quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Vira do Mar

Vamos cachopas da Costa 
O nosso Vira dançar 
P'ra mostrar que o povo gosta 
Do Vira de beira-mar.

Costa da Caparica, Puxando a barca para a pesca,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 613.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Dançamos em redemoinho, 
Como mar encapelado.
As nossas voltas são ondas 
Ou são renda de toucado.

Costa da Caparica, Saindo para o mar, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 173.
Imagem: Delcampe

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar. 
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. 

Vira da Nazaré, Estremadura, Mário Costa (1902-1975).
Imagem:Nova Casa Portuguesa

O nosso Vira nasceu 
Mesmo a beira do mar,
Foi beijado pelo Céu, 
Iluminado ao luar. 

Costa da Caparica, Preparando as redes,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 615.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

O mar também dança o Vira
Com sua ondulação,
E a nossa marcha gira, 
Com amores no coração. 

Costa da Caparica, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 614.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

As caparicanas 
Que Deus admira 
Parecem tricanas, 
Nas voltas do Vira. 
De caras trigueiras 
Cabelos no ar,
Somos as primeiras 
No Vira do Mar. (1)



(1) Letra de Antero Espírito Santo Musica de José Duarte Pedroso
cf. Mário Silva Neves, Tu, Costa Minha!... o passado e o presente, 2002

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Elogio de Raimundo António de Bulhão Pato

O voto que me elevou foi para mim o adeus eterno a juventude que não volta. Senti, pela primeira vez. com o júbilo duma vitória, a dôr duma despedida. Saio com os olhos turvos de lágrimas, a porta de oiro da mocidade. Na cadeira académica que vim ocupar, palpitam, ressurgem, iluminam-se ainda as cinzas da mais nobre decrepitude que eu conheci. É a cadeira de Bulhão Pato.

No cemitério de Caparica, os srs. Roque Arriaga, o representante do sr. Presidente da República, e o dr.Júlio Dantas, representante do governo.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quis o acaso, senhor supremo da vida e da morte, que à singular honra de o admirar eu juntasse a glória imerecida de lhe suceder. Venho cumprir hoje o primeiro dos deveres que essa sucessão me impõe. Venho pronunciar algumas palavras — que a velha praxe académica exige que sejam lidas — sobre aquele que foi um dos maiores poetas do seu tempo, a última relíquia, do neo-romantismo português, uma das figuras em que mais vivamente encarnou a alma generosa e ardente da raça.

Que a grandeza do assunto perdoe a pobreza do orador.

Bulhão Pato!

Dir-se-ia um desaparecido de ha trinta ou quarenta annos. Parece que o envolvem já as sombras longínquas do tempo. Temos a impressão de que nos resta dele apenas uma tradição remota. O seu perfil pálido, a sua cabeça de espectro coroada pela ténue névoa de prata dos cabelos, as suas mãos ósseas, compridas e trémulas, parecem surgir para nós através de duas, de três gerações distantes, como um eco do romantismo exausto, como a sombra de um daguerreotipo esmaecido, — feitos de vagas reminiscências, de traços apagados, de memórias confusas.

Elogio de Júlio Dantas a Bulhão Pato, Sessão Magna da Academia de Sciencias de Lisboa, 1913.
Imagem: Hemeroteca Digital



E, entretanto, Bulhão Pato morreu há um anno apenas. É uma figura de ontem. É um desaparecido de ontem. Ainda há trese meses, num dia de sol criador, numa atmosfera de oiro fluido, entre lufadas de poeira ardente, que mordiam, que queimavam, que abrasavam, eu o acompanhei ao pobre cemitério do Monte, a pé, subindo os córregos estreitos e pedregosos da Outra Banda. 

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ainda há pouco eu saí confrangido da sua casa simples, da sua casa modesta, das quatro paredes quasi nuas onde o amigo de Herculano vivia, entre uma estante velha que bocejava a um canto e uma amendoeira florida e doirada do sol que parecia entrar, como uma bênção, pela janela entre-aberta. A minha mão sente ainda a pressão débil da sua mão.

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Morreu ontem, é certo. Mas há quanto tempo, há quantos annos deixara iniludivelmente de viver esse grande espírito que encheu de bravura, de truculência, de pitoresco, de paixão, uma época que a tristeza byroniana cobria da sua asa negra e para a qual os poetas, estirpe de Júpiter, eram ainda uma expressão sagrada da divindade omnipotente!

Há quanto tempo estava morto, pelo anacronismo da sua própria existência, o "leão" da Assembleia Estrangeira e dos bailes do Rato, isolado agora no damasco desbotado das suas recordações, nas flores secas do seu passado turbulento, no bafio glorioso das suas atitudes, na retórica setembrista da sua eloquência admirável! Era esse anacronismo a razão suprema do seu isolamento. Fugira da geração actual, porque nada tinha já de comum com ela.

Pertencia a uma outra época, a um outro mundo. É nos outros que nós vivemos; — e êle vira morrer, cair em volta de si, alma a alma, vida a vida, a sua existência inteira. Tinham já desaparecido, na poeira impalpável do tempo, as bocas que êle beijara, os corações em que êle vivera, os braços amigos que o tinham amparado, as mãos leais que o tinham aplaudido. Olhava agora em volta: eram todos desconhecidos paia êle e êle era quási um desconhecido para todos. Entre o velho poeta e o mundo novo que o rodeava, nada havia já de comum. Eram estranhos um ao outro.

Restava-lhe — pobre decrepitude gloriosa! — refugiar-se no seu passado longínquo e viver com sombras. A sua saudade animava espectros. A sua palavra evocava mortos, Imobilizou-se. Cristalizou. Passaram por êle as modas, sem o atingir. O pensamento moderno aflorou o seu espirito cultíssimo, sem o penetrar. Manteve o tipo, a cabeleira, os gestos, o sentimento, a eloquência, o psiquismo do seu tempo.

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1912, respira ainda. voluptuosamente, a plenos pulmões, a atmosfera luminosa de 1840. Como essas velhas sedas salpicadas de pepueninas flores, que dormiam vinte, trinta anos nas gavetas das nossas avós, e onde parecia guardar-se, conservar-se indefinidamente, como uma relíquia, o resto dum perfume religioso e esquecido, — todas as palavras, todos os pensamentos de Bulhão Pato vinham doirados dessa "patine antiga", em lodos êles palpitava essa atmosfera morta de capela fechada, que não era ainda bafio e que não era já aroma, mas que o afastava, que o distanciava de nós, que relegava para outra idade, para outro meio, para outra época.

Como êle devia ter sentido, vivamente, a mágua de não ter morrido mais cedo! Como ele suportou, com resignação e com doçura, a agonia imensa de sobreviver a si próprio! Não. O tempo, não é transformando-nos que nos envelhece: é transformando, em volta de nós, tudo o que nos rodeia. A mais dolorosa impressão da velhice não vem da decrepitude; vem do isolamento. 

Desmorona-se à volta de nós tudo quanto nos era familiar; desaparecem, uma a uma, todas as imagens queridas; caem, como folhas secas de outomno, todas as afeições, sorriso a sorriso, coração a coração; e quando um dia, na obstinação de viver, olhamos em torno de nós, — como tudo está já mudado, como nos desconhecemos tudo, como tudo nos desconhece a nós, e como essa humanidade nova em que já se não criam afectos, cheia de estranheza e de hostilidade, nos cava fundo na alma a impressão viva da solidão e do abandono, a mais desoladora, a mais pungente, a mais dolorosa de toda a velhice humana! 

Bulhão Pato e Moreira de Almeida com outros cavalheiros no Largo das Cortes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Há figuras senis que procuram ainda adaptar-se. viver na sociedade a que já não pertencem e onde são elementos estranhos; há velhos que se permitem a ilusão de criar afeições novas; que tentam penetrar-se do espirito moderno que os rodeia, que os solicita, que os envolve. Bulhão Pato, não. Imobilizou-se no seu passado, refugiou-se no seu anacronismo, conservou-se irredutível no seu isolamento. 

A voz do grande poeta era, há muito tempo, uma voz de além túmulo. As suas novas obras tinham já o ar carinhoso e envelhecido de póstumas. A geração que o entendia desaparecera há muito. Os sentimentos que o agitavam vinham do tempo do penteado à "polka" e dos bailes do Manleigueiro. As suas paixões vestiam-se de "organdi" côr de rosa e dançavam ainda ao som da rabeca do Mazzoni. 

Bulhão Pato no Monte de Caparica.
Imagem: RTP Arquivos

Tudo nele estava fora de moda. As suas próprias atitudes, os seus próprios gestos pareciam desenhar-se dentro da casaca de briche de Passos Manuel. A sua eloquência, a sua voz, a sua ênfase, pertenciam àquele Parlamento grave e retórico que Soto Maior deslumbrou com o seu "carrick" vermelho, e onde gesticulavam, cheias de anéis, as mãos pálidas de Garrett. 

Por isso o nobre académico que foi Bulhão Pato, desintegrado da sua geração e da sua época, verdadeiro prolongamento, verdadeira resonância sentimental de 1840, se conservou, até o fim da vida, uma figura admirável de pitoresco e de anedota. Era um sobrevivente; era um antepassado. Para o poder admirar, para o poder compreender, temos de recuar no tempo e de colocá-lo, em plena mocidade, em plena torça, em pleno brilho, dentro da sociedade a que pertenceu.

O melhor retrato que nos resta de Bulhão Pato pintou-o Columbano. É o poeta da decrepitude. Uns olhos vivos, argutos, negros, scintilam numa lace branca de apóstolo. A barba, como uma onda revolta de prata oleosa, cobre-lhe o pescoço devastado. As mãos, apoiadas na bengala, são reflexivas e enérgicas.

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: MatrizNet

Na expressão, que a doçura da velhice tranquilizou, advinha-se ainda uma relíquia do antigo pannache. Dir-se-há que na mesma face se juntam a velhice de Tolstoi e a velhice de d'Artagnan. É uma obra prima da pintura portuguesa. É a mais alta expressão que pode atingir, na interpretação da máscara humana, o génio dum pintor.

— Mas já não é Bulhão Pato. — O poeta da Paquita tem eternamente trinta annos. O poeta da Paquita não envelheceu ainda. Vejo-o, advinho-o, evoco-o. Tem os cabelos negros, a polpa do lábio vermelha e moça, o sol da Espanha a arder-lhe nos olhos, a pele doirada e húmida de seiva, o corpo firme e esbelto, o gesto impetuoso e largo. É o homem fatal do seu tempo. Ondula pelas salas, nos serões da Regaleira, nos bailes dos marqueses de Viana, passeando os olhos profundos, sacudindo a juba preta.

Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital

O seu pulso é rijo como o aço; o seu olhar é macio como o veludo. Os homens temem-no; as mulheres enlanguescem ao vè-lo passar. Toma, em Sévres e oiro, o caldo de galinha das "sauteries" do Farrobo; soluça e geme, rodeado de saias de balão, os versos "se coras não conto"; e as mais belas mulheres, a própria madame Barrow, ministra da América, finge argueiros para que êle lhe sopre os olhos. Garrett, velho, postiço, espartilhado, ministro, rabujento, sonhando com a Ordem de Malta e penteando o chino de Londres, não as interessa já.

Ao deus que morre opõem o deus que nasce. Bulhão Pato é o Musset do Passeio Público, o Alfred de Vigny do Marrare de polimento. A sua pêra negra, a sua pêra impertinente de fauno esbelto, cofiada sempre por uma mão sólida e forte, enche de virilidade o seu tipo romântico. A fama do talento ilumina-o.

Bulhão Pato por Marciano Henriques da Silva
(museu Carlos Machado em Ponta Delgada).
Imagem: Alexandre Flores

É o pupilo de Herculano, é o amigo de Rebelo da Silva, tem a costela de oiro de Apolo. Cortejam-no nas ruas, amimam-no nas salas, querem-no  Parlamento, chamam-no da Academia. Patuleia, liberal, cheio de energia e de raça, a sua alma está com o povo, vibra com o povo, palpita com o povo. audacioso, eloquente, tem um dia na sua mão o poder, o domínio, a força. 

Mas a tudo renuncia a soberba da sua pobreza, o orgulho formidável da sua independência, poeta humilde tem gestos de grande de Espanha. Que importa o mando, que importa o poder, que importa a glória! Bastava que a vida lhe corresse entre um sorriso de mulher e uma taça de Champagne, entre uma ode de Horário e uma caçada às lebres.

E de manhã, antes do sol nascido, quando principia a cantar o tentilhão madrugador, a toutinegra barbiruiva, o pisco chalreiro, êle ai vai com o seu polvorinho e o seu chumbeiro, a sua espingarda e o seu cão de mostra, varejando nos carrascais as perdizes velhas, batendo nos baldios os coelhos encovilados. 

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

O panteista, perdido no seio da natureza selvagem, bebendo a largos haustos o vento agreste das montanhas, — a cada perdiz que abate, a cada lebracho que os dentes do cão sacodem, encontra um verso de oiro das suas "Georgicas", um ritmo carinhoso das suas éclogas cristãs, e a sua alma simples, a sua alma tranquila, a sua alma religiosa sobe num êxtase para Deus.

Não lhe peçam a filosofia da sua obra. Não lhe perguntem a razão da sua existência. Sente porque sente, vive porque vive, ama porque ama. O seu génio de instinto flutua entre duas emoções: uma mulher que sucumbe e uma perdiz que abale, um tiro que fuzila e um beijo que murmura, uma liga que foge e uma lebre que salta.

A natureza é para ele um festim dionisíaco; a mulher é para ele um mistério profundo. Entre esse festim e esse mistério, entre esse explendor e essa interrogação, oscila, palpita, estremece toda a obra de Bulhão Pato. Das "Poesias" as "Canções da Tarde", das "Paisagens" ás "Flores agrestes", da "Paquita" ao "Livro do Monte", essa obra flue, canta, explende, alaga, — agora melodiosa e doce, logo convulsa e violenta: florindo hoje em idílios, lampejando amanhã em sátiras: ora sóbria, ora truculenta; num dia caricia, noutro tempestade; mas sempre raça, mas sempre orgulho, mas fidalguia sempre. 

Bulhão Pato (1829-1912).

O patuleia pica-se de nobreza dos quatro costados. No seu anel esquartela-se o brasão dos Patos Riaes de Alcochete. Nas suas genealogias remotas surge, como um sorriso, o burel de Santo António de Lisboa. Esse burel humilde e essa fidalguia de berço unem-se, aliam-se, resurgem, renascem na figura do poeta. Dão-lhe a sua pobreza de franciscano e a sua soberba de príncipe.

Dão-lhe, acima de tudo, o seu grande, o seu imenso, o seu enternecido amor a terra portuguesa, ao sol de Portugal, ao povo de Portugal, que ele canta, que ele admira, que ele exalta, no seu ímpeto retórico, na sua ênfase castelhana, no seu gesto redondo, — nesse gesto instintivo, hereditário, de quem leva a mão a um talabarte para arrancar da bainha a espada de D. Fuas!

Pobre Bulhão Pato! Velho poeta grandioso em tudo, na figura, no talento, na pobreza e no orgulho!

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Se hà Deus; se é certo que a morte nos ilumina, nos transfigura, nos rejuvenesce, — estou a vê lo, fidalgo, suntuoso, exagerado, espanhol, vestido num gibão preto de Velasquez, sacudir a juba, cofiar a pêra de fauno velho, avançar na luz ofuscante de além túmulo, pôr a mão sobre o ombro formidável de Deus e perguntar-lhe familiarmente: 

— "Rapaz, como vais tu?" (1)


(1) Julio Dantas, Elogio de Raimundo António de Bulhão Pato



Carta de Júlio Dantas sobre a escolha do poeta Bulhão Pato para Inspector das Bibliotecas e Arquivo, desistindo da proposta por não querer ser acusado de "disputar um cargo com um velho de 80 anos."
Manifesto Anti-Dantas

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sou pobre Caparicano... (fado do Virgílio)

Apesar de ser pequeno
E viver junto do mar,
O "fadinho" sei cantar
No estilo mais ameno;
Para mim não há "empeno"

Costa da Caparica, turistas, 1938.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

A cantá-lo não me engano,
Porque sou um lusitano,
E, por êle, apaixonado,
Por isso, a cantar o fado,
"Sou o rival do Menano".

Filhos de pescadores da Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Hemeroteca Digital

E toda a gente se encanta
Ao ouvir a minha voz,
Por aí corre veloz
A fama desta garganta;
A mim já nada me espanta

Grupo de veraneantes na Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Delcampe

Que, em breve, esteja no rol
Dos grandes cantores de escol
Que assombram com sua Arte,
Pois eu, a modéstia aparte,
"Canto como um rouxinol"...

Costa da Caparica, turistas posam à proa de um "Meia Lua".
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Embora eu ande descalço
E pobremento vestido,
Por todos sou bem-querido
Pois não tenho olhar de falso;
Da Honra sigo no encalço,

Costa da Caparica, Wolfgang Sievers, 1935.
Imagem: eBay

Por ser um dever humano,
O meu trabalho é insano
Para não pedir esmola,
E dizê-lo me consola:
"Sou pobre Caparicano".

O repórter de O Século, ouvindo alguns pescadores da Costa da Caparica sobre a grave crise que atravessam, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Aos domingos venho à praia
Vêr mulheres quási nuas
Que, em Lisboa, pelas ruas,
Usam mui comprida a saia,
E quando no céu espraia

Veraneantes na Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Dias que Voam

Seus lindos raios, o sol,
E enquanto dura o "briol"
E fazem bem às barrigas,
Eu canto as minhas cantigas
"E alegro a "Praia do Sol". (1)


(1) Lima Pereira, Ilustração n.° 14, 1933

Artigo relacionado:
O fado do Virgílio



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

José Manuel Soares, pintor e ilustrador

José Manuel Soares [† 31 de dezembro de 2017] nasceu em São Teotónio, Odemira, a 7 de Setembro de 1932. Muito jovem ainda, com 10 anos de idade, logo mostrou vocação para o desenho e para a pintura, inspirando-se nos mestres ingleses da aguarela.

Picagalo, Meia-Lua (embarcação tradicional da Costa da Caparica), pintura de José Manuel Soares (detalhe).
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais 11 e 12
cf. Elizabete Tavares Ferreira, Costa de Caparica..., Almadarte, 1991.

Começou a trabalhar em desenho de publicidade e, simultaneamente, a partir do Natal de 1950 com uma capa para a revista "Diabrete", em Banda Desenhada. Colaborou em quase todas as revistas do género: "Cavaleiro Andante", "Lusitas", "Fagulha", "Mundo de Aventuras", "Pimpão" e outras.

Livros de estudo, romances, jornais humorísticos e revistas marcaram, igualmente, a sua vastíssima obra como ilustrador e caricaturista.

Cara Alegre, Revista de bomhumor, ilustrações de José Manuel Soares, 1955.
Imagem: O gato alfarrabista

Dedicando-se também à Pintura (1ª Arte), a esta se entregou mais intensamente, sentindo que profissionalmente era mais aliciante do que a Banda Desenhada (9ª Arte). 

A ala dos namorados, José Manuel Soares a partir de adaptação de Artur Varatojo do romance de Campos Junior.
Imagem: Páginas de BD

No entanto, se houvesse em Portugal uma Academia de Banda Desenhada, indubitavelmente José Manuel Soares aí estaria por mérito e justiça e poucos pares teria. Foi um dos maiores na Banda Desenhada em Portugal! 

A ala dos namorados a partir de adaptação de Artur Varatojo (detalhe), reedição Editorial Futura de 1986.
Imagem: O gato alfarrabista

José Manuel Soares era um admirador convicto dos célebres pintores contemporâneos, como Malhoa, Carlos Reis, Henrique Medina, Alberto de Souza e Alberto Reis (que foi o seu grande Mestre).

Do ponto de vista estético, a sua pintura apresenta uma certa analogia com as célebres gravuras inglesas, destacando-se ainda como um excelente executante d e desenho e pintura documental.

A ala dos namorados, pintura José Manuel Soares.
Imagem: Joaquim Manuel da Fonseca (fb)

As suas expressões e posturas, aliadas à atmosfera que as envolve, uma sucessão contínua de luz e sombra, de natureza e vida, espelham os mais genuínos símbolos da idiossincrasia portuguesa. Recriou no seu figurativo de portugalidade, bem real, milhares e milhares de motivos de aldeias, vilas e cidades do nosso país, identificado sobretudo com o século XX.

Os seus quadros, de um estilo pessoal e inconfundível, são, sobretudo, documentários preciosos de paisagens idílicas e de costumes da época. De especial relevo são as representações das gentes do campo, de recantos — nomeadamente, da velha Lisboa e dos seus vetustos monumentos — e dada a minúcia a que o pintor se entregou, ficam a atestar não só a sua arte e capacidade de realização, como também um passado pitoresco que não volta.

Excelente paisagista e impecável retratista, principalmente dos mais idosos, José Manuel Soares consegue sempre surpreender-nos com os seus desenhos. A maior parte dos seus quadros incide sobre temas sociais.

Arco da Conceição, Lisboa (detalhe), José Manuel Soares, 1971.
Imagem: P55

O Mestre esclarece dizendo que "o social está impregnado em toda a parte, porque a própria paisagem tem sempre presente o homem que plantou ou semeou a árvore e parte da vegetação, e é impossível dissociarmo-nos dessa faceta humano-paisagística".

O drama da vida quotidiana, a tragédia da solidão e os problemas do dia-a-dia encontram no Mestre Pintor um intérprete apaixonado e apaixonante.

Travessa dos fiéis de Deus, Lisboa (detalhe), José Manuel Soares,
Galeria do Mercado de Sant'Ana, Leiria.
Imagem: Rui Pascoal (fb)

Artista vigoroso e sério, de técnica dominadora e minuciosa, é dos mais impressionantes da sua geração. Foi nos motivos sobre a História de Portugal que revelou todo o seu apaixonado patriotismo e o seu orgulho pela terra que o viu nascer. 

A comprovar a sua faceta de nacionalista convicto ficam, para a posteridade, a descrição de emocionantes batalhas, nomeadamente as de Aljubarrota, Alcácer-Quibir, Ameixial, Atoleiros, Montes Claros e Salado;

as telas de figuras marcantes da nossa Historia, nomeadamente Viriato, D. Afonso Henriques, Martim Moniz, D. Nuno Álvares Pereira, D. Henrique, Vasco da Gama, D. Sebastião;

e as pinturas de monumentos, como a Torre de Belém, Mosteiro da Batalha, Janela do Convento de Cristo em Tomar, Mosteiro dos Jerónimos, Torre dos Clérigos, e outras.

Assim, o Mestre José Manuel Soares pode ser muito justamente considerado um historiador de Portugal. 

Muitos foram os portugueses que aprenderam por manuais escolares por si ilustrados, oferecendo-nos com a sua apreciada obra uma visão privil egiada da fundação da nacionalidade e da epopeia marítima.

Por isso, muitas destas obras-primas podem ser consideradas como verdadeiros símbolos nacionais, pois reflectem o espírito do nosso país visto por um dos m aiores artistas contemporâneos.

O Mestre José Manuel Soares residiu em Lisboa, Leiria e Costa de Caparica. 

Pescador da Costa da Caparica, José Manuel Soares, 1964.
Imagem: Exposição do Mestre José manuel Soares, 2011

Alcançou durante a sua vida profis sional os seguintes prémios: 3º - Medalha pela Sociedade Nacional de Belas Artes (1953), 2º - Medalha pela Sociedade Nacional de Belas Artes (1956), 1º - Medalha pela Sociedade Nacional de Belas Artes (1957); 1º Prémio Secretaria de Estado da Cultura (1979); 1.° Prémio (Desenho) Salão d a Escola Ferreira Borges (1978); Medalha de Ouro Escola Ferreira Borges (1982); Medalha de Prata Salão Motivos do Ribatejo (1983); 1 º Prémio (Óleo) - Salão da Escola Ferreira Borges (1984); 1º Prémio (Desenho) Salão do Ribatejo (1984); 1.° Prémio das Selecções do Reader's Digest (1994); Diploma de "Honra ao Mérito", concedido em 1995 pela Academia de História do Amazonas , da República Federativa do Brasil; Prémio Banda Desenhada, Galardão “O Mosquito" (1996); Medalha de Ouro da Casa do Ribatejo ( 2001).

Foi ilustrador do livro "Aljubarrota e a sua Batalha" da distinta escritora Odette de Saint-Maurice e das capas dos discos do artista Vicente: "Hino à Batalha”, "Monsanto — Deus Te Proteja" e "Rosas Vermelhas para Adélia".

Aljubarrota e a sua batalha, Odette de Saint-Maurice, 1989.
Ilustrações de Arte Ilustração José Manuel Soares.

Efectuou mais de m eia centena de exposições de pintura, ora individuais ora colectivas, estando representado em Museus nacionais e estrangeiros, bem como em Galerias e colecções particulares. A sua 56ª exposição foi realizada no Hotel Costa de Caparica no dia 11 de Fevereiro de 2002, intitulada "As Duas Margens - Lisboa e Costa de Caparica". 

Costa da Caparica, Pescadores reparando as redes, José Manuel Soares, 1960.
Imagem: Exposição do Mestre José manuel Soares, Cultura Avieira, 2011

Trabalhava já na exposição "Monsanto e Costa de Caparica" quando, a 8 de Abril de 2002, foi vitima de uma doença grave, que impediu desde então José Manuel Soares de nos deliciar com o mu ito mais que ainda havia a esperar da sua genial mestria e arte. (1)

Inclinamo-nos, reverentemente, perante a valia e a dedicação de um Homem que colocou na maioria dos seus quadros a representação dos temas sociais e a defesa dos direitos humanos. Ilustrou alguns dos manuais escolares por onde aprendi a melhor conhecer e a amar a Ditosa Pátria Lusitana.

Graças ao empenho de bons amigos e admiradores que a obra do Pintor, Mestre José Manuel Soares está já perpetuada num Museu com o seu nome na cidade de Pinhel, inaugurado no ano de 2014.

Nada mais justo e digno.

Em 1987 o Pintor passou a ser cúmplice de Monsanto e Monsanto do Pintor. Tendo-se deslocado, a nosso convite, pela primeira vez a esta freguesia do concelho de Idanha-a-Nova, para elaborar a capa do disco "Monsanto, Deus te Proteja", ficou tão impressionado com tanta beleza que deixou outros projectos em mão e se entregou logo, de alma e coração, ao valioso trabalho de divulgação das maravilhas da "Aldeia Mais Portuguesa".

Dessa feliz e saudosa visita, na década de oitenta, resultaram dezenas de obras da sua arte pictórica simbólica, com a marca da sua sensibilidade e lirismo, sempre numa interpretação fiel da poesia e cor própria desta pequena aldeia raiana.

Por isso o Mestre Soares faz também parte das histórias de vida que as casas e os penedos de Monsanto vão contar pela vida fora, eternamente.

Em 2009 "mendigámos", junto da Casa Civil do senhor Presidente da República, que num Dia de Portugal fosse distinguido o mérito cultural do Pintor José Manuel Soares.

Inauguração da exposição Ditosa Pátria Lusitana em homenagem ao Mestre José Manuel Soares.
Mêda, 27 de Novembro de 2008.
Imagem: Radio Monsanto.

Fomos então "enrolados" em esfarrapadas desculpas burocráticas e... vemos agora algumas das condecorações serem atribuídas segundo critérios subjectivos e muito discutíveis.

Teima-se tanto em sensibilizar o povo para o valor das obras de Miró! Nas comemorações do Dia de Portugal persiste-se em distribuir medalhas a rodos, algumas delas como quem distribui “rebuçados”, com salvaguarda dos casos de justiça e merecimento, que felizmente também são muitos…

Angustia-me que o Pintor da Portugalidade continue a não ter o reconhecimento institucional e a viver quase ignorado na sua residência, na Costa de Caparica, onde neste dia 7 de Setembro, completa 84 anos de idade.

O Grande Mestre José Manuel Soares tem pleno direito a ser HONRADO, JUSTIÇADO E LEMBRADO, premiando a sua vastíssima obra, com representação em museus nacionais e estrangeiros, bem como em galerias e colecções particulares.

Monsanto, 07 de Setembro de 2016

Seu amigo e admirador Joaquim Manuel da Fonseca (2)

Inaugurado em agosto de 2014, o Museu José Manuel Soares ocupa o primeiro piso do antigo Paço Episcopal, datado do século XVIII.

Inauguração do Museu José Manuel Soares em Pinhel a 25 de agosto de 2014.
Imagem: lifecooler

O museu acolhe uma parte significativa da obra daquele pintor natural do concelho de Odemira.

As primeiras salas dão a conhecer a vida e a obra do mestre, com informações acerca do seu percurso de vida e também das exposições em que participou, informações acompanhadas de objetos pessoais e até de alguns trabalhos que ficaram por concluir.

Painel da imprensa em exposição no Museu José Manuel Soares em Pinhel.
Imagem: lifecooler

Mostra-se ainda a obra, dividida em três partes distintas: Ilustração, História de Portugal e Paisagens e Monumentos.

José Manuel Soares, para muitos, e em Pinhel agora também, o Mestre José Manuel Soares, pintor, não de paredes, que também pintou algumas, mas com a mesma arte, nasceu em São Teotónio, Odemira, Alentejo, província da qual pintou paisagens agrestes e secas ou doces de ribeiros, pormenores da duríssima vida rural, ou monumentos históricos, as que vendeu, vendeu, as que não quis vender estão agora, não em Odemira, mas em Pinhel.

O mestre Soares foi muito novinho, adolescente, para Lisboa, com o lápis na ponta dos dedos e as imagens na alma. 

Um dos primeiros desenhos de José Manuel Soares em Odemira aos 8 anos.
Imagem: Amo-te Odemira (fb)

Ilustrou banda desenhada, revistas de humor, livros de lazer e escolares, fixou-se em Lisboa, foi galardoado várias vezes em concursos e exposições, pintou pormenores de rua, pormenores de vidas, monumentos, sítios já desaparecidos, de tudo o que pintou e não quis vender, não está agora em Lisboa, está em Pinhel.

O mestre Soares amava a Costa da Caparica e aí alugou, e depois comprou, onde residir.

Costa da Caparica, À beira do mar, José Manuel Soares.
Imagem: Exposição do Mestre José manuel Soares, 2011

Ele ainda lá está, há quase dez anos imobilizado, apenas os olhos vivos e alguns movimentos de lábios inaudíveis.

Costa da Caparica, Cozendo as redes, José Manuel Soares, 1974.
Imagem: Exposição do Mestre José manuel Soares, 2011

Mas o que restou dos seus retratos de pescadores, de faina piscatória, dos pormenores das arribas, dos recantos das casinhas populares, não ficaram na Costa, nem em Almada, estão agora em Pinhel.

Nos últimos anos da década de setenta do século XX o mestre Soares veio a Leiria, a convite duma galeria, a primeira galeria privada da cidade, expor dos seus trabalhos. E encantou. Paisagens alentejanas, ribatejanas, lisboetas, os pescadores da Costa, os portais dos monumentos, ou artesãos de ofícios desaparecidos.

Tudo com pormenor impressionante. Não impressionista, mas impressionante. E encantou-se, como se a “balada do encantamento” de D. José Pais de Almeida, popularmente “dentro de ti, Ó Leiria”, o tivesse enfeitiçado.

Comprou um pequeno apartamento na Rua do Coronel Artur Paiva e começou a pintar Leiria. De dia, de noite, a toda a hora. As horas mortas dos outros eram as suas mais vivas. Leiria e arredores. Recantos das Cortes, das Fontes e da Batalha. 

Exposições históricas em datas centenárias. A monumental exposição, no Dia da Cidade, em 1986, onde todos os quadros representavam Leiria com todo o seu encanto de solidão nocturna.

O castelo em quase todos, que de todos os lados se vê o castelo em Leiria, e as fontes e os recantos mais recônditos e românticos. As entidades oficiais da época, e as seguintes, embora tendo sido alertadas para o facto, não se interessaram pelo espólio do mestre Soares. 

Vista do castelo de Leiria, José Manuel Soares.
Imagem: Rui Pascoal (fb)

Nem um exemplar figura em qualquer museu público da cidade. Estão, agora, em Pinhel.

Soares nunca foi a Pinhel. O mais próximo que pintou de Pinhel foi Monsanto. E também com paixão e pormenor impressionantes. Idanha-a-Nova ainda tentou adquirir o espólio. Mas a tentativa falhou.

Meda candidatou-se a seguir [v. Espólio de mestre José Manuel Soares na Mêda], organizou uma exposição grandiosa, inaugurada por pelo Presidente Cavaco Silva e também desistiu.

Mêda, cartaz da exposição Ditosa Pátria Lusitana, 2009.
Imagem: Joaquim Manuel da Fonseca (fb)

Pinhel quis, preparou as instalações, muito dignas instalações e inaugurou, no passado dia 25 de Agosto, seu Dia da Cidade, o Museu José Manuel Soares. 

Cartaz da inauguração do Museu José Manuel Soares em Pinhel.
Imagem: lifecooler

Agora Pinhel, porque os responsáveis da cultura da Cidade não "cederam" a opiniões de críticos de arte, que não pintam senão paredes, avançaram com a obra e agora têm lá todo o espólio do romântico Mestre Pintor José Manuel Soares, a biografia, fotografias de "família", a banda desenhada, os quadros com recriações das mais significativas batalhas e heróis da nossa História, desenhos mais perfeitos que fotografias de monumentos nacionais, os bois, as árvores, os lagos, os pescadores, o mar.

Pescador da Costa da Caparica remendando as redes, José Manuel Soares, 1966.

E têm-nos porque fizeram por os merecer, porque são de textura impressionante. Todas as outras cidades, que tinham o dever de adquirir, pelo menos a parte que aos seus sítios dizia respeito, não o fizeram por isso mesmo: por serem de "tessitura" impressionante e não impressionistas, modernistas, surrealistas, cubistas, "ectcetristas", conforme os críticos aconselham a quem queira comprar arte ou... instalar museus novos.

De qualquer modo, o espólio de Mestre Soares, emigrando, seguiu as normas actuais do país: deita-se fora o bom e recolhe-se a caca. Também, quando mãe é madrasta, é melhor ser bem adoptado. Ou, como diz o povo, guardado está o bocado para quem o há-de comer.

Pinhel tem agora um museu aonde quer levar os alunos das escolas para "verem" a História.

Por falar em fotografias e pintura realista. Ângela Vimonte, esposa de José Manuel Soares, pinta principalmente naturezas mortas.

Hortensias, pintura de Ângela Vimonte, Galeria do Mercado de Sant'Ana, Leiria.
Imagem: Rui Pascoal (fb)

Em Castelo Rodrigo fotografei uma hortênsia, a flor "natal" de Ângela Vimonte. Depois, em casa, comparei a minha fotografia com um quadro dela. Fiquei triste e muito abalado: na minha representação de hortênsias faltava o orvalho da sua saudade. (3)


(1) Exposição do Mestre José manuel Soares, Cultura Avieira, 2011
(2) Reconhecimento nacional ao mérito do pintor da portugalidade (fb)
(3) Jornal das Cortes: Porquê Pinhel?

Mais informação:
Notícias da Gandaia
Amo-te Odemira (fb)
Joaquim Manuel da Fonseca (fb)
Rui Pascoal (fb)
Bedeteca Portugal
Páginas de BD: José Manuel Soares
BDBD
O gato alfarrabista

sábado, 23 de dezembro de 2017

Mário Domingues (1899-1977), escritor

Nascido em 3 de Julho de 1899 na ilha do Príncipe, mais exatamente na roça Infante D. Henrique, propriedade da firma Casa Lima & Gama, cuja sede e escritório ficavam em Lisboa, na baixa pombalina, era filho de mãe angolana, que se chamava Kongola ou Munga e era natural de Malange, tendo ido para a ilha do Príncipe como contratada (à força) com quinze anos.

Mário Domingues in Luís Dantas, Mário Domingues, o jornalista vagabundo...
Imagem: Calaméo

O seu pai, António Alexandre José Domingues, oriundo de famílias liberais, na impossibilidade de libertar a mãe, devido a uma vingança do capataz da roça, que não levou a bem que o tenha denunciado por maus tratos ao pessoal, enviou-o para Portugal aos 18 meses de idade, tendo ficado confiado à sua avó paterna, que se encarregou da sua educação [...] (1)

Conclui o curso elementar de comércio no Colégio Francês, em Lisboa. Provavelmente foi aí que conheceu Reinaldo Ferreira, com quem partilhou uma sólida e longa amizade, firmada em ideias, valores e projetos comuns.

Capa do livro A audácia de um tímido, Mario Domingues, 1923.
Imagem: frenesil loja

Espírito sensível, sagaz e profundamente humano, deixou-se conquistar pelos ideais anarquistas e participou a tivamente na imprensa que os defendia.

Foi chefe de redação d’A Batalha, colaborou no jornal anarquista A Comuna, do Porto, e na revista Renovação, entre outros. Também participou em grupos libertários, na organização do congresso anarquista da UAP e na fundação do Sindicato dos Profissionais da Imprensa.

A partir de 1926, as suas reportagens, artigos, comentários, contos e novelas aparecem publicados n a imprensa informativ a ou generalista de maior projeção, como o Século, Primeiro de Janeiro, Pátria, ABC, Ilustração, Magazine Bertrand, Civilização, Vida Mundial, Notícias de Lourenço Marques, Sol, etc. (2)

Aos 30 anos, Domingues tinha a tarimba de um veterano. Culto como poucos, poliglota (aprendera francês com Marcel Meunier, famoso correspondente do "Matin" em Lisboa e debicava inglês e alemão por influência dos marinheiros que aportavam ao Café Royal, com espírito de aventura aprimorado na parceria inesquecível formada com Reinaldo Ferreira (o famoso repórter X de que falarei noutro dia), personificava um novo género jornalístico emergente nas publicações portuguesas a reportagem participante. E este trabalho seria a sua coroa de glória [...]

Lisboa, Praça Duque da Terceira, Café Restaurant Royal, Alberto Carlos Lima (detalhe).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O projecto de Mário Domingues deverá ter começado em 1918, com uma farsa (entre tantas outras) de Reinaldo Ferreira para o efémero jornal "A Manhã".

O jornalista vestiu-se então de mendigo, foi fotografado a rigor, enganando durante a sessão alguns transeuntes, que lhe deixaram esmolas. Reinaldo era entusiasta, mas não se detinha no rigor factual (dizia-se, a certo ponto, que o R de Reinaldo valia por "Realidade" e o F de Ferreira por "Fictícia").

Isolou-se durante três dias e escreveu uma crónica pungente sobre a sua aventura como mendigo nas ruas da cidade pobre, num texto tão expressivo e cativante como falso. Na verdade, o futuro repórter X inventara praticamente toda a aventura, mas a sua reportagem foi discutida nos principais fóruns da cidade. 

É provável que a semente da ideia tenha perdurado no cérebro do amigo Mário Domingues, incitando-o a tentar um projecto semelhante, mas jornalístico [...]

À gandaia, reportagem vivida de Mário Domingues.
Imagem: Notícias Ilustrado n° 93, 1930 (Hemeroteca Digital)

Mário Domingues passou oito dias sem retirar a máscara de vagabundo.

Foi reconhecido uma vez no porto de Lisboa por um amigo que, enternecido, se ofereceu para o ajudar a endireitar a vida. Do ódio inicial face aos que se divertiam, a sua percepção foi evoluindo para uma aceitação gradual do statu quo.

Frequentou bares e tabernas. Relatou, com traços realistas, a generosidade desinteressada dos lisboetas, mas também o alheamento de quem passava por ele nas ruas e parecia não o ver. Conheceu ingleses e galegos, coristas e taberneiros. 

Recebeu propostas de emprego e ofertas desonestas. Foi aliciado com ofertas de emigração para o Brasil e para a América, que ponderou, mas recusou em nome da sua paixão pela cidade. (3)

Em 1930, Reinaldo Ferreira deu-lhe a chefia de redação do semanário Repórter X. 

Reinaldo Ferreira, Reporter X.
Imagem: Luís Dantas, Mário Domingues (Calaméo)

Depois de ter sido afastado, [Mário Domingues] fundou e dirigiu o semanário O Detective. 

Também fundou a "Editora Globo", de Lisboa, e publicou dezenas de romances policiais e de aventuras, sob diversos pseudónimos. (4)

oooOooo

"Não tardou que Tomé, o preto dançarino, executasse os seu primeiro "charleston" dessa noite, ante o olhar atento e assombrado de alguns mirones que tentavam apreender por que artes mágicas ao tantan rítmico do jazz, ele conseguia, sem uma falha na cadência, movimentar as suas pernas bambas, as pernas de trapo, conjugando-as com o balancear desconexo dos braços de pêndula."

Capa do livro [Stuart Carvalhais?] O preto do Charleston, Mário Domingues, 1930.
Imagem: a procura do colofão

"Era um boneco desarticulado que, movido por um maquinismo oculto, adquiria a flexibilidade de um farrapo abandonado ao vendaval impetuoso daquelas músicas de sertão africano, que floresceram por estranha afirmação de raça nessa Norte América intransigente e severa para com os seus negros."

in Mário Domingues, O Preto do "Charleston", 1930 (cap. II) (5)

oooOooo

Mário Domingues contribuiu, ao longo da sua vida, para a inovação e o esplendor da literatura portuguesa.

Em 1960, publicou O Menino entre gigantes — a evocação da vida atribulada de um rapazinho mulato, quase negro, na sociedade lisboeta do início do século XX. Afastado da mãe africana, foi acolhido com afecto no seio da família paterna, mas não se livrou de preconceitos raciais, de vexames e de tormentos que abalaram o seu espírito.

oooOooo

É certo que só a escola lhe revela os meandros sinistros do preconceito racial, e José Cândido, felizmente robusto, poderá, à força de punhos, castigar aqueles que mais ostensivamente o ofendiam, mas nem por isso o choque deixa de existir.

Capa do livro O menino entre gigantes, Mário Domingues, 1960.
Imagem: Mário Domingues: Santomense filho de angolana...

E não só através do colega que recusa a ficar sentado a seu lado, porque o pai lhe disse que todos os pretos cheiram a catinga, mas também por via da revelação da colega Florinda, que lhe entremostra as intenções pérfidas de Cândida, que pretendia arrancar-lhe uma declaração só para revelar o seu desprezo pelos homens de cor. 

in Mário Domingues, O menino entre gigantes, 1960 (6)

oooOooo

Nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, surgiram em Portugal uns livrinhos de aventuras extraordinárias, saídas da pena inspirada e prolífica de dois autores de nome inglesado (ou americanizado): Henry Dalton e Philip Gray.

O enredo das histórias, aparentemente sem fim, versava sobre as realizações assombrosas de alguns aventureiros de diversa proveniência. 

"A Volta ao Mundo por Dois Aventureiros", por exemplo, ficou a cargo de um belga (Roger) e de um checo (Alex)... Calcorrearam os Himalaias, os gelos polares, etc.

Coleção A Volta ao Mundo por Dois Aventureiros
Henry Dalton & Philip Gray (Mário Domingues), Livraria Civilização, 1957.
Imagem: olx

Anton Ogareff, o russo, protagonizava as "autênticas façanhas do maior aventureiro eslavo"

Autênticas façanhas de Anton Ogaref, o maior aventureiro eslavo
Henry Dalton & Philip Gray (Mário Domingues), Livraria Civilização, 12 vol.
Imagem: Alfarrabista Quinto Planeta

Billy Keller, O Rei do Far-West, era um caso à parte, pela consistência, densidade e dramatismo da sua existência [...]

Aventuras extraordinárias de Billy Keller, o Rei do Far-West
Henry Dalton & Philip Gray (Mário Domingues), Livraria Civilização, 12 vol.
Imagem: Torre da História Ibérica

Até que um dia, muito tempo depois, apurei que Henry Dalton e Philip Gray não eram ingleses nem americanos. Mais: nem sequer existiam.

O autor — o verdadeiro, solitário e denodado autor — daquelas histórias era um português, mestiço, humilde, trabalhador e talentoso, a quem se ficou a dever, já sem cobertura de qualquer pseudónimo, um enorme esforço de divulgação da História de Portugal, em estilo aprazível e documentado.

Era Mário Domingues [...]

Foram dezenas de "Evocações Históricas", a maior parte delas editadas pela Livraria Romano Torres ("Casa Fundada em 1885"), de saudosa memória... 

Evocações incluídas na "Série Lusíada", tais como as de D. Afonso Henriques - D. Dinis e Santa Isabel - O Marquês de Pombal [...]

Evocações históricas, Série Lusíada
Romano Torres, Livraria Civilização, etc.

Inês de Castro na Vida de D. Pedro - A Vida Grandiosa do Condestável - O Infante D. Henrique - D. João II - D. Manuel I - D. João III - Camões - D. Sebastião - O Cardeal D. Henrique - O Prior do Crato Contra Filipe II - A Revolução de 1640 - D. João IV - O Drama e a Glória do Padre António Vieira - D. João V - Bocage - Fernão Mendes Pinto - Fernão de Magalhães - D. Maria I - Liberais e Absolutistas - O Regente D. Pedro - Grandes Momentos da História de Portugal [...]


[Após décadas de pesado e injusto silêncio, a obra (histórica) de Mário Domingues começou - em boa hora - a ser reeditada pela Prefácio.]


Como crítico de Pintura, nos anos Vinte, distinguiu-se pelo ardor com que defendeu os Modernistas, então desdenhados pela opinião pública. 

Unindo-se a Fernando Pessoa, José Bocheko, Vítor Falcão, António Ferro e outros batalhadores pela renovação da arte em Portugal, teve a coragem de proclamar o excepcional valor de "proscritos" como Almada Negreiros, Eduardo Viana, António Soares, Jorge Barradas e Lino António. (7)

Quinta de Santo Antonio, Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Vista da Rua do Norte, actualmente Rua Mário Domingues, onde o escritor residiu a partir de 1950.
"O Mário Domingues e a sua Mulher Maria foram grandes amigos meus. Era com eles que ia para a Costa da Caparica em pequena. Este teu post lembrou-me que o meu gosto por biografias histórias se deve muito às conversas que em miúda tive com ele!" cf. Helena Sacadura Cabral in delito de opinião.

Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Editor, publicista, jornalista, tradutor, historiador, anarquista, mas sobretudo escritor, que o foi dos mais fecundos no panorama literário português desde sempre, de seu nome completo Mário José Domingues (ilha do Príncipe, 3 de Julho de 1899-Costa da Caparica, 24 de março de 1977), personalidade atualmente quase esquecida mas, em vários planos, tão fascinante como as consideradas das maiores do nosso século e, ultimamente, badaladas a preceito, realmente, depois de Camilo Castelo Branco, Mário Domingues é um dos primeiros casos de escritor profissional em Portugal, ultrapassando, em número de títulos e extensão de colaboração dispersa, a obra dos outros escritores profissionais seus contemporâneos, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro. 

Um Dia Com… Mário Domingues
Programa sobre Mário Domingues, escritor natural da ilha do Príncipe, que menciona os aspetos mais relevantes da sua carreira profissional, 1 de agosto de 1970.
Imagem: RTP Arquivos

Efetivamente, nada do que ele escreveu foi gratuito.

E especialmente quando eram romances policiais e de aventuras, que apareciam assinados com os nomes de Henry Dalton & Philip Gray ­ —  com este pseudónimo escreveu 92 volumes — Marcel Durand, W. Joelson, Fernand d'Almiro, Fred Criswell, F. Hopkins, Henry Jackson, James Black, James W. Sleary, James Strong, J. W. Powell, Joe Waterman, John Ferguson, Max Felton, Max Parker, Nelson Mackay, Peter O'Brion, William Brown, Thomas Birch, Guida de Montebelo, Marcelle de Sérizy, C. De La Touraine, Clau Weber, Repórter Mistério e André Chevalier, entre muitos outros. (8)


(1) Mário Domingues: Santomense filho de angolana...
(2) Reporter X (Hemeroteca Digital)
(3) Oito dias na vida do jornalista vagabundo
(4) Reporter X (Hemeroteca Digital)
(5) a procura do colofão
(6) Crítica literária por Luís Dantas
(7) Torre da História Ibérica
(8) Mário Domingues: Santomense filho de angolana...

Informação adicional:
Romano Torres (Mário Domingues, FCSH/UNL)
Mário Domingues, Recordações do Café Royal, Lisboa s.n., 1959 (Projecto MOSCA)
Luís Dantas, Mário Domingues (Calaméo)
Mario Domingues vagabundo, Ilustracao n° 103, 1930 (Hmeroteca Digital)
Reporter X (Hemeroteca Digital)
Notícias Ilustrado n° 93, 1930 (Hemeroteca Digital)
António Domingues (fb) [v. nota final]
Authorizing Translation: The IATIS Yearbook
Agepor 11