— são montadas "lavaças" ou "verdugos", abauladas e com prolongamentos de fixação sobre os "marrões", de cada lado dos "escalamões" ou "toletes";
— os "arganéus", no costado do barco, são ferros cruciformes, com o topo virado para baixo para receber as "argolas" dos cabos que seguram o barco e não o deixam atravessar na rebentação;
— e finalmente sao fixadas duas "armelas", ou "arganéus", no cadaste por baixo do descanso da muleta, para os "gatos" dos cabos de travagem usados no lançamento.
O comprimento das "lavaças" é de cerca de 70 cm, e os "escalamões" de ferro redondo têm 20 cm de comprimento e um diâmetro de 30 mm. O diâmetro das "armelas" é de 20 cm, e a espessura da barra redonda usada para as fazer é de 25 mm.
Os "remos" são feitos de madeira de castanheiro, eucalipto ou choupo. Nos barcos de 2 remos, têm ambos 11,9 m de comprimento. Nos barcos de 4 remos, há remos com dois comprimentos: 9 m para os remadores de proa e os de voga, e 11 m para os restantes.
O "punho do remo" é de 5 cm de diâmetro, e a medida do "cano" redondo, "cana" ou "haste", diminui desde 15 cm até 5 cm onde encontra a "pá". Um "cágado, com furo" redondo para receber o "escalamão", é pregado na parte de vante da haste, com uma peça de reforço, a "tarma", no lado oposto. O conjunto é consolidado por "arreataduras" de cabo de 15 mm de diâmetro.
Três centimetros acima do corpo do remo existe uma barra de madeira redonda, com 5 cm de diâmetro e 1,2 m de comprimento, a "cabrita", para as mãos dos remadores de pé.
Como se vê, a estrutura do BARCO DO MAR é muito simples e sem problemas maiores; mas é de admirar como dois homens conseguem construir um grande, num só mês! (1)
(1) Manuel Leitão cf. Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
A construção do Barco do Mar (apontamentos diversos):
Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988
Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas
Senos da Fonseca, Embarcações que tiveram berço na laguna
O meu barco da Arte Xávega
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja
Arte Xávega em Espinho
![]() |
| Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900. Arquivo Municipal de Lisboa |
Duas outras tábuas, de forma pré-estabelecida, as "tábuas dos covados", com a mesma espessura e cada uma com 26 cm de largura, são pregadas a 26 "cavernas (paus direitos)" transversais, a conveniente distância de cada lado da primeira tábua, de modo a dar ao fundo a sua forma nas "arestas dos encolamentos".
A altura das cavernas e de 8 cm e a sua largura de 17,5 cm; o seu espaçamento é de 42,5 cm.
![]() |
Museu de Marinha |
Os "braços" são "paus de volta", unidos por "escarvas simples" à face superior das extremidades das cavernas. A sua espessura diminui gradualmente desde o seu pé até à borda do barco, onde a medida da cabeça da baliza é 5,5 cm. A largura diminui tambem com a subida do braço: desde 17,5 cm até 5,5 cm. O braço tem assim a forma quadrada no seu topo. Um vau arqueado ou "barrote", com 3,7 cm de espessura, reúne as cabeças do primeiro par de braços.
São então montadas a "roda de proa" e a "roda de ré", que têm 60 mm de espessura e uma largura média de 12,5 cm, seguidas pelos "forcados da proa" e os "forcados de ré", os quais são balizas em V, sem caverna. As cabeças dos forcados da proa, que se prolongam acima do nível do convés, são conhecidas por "mãozinhas" ou "golfiões".
Tendo sido braceados o fundo e a estrutura central para obter a curva desejada do "tosado do fundo",são colocadas as "tábuas de armar" cuja função é formar e fixar o encolamento.
![]() |
| José Cardoso Pires, à direita, na companhia de Alves Redol, Fonte da Telha, 1957. Hemeroteca Digital |
O próximo passo consiste em montar duas "cintas", uma por bordo, por fora dos braços, medindo 4x15 cm a meia nau e estreitando para 4x12,5 cm nas extremidades, para consolidar a estrutura ao nivel da borda.
Estas cintas ocupam todo o comprimento do barco, e as de bombordo e de estibordo encontram-se avante da roda de proa e por ante-a-ré da roda de ré. Formam, com o "capelo" da roda, a decorativa "bica".
São colocadas "dragas" ou "dormentes" de 3x18 cm no lado interno dos braços, com recortes para receberem os "bancos" ou "trastes" antes da montagem do "forro interior".
A borda falsa é então completada com "bordas", que são peças de revestimento de 2x18 cm escarvadas para o barrote da proa e cortadas junto dos forcados de ré. Os topos dos braços são cobertos por "remates das bordas" (1,5x11 cm), que levam "marrões" ou "chumaceiras" que suportam o atrito dos remos.
Finalmente, são montados os "vaus do convés" e as "tábuas do costado" que ficam encostadas com as cintas e que têm o nome de "tábuas de água e sol", visto que são situadas acima das obras vivas do casco.
Estas tábuas são de 28 mm de espessura e não podem seguir a curva ascendente do tosado nas extremidades do barco, onde os espaços triangulares que permanecem são cheios posteriormente por "fiadas perdidas".
Vira-se então o barco para um dos lados, e depois para o outro, para conseguir o revestimento do fundo, e calafetar e pontar as juntas. O fundo é todo alcatroado antes de endireitar o barco e terminar o revestimento do costado.
![]() |
| Costa da Caparica, Wolfgang Sievers, 1935. eBay |
Os estrados elevados avante e à ré são conhecidos por "paneiros da proa e da ré", e neles são montados "paus de voga" simples, de 12 cm de diâmetro, mais uns duplos, chamados recoveiras ou trilhapés, nas quais são pregadas tábuas onde alguns dos remadores trabalham de pé.
Os pequenos assentos laterais nos " remates das bordas", são conhecidos por "requintas".
À popa, os "remates das bordas" são sempre feitos em peças separadas, porque precisam de ser substituidas periodicamente, pois o atrito dos cabos de manobra, neste local, vai desgastando a madeira.
![]() |
| Costa da Caparica (detalhe), Bento de Jesus Caraça, 1935. Casa Comum |
Existe urn bloco de madeira de 25x15 cm, o "descanso da muleta", fixado ao cadaste, onde a "forquilha" da extremidade daquela vara é apoiada quando o barco é empurrado para entrar na rebentação do mar além do local onde os homens podem apear.
As ferragens são simples:
— existem 8 ou 10 pares de cintas de ferro, as "boçardas", colocadas 4-5 pares para vante e 4-5 pares para ré, perpendiculares às "arestas dos encolamentos", para as reforçar;
— são montadas "lavaças" ou "verdugos", abauladas e com prolongamentos de fixação sobre os "marrões", de cada lado dos "escalamões" ou "toletes";
— os "arganéus", no costado do barco, são ferros cruciformes, com o topo virado para baixo para receber as "argolas" dos cabos que seguram o barco e não o deixam atravessar na rebentação;
— e finalmente sao fixadas duas "armelas", ou "arganéus", no cadaste por baixo do descanso da muleta, para os "gatos" dos cabos de travagem usados no lançamento.
![]() |
Museu de Marinha |
O comprimento das "lavaças" é de cerca de 70 cm, e os "escalamões" de ferro redondo têm 20 cm de comprimento e um diâmetro de 30 mm. O diâmetro das "armelas" é de 20 cm, e a espessura da barra redonda usada para as fazer é de 25 mm.
Os "remos" são feitos de madeira de castanheiro, eucalipto ou choupo. Nos barcos de 2 remos, têm ambos 11,9 m de comprimento. Nos barcos de 4 remos, há remos com dois comprimentos: 9 m para os remadores de proa e os de voga, e 11 m para os restantes.
O "punho do remo" é de 5 cm de diâmetro, e a medida do "cano" redondo, "cana" ou "haste", diminui desde 15 cm até 5 cm onde encontra a "pá". Um "cágado, com furo" redondo para receber o "escalamão", é pregado na parte de vante da haste, com uma peça de reforço, a "tarma", no lado oposto. O conjunto é consolidado por "arreataduras" de cabo de 15 mm de diâmetro.
Três centimetros acima do corpo do remo existe uma barra de madeira redonda, com 5 cm de diâmetro e 1,2 m de comprimento, a "cabrita", para as mãos dos remadores de pé.
![]() |
| (Instantaneos do sr. Alberto Lima) Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900. Arquivo Municipal de Lisboa |
Como se vê, a estrutura do BARCO DO MAR é muito simples e sem problemas maiores; mas é de admirar como dois homens conseguem construir um grande, num só mês! (1)
(1) Manuel Leitão cf. Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
A construção do Barco do Mar (apontamentos diversos):
Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988
Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas
Senos da Fonseca, Embarcações que tiveram berço na laguna
O meu barco da Arte Xávega
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja
Arte Xávega em Espinho
Subscrever:
Mensagens (Atom)

































