quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma excursão alegre à Praia do Sol

Quatro meninas lisboetas, cheias de espírito de empreendimento, atraídas pelo sol, resoveram de um momento para o outro fazer uma excursão à Praia da Caparica.


De braço dado seguem para a praia. Nenhuma sabe o que as espera, e é precisamente esta atmosfera de aventura e de incerteza que torna a excursão tão atraente.

O reporter do "Sinal", Leopold Fiedler, teve o prazer de as acompanhar, apanhando com a sua objectiva as aventuras das irrequietas alfacinhas na praia, episódios ao sol e à beira mar, que dão alegria e novas energias, deixando esquecer os cuidados e afazeres cotidianos.

Almoçam num pequeno restaurante de Caparica. A Carmen, que gosta de dançar, imita diante do seu "público" uma bailarina conhecida.


Na praia. Três das meninas subiram para a prôa de um dos característicos barcos de pesca, em quanto a quarta dá o seu passeio, montada num burro.


O que os pescadores fazem não deve ser difícil para as mãos habilidosas das "meninas", o que elas põem imediatamente à prova.


Uma das quatro desconhecia uma fonte, o que dá azo a novas brincadeiras. (1)


A presença Alemã em Portugal durante o período da II Guerra Mundial foi articulada na sua maior parte através da actividade dos Serviços da Legação.

Entre estes, tomou alguma proporção o Serviço de Propaganda que se dotou duma estrutura hierarquizada e bem organizada na qual empregou no período de 1941-43 “cerca de 70 funcionários permanentes e centenas de voluntários em todo o país” (António José Telo, “Propaganda e Guerra Secreta em Portugal” Perspectivas & Realidades Lisboa Maio de 1990).

Sinal (edição portuguesa da publicação alemã Signal) n° 6, 1944.
iOffer

O Serviço de Propaganda da Legação Alemã era dirigido pelo seu chanceler Dr. Wilhelm Klein, com quem trabalhava o homem que dirige a SINAL em Portugal: Kurt Zehntner (Rui Araújo, "O Império dos Espiões", Oficina do Livro, Lisboa Outubro de 2010). (2)


(1) Signal Magazine
(2) Idem

segunda-feira, 30 de abril de 2018

As lágrimas das coisas!

Deixei na cidade as satyras,
Com as brumas da invernia:
Venho ao campo — um dia esplendido! —
— E eu alegre, como o dia!

Lisboa vista da margem sul, Johann Heinrich Luttringshausen (1783-1857).
Imagem: arcadja

Tardou em chegar abril;
Mas agora é que deveras
Vem mais robusto e gentil
Do que n'outras primaveras.

Rebenta na encosta os pâmpanos;
Enflora o pomar nas hortas.
Cheio o regaço de dadivas,
Já bate a todas as portas!

É tal a forca de luz
E de vigor, que elle traz,
Que, ao ver-lhe a face, eu suppuz
Que estava feito um rapaz!

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em volta do ninho os pássaros,
Palpitando de desejos;
E as rosas, abrindo as túnicas,
Aos cravos atiram beijos!


Quando até as próprias rosas
Beijam cravos a tremer,
Quantas coisas mysteriosas
No coração da mulher!...

Este bello sol deslumbra-me,
E arrebata-me ao passado...
Era assim!... Um dia fulgido!
Céo azul, em flor o prado!

Vista panorâmica de Lisboa ocidental, Maria Guilhermina Silva Reis.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um vestidito singello,
Ao peito um cravo vermelho,
Posto em tranças o cabello;
E sem consultar o espelho,

Vinha commigo. Julgando-me
Moço de rara sapiência,
Ouvia, exultando, as syntheses,
Próprias da minha sciencia...

Cantavam ao desafio,
Nas pedras batendo as roupas,
As lavadeiras no rio,
E as toutinegras nas choupas.

Costa da Caparica,  ed. Passaporte, 7, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Rosada, fresca, alegríssima, —
Encantadora creança, —
Raiavam-lhe os olhos límpidos,
E verdes como a esperança!

Um mal-me-quer do balsedo
Tomou nas mãos pequeninas,
E foi dizendo, em segredo,
As palavras sybillinas.

— Muito, muito! — exclamou, trémula,
E pela primeira vez,
Demudou-lhe o rosto, súbita,
Uma grande pallidez!

Esperando o peixe, Adolfo Rodrigues, 1893.
Imagem: arquipélagos

Ao despedir-se de mim,
N'um vivo aperto de mão
Disse tudo quanto emfim
Diz, na mudez, a paixão!

E cahiu d'aquellas pálpebras
Uma pérola do amor,
Como cae o orvalho rutilo
Da aurora sobre uma flor!

Ha muito que a rosa agreste,
D'olhos verdes como a esp'rança,
Dorme á sombra d'um cypreste. . .
Desventurada creanca!

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Ó sol d'abril, tu cegaste-me!
Debalde acudo ao passado,
Que não volta a flor do espirito,
Como volta a flor do prado!

Monte de Caparica, abril 20, 1888. (1)


(1) Bulhão Pato, Sunt lacrimae rerum!, Hoje, sátiras, canções e idyllios, Lisboa, 1888

sexta-feira, 2 de março de 2018

Costa de Caparica, toponímias de 1951

Exm.° Sr. Presidente da Câmara Municipal de Almada Exm.° Senhor A Comissão de Toponímia Municipal, a que tenho a honra de presidir, tendo em vista os elementos de informação que recolheu, deliberou dar parecer favorável às sugestões formuladas pela Junta de Freguesia da Costa de Caparica, relativas à nova nomenclatura dos arruamentos das povoações que a constituem, e, assim, vem depôr nas mãos de V. Ex.a o seu relatório, para ser apreciado e, para sobre ele, incidirem as resoluções que essa Exm.a Câmara houver por convenientes.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica executado em 1954.
Imagem: Biblioteca Digital do Exército

Nestes termos, vem a sobredita Comissão propor que, em relação à povoação e praia da Costa de Caparica, 

1.° — se mantenha a actual denominação de Avenida da República dada ao arruamento que conduz [do antigo Largo do Chafariz, depois Largo Comandante Sá Linhares, hoje Largo da Liberdade] ao largo da igreja local, por representar uma antiga homenagem ao regimem da nação;

Costa da Caparica, Avenida da República, 1962.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

2.° — se dê à Avenida n.° 1 o topónimo de Avenida Agro Ferreira, como homenagem à personalidade a quem, entre outros benefícios, a Costa ficou devendo as primeiras tentativas de uma urbanização séria [proposta não aprovada, a Avenida n.° 1 seria a Avenida Dr. Oliveira Salazar, hoje parte da Avenida General Humberto Delgado]; 

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

3.° — se dê à Avenida n.° 2 o nome de Avenida Dr. Oliveira Salazar, Chefe do Governo, a quem a Nação deve, em trabalhos e sacrifícios inesquecíveis, a sua grandeza e prosperidade [proposta não aprovada, a Avenida n.° 2 seria a Avenida Marechal Carmona]; 

4.° — se dê à Avenida n.° 3 o nome de Avenida Presidente Carmona, como homenagem à memória do saudoso Chefe da Nação [proposta não aprovada, a Avenida n.° 3 seria a Avenida Agro Ferreira]; 

5.° — se dê à Avenida n.°5 a denominação de Avenida Comandante Tenreiro [actual Avenida 1.° de Maio], como demonstração do grande carinho e gratidão que toda a Costa de Caparica sente pela pessoa que tem proporcionado aos seus pescadores os benefícios de uma assistência social, a todos os títulos notável;

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

6.° — se mantenha a denominação de Rua dos Pescadores dada à rua principal de acesso à praia da Costa, como homenagem à memória dos primitivos pescadores que tornaram possível a existência desta já hoje notável povoação; 

Costa da Caparica, Rua dos Pescadores, ed. Passaporte, 93, década de 1950.
Imagem: Delcampe

7.° — se mantenha também os nomes das Ruas Prof. Dr. Salazar de Sousa, Dr Barros de Castro e Dr. Castro Freire, pela justíssima homenagem que representam a individualidades portuguesas de renome científico, a quem a Costa ficou devendo prestigiosa propaganda das suas belezas naturais, condições climatéricas e helioterápicas; 

8.° — se mantenham igualmente as denominações das Ruas M. D. (Maria Dulce); M. L. (Manuel Luís); M. M. (Maria Manuela); A. M. (Ana Maria) [familia Agro Ferreira], por representarem homenagem a pessoas que, pelo seu devotado amor à Costa, dela foram propagandistas militantes; 

9.° — se dê à Rua Capitão Ribeiro da Cruz, o nome de Rua Ribeiro da Cruz , como homenagem que lhe foi dispensada por virtude dos melhoramentos levados a cabo pela vereação da sua antiga presidência;

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

10.° — se mantenha a denominação da Rua Costa Pinto, antigo deputado do extinto regime, a quem os pescadores da Costa tanto ficaram a dever em benefícios de carácter social; 

11.° — se mantenha a antiga denominação de Rua Dr. Francisco Inácio, por representar homenagem a um dos mais dedicados propagandistas da praia da Costa, individualidade que fez parte da Comissão pró-Bairro Costa Pinto;

12.° — se mantenha o nome de Rua das Flores, dado ao armamento que há muitos anos o usa, pois que, consagrado já pelo povo, inútil se toma qualquer alteração toponímica;

13.° — se dê à antiga. Rua das Terras o nome de Rua Dr. Aresta Branco , como homenagem ao ilustre clínico, em quem a Costa teve sempre um amigo e propagandista de eleição;

14.° — se dê a outro prolongamento da referida Rua das Terras o nome de Rua Narciso Alves Xavier, como homenagem à memória de quem sempre se mostrou amigo e defensor dos interesses da Praia da Costa.

15.° — se dê à rua constituída pelo leito da estrada de Cacilhas, no troço integrado no perímetro da localidade, a denominação de Rua do Monte de Caparica, como homenagem à povoação, dentro de cuja freguesia nasceu a Costa, que usa o seu complemento toponímico [actual Rua Horácio da Silva Louro];

Costa da Caparica, Praia do Sol, Vista Parcial, ed. desc.
Imagem: Delcampe

16.° — se mantenha, por estar arreigado na tradição, o nome de Largo da Corôa ao largo onde ainda existe o prédio que serviu de aposentadoria a D. João VI, o qual muito apreciava as belezas da praia;

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

17.° — se dê ao Largo do Chafariz o nome de Largo Comandante Sá Linhares, como homenagem ao ilustre presidente da Câmara Municipal de Almada, ao accionado de cuja vereação, criteriosamente orientada pela Sua Ex.a, deve a Costa de Caparica o brilhante progresso que lhe está dando nova fisionomia turística enriquecendo-a como estância de cura e repouso inconfundível;

18.° — se dê ao Largo da Praia o nome de Rua Vasco da Gama, como homenagem ao grande descobridor, a quem o ouro das areias da Costa iluminou o caminho que havia de o levar à Índia [hoje, Largo Vasco da Gama]; 

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

19.° — se mantenha a antiga denominação de António Martins "Sacho", dada ao arruamento assim conhecido, como homenagem do povo da Costa a um dos mais zelosos funcionários que o têm servido; 

20.° — se dê à Rua n.° 1 a denominação de Rua de Olivença, por evocar uma antiga terra portuguesa, ainda hoje considerada na posse espiritual dos portugueses, posto que submetida ao domínio material e político de país estrangeiro [proposta não aprovada, a rua n.° 1 seria a rua dos Ílhavos, no então Bairro do Convento]; 

Costa da Caparica, uma moradia no Bairro do Convento.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

21.°— se dê à Rua n.° 2 o nome de Rua dos Saveiros, para evocação dos pescadores ílhavos que colonizaram em parte a praia da Costa e que fizeram com que as campanhas primitivas adoptassem o tipo tão característico dos barcos conhecidos por "meias luas"; 

22.°— se dê à Rua n.° 3 a denominação de Rua Eng.° Duarte Pacheco, em homenagem à figura do Ministro ilustre, que soube materializar, em melhoramentos de concepção grandiosa e utilitária, o alto pensamento patriótico da obra do Estado Novo;

23.° — se dê à Rua n.° 4 o nome de Rua Teixeira da Cunha, como homenagem rendida a uma individualidade a quem a Costa; que muito lhe deve, considera um dos seus grandes beneméritos; 

24.° — se dê à Rua n.° 6 a denominação de Rua Mestre Bexiga, por ter sido este quem, por assim dizer, instituiu no século XVIII, na Costa de Caparica, a indústria da pesca; 

25.° — se dê à Rua n.° 7 o nome de Rua Dr. Albuquerque, distintíssima figura de cidadão e de médico, querida de todos os trabalhadores do concelho de Almada, onde faleceu em 1907 e a quem a população da Costa considerou sempre um grande amigo e benemérito (ver junto a este a informação do Exm.° sr. Conde dos Arcos); 

26.°— se dê à Rua n.° 8 o nome da Rua do Mestre Manuel, o qual foi também um dos fundadores da arte da pesca na Costa de Caparica; 

27.° — se dê a um dos prolongamentos da referida Rua n.° 8 o nome de Rua Conselheiro Manuel Luís Fernandes, cavalheiro que foi um grande amigo dos pescadores da Costa e antigo presidente deste município; 

28.° — se dê à Rua n.° 9 a denominação de Rua D. João VI, monarca que manifestou sempre grande simpatia pela praia da Costa;

29.° — se dê à Rua n.° 10 o nome de Rua do Padre Baltazar, inesquecível figura de sacerdote, "apóstolo da Verdade e da Justiça", por quem os pobres da Costa sentiam ferverosa admiração;

30.° — se dê à Rua n° 11 a denominação de Rua Gil Fanes, em memória do grande navegador que, ao serviço do infante D. Henrique, foi o primeiro a ultrapassar o Cabo Bojador, dando glorioso início à época dos grandes descobrimentos; 

31.° — se dê à Rua n° 12 a denominação de Rua do Mestre Salvador, para perpetuidade do nome de um dos pescadores mais estimados da Costa de Caparica; 

32.° — se dê à Rua n.° 13 o nome de Rua Manuel da Costa, em homenagem à pessoa que, auxiliando numerosos pobres sem lar próprio, tanto contribuiu, com o seu dinâmico poder de construtor, para o desenvolvimento urbanístico da zona sul da Costa de Caparica; 

33.° — se dê à Rua n.° 14 a denominação de Rua Padre Manuel Luís, para lembrança do nome de um dos mais ilustres filhos da povoação da Costa;

34.° — se dê à Rua n.° 15 o nome de Rua Patrão Lopes, para memória do glorioso marítimo, salvador de numerosas vidas [hoje rua Mestre Adrião];

35.° — se dê à Rua n.° 20 a denominação de Rua do Mestre Joaquim Pedro, topónimo que recordará aos vindouros mais um dos velhos instituidores da indústria da pesca na Costa;

36.° — se dê à Rua n.° 23 a denominação de Rua Victorino José da Silva, para que se perpetue o nome dum honrado cidadão que muito prestigiou a povoação da Costa; 

37.° — se dê à Rua n.° 24 a denominação de Rua do Mestre João Lopes, comemorativa de outro dos corajosos instituidores da arte da pesca na Costa; 

38.° — se dê à Rua n.° 25 o nome de Rua Dr. Leite Lage, para memória da distinta personalidade do que foi um dos mais autorizados propagandistas clínicos da grande praia da Costa; 

39.° — se dê à Rua n.° 30 o nome de Rua Joaquim Matosa, evocando assim uma das figuras de relevo no meio local, quando a Costa, estância balnear de formação ainda incipiente, carecia do esforço e do amparo de verdadeiros amigos, como ele o soube ser;

40.° — se dê à Rua n.° 31 o nome de Rua de João Alfama, como homenagem a uma das mais humanas figuras de beneméritos que pisaram o solo arenoso da velha Costa de Caparica, onde ele foi o anjo tutelar de tantos corpos sôfregos de pão e de tantas almas sedentas de amparo espiritual;

41.° – se dê à Rua n.° 32 a denominação de Rua do Mestre Arnaldo dos Santos, pondo em recordação a pessoa de mais outro dos velhos pescadores que iniciaram a faina da pesca na extensa zona oceânica, em cujos areais a Costa nasceu; 

42.° — se dê, ao troço de ligação das Ruas n.os 10 a 12, o nome de Rua Elisa Barão, como homenagem à respeitabilíssima senhora a quem a Costa, desde a primeira hora do seu ressurgimento urbanístico, mereceu o interesse e o carinho mais entusiásticos; 

43.° — se dê ao ponto de ligação da actual Escola, a denominação de Rua João Teotónio Pereira, como homenagem a seus filhos, a um dos quais o Sr. Luís Teotónio Pereira, Almada deve a iniciativa e a realização de melhoramentos que a muito enobrecem;

44.° — se dê à Rua n.° 1 – Bairro do Convento – a denominação de Rua dos Ilhavos, por coincidir com o local onde se fixaram na Costa de Caparica os pri-meiros pescadores da região de Aveiro .

Mais, em relação à povoação denominada Quinta de Santo António, vem igualmente a Comissão de Toponímia propôr que:

Quinta de Santo Antonio e Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

1.° — se dê à 1.a rua paralela à estrada que serve a referida localidade, a denominação de Rua de Almada, homenagem à vila, sede deste concelho, de tão gloriosas tradições históricas;

2.° — se dê à 2.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua da Costa,por ser em território hoje compreendido na área da nova freguesia, que nasceu, sob signo doirado, a Quinta de Santo António;

3.° — se dê à 3.a rua paralela à dita estrada da Trafaria, a denominação de Rua do Norte, o que se harmoniza com a sua orientação topográfica, facilitando a sua identificação;

4.° — se dê à avenida ali aberta a denominação de Avenida do Oceano, topónimo que se coaduna com a localização da Quinta de Santo António, tão perto do Atlântico;

5.° — se dê à 4.a rua paralela à sobredita estrada o nome de Rua dos Fortes, que demoram próximo da povoação;

6.° — se dê à 1.a rua transversal o nome de Rua de Santo António, por ser este o onomástico da quinta que originou a povoação;

7.° — se dê à 2.a rua transversal a denominação de Avenida do Mar, por ser o hálito do mar que bafeja e salubriza a pitoresca povoação;

8.° — se dê, finalmente, à 3a rua transversal o topónimo de Rua da Mata, por virtude da contiguidade da Mata florestal, cujas essências perfumam permanentemente a povoação.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Estudo urbanístico do arquitecto Faria da Costa.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

Dando por concluída mais esta fase dos seus trabalhos, a Comissão de Toponímia apresenta os seus respeitosos cumprimentos a V. Ex.a e aos seus devotados colaboradores na Vereação.

A bem da Nação
Paços do Concelho de Almada, 19 de Junho de 1951
O Presidente da Comissão
Silvestre Rosmaninho. (1)



(1) Almada na História, Boletim de Fontes Documentais n.° 13-14

Artigo relacionado:
Plano de Urbanização da Costa da Caparica

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Vira do Mar

Vamos cachopas da Costa 
O nosso Vira dançar 
P'ra mostrar que o povo gosta 
Do Vira de beira-mar.

Costa da Caparica, Puxando a barca para a pesca,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 613.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Dançamos em redemoinho, 
Como mar encapelado.
As nossas voltas são ondas 
Ou são renda de toucado.

Costa da Caparica, Saindo para o mar, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 173.
Imagem: Delcampe

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar. 
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. 

Vira da Nazaré, Estremadura, Mário Costa (1902-1975).
Imagem:Nova Casa Portuguesa

O nosso Vira nasceu 
Mesmo a beira do mar,
Foi beijado pelo Céu, 
Iluminado ao luar. 

Costa da Caparica, Preparando as redes,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 615.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

O mar também dança o Vira
Com sua ondulação,
E a nossa marcha gira, 
Com amores no coração. 

Costa da Caparica, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 614.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar,
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. (1)



(1) Letra de Antero Espírito Santo Musica de José Duarte Pedroso
cf. Mário Silva Neves, Tu, Costa Minha!... o passado e o presente, 2002

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Elogio de Raimundo António de Bulhão Pato

O voto que me elevou foi para mim o adeus eterno a juventude que não volta. Senti, pela primeira vez. com o júbilo duma vitória, a dôr duma despedida. Saio com os olhos turvos de lágrimas, a porta de oiro da mocidade. Na cadeira académica que vim ocupar, palpitam, ressurgem, iluminam-se ainda as cinzas da mais nobre decrepitude que eu conheci. É a cadeira de Bulhão Pato.

No cemitério de Caparica, os srs. Roque Arriaga, o representante do sr. Presidente da República, e o dr.Júlio Dantas, representante do governo.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quis o acaso, senhor supremo da vida e da morte, que à singular honra de o admirar eu juntasse a glória imerecida de lhe suceder. Venho cumprir hoje o primeiro dos deveres que essa sucessão me impõe. Venho pronunciar algumas palavras — que a velha praxe académica exige que sejam lidas — sobre aquele que foi um dos maiores poetas do seu tempo, a última relíquia, do neo-romantismo português, uma das figuras em que mais vivamente encarnou a alma generosa e ardente da raça.

Que a grandeza do assunto perdoe a pobreza do orador.

Bulhão Pato!

Dir-se-ia um desaparecido de ha trinta ou quarenta annos. Parece que o envolvem já as sombras longínquas do tempo. Temos a impressão de que nos resta dele apenas uma tradição remota. O seu perfil pálido, a sua cabeça de espectro coroada pela ténue névoa de prata dos cabelos, as suas mãos ósseas, compridas e trémulas, parecem surgir para nós através de duas, de três gerações distantes, como um eco do romantismo exausto, como a sombra de um daguerreotipo esmaecido, — feitos de vagas reminiscências, de traços apagados, de memórias confusas.

Elogio de Júlio Dantas a Bulhão Pato, Sessão Magna da Academia de Sciencias de Lisboa, 1913.
Imagem: Hemeroteca Digital



E, entretanto, Bulhão Pato morreu há um anno apenas. É uma figura de ontem. É um desaparecido de ontem. Ainda há trese meses, num dia de sol criador, numa atmosfera de oiro fluido, entre lufadas de poeira ardente, que mordiam, que queimavam, que abrasavam, eu o acompanhei ao pobre cemitério do Monte, a pé, subindo os córregos estreitos e pedregosos da Outra Banda. 

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ainda há pouco eu saí confrangido da sua casa simples, da sua casa modesta, das quatro paredes quasi nuas onde o amigo de Herculano vivia, entre uma estante velha que bocejava a um canto e uma amendoeira florida e doirada do sol que parecia entrar, como uma bênção, pela janela entre-aberta. A minha mão sente ainda a pressão débil da sua mão.

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Morreu ontem, é certo. Mas há quanto tempo, há quantos annos deixara iniludivelmente de viver esse grande espírito que encheu de bravura, de truculência, de pitoresco, de paixão, uma época que a tristeza byroniana cobria da sua asa negra e para a qual os poetas, estirpe de Júpiter, eram ainda uma expressão sagrada da divindade omnipotente!

Há quanto tempo estava morto, pelo anacronismo da sua própria existência, o "leão" da Assembleia Estrangeira e dos bailes do Rato, isolado agora no damasco desbotado das suas recordações, nas flores secas do seu passado turbulento, no bafio glorioso das suas atitudes, na retórica setembrista da sua eloquência admirável! Era esse anacronismo a razão suprema do seu isolamento. Fugira da geração actual, porque nada tinha já de comum com ela.

Pertencia a uma outra época, a um outro mundo. É nos outros que nós vivemos; — e êle vira morrer, cair em volta de si, alma a alma, vida a vida, a sua existência inteira. Tinham já desaparecido, na poeira impalpável do tempo, as bocas que êle beijara, os corações em que êle vivera, os braços amigos que o tinham amparado, as mãos leais que o tinham aplaudido. Olhava agora em volta: eram todos desconhecidos paia êle e êle era quási um desconhecido para todos. Entre o velho poeta e o mundo novo que o rodeava, nada havia já de comum. Eram estranhos um ao outro.

Restava-lhe — pobre decrepitude gloriosa! — refugiar-se no seu passado longínquo e viver com sombras. A sua saudade animava espectros. A sua palavra evocava mortos, Imobilizou-se. Cristalizou. Passaram por êle as modas, sem o atingir. O pensamento moderno aflorou o seu espirito cultíssimo, sem o penetrar. Manteve o tipo, a cabeleira, os gestos, o sentimento, a eloquência, o psiquismo do seu tempo.

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1912, respira ainda. voluptuosamente, a plenos pulmões, a atmosfera luminosa de 1840. Como essas velhas sedas salpicadas de pepueninas flores, que dormiam vinte, trinta anos nas gavetas das nossas avós, e onde parecia guardar-se, conservar-se indefinidamente, como uma relíquia, o resto dum perfume religioso e esquecido, — todas as palavras, todos os pensamentos de Bulhão Pato vinham doirados dessa "patine antiga", em lodos êles palpitava essa atmosfera morta de capela fechada, que não era ainda bafio e que não era já aroma, mas que o afastava, que o distanciava de nós, que relegava para outra idade, para outro meio, para outra época.

Como êle devia ter sentido, vivamente, a mágua de não ter morrido mais cedo! Como ele suportou, com resignação e com doçura, a agonia imensa de sobreviver a si próprio! Não. O tempo, não é transformando-nos que nos envelhece: é transformando, em volta de nós, tudo o que nos rodeia. A mais dolorosa impressão da velhice não vem da decrepitude; vem do isolamento. 

Desmorona-se à volta de nós tudo quanto nos era familiar; desaparecem, uma a uma, todas as imagens queridas; caem, como folhas secas de outomno, todas as afeições, sorriso a sorriso, coração a coração; e quando um dia, na obstinação de viver, olhamos em torno de nós, — como tudo está já mudado, como nos desconhecemos tudo, como tudo nos desconhece a nós, e como essa humanidade nova em que já se não criam afectos, cheia de estranheza e de hostilidade, nos cava fundo na alma a impressão viva da solidão e do abandono, a mais desoladora, a mais pungente, a mais dolorosa de toda a velhice humana! 

Bulhão Pato e Moreira de Almeida com outros cavalheiros no Largo das Cortes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Há figuras senis que procuram ainda adaptar-se. viver na sociedade a que já não pertencem e onde são elementos estranhos; há velhos que se permitem a ilusão de criar afeições novas; que tentam penetrar-se do espirito moderno que os rodeia, que os solicita, que os envolve. Bulhão Pato, não. Imobilizou-se no seu passado, refugiou-se no seu anacronismo, conservou-se irredutível no seu isolamento. 

A voz do grande poeta era, há muito tempo, uma voz de além túmulo. As suas novas obras tinham já o ar carinhoso e envelhecido de póstumas. A geração que o entendia desaparecera há muito. Os sentimentos que o agitavam vinham do tempo do penteado à "polka" e dos bailes do Manleigueiro. As suas paixões vestiam-se de "organdi" côr de rosa e dançavam ainda ao som da rabeca do Mazzoni. 

Bulhão Pato no Monte de Caparica.
Imagem: RTP Arquivos

Tudo nele estava fora de moda. As suas próprias atitudes, os seus próprios gestos pareciam desenhar-se dentro da casaca de briche de Passos Manuel. A sua eloquência, a sua voz, a sua ênfase, pertenciam àquele Parlamento grave e retórico que Soto Maior deslumbrou com o seu "carrick" vermelho, e onde gesticulavam, cheias de anéis, as mãos pálidas de Garrett. 

Por isso o nobre académico que foi Bulhão Pato, desintegrado da sua geração e da sua época, verdadeiro prolongamento, verdadeira resonância sentimental de 1840, se conservou, até o fim da vida, uma figura admirável de pitoresco e de anedota. Era um sobrevivente; era um antepassado. Para o poder admirar, para o poder compreender, temos de recuar no tempo e de colocá-lo, em plena mocidade, em plena torça, em pleno brilho, dentro da sociedade a que pertenceu.

O melhor retrato que nos resta de Bulhão Pato pintou-o Columbano. É o poeta da decrepitude. Uns olhos vivos, argutos, negros, scintilam numa lace branca de apóstolo. A barba, como uma onda revolta de prata oleosa, cobre-lhe o pescoço devastado. As mãos, apoiadas na bengala, são reflexivas e enérgicas.

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: MatrizNet

Na expressão, que a doçura da velhice tranquilizou, advinha-se ainda uma relíquia do antigo pannache. Dir-se-há que na mesma face se juntam a velhice de Tolstoi e a velhice de d'Artagnan. É uma obra prima da pintura portuguesa. É a mais alta expressão que pode atingir, na interpretação da máscara humana, o génio dum pintor.

— Mas já não é Bulhão Pato. — O poeta da Paquita tem eternamente trinta annos. O poeta da Paquita não envelheceu ainda. Vejo-o, advinho-o, evoco-o. Tem os cabelos negros, a polpa do lábio vermelha e moça, o sol da Espanha a arder-lhe nos olhos, a pele doirada e húmida de seiva, o corpo firme e esbelto, o gesto impetuoso e largo. É o homem fatal do seu tempo. Ondula pelas salas, nos serões da Regaleira, nos bailes dos marqueses de Viana, passeando os olhos profundos, sacudindo a juba preta.

Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital

O seu pulso é rijo como o aço; o seu olhar é macio como o veludo. Os homens temem-no; as mulheres enlanguescem ao vè-lo passar. Toma, em Sévres e oiro, o caldo de galinha das "sauteries" do Farrobo; soluça e geme, rodeado de saias de balão, os versos "se coras não conto"; e as mais belas mulheres, a própria madame Barrow, ministra da América, finge argueiros para que êle lhe sopre os olhos. Garrett, velho, postiço, espartilhado, ministro, rabujento, sonhando com a Ordem de Malta e penteando o chino de Londres, não as interessa já.

Ao deus que morre opõem o deus que nasce. Bulhão Pato é o Musset do Passeio Público, o Alfred de Vigny do Marrare de polimento. A sua pêra negra, a sua pêra impertinente de fauno esbelto, cofiada sempre por uma mão sólida e forte, enche de virilidade o seu tipo romântico. A fama do talento ilumina-o.

Bulhão Pato por Marciano Henriques da Silva
(museu Carlos Machado em Ponta Delgada).
Imagem: Alexandre Flores

É o pupilo de Herculano, é o amigo de Rebelo da Silva, tem a costela de oiro de Apolo. Cortejam-no nas ruas, amimam-no nas salas, querem-no  Parlamento, chamam-no da Academia. Patuleia, liberal, cheio de energia e de raça, a sua alma está com o povo, vibra com o povo, palpita com o povo. audacioso, eloquente, tem um dia na sua mão o poder, o domínio, a força. 

Mas a tudo renuncia a soberba da sua pobreza, o orgulho formidável da sua independência, poeta humilde tem gestos de grande de Espanha. Que importa o mando, que importa o poder, que importa a glória! Bastava que a vida lhe corresse entre um sorriso de mulher e uma taça de Champagne, entre uma ode de Horário e uma caçada às lebres.

E de manhã, antes do sol nascido, quando principia a cantar o tentilhão madrugador, a toutinegra barbiruiva, o pisco chalreiro, êle ai vai com o seu polvorinho e o seu chumbeiro, a sua espingarda e o seu cão de mostra, varejando nos carrascais as perdizes velhas, batendo nos baldios os coelhos encovilados. 

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

O panteista, perdido no seio da natureza selvagem, bebendo a largos haustos o vento agreste das montanhas, — a cada perdiz que abate, a cada lebracho que os dentes do cão sacodem, encontra um verso de oiro das suas "Georgicas", um ritmo carinhoso das suas éclogas cristãs, e a sua alma simples, a sua alma tranquila, a sua alma religiosa sobe num êxtase para Deus.

Não lhe peçam a filosofia da sua obra. Não lhe perguntem a razão da sua existência. Sente porque sente, vive porque vive, ama porque ama. O seu génio de instinto flutua entre duas emoções: uma mulher que sucumbe e uma perdiz que abale, um tiro que fuzila e um beijo que murmura, uma liga que foge e uma lebre que salta.

A natureza é para ele um festim dionisíaco; a mulher é para ele um mistério profundo. Entre esse festim e esse mistério, entre esse explendor e essa interrogação, oscila, palpita, estremece toda a obra de Bulhão Pato. Das "Poesias" as "Canções da Tarde", das "Paisagens" ás "Flores agrestes", da "Paquita" ao "Livro do Monte", essa obra flue, canta, explende, alaga, — agora melodiosa e doce, logo convulsa e violenta: florindo hoje em idílios, lampejando amanhã em sátiras: ora sóbria, ora truculenta; num dia caricia, noutro tempestade; mas sempre raça, mas sempre orgulho, mas fidalguia sempre. 

Bulhão Pato (1829-1912).

O patuleia pica-se de nobreza dos quatro costados. No seu anel esquartela-se o brasão dos Patos Riaes de Alcochete. Nas suas genealogias remotas surge, como um sorriso, o burel de Santo António de Lisboa. Esse burel humilde e essa fidalguia de berço unem-se, aliam-se, resurgem, renascem na figura do poeta. Dão-lhe a sua pobreza de franciscano e a sua soberba de príncipe.

Dão-lhe, acima de tudo, o seu grande, o seu imenso, o seu enternecido amor a terra portuguesa, ao sol de Portugal, ao povo de Portugal, que ele canta, que ele admira, que ele exalta, no seu ímpeto retórico, na sua ênfase castelhana, no seu gesto redondo, — nesse gesto instintivo, hereditário, de quem leva a mão a um talabarte para arrancar da bainha a espada de D. Fuas!

Pobre Bulhão Pato! Velho poeta grandioso em tudo, na figura, no talento, na pobreza e no orgulho!

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Se hà Deus; se é certo que a morte nos ilumina, nos transfigura, nos rejuvenesce, — estou a vê lo, fidalgo, suntuoso, exagerado, espanhol, vestido num gibão preto de Velasquez, sacudir a juba, cofiar a pêra de fauno velho, avançar na luz ofuscante de além túmulo, pôr a mão sobre o ombro formidável de Deus e perguntar-lhe familiarmente: 

— "Rapaz, como vais tu?" (1)


(1) Julio Dantas, Elogio de Raimundo António de Bulhão Pato



Carta de Júlio Dantas sobre a escolha do poeta Bulhão Pato para Inspector das Bibliotecas e Arquivo, desistindo da proposta por não querer ser acusado de "disputar um cargo com um velho de 80 anos."
Manifesto Anti-Dantas

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sou pobre Caparicano... (fado do Virgílio)

Apesar de ser pequeno
E viver junto do mar,
O "fadinho" sei cantar
No estilo mais ameno;
Para mim não há "empeno"

Costa da Caparica, turistas, 1938.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

A cantá-lo não me engano,
Porque sou um lusitano,
E, por êle, apaixonado,
Por isso, a cantar o fado,
"Sou o rival do Menano".

Filhos de pescadores da Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Hemeroteca Digital

E toda a gente se encanta
Ao ouvir a minha voz,
Por aí corre veloz
A fama desta garganta;
A mim já nada me espanta

Grupo de veraneantes na Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Delcampe

Que, em breve, esteja no rol
Dos grandes cantores de escol
Que assombram com sua Arte,
Pois eu, a modéstia aparte,
"Canto como um rouxinol"...

Costa da Caparica, turistas posam à proa de um "Meia Lua".
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Embora eu ande descalço
E pobremento vestido,
Por todos sou bem-querido
Pois não tenho olhar de falso;
Da Honra sigo no encalço,

Costa da Caparica, Wolfgang Sievers, 1935.
Imagem: eBay

Por ser um dever humano,
O meu trabalho é insano
Para não pedir esmola,
E dizê-lo me consola:
"Sou pobre Caparicano".

O repórter de O Século, ouvindo alguns pescadores da Costa da Caparica sobre a grave crise que atravessam, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Aos domingos venho à praia
Vêr mulheres quási nuas
Que, em Lisboa, pelas ruas,
Usam mui comprida a saia,
E quando no céu espraia

Veraneantes na Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Dias que Voam

Seus lindos raios, o sol,
E enquanto dura o "briol"
E fazem bem às barrigas,
Eu canto as minhas cantigas
"E alegro a "Praia do Sol". (1)


(1) Lima Pereira, Ilustração n.° 14, 1933

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O fado do Virgílio