sexta-feira, 6 de julho de 2018

Pescadores da Costa da Caparica (1967)

O "meia-lua" era transportado para a borda de água por todos os homens da "companha" que levavam aos ombros uns paus atravessados por cima do barco com esta finalidade.

Excerto do filme Almada - Varanda do Tejo (cor, 35 mm), Ricardo Malheiro, 1967.
Cinemateca Digital

Para ser lançado à rebentação, sem virar, eram necessárias três coisas: uma vara nas mãos do homem da proa ou "vareiro" que resistia ao impulso lateral da corrente que nele actuava; uma vara por baixo da popa, segura por alguns homens do grupo de terra, de um lado ou do outro do barco conforme necessário; e um cabo com um gancho passado a um anel a ré e puxado na direcção oposta.


O barco era então empurrado para a onda e iniciava a progressão com as remadas, guiado por um remo montado a estibordo a ré. 

Regresso de pescadores, Col. Passaporte (LOTY), 370 (61 p/b).
Delcampe

A tripulação consistia no homem da proa (proeiro), seis a oito remadores, um homem a vante para guiar a "arte de arrastar para terra" ou "xávega" assim que esta era lançada pela borda, e o homem do leme que era o patrão e norma1mente o dono da embarcação. 

Costa da Caparica, Pescadores arrastando o seu barco, ed. Passaporte, 371.
Delcampe

O aparelho de pesca era uma rede de arrasto, lançada em semicírculo de maneira que concentrasse o peixe, normalmente sardinha, e depois trazê-lo para a praia. (1)


(1) Revista da Armada n° 369, dezembro de 2002

Tema:
Arte xávega

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Costa de Caparica em 1922


Excertos do filme Os Faroleiros de Maurice Mariaud
Produzido por Raul Caldevilla em 1922
Produção Rui Granadeiro 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

Caparicanas

Ercília Costa (1902 - 1985)

No inicio do nosso século havia um pescador caparicano que nas horas de ócio dedilhava a guitarra. Tocava e desabafava, inconformado com aquilo que, na sua singeleza, chamava triste sina...

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

Havia constituído lar, e nele nasceram três meninas. Uma, a mais viva, de nome Ercília, muito cedo brincou com a guitarra e cantarolou, numa inocente imitação do progenitor. Aos quatro anos, acompanhava a mãe quando esta viajava até Lisboa, e durante a travessia do Tejo, nos vapores da carreira, lá os passageiros achavam graça às cantigas da pequenita, presenteando-a com moedas de cobre. Foram os primeiros aplausos e os primeiros ganhos da futura actriz-cantora.

Mais mulherzinha, veio residir em Lisboa e aprendeu o ofício de costureira de alfaiate. E tudo parecia ser mais uma rica vocação abortada pelo condicionalismo do dia-a-dia.

Ercília Botelho Farinha Salgueiro nasceu na Costa de Caparica a 3 de Agosto de 1902. Filha de Manuel Farinha e de D. Virgínia Maria Botelho. O apelido de Salgueiro adoptou-o apos o casamento com o funcionário bancário José Salgueiro, falecido em 27 de Junho de 1977.

Mas a vocação da jovem Ercília não se iria perder, e o interregno acabaria no dia em que, estando a trabalhar no oficio, alguém (ouvindo-a cantar...) lhe pergunta se queria tomar parte num coro de alunos do Conservatório Nacional, ali perto à Rua dos Caetanos. Tratava-se do Auto do Fim do Dia, prova de exame que teria lugar dali a dias no Teatro de S. Carlos.

O mestre da oficina dispensou-a por umas horas, e a bela voz de Ercília logo foi notada no improvisado coro. Dirigiam os ensaios o Maestro Hermínio do Nascimento, na parte musical, e Mestre António Pinheiro, quanto ao poema. E todos foram unânimes em classificar de esplêndida aquela voz surpreendida numa oficina de alfaiate.

Várias circunstâncias impediram a incipiente cantora de se cultivar. Rapariga pobre, nunca poderia empatar sete anos nos estudos. Mas uma nova oportunidade iria surgir pouco depois e, em 1928, estimulada pelos actores Mario Campos e Eugénio Salvador teste ao tempo doublé de futebolista do 1." team do Sport Lisboa e Benfica). começou a cantar o fado e outras canções.

Ercilia, que, entretanto, se baptizara como artista, unindo o primeiro nome ao da sua terra natal, passou a ser anunciada e conhecida por Ercília Costa.

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Primeiro cantou fados no Olimpia, de Lisboa. Ferro de Engomar, em Benfica. e nos conhecidos retiros da Capital Café Luso, Solar da Alegria e Retiro da Severa. Dois meses após a sua estreia, gravou discos para a Brunswich e Odéon e, terminada essa tarefa, estreou-se no teatro, contratada pelo empresário José Loureiro.

Entretanto, recebia o cartão de artista de variedades. No Trindade, estreou-se na revista A Cigarra e a Formiga. Tempos depois, na Feira da Luz, no Apolo; no Variedades, com Satanela, Raul de Carvalho e Assis Pacheco no Canto da Cigarra; no Coliseu dos Recreios, na História do Fado; no Avenida, no Fogo-de-Vistas; no Maria Vitória, no Rei dos Fadistas: de novo no Coliseu, no Fim do Mundo e Última Maravilha.


Em 1931, visitou as Ilhas, tendo representado em todos os teatros da Madeira e Açores. Depois ici percorrendo todos os palcos do Minho ao Algarve. Em 1934, esteve presente em Vigo, nas festas luso-galaicas, aquando da inauguração da estátua a Camões: e segue logo para Madrid, onde actua em teatros e grava um disco no mesmo dia e na mesma firma em que gravava o argentino Carlos Gardel.

Ercilia é do tempo em que o artista actuava sem o auxílio do microfone. Então era exigido ao cantor, para lá do valor e da qualidade da peça a executar, um domínio absoluto sobre o auditório.

A forte personalidade do cantor tornava-se um factor de extrema importância. Ercilia Costa tinha esta última qualidade em elevado grau, ao ponto de, no enorme Coliseu dos Recreios, com a lotação esgotada (6000 espectadores), quando ela cantava, não se ouvia sequer uma mosca...

Um aspecto da formidável enchente do Coliseu dos Recreios, em cujo palco foi representada a revista O Fim do Mundo, com a participação de Ercília Costa e Leonor d'Eça, 1934.Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

E, como a sua concentração, nesses momentos de transe, a levava, mimicamente, a pôr as mãos como numa prece, alguém, impressionado, disse um dia que ela parecia uma santa a cantar o fado...

Diante do microfone, Ercília foi uma pioneira: no Posto Radiofónico CT1AA, de Abílio Nunes dos Santos, dos Grandes Armazéns do Chiado, foi o primeiro artista a actuar para ser ouvido no estrangeiro.

A nossa biografada, para lá do valor das orquestras que com ela colaboraram em inúmeros espectáculos e audições, pede que não nos esqueçamos do espantoso Armandinho, cuja guitarra por si dedilhada se transformava num coração humano com vida própria.


Quando do seu funeral, Ercília pediu licença à viúva do grande guitarrista para lhe beijar as mãos.

Continuando a citar os vários países e lugares onde a actriz-cantora actuou, temos que: em 1936, foi pela primeira vez ao Brasil, integrada na Companhia de Revista Adelina Abranches-Eva Stachino; por mais duas vezes visitou este país, em 1938 e 1945; nestas digressões percorreu de lés a lés a grande nação sul-americana.

Em 1937, esteve na Exposição Universal de Paris, actuando numa récita de gala no Teatro Campos Elisios, cantando ainda na emissora Rádio-Parisiènne. Em 1939, cantou na Exposição Mundial de Nova Iorque, demorando-se um ano na América do Norte, onde visitou 26 estados, indo até à Califórnia. Voltou aos Estados Unidos oito anos depois. Bing Crosby, Gary Cooper, Leo Carrillo e outros astros de Hollywood foram seus admiradores, presenteando-a com elogiosos autógrafos nas suas fotografias.

Ercilia Costa foi, no seu tempo, o artista português que gravou mais discos, sendo ainda (e isto constitui uma curiosa revelação...) a autora de várias músicas dos seus fados.

Interpretou dois filmes: Amor de Mãe, para a Aguia Filme, e Madragoa, de Perdigão Queiroga.




Leonor de Eça (1905 -1940)

Leonor da Cunha Eça Costa e Almeida veio ao mundo na Caparica a 8 de Agosto de 1905. Filha de João Lopo da Cunha de Eça e Almeida e de D. Maria Madre de Deus Dinis Almeida.

Leonor de Eça,
Margarida no filme As Pupilas do Senhor Reitor,
Leitão de Barros, 1935.
Imagem: Hemeroteca Digital

Actriz teatral e cinematográfica. Estreou-se em Abril de 1926 no Teatro Nacional, substituindo a actriz Ester Leão na protagonista de O Amor Vence, onde obteve êxito.

Desempenhou cerca de duas dezenas de papéis neste palco, dirigido por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Foi duas vezes ao Brasil e trabalhou em quase todos os teatros de Lisboa, Porto e outras cidades.

A chegada, a Lisboa, da artista brasileira Aracelis Castor Bastos, na foto Estêvão Amarante, Aracelis Castor Bastos, Maria Velez, Maria Castelar, Leonor de Eça, Raul de Carvalho, 1936.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No cinema, toma parte nos filmes As Pupilas do Sr. Reitor, de Leitão de Barros, e Pão Nosso, de Armando de Miranda. No primeiro filme foi premiada no Rio de Janeiro pelo seu desempenho de "Margarida". (2)




(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Idem 

Informação relacionada:
Interpretações de Ercília Costa
Leonor de Eça no Dicionário do Cinema Português de Jorge Leitão Ramos

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma excursão alegre à Praia do Sol

Quatro meninas lisboetas, cheias de espírito de empreendimento, atraídas pelo sol, resoveram de um momento para o outro fazer uma excursão à Praia da Caparica.


De braço dado seguem para a praia. Nenhuma sabe o que as espera, e é precisamente esta atmosfera de aventura e de incerteza que torna a excursão tão atraente.

O reporter do "Sinal", Leopold Fiedler, teve o prazer de as acompanhar, apanhando com a sua objectiva as aventuras das irrequietas alfacinhas na praia, episódios ao sol e à beira mar, que dão alegria e novas energias, deixando esquecer os cuidados e afazeres cotidianos.

Almoçam num pequeno restaurante de Caparica. A Carmen, que gosta de dançar, imita diante do seu "público" uma bailarina conhecida.


Na praia. Três das meninas subiram para a prôa de um dos característicos barcos de pesca, em quanto a quarta dá o seu passeio, montada num burro.


O que os pescadores fazem não deve ser difícil para as mãos habilidosas das "meninas", o que elas põem imediatamente à prova.


Uma das quatro desconhecia uma fonte, o que dá azo a novas brincadeiras. (1)


A presença Alemã em Portugal durante o período da II Guerra Mundial foi articulada na sua maior parte através da actividade dos Serviços da Legação.

Entre estes, tomou alguma proporção o Serviço de Propaganda que se dotou duma estrutura hierarquizada e bem organizada na qual empregou no período de 1941-43 “cerca de 70 funcionários permanentes e centenas de voluntários em todo o país” (António José Telo, “Propaganda e Guerra Secreta em Portugal” Perspectivas & Realidades Lisboa Maio de 1990).

Sinal (edição portuguesa da publicação alemã Signal) n° 6, 1944.
iOffer

O Serviço de Propaganda da Legação Alemã era dirigido pelo seu chanceler Dr. Wilhelm Klein, com quem trabalhava o homem que dirige a SINAL em Portugal: Kurt Zehntner (Rui Araújo, "O Império dos Espiões", Oficina do Livro, Lisboa Outubro de 2010). (2)


(1) Signal Magazine
(2) Idem

segunda-feira, 30 de abril de 2018

As lágrimas das coisas!

Deixei na cidade as satyras,
Com as brumas da invernia:
Venho ao campo — um dia esplendido!
— E eu alegre, como o dia!

Lisboa vista da margem sul, Johann Heinrich Luttringshausen (1783-1857).
Imagem: arcadja

Tardou em chegar abril;
Mas agora é que deveras
Vem mais robusto e gentil
Do que n'outras primaveras.

Rebenta na encosta os pâmpanos;
Enflora o pomar nas hortas.
Cheio o regaço de dadivas,
Já bate a todas as portas!

É tal a forca de luz
E de vigor, que elle traz,
Que, ao ver-lhe a face, eu suppuz
Que estava feito um rapaz!

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em volta do ninho os pássaros,
Palpitando de desejos;
E as rosas, abrindo as túnicas,
Aos cravos atiram beijos!


Quando até as próprias rosas
Beijam cravos a tremer,
Quantas coisas mysteriosas
No coração da mulher!...

Este bello sol deslumbra-me,
E arrebata-me ao passado...
Era assim!... Um dia fulgido!
Céo azul, em flor o prado!

Vista panorâmica de Lisboa ocidental, Maria Guilhermina Silva Reis.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um vestidito singello,
Ao peito um cravo vermelho,
Posto em tranças o cabello;
E sem consultar o espelho,

Vinha commigo. Julgando-me
Moço de rara sapiência,
Ouvia, exultando, as syntheses,
Próprias da minha sciencia...

Cantavam ao desafio,
Nas pedras batendo as roupas,
As lavadeiras no rio,
E as toutinegras nas choupas.

Costa da Caparica,  ed. Passaporte, 7, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Rosada, fresca, alegríssima, —
Encantadora creança, —
Raiavam-lhe os olhos límpidos,
E verdes como a esperança!

Um mal-me-quer do balsedo
Tomou nas mãos pequeninas,
E foi dizendo, em segredo,
As palavras sybillinas.

— Muito, muito! — exclamou, trémula,
E pela primeira vez,
Demudou-lhe o rosto, súbita,
Uma grande pallidez!

Esperando o peixe, Adolfo Rodrigues, 1893.
Imagem: arquipélagos

Ao despedir-se de mim,
N'um vivo aperto de mão
Disse tudo quanto emfim
Diz, na mudez, a paixão!

E cahiu d'aquellas pálpebras
Uma pérola do amor,
Como cae o orvalho rutilo
Da aurora sobre uma flor!

Ha muito que a rosa agreste,
D'olhos verdes como a esp'rança,
Dorme á sombra d'um cypreste. . .
Desventurada creanca!

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Ó sol d'abril, tu cegaste-me!
Debalde acudo ao passado,
Que não volta a flor do espirito,
Como volta a flor do prado!

Monte de Caparica, abril 20, 1888. (1)


(1) Bulhão Pato, Sunt lacrimae rerum!, Hoje, sátiras, canções e idyllios, Lisboa, 1888

sexta-feira, 2 de março de 2018

Costa de Caparica, toponímias de 1951

Exm.° Sr. Presidente da Câmara Municipal de Almada Exm.° Senhor A Comissão de Toponímia Municipal, a que tenho a honra de presidir, tendo em vista os elementos de informação que recolheu, deliberou dar parecer favorável às sugestões formuladas pela Junta de Freguesia da Costa de Caparica, relativas à nova nomenclatura dos arruamentos das povoações que a constituem, e, assim, vem depôr nas mãos de V. Ex.a o seu relatório, para ser apreciado e, para sobre ele, incidirem as resoluções que essa Exm.a Câmara houver por convenientes.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica executado em 1954.
Imagem: Biblioteca Digital do Exército

Nestes termos, vem a sobredita Comissão propor que, em relação à povoação e praia da Costa de Caparica, 

1.° — se mantenha a actual denominação de Avenida da República dada ao arruamento que conduz [do antigo Largo do Chafariz, depois Largo Comandante Sá Linhares, hoje Largo da Liberdade] ao largo da igreja local, por representar uma antiga homenagem ao regimem da nação;

Costa da Caparica, Avenida da República, 1962.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

2.° — se dê à Avenida n.° 1 o topónimo de Avenida Agro Ferreira, como homenagem à personalidade a quem, entre outros benefícios, a Costa ficou devendo as primeiras tentativas de uma urbanização séria [proposta não aprovada, a Avenida n.° 1 seria a Avenida Dr. Oliveira Salazar, hoje parte da Avenida General Humberto Delgado]

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

3.° — se dê à Avenida n.° 2 o nome de Avenida Dr. Oliveira Salazar, Chefe do Governo, a quem a Nação deve, em trabalhos e sacrifícios inesquecíveis, a sua grandeza e prosperidade [proposta não aprovada, a Avenida n.° 2 seria a Avenida Marechal Carmona]

4.° — se dê à Avenida n.° 3 o nome de Avenida Presidente Carmona, como homenagem à memória do saudoso Chefe da Nação [proposta não aprovada, a Avenida n.° 3 seria a Avenida Agro Ferreira]

5.° — se dê à Avenida n.°5 a denominação de Avenida Comandante Tenreiro [actual Avenida 1.° de Maio], como demonstração do grande carinho e gratidão que toda a Costa de Caparica sente pela pessoa que tem proporcionado aos seus pescadores os benefícios de uma assistência social, a todos os títulos notável;

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

6.° — se mantenha a denominação de Rua dos Pescadores dada à rua principal de acesso à praia da Costa, como homenagem à memória dos primitivos pescadores que tornaram possível a existência desta já hoje notável povoação; 

Costa da Caparica, Rua dos Pescadores, ed. Passaporte, 93, década de 1950.
Imagem: Delcampe

7.° — se mantenha também os nomes das Ruas Prof. Dr. Salazar de Sousa, Dr Barros de Castro e Dr. Castro Freire, pela justíssima homenagem que representam a individualidades portuguesas de renome científico, a quem a Costa ficou devendo prestigiosa propaganda das suas belezas naturais, condições climatéricas e helioterápicas; 

8.° — se mantenham igualmente as denominações das Ruas M. D. (Maria Dulce); M. L. (Manuel Luís); M. M. (Maria Manuela); A. M. (Ana Maria) [familia Agro Ferreira], por representarem homenagem a pessoas que, pelo seu devotado amor à Costa, dela foram propagandistas militantes; 

9.° — se dê à Rua Capitão Ribeiro da Cruz, o nome de Rua Ribeiro da Cruz , como homenagem que lhe foi dispensada por virtude dos melhoramentos levados a cabo pela vereação da sua antiga presidência;

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

10.° — se mantenha a denominação da Rua Costa Pinto, antigo deputado do extinto regime, a quem os pescadores da Costa tanto ficaram a dever em benefícios de carácter social; 

11.° — se mantenha a antiga denominação de Rua Dr. Francisco Inácio, por representar homenagem a um dos mais dedicados propagandistas da praia da Costa, individualidade que fez parte da Comissão pró-Bairro Costa Pinto;

12.° — se mantenha o nome de Rua das Flores, dado ao armamento que há muitos anos o usa, pois que, consagrado já pelo povo, inútil se toma qualquer alteração toponímica;

13.° — se dê à antiga. Rua das Terras o nome de Rua Dr. Aresta Branco , como homenagem ao ilustre clínico, em quem a Costa teve sempre um amigo e propagandista de eleição;

14.° — se dê a outro prolongamento da referida Rua das Terras o nome de Rua Narciso Alves Xavier, como homenagem à memória de quem sempre se mostrou amigo e defensor dos interesses da Praia da Costa.

15.° — se dê à rua constituída pelo leito da estrada de Cacilhas, no troço integrado no perímetro da localidade, a denominação de Rua do Monte de Caparica, como homenagem à povoação, dentro de cuja freguesia nasceu a Costa, que usa o seu complemento toponímico [actual Rua Horácio da Silva Louro];

Costa da Caparica, Praia do Sol, Vista Parcial, ed. desc.
Imagem: Delcampe

16.° — se mantenha, por estar arreigado na tradição, o nome de Largo da Corôa ao largo onde ainda existe o prédio que serviu de aposentadoria a D. João VI, o qual muito apreciava as belezas da praia;

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

17.° — se dê ao Largo do Chafariz o nome de Largo Comandante Sá Linhares, como homenagem ao ilustre presidente da Câmara Municipal de Almada, ao accionado de cuja vereação, criteriosamente orientada pela Sua Ex.a, deve a Costa de Caparica o brilhante progresso que lhe está dando nova fisionomia turística enriquecendo-a como estância de cura e repouso inconfundível;

18.° — se dê ao Largo da Praia o nome de Rua Vasco da Gama, como homenagem ao grande descobridor, a quem o ouro das areias da Costa iluminou o caminho que havia de o levar à Índia [hoje, Largo Vasco da Gama]; 

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

19.° — se mantenha a antiga denominação de António Martins "Sacho", dada ao arruamento assim conhecido, como homenagem do povo da Costa a um dos mais zelosos funcionários que o têm servido; 

20.° — se dê à Rua n.° 1 a denominação de Rua de Olivença, por evocar uma antiga terra portuguesa, ainda hoje considerada na posse espiritual dos portugueses, posto que submetida ao domínio material e político de país estrangeiro [proposta não aprovada, a rua n.° 1 seria a rua dos Ílhavos, no então Bairro do Convento]

Costa da Caparica, uma moradia no Bairro do Convento.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

21.°— se dê à Rua n.° 2 o nome de Rua dos Saveiros, para evocação dos pescadores ílhavos que colonizaram em parte a praia da Costa e que fizeram com que as campanhas primitivas adoptassem o tipo tão característico dos barcos conhecidos por "meias luas"; 

22.°— se dê à Rua n.° 3 a denominação de Rua Eng.° Duarte Pacheco, em homenagem à figura do Ministro ilustre, que soube materializar, em melhoramentos de concepção grandiosa e utilitária, o alto pensamento patriótico da obra do Estado Novo;

23.° — se dê à Rua n.° 4 o nome de Rua Teixeira da Cunha, como homenagem rendida a uma individualidade a quem a Costa; que muito lhe deve, considera um dos seus grandes beneméritos; 

24.° — se dê à Rua n.° 6 a denominação de Rua Mestre Bexiga, por ter sido este quem, por assim dizer, instituiu no século XVIII, na Costa de Caparica, a indústria da pesca; 

25.° — se dê à Rua n.° 7 o nome de Rua Dr. Albuquerque, distintíssima figura de cidadão e de médico, querida de todos os trabalhadores do concelho de Almada, onde faleceu em 1907 e a quem a população da Costa considerou sempre um grande amigo e benemérito (ver junto a este a informação do Exm.° sr. Conde dos Arcos); 

26.°— se dê à Rua n.° 8 o nome da Rua do Mestre Manuel, o qual foi também um dos fundadores da arte da pesca na Costa de Caparica; 

27.° — se dê a um dos prolongamentos da referida Rua n.° 8 o nome de Rua Conselheiro Manuel Luís Fernandes, cavalheiro que foi um grande amigo dos pescadores da Costa e antigo presidente deste município; 

28.° — se dê à Rua n.° 9 a denominação de Rua D. João VI, monarca que manifestou sempre grande simpatia pela praia da Costa;

29.° — se dê à Rua n.° 10 o nome de Rua do Padre Baltazar, inesquecível figura de sacerdote, "apóstolo da Verdade e da Justiça", por quem os pobres da Costa sentiam ferverosa admiração;

30.° — se dê à Rua n° 11 a denominação de Rua Gil Fanes, em memória do grande navegador que, ao serviço do infante D. Henrique, foi o primeiro a ultrapassar o Cabo Bojador, dando glorioso início à época dos grandes descobrimentos; 

31.° — se dê à Rua n° 12 a denominação de Rua do Mestre Salvador, para perpetuidade do nome de um dos pescadores mais estimados da Costa de Caparica; 

32.° — se dê à Rua n.° 13 o nome de Rua Manuel da Costa, em homenagem à pessoa que, auxiliando numerosos pobres sem lar próprio, tanto contribuiu, com o seu dinâmico poder de construtor, para o desenvolvimento urbanístico da zona sul da Costa de Caparica; 

33.° — se dê à Rua n.° 14 a denominação de Rua Padre Manuel Luís, para lembrança do nome de um dos mais ilustres filhos da povoação da Costa;

34.° — se dê à Rua n.° 15 o nome de Rua Patrão Lopes, para memória do glorioso marítimo, salvador de numerosas vidas [hoje rua Mestre Adrião];

35.° — se dê à Rua n.° 20 a denominação de Rua do Mestre Joaquim Pedro, topónimo que recordará aos vindouros mais um dos velhos instituidores da indústria da pesca na Costa;

36.° — se dê à Rua n.° 23 a denominação de Rua Victorino José da Silva, para que se perpetue o nome dum honrado cidadão que muito prestigiou a povoação da Costa; 

37.° — se dê à Rua n.° 24 a denominação de Rua do Mestre João Lopes, comemorativa de outro dos corajosos instituidores da arte da pesca na Costa; 

38.° — se dê à Rua n.° 25 o nome de Rua Dr. Leite Lage, para memória da distinta personalidade do que foi um dos mais autorizados propagandistas clínicos da grande praia da Costa; 

39.° — se dê à Rua n.° 30 o nome de Rua Joaquim Matosa, evocando assim uma das figuras de relevo no meio local, quando a Costa, estância balnear de formação ainda incipiente, carecia do esforço e do amparo de verdadeiros amigos, como ele o soube ser;

40.° — se dê à Rua n.° 31 o nome de Rua de João Alfama, como homenagem a uma das mais humanas figuras de beneméritos que pisaram o solo arenoso da velha Costa de Caparica, onde ele foi o anjo tutelar de tantos corpos sôfregos de pão e de tantas almas sedentas de amparo espiritual;

41.° – se dê à Rua n.° 32 a denominação de Rua do Mestre Arnaldo dos Santos, pondo em recordação a pessoa de mais outro dos velhos pescadores que iniciaram a faina da pesca na extensa zona oceânica, em cujos areais a Costa nasceu; 

42.° — se dê, ao troço de ligação das Ruas n.os 10 a 12, o nome de Rua Elisa Barão, como homenagem à respeitabilíssima senhora a quem a Costa, desde a primeira hora do seu ressurgimento urbanístico, mereceu o interesse e o carinho mais entusiásticos; 

43.° — se dê ao ponto de ligação da actual Escola, a denominação de Rua João Teotónio Pereira, como homenagem a seus filhos, a um dos quais o Sr. Luís Teotónio Pereira, Almada deve a iniciativa e a realização de melhoramentos que a muito enobrecem;

44.° — se dê à Rua n.° 1 – Bairro do Convento – a denominação de Rua dos Ilhavos, por coincidir com o local onde se fixaram na Costa de Caparica os pri-meiros pescadores da região de Aveiro .

Mais, em relação à povoação denominada Quinta de Santo António, vem igualmente a Comissão de Toponímia propôr que:

Quinta de Santo Antonio e Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

1.° — se dê à 1.a rua paralela à estrada que serve a referida localidade, a denominação de Rua de Almada, homenagem à vila, sede deste concelho, de tão gloriosas tradições históricas;

2.° — se dê à 2.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua da Costa,por ser em território hoje compreendido na área da nova freguesia, que nasceu, sob signo doirado, a Quinta de Santo António;

3.° — se dê à 3.a rua paralela à dita estrada da Trafaria, a denominação de Rua do Norte, o que se harmoniza com a sua orientação topográfica, facilitando a sua identificação;

4.° — se dê à avenida ali aberta a denominação de Avenida do Oceano, topónimo que se coaduna com a localização da Quinta de Santo António, tão perto do Atlântico;

5.° — se dê à 4.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua dos Fortes, que demoram próximo da povoação;

6.° — se dê à 1.a rua transversal o nome de Rua de Santo António, por ser este o onomástico da quinta que originou a povoação;

7.° — se dê à 2.a rua transversal a denominação de Avenida do Mar, por ser o hálito do mar que bafeja e salubriza a pitoresca povoação;

8.° — se dê, finalmente, à 3a rua transversal o topónimo de Rua da Mata, por virtude da contiguidade da Mata florestal, cujas essências perfumam permanentemente a povoação.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Estudo urbanístico do arquitecto Faria da Costa.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

Dando por concluída mais esta fase dos seus trabalhos, a Comissão de Toponímia apresenta os seus respeitosos cumprimentos a V. Ex.a e aos seus devotados colaboradores na Vereação.

A bem da Nação
Paços do Concelho de Almada, 19 de Junho de 1951
O Presidente da Comissão
Silvestre Rosmaninho. (1)



(1) Almada na História, Boletim de Fontes Documentais n.° 13-14

Artigo relacionado:
Plano de Urbanização da Costa da Caparica

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Vira do Mar

Vamos cachopas da Costa 
O nosso Vira dançar 
P'ra mostrar que o povo gosta 
Do Vira de beira-mar.

Costa da Caparica, Puxando a barca para a pesca,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 613.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Dançamos em redemoinho, 
Como mar encapelado.
As nossas voltas são ondas 
Ou são renda de toucado.

Costa da Caparica, Saindo para o mar, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 173.
Imagem: Delcampe

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar. 
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. 

Vira da Nazaré, Estremadura, Mário Costa (1902-1975).
Imagem:Nova Casa Portuguesa

O nosso Vira nasceu 
Mesmo a beira do mar,
Foi beijado pelo Céu, 
Iluminado ao luar. 

Costa da Caparica, Preparando as redes,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 615.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

O mar também dança o Vira
Com sua ondulação,
E a nossa marcha gira, 
Com amores no coração. 

Costa da Caparica, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 614.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar,
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. (1)



(1) Letra de Antero Espírito Santo Musica de José Duarte Pedroso
cf. Mário Silva Neves, Tu, Costa Minha!... o passado e o presente, 2002