quarta-feira, 21 de abril de 2021

Grupo esperantista Nova Vojo

O "movimento esperantista" nasceu na Polónia, no final do século XIX, em defesa do Esperanto que foi a mais bem-sucedida tentativa para criar uma "língua universal", ou seja, uma língua património de todos os povos e, por isso mesmo, uma língua neutra, ao serviço da fraternidade e da paz, da partilha de conhecimentos e do progresso.

Grupo esperantista Nova Vojo na Costa da Caparica, 1935.
Lígia de Oliveira (ao centro), Projecto Mosca

Na sua origem, a procura da "língua universal" remete para os tempos bíblicos, concretamente para o episódio da Torre de Babel que os homens edificaram com o objetivo de chegar aos céus. Avaliando essa pretensão dos homens como um mau prenúncio, Deus puniu-os, submetendo-os à “confusão das línguas”. Assim, a adoção de uma língua comum está também associada à ideia de uma humanidade redimida e moralizada. (1)

A sigla "L.E.S." significa "Laborista Esperantista Societo" e a expressão "Nova Vojo", em esperanto, significa "Novo Caminho". (2)


(1) Portugala esperantisto: órgão mensal do Movimento Esperantista Português (ficha histórica)
(2) Idem

Leitura relacionada:
Sónia P. A. R. Gomes, O Esperantismo em Portugal (1892 a 1972)...

Carlos Fontes, Anarquismo em Portugal (1850-2020)

domingo, 18 de abril de 2021

A procura da arte e da xávega (em Espinho)

Ainda sob o mote: "Gratas recordações. O recorte da silhueta do meia-lua sobre as ondas do mar prateado numa tarde de julho distante, ou, no cole, reflectindo no espelho da vaza..."

Fishermen sheltering at their boat, Espinho, Henri van Melle. 
MutualArt

No areal da praia da Aguda fica-me, depois da Granja, Espinho a dois passos...

Esplanada do Café Chinez em Espinho, Aurélio Paz dos Reis, 1907.
Porto Desaparecido (fb)

E ignorando trivialidades vou às notas que na costa Vareira interessam.

*
*     *

Nas artes de arrastar para terra figuram as xavegas do Algarve, os saveiros e as meias-luas, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na praia de Sines... (1)


(1) Ramalho Ortigão, O culto da arte em Portugal, Lisboa, A.M. Pereira, 1896

Informação relacionada:
Museu Municipal de Espinho (esposições permanentes): Arte-Xávega
Museu Municipal de Espinho (blogspot): As origens da pesca com Arte-Xávega

Documentos relacionados:
As Origens da pesca com Arte-Xávega

A fixação permanente dos núcleos piscatórios
A pesca com Arte-Xávega
O "Barco-do-Mar"
O pescado
As companhas

Padre André de Lima, Espinho: breves apontamentos para a sua história, 1903:
Espinho: boletim cultural. Vol. 1 n.º 1 (1979)
Espinho: boletim cultural. Vol. 1 n.º 2 (1979)
Espinho: boletim cultural. Vol. 1 n.º 3 (1979)
Espinho: boletim cultural. Vol. 1 n.º 4 (1979)

A construção do Barco do Mar (apontamentos diversos):
Paul Johnstone, The Sea-Craft of Prehistory, 1988
Hernâni A. Xavier, A Ascendência dos barcos tradicionais portugueses, 2008
Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas
Senos da Fonseca, Embarcações que tiveram berço na laguna
O meu barco da Arte Xávega
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja
Arte Xávega em Espinho

Tema:
Saveiro meia lua

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Armeiro de Bulhão Pato

A anglomania não se apoderara do poeta, apesar da moda e da tradição, já antiga. A sua espingarda d'então era uma bella arma hespanhola de Eybar — canos de "herraduras" — como nelles se lia em lettras d'oiro, e oitavados até um terço. D'oiro era a mira, e com elle discretamente ornada na bôcca e em volta da fecharia [das platinas] . Nada de oriental nesta ornamentação sóbria — um filete apenas. 

Bulhão Pato por Alberto Carlos Lima (detalhe).
Arquivo Municipal de Lisboa

O guarda-matto [a fecharia] tinha mola de segurança. Elegante e solida, esta caçadeira havia dado as suas provas: a esse tempo entrara já em muitas batalhas, e pouco antes Lopes Cabral — um athleta — matou com ella, em um dia, na Gollegã, setenta e cinco codornizes!


A Eybar succedeu Paris, e a espingarda que lhe conheço em effectivo serviço, ha mais de vinte annos, é uma Gastine-Renette, do systema Lefaucheux, cinzelada e acabada com a maior perfeição. Arma fina e de preço.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Gastine-Renette é úm dos mais illustres entre os fabricantes d'armas contemporâneos. Foi o "Arquebusier" de Napoleão III, o seu fornecedor predilecto de armas de caça e de guerra.

No cabide de armas do poeta vêem-se mais duas — uma de fogo central, belga, e outra Flobert-Remington.

Traiçoeira esta ultima. — Como os machos d'arrieiro morde e dá couce! O cão levanta, e o tiro vem, ás vezes, também para a cara do atirador! Perigoso systema. (1)

Paisagens de caça: Raimundo António de Bulhão Pato, 1829-1912;
sel. textos, org. e notas Nuno Sebastião.
cf. Bulhão Pato, Paizagens, Lisboa, Rolland E Semiond, 1871;

capa de Raphael Bordallo Pinheiro.
Ribeira Seca

Um dia foi que o "lever de rideau" — o prologo — esteve quasi a ser a tragedia. A espingarda de Bulhão Pato — era a de Eybar — deixara-a elle ficar em Allemquer, onde fora caçar, e Cabral, que de lá a trouxera, mandou-lh'a na véspera. Cabral —um grande e experimentado caçador — era tudo quanto ha de mais cuidadoso; podia-se-lhe chamar sem "calembour" [trocadilho], o rei das cautelas. 

Mas uma vez, todos erram, e quando Bulhão Pato, que tinha o costume de dar um fogacho á espingarda, antes de principiar a atirar, o fez sem a menor desconfiança, porque nenhum dos pistons trazia fulminanie, d'um dos canos saiu incendiada a polvora solta, mas o outro disparou um tiro a valer! Encaramo-nos Todos... Estavamos [felizmente] illesos.

O que nos valeu loi o ter elle, também prudente, disparado, como usava sempre, por cima da borda.

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

— Hein! disse o poeta — de que nós escapámos! Mestre Cabral d'esta vez esqueceu-se!


Uma arribada em calma branca, revista Serões (detalhe) 1907
Hemeroteca Digital de Lisboa


E foi este, em tantos annos, o único accidente. que teve assomos de gravidade. (2)



(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 135, sexta-feira 1 de abril de 1898
(2) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 137, domingo 1 de maio de 1898

Artigos relacionados:
Retratos de Bulhão Pato

Tema: Bulhão Pato

Informação relacionada:
Bulhão Pato, Zacharias d'Aça, O Occidente n.° 717, 30 de novembro de 1898
Bulhão Pato, Paquita, Typographia Franco-Portugueza, 1866
Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896 
Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898



sábado, 20 de março de 2021

Lourenço Pires de Távora

Segundo filho de Cristóvão de Távora e de D. Francisca de Sousa, herdaria do pai o morgado de Caparica, por morte precoce do primogénito, Álvaro Pires de Távora. Sabemo-lo ao serviço da capitania de Arzila entre 1526 e 1529, e, em 1535, entre o séquito que acompanha o infante D. Luís no exército que, liderado por Carlos V, conquista a praça de Tunes.

Congratulação de Lourenço Pires de Távora ao Pontífice Pio IV.
Internet Archive

Regressaria ao Norte de África em 1541 como embaixador de D. João IlI junto do rei de Fez. Após uma breve passagem pela Índia, entre 1546 e 1547, onde acompanha D. João de Castro no cerco a Diu, inicia tuna intensa actividade diplomática ao serviço dos monarcas, funções que manteria até pouco antes da sua morte.

Capture of La Goulette.
Tapestry of the series The Conquest of Tunis This Spanish set of the Conquest of Tunis was woven after the original cartoons designed by Jan Cornelis Vermeyen & woven by Wilhelm de Pannemaker in 1549-1551.
Wikipédia

É precisamente na qualidade de embaixador do rei português que percorre muitas das principais cortes da Europa de então, desde a Alemanha de Carlos V à Inglaterra de Maria Tudor, de Castela à França ou aos Países Baixos.


Mapa de Portugal
Fernando Álvares Seco, 1561.
Wikimedia Commons

Entre Abril de 1559 e Abril de 1562, permanece em Roma como embaixador de Portugal junto da Santa Sé, donde regressa para assumir, em finais de 1563, a capitania de Tânger, cujo governo assegura até Abril de 1566. Lourenço Pires de Távora manteria, em simultâneo, importantes funções como conselheiro dos monarcas, intervindo com frequência em assuntos de capital interesse para o reino, desde a politica respeitante às praças africanas aos problemas da sucessão no trono português na menoridade D. Sebastião.

Brasão de armas dos Távoras de Caparica*
(frontispício do Convento dos Capuchos)

Segundo a memória da familia das Távoras redigida por Álvaro Pires de Távora, 7° senhor da Caparica e refundador do convento teria casado com D. Catarina de Távora, dama da rainha D. Catarina, da qual teve pelo menos quatro filhos varões: Cristóvão de Távora, Álvaro Pires de Pávore, Rui Lourenço de Távora e Antónie de Távora, os dois primeiros e o último falecidos ao serviço dos monarcas portugueses no Norte de África, A estes acresceriam, segundo António Caetano de Sousa, pelo menos cinco filhas; D. Joana de Távora, D. Antónia de Távora, D. Francisca de Távora, D. Maria de Távora e D. Paula da Silva. (1)

Roque Gameiro.org

Neste Anno de [1]572 se acha que se entregou a Lourenço Pires [de Távora] a fortaleza de S. Sebastião de Caparica chamada comunmente a Torre velha situada em oposição da de Belém da outra parte do Rio com o intento de ajudar a empedir a entra do porto de Lisboa aos imigos que o intentassem, tinhalhe ElRey [D. Sebastião] prometido a Capitania della desde quando se principiava, e foi o primeiro Capitam que teve logrou a pouco, mas conserva-se em sua casa que anda de juro. (2)

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião de Caparica em 1767.
Obecervaçoens trignometricas q. se fizerão no campo nos citios de Bonus Ayrés e caza brancana Tappada Rial de S. Magestade (detalhe).
Biblioteca Nacional de Portugal

Regressando à Caparica no fim da vida, aí vivia a falecer a 15 de Fevereiro de 1573, fazendo-se sepultar no convento capucho, do qual foi o pioneiro padroeiro. (3)



[SEPULTURA] DE LOURENÇO PERIZ DE TAVORA DO CONSELHO DO STADO D EL REI D. SEBASTIÃO. O I DESTE NOME. INSTITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA FALECEO DE  IDADE DE 63 ANOS A 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573. AVEMDO CINQVO SOMAVAS QUE DESCANSAVA EN SUA CASA DE 'MUITOS SERVIÇOS QUE FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GVERRA EN ASIA AFRICA E EVROPA


(1) O Convento dos Capuchos... Catálogo da Exposição, Camara Municipal de Almada, 2014
(2) Ruy Lourenço de Tavora, Historia de varoens illustres do appellido Tavora..., 1648
(3) O Convento dos Capuchos...Idem

Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
Cronologia breve da Torre Velha (1 de 3)
Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)
A Costa romântica de Bulhão Pato
A Costa no século XIX
Restos do Convento e egreja dos Capuchos em Caparica
O guardião dos Capuchos
etc.

Leitura relacionada:
Historia de Varoens illustres do appellido Tavora, Continuada em os Senhores da caza e morgado de Caparica. Com a rellacam de todos os successos publicos deste Reyno e sus conquistas desde o tempo do Rey D. Joam III (etc.) ... Publicado por Ruy Lourenco de Tavora (etc.)



* Os senhores da casa de Távora desde os modificaram o seu brasão, acrescentando em bordadura a divisa QUASCUNQUE FINDIT, e passando o golfinho do timbre para o centro do escudo. Destas armas, assim alteradas, usaram ùnicamente os marqueses de Távora, os condes de Alvor, e, talvez, os de S. Vicente [cf. Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra, Vol. III, p. 109].

quarta-feira, 17 de março de 2021

O andor do mar

A devoção pela imagem do Senhor Jesus, creio que começou sem ligação marítima continuando a invocação da imagem só como Senhor Jesus até finais do séc. XIX, fazendo-se em Ílhavo a festa de pescadores em devoção ao S. Pedro Apóstolo. As várias companhas de pesca costeira da Costa Nova, depois da esmola recolhida por todos, faziam a sua procissão que se festejava no dia 29 de Junho.

Andor do mar admirado pelo público
Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros, o Cortejo Histórico, 1947.
Museu de Lisboa

A imagem de S. Pedro tinha lugar de honra num pequeno barquinho, onde figuravam os apóstolos, uns remando, outros a colher redes, e a imagem de São Salvador, o padroeiro da Vila, à proa, abençoando também o trabalho da faina... [Hugo Cálão e Isabel Cachim Madail, Senhor Jesus dos Navegantes – Mar e devoção, 2007]



na Costa Nova, os festejos em honra da Senhora da Saúde, iniciados em 1837, vieram substituir a primitiva festa de S. Pedro em Ílhavo – tornando-se a festa das Companhas – passando a ter data fixa, no último domingo de Setembro... [Senos da Fonseca, 200 Anos de Memória da Costa-Nova do Prado, 2009]

A Barca de S. Pedro no Cortejo Histórico das festas do VIII Centenário da Tomada de Lisboa, 1947.
Delcampe - Bosspostcard

Tinham eles antigamente a sua festa em Ílhavo, ao seu patrono S. Pedro, e na respectiva procissão apresentavam o andor do barco do mar (…) E o barquinho com as miniaturas de pescadores aos remos, muito hirtos e aprumados, tombando com os balanços do andor, uma rêdesinha e uns rolinhos de corda à ré, junto ao arrais, passou a fazer parte da procissão de Nossa Senhora da Saúde... [Rocha Madahil, Etnografia e Memória – Bases para a Organização do Museu Municipal de Ílhavo, 1933] (1)


(1) Ana Maria Lopes, Marintimidades: O Barco processional de S. Pedro - 1

Artigos relacionados:
A Barca de S. Pedro
A Procissão

Mais informação:
Marintimidades: O Barco processional de S. Pedro - 1
Marintimidades: O Barco processional de S. Pedro - 2
Marintimidades: Intervenção dos AMI, no Barco de S. Pedro

segunda-feira, 15 de março de 2021

O peixeiro de Caparica

As aguarelas e desenhos de Calderon Dinis são a própria pele da cidade do Tejo. Veja-se o álbum "Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo". 

O peixeiro de Caparica, Calderon Dinis (detalhe).
Museu de Lisboa

A policromia da cidade está a desaparecer. Calderon Dinis, porém, não deixou que dela não haja lembranças e história de tantas histórias feitas. 


O peixeiro de Caparica, Calderon Dinis.
Museu de Lisboa

Com muita gente. Muitas ruas. Muitas voltas. (1)


(1) Casal das Letras

quinta-feira, 4 de março de 2021

Casa de campo

Foi ainda há muito pouco tempo acabada de construir, esta bonita casa, na mata da Costa da Caparica, sendo propriedade do Ex.mo Sr. José Pereira Mendes.

Costa da Caparica, casa de Campo na Mata, projecto do arquitecto Adelino Nunes.
Arquitectura, revista mensal, julho 1931

O projecto é da autoria do nosso colaborador, o arquitecto Adelino Nunes, que neste género de edificações tem produzido algumas boas casas, tanto no que respeita a fachadas agradáveis e de boa proporção, como na disposição das plantas, que é sempre motivo de sério estudo.

Costa da Caparica, casa de Campo na Mata, projecto do arquitecto Adelino Nunes.
Arquitectura, revista mensal, julho 1931

Apresentamos só a fachada principal, porque as restantes fachadas são a sequência dessa, como não podia deixar de ser. A construção desta casa é muitissimo simples, mas também, como os leitores vêem, muitissimo agradável.

O muro da frente que dá para a estrada, com os seus motivos de tejolo, completa o conjunto e estabelece euretmia com a paisagem. (1)


(1) Arquitectura, revista mensal, julho 1931